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Enredo Cênico

Os Três Presentes Mágicos

Enredo cênico de Leandro Silva, livremente inspirado na obra de Rogério Andrade Barbosa para o projeto Os Três Presentes Mágicos – Pesquisa, Criação Coletiva, Produção e Circulação de Espetáculo com Teatro de Animação (Bonecos, Objetos e Máscaras) e a Musicalidade do Tambor de Sopapo | Bolsa Funarte de Apoio aos Artistas e Produtores Negros 2014

 

Personagens

Contador de História 01

Contador de História 02

Contador de História 03

Irmão Mais Novo

Irmão do Meio

Irmão Mais Velho

Princesa

Quimpassi/Avô

Rei (silhueta)

 

(Cenografia: Biombo híbrido e rústico para teatro de bonecos de luva, com anteparo para teatro de sombras. Três tambores de tamanhos distintos para cada um dos contadores de histórias. Cada tambor/ contador de histórias deve ter uma altura diferente, representando cada um dos irmãos. Instrumentos musicais alternativos e complementares no canto da cena, como pau de chuva, escorredores, chocalho de sementes, etc. 02 focos de luz para teatro de sombras, alógena)

 

Cena 1 – África de todo tempo e todo lugar

 

(Os três contadores de histórias entram na roda com seus tambores e cantam um responsório, abrindo a roda de contação de histórias)

 

Contador de História 01: Um lugar, Congo, África…

Contador de História 02: Um tempo, passado. Há muito, muito tempo…

Contador de História 03: Três irmãos. Um mais novo. O do meio. O mais velho.

Os Três: Congo, África! Há muito, muito tempo! Três irmãos!

 

Contador de História 01: África de savanas densas, de exóticos animais, de povos maravilhosos…

Contador de História 02: África, origem de tudo que há…

Contador de Histórias 03: África Tudo!

Os Três: África Mãe! África Tempo! África Povo! África Lugar! África!

 

(Teatro de sombras, ao som dos tambores. Imagens de um mapa do continente africano, com o Congo em destaque. Matas. Águas e peixes. Animais: elefantes, girafas, leões, rinocerontes. Povos africanos. Máscaras e silhuetas).

 

Contador de Histórias 01: É nessa África de tantos encantos que essa história se passou…

Contador de Histórias 02: Numa pequena aldeia no antigo reino do Congo…

Os Três: Congo!

Contador de Histórias 03: Ali viviam nossos três heróis. Três irmãos: O mais velho. O do meio. E um mais novo…

 

Cena 02 – Os Três Irmãos e o Sonho

 

(Teatro de Bonecos. Entram os três irmãos, levando feixes de madeira e balde de água. O irmão mais novo para bruscamente para observar uma borboleta e os demais tropeçam nele, derrubando o balde de água)

 

Irmão do Meio: Olha por onde anda!

Irmão Mais Velho: Trapalhão! Olha o que você fez!

Irmão Mais Novo: Vocês viram que linda aquela borboleta?

Irmão do Meio: Oras, você nunca vai crescer? É por isso que nunca terás chance de se casar com a Princesa.

Irmão Mais Novo: (zangado). Como se você já tivesse com tudo certo para o casamento com ela! Ela nem te conhece!

Irmão do Meio: E nem a você! Como a Princesa poderia se casar com um bebê que mal saiu do colo da mãe?

Irmão Mais Novo: Ora seu… (parte pra cima do Irmão do Meio. A briga é separada pelo Irmão Mais Velho que apenas observava).

Irmão Mais Velho: Pare com isso vocês dois. Na verdade, é pouco provável que a Princesa vá se casar com qualquer um de vocês dois.

Irmão do Meio e Irmão Mais Novo: E muito menos com você!

Irmão Mais Velho: (tristemente). Sim. E muito pouco provável comigo. Olhem para nós! Olhem para nós! Somos simples aldeões. Os mais simples dentre todos do reino do Congo. Acordemos de nossa ilusão. A Princesa jamais poderá se casar com qualquer um de nós! Ela nunca sequer saberá de nossa existência em toda a África. Logo, não é justo que briguemos uns com os outros, que nos desunamos por causa dela.

Irmão do Meio: Tens razão, irmão! Não é certo que quebremos nossos laços de amizade por causa de uma vã ilusão. Mas como poderemos curar esta tristeza de nosso coração e fortalecer os laços que nos unem desde o nascimento? O que acha irmão? (Virando-se para o mais novo, que está distraído o tempo todo com a borboleta, indiferente à conversa dos outros). Ah!

Irmão Mais Velho: Tenho uma ideia. Vamos partir em busca de aventuras! Somente assim poderemos esquecer a Princesa e fortalecer o elo que nos une. A nossa união será mais forte que a dor de nosso coração partido.

Irmão do Meio: Mas… para onde iremos?

Irmão Mais Velho: Para depois das montanhas. Pela floresta adentro. Dizem que há muitas terras misteriosas e muitas aventuras para além das montanhas…

Irmão do Meio: Mais não é muito perigoso?

Irmão Mais Velho: Claro que sim! Mas que graça tem uma grande aventura se tudo é seguro, se tudo está previsto, certo para acontecer como o nascer e o pôr do sol de cada dia? O que você acha irmão? (Para o Irmão Mais Novo, que se vira e responde pouco consciente do que se passara).

Irmão Mais Novo: Acho uma ótima ideia. Quando partimos?

Irmão Mais Velho: Amanhã cedo. Está vendo irmão (para o do Meio), nada como o espírito livre das crianças…

Irmão Mais Novo: Ei! Eu não sou criança não! Eu já estou grande, olha aqui pra mim…

Irmão do Meio: Mijão! Caçador de borboletas mijão… (saindo)

Irmão Mais Novo: Volta aqui! Vou te mostrar quem é o mijão caçador de borboleta. Vem cá.

Irmão Mais Velho: Hi, hi, hi… Vamos lá avisar nossos pais. Sairemos amanhã muito cedo.

 

Cena 03 – Partiram

 

Contador de Histórias 02: Não foi sem preocupação que os pais deixaram os irmãos partirem logo na manhã seguinte. Quem pode segurar o desejo e a energia da juventude?

Contador de Histórias 01: No mais, era por uma boa causa. Era para fortalecer um elo.

Contador de Histórias 03: Ah, e esquecer a Princesa, né? Afinal, os três estavam perdidamente apaixonados por ela! Não vamos esquecer!

Contador de Histórias 01: E assim, desiludidos… os três saíram pelo imenso território africano, em busca de aventuras e de uma nova vida…

(Trilhas, sombras e bonecos. Música)

Andaram, andaram, andaram (bonecos passam) durante dias e noites infindáveis…

Contador de Histórias 02: (teatro de sombras). Atravessaram matas e pântanos, lagos e rios, povoados por feras assustadoras… (bonecos e sombras). Remaram numa frágil canoa pelo Rio Zaire, infestado de crocodilos, serpentes e hipopótamos gigantes…

Contador de História 03: Até chegarem em um lugarejo perdido de tudo e de todos…

 

Cena 04 – Cativos

 

(Teatro de bonecos. Sobe cenografia de um estranho castelo de pedras)

 

Irmão do Meio: Que lugar é esse?

Irmão Mais Velho: É melhor tomarmos cuidado. Isso aqui tudo está parecendo muito, muito estranho…

Irmão Mais Novo: Eu quero embora daqui. Vamos voltar, irmãos. Vamos voltar!

Irmão do Meio: Cala a boca, mijão caçador de borboleta!

(Sobe uma grade e aprisiona os três irmãos)

Irmão Mais Velho: Mas o que é isso!

Irmão do Meio: Estamos presos! Eu sabia que a gente não deveria ter ido tão longe.

Irmão Mais Novo: Essa não! Vamos morrer! Vamos morrer! Eu quero minha mãe, meu pai… Vovô! Eu quero voltar pra aldeia!

(Surge o Monstro – boneco mascarado)

Quimpassi: Como ousam invadir as terras dos poderosos quimpassi? Quem os mandou até aqui?

Irmão Mais Velho: Ninguém nos mandou. Viemos por nossas próprias vontades. Somos irmãos. Viajamos por muitos dias e noites em busca de aventuras…

Irmão Mais Novo: E para esquecer o amor de uma linda Princesa que nunca soube de nossa existência, e…

Irmão do Meio: Cala a boca!

Quimpassi: Ora, ora! Viajam em busca de aventuras? E para esquecer o amor de uma mulher? Os três? E ainda por cima irmãos? Há, há, há, há, há…

Irmão do Meio: Qual é a graça?

 

Quimpassi: Não se preocupem. Aqui terão tudo que saíram para buscar. A partir de hoje serão escravos do povo quimpassi até o final das colheitas. Enquanto tiverem aqui, não faltará o que fazer e nem haverá tempo para pensar na sua Princesa amada. Há, há, há, há… (sobe fumaça. Todos desaparecem)

 

Cena 05 – O amor que sempre espera

 

Contador de histórias 03: Aprisionados pelo misterioso quimpassi, os irmãos foram obrigados a trabalhar nas enormes plantações que pareciam não ter fim…

(Teatro de bonecos. Irmãos passam levando pesados feixes de madeira. Voltam semeando. Voltam trazendo grandes sacos nas costas)

Contador de Histórias 01: Lavravam e semeavam a terra. Vigiavam as roças contra os pássaros e outros bichos…

Contador de Histórias 02: Suavam do amanhecer ao anoitecer, carregando sacos de sal, que faziam arder seus ombros desnudos…

(Teatro de bonecos. Irmãos trabalham em cooperação, passando os objetos de um para o outro: os feixes de lenha, pedras e sacos…)

Contador de histórias 02: Mas logo aprenderam que deveriam trabalhar juntos. E o que antes era um trabalho de escravidão, se tornou uma experiência de fortalecimento do elo que os unia, o sangue fraterno, a origem comum, a aldeia de nascimento…

 

(Música de trabalho. Ritmo. Irmãos trabalham. E se ajudam)

 

Contador de Histórias 03: E à noite, cansados, exauridos do fardo do dia, ainda sonhavam com a linda Princesa, cujo amor nem o trabalho duro, nem o fortalecimento do elo foi capaz de arrancar de seus corações…

 

(Teatro de Bonecos. Teatro de Sombras. Bonecos dormem. Sonham com a Princesa, cuja silhueta aparece como uma imagem de sombras. Música de ninar e amor).

 

Cena 06 – A liberdade é um presente

 

Quimpassi: Acordem! Acordem!

Irmãos: Ah?! O que houve? Já é hora de voltar ao trabalho?

Quimpassi: Livres! Vocês estão livres!

Irmãos: Como?

Quimpassi: Livres! A colheita foi um sucesso e vocês conseguiram fortalecer o elo que os uniam aqui.

(Irmãos fazem festa) Mesmo que o segundo objetivo não tenha sido contemplado.

Irmão Mais Velho: Do que ele está falando?

Quimpassi: Além de vigiar o trabalho de vocês, vigio seus sonhos. A Princesa ainda mora ali. E o sonho é apenas o espelho daquilo que habita o coração. Não há nada a fazer sobre isso aqui. Não há trabalho duro, feitiço, opressão e chicote capaz de destruir as coisas que estão seguras na fortaleza do coração. E por terem, com o seu trabalho, dado ao povo quimpassi a maior colheita de sua história, vocês receberão cada um, um presente mágico…

Irmãos: Mágico?

Quimpassi: (para o Irmão Mais Velho, entrega-lhe o espelho). Para você, por ser sempre sábio e ver aquilo que a maioria não ver, e por estar sempre disposto a abrir mão de suas razões pessoais em prol da união de sua família, lhe presenteio com este espelho maravilhoso. Com ele, você poderá ver qualquer coisa que estiver acontecendo, em qualquer lugar e a qualquer hora.

(Para o Irmão do Meio). Para você, por sempre optar em favor da vida de seus irmãos, apesar das dúvidas e dos medos, receba este tapete mágico. Ele voa e é capaz de levar seu dono aos locais mais longínquos, num abrir e fechar de olhos.

(Para o Irmão Mais Novo) E para você, que sempre é julgado mais fraco e inocente por conta de sua pouca idade, não sabem que você guarda dentro de si uma força gigantesca, capaz de mover céu e terra a favor daqueles que você ama. Receba esta rede encantada. Suas malhas são inquebráveis, como os bons sentimentos do seu coração. E com ela poderá capturar o que bem entender.

Irmão do Meio: E quanto à Princesa? O que faremos, já que ela ainda mora nos nossos corações?

Quimpassi: As respostas para isso estão em suas mãos. Façam bom uso dos seus presentes. Hoje o povo quimpassi lhes dará uma grande festa de agradecimento. Amanhã cedo, partam! Não há mais nada para fazerem aqui.

 

Contador de histórias 01: E fizeram para os três irmãos uma grande festa!

Contador de histórias 02: Com muita música, dança…

Contador de histórias 03: E muita comida também, claro!

(Os três contadores de histórias cantam e dançam uma música muito alegre. Os manipuladores saem de trás da empanada com bandeijas de espetinhos de frutas, doces e/ ou sorvetes e servem a plateia enquanto a música é executada)

 

 Cena 07 – Os Três Presentes Mágicos

 

Irmão Mais Velho: Partamos, irmãos! Temos um longo caminho pela frente!

Irmão do Meio: Sim, partamos. Não há mais nada para fazer aqui.

Irmão Mais Novo: E quanto à Princesa? Ela ainda mora em nossos corações e todas as noites vem visitar nossos sonhos…

Irmão do Meio: Você ouviu o quimpassi. Não há nada mais a fazer aqui. Temos que buscar por nós mesmo a resposta para isso, que isso está em nossas mãos…

Irmão Mais Velho: Mas claro! Claro! A resposta está em nossas mãos! Porque não pensei nisso antes!

Irmãos do Meio e Mais Novo: Do que você está falando?

Irmão Mais Velho: Ora de que? Será que não percebem? Os presentes mágicos! Eles são as respostas que devemos buscar. E estão cada um em nossas mãos!

Irmão Mais Novo: Puxa! Como não pensei nisso antes…

Irmão do Meio: (irônico) Claro! Porque, né?

Irmão Mais Velho: Vamos descobrir o que se passa com a Princesa, desde a última vez que estivemos no reino do Congo… (mira o espelho). Oh, não! Não pode ser!

Irmão Mais Novo: O que você está vendo? O que vês?

Irmão do Meio: Fale logo!

 

Contador de histórias 01: Que tragédia estava prestes a acontecer! Que tragédia!

Contador de histórias 02: O irmão mais velho viu em seu espelho que a Princesa estava prestes a se casar… com um monstro!

Contador de histórias 03: Sim, um monstro! Um forasteiro de roupas longas e esvoaçantes enganara a todos, quando chegara à frente de uma caravana de camelos, carregados de ouro e joias preciosas, e se apresentou como um poderoso príncipe.

 

Contador de histórias 01: (teatro de sombras, silhuetas). Os três rapazes, na mesma hora, subiram no tapete do Irmão do Meio e, cruzando os ares, acima dos picos das montanhas, chegaram, numa velocidade impressionante, interrompendo bruscamente a cerimônia de casamento.

Contador de história 02: (teatro de sombras, silhuetas e objetos). Os convidados se surpreenderam quando os irmãos desceram do céu, iluminados por uma lua esplendorosa.

Contador de histórias 03: E ficaram chocados quando a rede do Irmão Mais Novo aprisionou e desmascarou o noivo monstruoso.

 

Os três contadores: Veja, veja com quem sua filha ia se casar!

 

Cena 08 – A quem cabe o mérito?

 

(Teatro de bonecos. Surgem os três irmãos e a Princesa. O rei é uma silhueta de sombras)

 

Rei: Como prova de agradecimento, minha filha irá se casar com um de vocês.

Contador de histórias 01: Mas, majestade? Quem terá o direito?

Contador de história 03: Com quem a Princesa poderá se casar, se cada um dos irmãos tiveram papel importante na liberdade de Sua Alteza?

Rei: Oras, como tomar tal decisão e ainda assim ser justo? Como? Reúnam os mais velhos! Reúnam os quimbandas, adivinhos e curandeiros! Reúnam os mais sábios e respeitados de todo o reino para que discutam e resolvam esta questão, pois a mim, desejo continuar sendo um rei de Justiça!

(Os três contadores de histórias cochicham e discutem nervosamente).

 

Contador de história 02: Majestade, chegamos à seguinte conclusão… Nenhuma! Depois de três dias e três noites inteiras de discussão, não sabemos com quem a Princesa deverá se casar.

Contador de histórias 01: (sombras se apagam. Bonecos ficam de frente para a plateia)

E vocês? Em sua opinião, qual dos irmãos mereceria desposar a bela princesa? O dono do espelho?

Contador de história 02: O detentor do tapete voador?

Contador de histórias 03: Ou o que possuía uma rede invencível?

Os três contadores de histórias: E porquê?

(Fazem um momento de silêncio. Podem ouvir alguma opinião da plateia. Fazem a música de encerramento e não revelam o final da história).

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