Crônica | A ERA da dESINFORMAÇÃO – Caio Blinder

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Caio Blinder | O Globo08/02/96

Na era da informação, os americanos estão desinformados. Dois em três não sabem quem é o deputado do seu distrito eleitoral e apenas 24 por cento conhecem os nomes dos senadores do seu estado. Além disso, mais de 40 por cento são incapazes de dizer quem são os vice-presidente do país e o presidente da Câmara dos Deputados. Os dados da pesquisa foram examinados em uma série de reportagens publicadas no jornal Washington Post sobre a ignorância e o desinteresse político dos americanos.

As estatísticas são desalentadoras, mas surpreendem apenas aqueles que colocam fé na televisão como farol que ilumina ou acreditam que o maior nível de escolaridade dos americanos esteja trazendo mais educação. A televisão hoje é a principal fonte de informação política (58 por cento contra 24 por cento dos jornais) e nos últimos cinquenta anos o número médio de anos na escola subiu de nove para 12. No entanto, os americanos sabem tanto  sobre política e o funcionamento do governo hoje em dia quanto na década de 40.

Talvez seja até um consolo que o nível de ignorância não tenha baixado. Mais preocupante é uma outra estatística: o salto do cinismo. Políticos eram eleitos e despejados do poder, mas havia a crença de que o governo agia corretamente na maior parte das situações. Hoje existe uma profunda desconfiança. Menos de 20 por cento dos americanos botam a mão no fogo pelas instituições.

O impacto imediato dessa desconfiança é a própria descrença na democracia. O cidadão conclui que é uma perda de tempo se envolver com políticos e o processo eleitoral. Tudo sempre acaba em falcatrua e ineficiência. Melhor se desligar e cuidar da vida. Apatia, cinismo e ignorância são uma mistura perigosa.

Um dos riscos é cair na armadilha de um raciocínio circular. Um argumento muito ouvido atualmente nos Estados Unidos é que a população desligou o botão da política não pelo fato de saber muito pouco sobre o que se passa em Washington e sim por saber em excesso. A desconfiança, na verdade, é alimentada pela desinformação.

Os exemplos estão nas pesquisas divulgadas pelo Washington Post. Os americanos acreditam que o governo federal contrata cada vez mais funcionários públicos. O número está diminuindo. Existe a impressão de que o Congresso é um antro de ladrões. Na verdade, os padrões éticos e morais são superiores em relação à geração anterior.

A mídia tem culpa no cartório ao amplificar escândalos e irregularidades. Viver da boa notícia talvez seja uma chatice. Mas o problema maior é a autofagia dos próprios políticos. Eles reforçam o mito de que Washington é um covil de salafrários e campeã do desperdício do dinheiro do povo.

A classe política se aproveita da insegurança popular. Na época da Guerra Fria e do comunismo, instituições como o governo e o congresso eram um manto protetor. Com o fim da ameaça externa, foi preciso encontrar outro pólo unificador. A moda hoje em dia é ser anti-Washington. Candidatos fazem questão de apregoar que não pertencem àquele mundo viciado e corrupto, embora sejam sócios do clube há muito tempo. Os políticos disseminam a desinformação e saem de fininho. Por isso, pagam um preço. Este povo ignorante e alienado tem mesmo é que afundar no cinismo.

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Autor: Leitor Andarilho

Escritor Viajante!

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