«

»

mar 07

Os Três Presentes Mágico: Do artista à palavra, da palavra ao teatro

O coletivo do projeto “Os Três Presentes Mágicos”, contemplado no Edital Bolsas Funarte de Fomento aos Artistas e Produtores Negros 2014 já deram início ao processo de criação do espetáculo, através de uma série de encontro com metodologias criativas para pensar o ser artista, o fazer teatral e a transversalidade com as questões da igualdade étnico-racial.

Ao longo do processo criativo, estas metodologias serão periodicamente compartilhadas e sistematizadas no blog do projeto.

DSCN6636

1º Passo: A Linha da Vida

O ponto de partida do processo criativo foi a composição coletiva de uma “Linha da Vida” de cada um(a). Através desta técnica, somos convidados a colocar elementos de nossa trajetória de vida, nossa compreensão de ser artista negra e negro e de em que momento me vi consciente da própria condição de negro e negra, vivendo num país marcado historicamente pelas múltiplas desigualdades (de raça-cor, gênero, orientação sexual, condição social, etc). Cada participante foi convidado a se colocar por inteiro no processo de criação do espetáculo, a partir dos motes: nome, ano e local de nascimento, quando me descobri artista, quando despertei para as questões da igualdade étnico-racial, momentos marcantes da vida… até chegar ao momento presente, de artista e produtor(a) negro(a) construindo o espetáculo “Os Três Presentes Mágicos”. A partilha das histórias de vida vieram carregadas de muita emoção, cumplicidade; um momento importante de fortalecer a identidade e o vínculo afetivo do coletivo nestes passos iniciais do projeto.

Para Diane Barros e Beatriz Rosa Nascimento, a linha da vida as fazem compreender que se descobrir artista é um processo permanente e que esta identidade se vai construindo e aprimorando ao longo da vida. Já para André de Jesus e Adão Bonifácio, a técnica desperta a consciência do artista negro e militante, em que o fazer artístico e a participação nos movimentos sociais e culturais de afirmação dos direitos do povo negro se entrelaçam em um só caminhar. Já para Edu do Nascimento, a linha revela o entrelaçamento da nossa história de vida com o contexto familiar. Filho do reconhecido músico Giba Giba, teve a casa frequentada por artistas desde a infância e enveredar-se para o caminho da arte foi-se construindo como vocação desde o seio familiar.

OsTrêsPresentesMágicos_MARÇO2016

Pensar o teatro como uma arte “halográfica”, cuja existência não se desvincula da presença e participação do ator/atriz, é aceitar o fato de que a relação afetiva é próprio desta categoria das artes, na qual conviver é fundamental do ser e fazer artístico. Assim é o teatro, a música, o circo, a dança e sua consequente organização em grupos, coletivos, bandos, tribos, companhia, etc. Processo diferente de artes “autográficas”, cuja obra não necessita da presença do artista criador para ser acessada e compreendida. Basta pensarmos na relação entre o livro e o escritor, a escultura e o escultor, etc.

A técnica foi encerrada com a recitação de um jogral intitulado “Filoarte: Porque fazemos teatro”, adaptado de texto similar do dramaturgo piauense Gomes Campo.

FILOARTE: Porque Fazemos Teatro!

Fazer teatro é fazer cultura,

Fazer teatro é conhecer geografia, história, arte, costumes, filosofia, tecnologia…

Fazer teatro é aperfeiçoar a arte da comunicação,

Fazer teatro é combater a timidez,

Fazer teatro é fazer amigos,

Fazer teatro é enriquecer-se com a vida grupal,

Fazer teatro é transmitir mensagens,

Fazer teatro é divertir-se,

Fazer teatro é “reencarna-se” nos mais estranhos personagens,

Fazer teatro é viver no reino da ilusão,

Fazer teatro é beneficiar-se psicologicamente do seu poder catártico,

Fazer teatro é exercitar-se na mais humana de todas as artes,

Fazer teatro é dominar as emoções,

Fazer teatro é sofrer doces expectativas,

Fazer teatro é pôr-se ao lado de grandes educadores, como o bem-aventurado José de Anchieta

Fazer teatro é esquecer as agruras da vida,

Fazer teatro é dar vida e motivação a conteúdos programáticos “massudos” e cansativos,

Fazer teatro é pontilhar a dura realidade da vida com o doce passatempo do faz-de-conta,

Fazer teatro é disciplinar-se,

Fazer teatro, enfim, é SONHAR

E é por isso que o teatro nunca desaparecerá porque

o homem e a mulher continuarão sonhando, e, sonhando, continuarão

fazendo teatro.

Construindo um glossário coletivo do texto teatral

Para ajudar os participantes do coletivo a fazerem um mergulho mais aprofundando na obra teatral a ser encenada, foi proposto a elaboração de um glossário coletivo, para a compreensão gramatical e contextual das palavras pouco conhecidas do texto.

No primeiro momento, os participantes do coletivo, em pequenos grupos, fizeram uma leitura atenta do texto e levantaram em tarjetas as palavras menos ou nada conhecidas, que foram anotadas em tarjetas. O passo seguinte foi pesquisar em em dicionários e na internet (especialmente a Wikipédia), o significado de cada uma das palavras. O passo final, é a construção de um painel com afixação das tarjetas, em que as palavras em comum, levantadas pelos dois grupos são juntadas e significados complementados ou mesmo contrapostos.

OsTrêsPresentesMágicos_MARÇO20161

Este jogo permite uma compreensão não só do contexto gramático-literal das palavras da obra, mas também uma compreensão do contexto espacial (onde se passa?), temporal (quando se passa?) e as diferenças culturais entre nós e as personagens da obra.

No caso de “Os Três Presentes Mágicos”, o exercício permitiu um mergulho no Congo de mil anos atrás e um passeio imaginário pela comunidade tribal em que viveram as personagens. Um jeito divertido de expandir horizontes e partilhar saberes…

DSCN6646

ora do café!

Vai vira livro!

O coordenador do projeto, Leandro Silva, aproveitou para anunciar a proposta de sistematizar as metologias aplicadas e ou desenvolvidas através do projeto “Os Três Presentes Mágicos” no formato de um livro, após o encerramento do mesmo. A ideia é poder compartilhar com outros artistas, coletivos e grupos artísticos metodologias criativas de gestão da criação e produção artística.

O projeto “Os Três Presentes Mágicos” faz parte da Bolsa Funarte de Fomento aos Artistas e Produtores Negros 2014.

Fotos e Redação: Leandro Silva

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>


*

Pular para a barra de ferramentas