Pedro Bial | Crônicas de Repórter – BOMBAS, JORNAIS E TABLÓIDES

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Ao inaugurar esta coluna no Jornal da Tarde, um colega me aconselhou: é como escrever uma carta semanal a um amigo. Como tecer uma missiva pessoal a um destinatário desconhecido. Qualquer matéria jornalística é de fato uma conversa, uma revelação a um estranho. O jornalista desobedece à primeira lição que as crianças aprendem e sempre, sempre, fala com estranhos. A coluna surgiu com a intenção de criar uma espécie de diário de bordo deste repórter que vive entre aeroportos e quartos de hotel. A cada semana, assinaria de um porto diferente em algum lugar da Europa, em algum lugar do mundo. Irônico como só ele, insistiu o destino em me levar, por duas temporadas, logo nestes primeiros meses de coluna, a um território estrangeiro bem familiar aos leitores, o Brasil. O Brasil é longe, insular, auto-referente. Aqui, sinto-me isolado do mundo. Alguns atribuem o nosso desinteresse pelo que se passa lá fora à fartura de notícias nacionais. Outros dizem que o noticiário internacional pós-guerra fria ficou muito complicado, sem mocinhos ou bandidos claramente delineados.

Agora a França nos oferece um vilão bem ao gosto da mídia. Nem Sadam, nem Kadafhi; o homem mau do momento é Jacques Chirac, presidente da França.

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Chirac conseguiu fazer tudo errado, desde a posse. Ou melhor, desde a campanha, quando fez promessas que não poderia mesmo honrar. Para o governo francês, habilitar a economia para a unificação monetária europeia é ponto de honra. Só que este objetivo exige a redução do déficit público. Cortar os gastos com o “Welfare State” significa comprar uma briga monumental com um dos sindicalismos mais ativos e organizados da Europa.

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Antes de enfrentar a própria sociedade francesa, Chirac conseguiu unir a opinião pública mundial contra seu governo. Na preparação dos testes nucleares na Polinésia, revelou-se a incompetência do novo governo. Incompetência, arrogância ou ignorância da nova desordem mundial. O Eliseu deu uma campanha de presente para o Greenpeace, e ainda abasteceu o sentimento anticolonial dos vizinhos australianos e neozelandeses. Quando reagiu, o governo francês usou um discurso de linguagem paranóica, denunciando um complô das potências do Pacífico para prejudicar os interesses franceses.

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De fato, os testes foram uma multinotícia. Para a mídia australiana, a ecologia tinha um papel secundário na discussão. O que estava em jogo não era a questão ambiental e sim o resquício colonial do Taiti. George Negus, o âncora mais importante da tevê australiana, me disse: Os testes tiveram um benefício direto: acabaram com a farsa da imparcialidade jornalística. Formos parciais desde o início. A propósito, a Austrália exporta a maior parte do urânio consumido pela França. As exportações estão suspensas enquanto os testes continuarem.

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Outra discussão levantada pelas explosões em Mururoa e arredores trata do poder das ONGs sobre a imprensa de todo o mundo.

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O Greenpeace cria notícias e, principalmente, imagens espetaculares. Os militantes ambientalistas fazem o jogo deles. Oferecem, de graça, informações, imagens, facilidades técnicas e logísticas, a empresas de comunicação cada vez mais preocupadas em cortar custos. Quando um repórter embarca no Rainbow Warrior e transmite suas matérias dos equipamentos do Greenpeace, está fazendo uma cobertura ou passa a ser parte de uma campanha? O dilema ético não pertence às organizações não-governamentais, é problema da imprensa. As ONGs são fontes de boas pautas. As coberturas das fomes e guerras na Etiópia, Somália e Sudão surgiram depois de pressões das ONGs. Os assessores de imprensa não-governamentais são em geral gente querida e conhecida no meio jornalístico, com credibilidade para plantar os seus dados e números de forma quase inquestionada. Depois da grande pisada na bola, quando acusou a Shell de ameaçar todo o mar do Norte com a desativação de uma plataforma no fundo do mar, o Greenpeace pediu desculpas públicas. Tinha divulgado informações erradas, que toda a mídia tinha reproduzido. O Greenpeace se retratou. A imprensa não…

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1995 está, felizmente, chegando ao fim. Ando ocupado na confecção da retrospectiva do ano, sob a direção de Silvia Sayão. Imagens têm um estranho dom: o que é ficção torna-se um documento de época. O que é registro da realidade quase sempre adquire um caráter ficcional. Vejo as cenas do terremoto em Kobe no começo do ano, uma cobertura que me custou um alto preço emocional. Vejo as cenas do terremoto em Kobe no começo do ano, uma cobertura que me custou um alto preço emocional. Hoje, parece tudo irreal, um sonho mau. Me emociono quando lembro, sem o auxílio de nenhum vídeo a não ser a memória, o que vi e vivi. Mas, ao ver as imagens que produzi naquela semana de janeiro, nenhuma emoção pessoal é despertada. Parece que assisto a um filme, uma história alheia, distante no tempo e no espaço.

dezembro/95

 

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Autor: Leitor Andarilho

Escritor Viajante!

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