Encontros Setoriais da Literatura

Vez por outra, aparece na grande mídia, na rede ou na mesa de bar alguém questionando se estaríamos vivendo um “vazio cultural”. A indagação parte das mais variadas pessoas: jornalistas, apreciadores de cultura, professores universitários e, incrivelmente, artistas.

E não tem jeito, quando ouço ou leio sobre “vazio cultural”, me lembro imediatamente de um poeta amigo, já falecido, que dizia que “sempre que achei que não tinha nada acontecendo, descobri que era eu que estava no lugar errado”. E também que “na cultura, como na política, todo espaço vazio é preenchido”.

Uma olhada rápida ao cenário da cultura brasileira dos últimos dez, quinze anos, já mostra que vivemos um momento bastante interessante. Nas diversas áreas e linguagens. O cinema tem produzido mais de uma centena de longas metragens por ano, vários de alta qualidade, conquistando prestigiosos prêmios internacionais e um público crescente. As artes visuais brasileiras ganharam um valor e uma visibilidade inéditos mundo afora, tanto através dos grandes nomes da nossa arte contemporânea, como Hélio Oiticica e Lygia Clark, quanto de artistas jovens e atuantes. Depois de um período em que só conseguia publicar em edições pequenas e quase independentes, os escritores contemporâneos estão sendo disputados pelas grandes editoras, conquistando maior visibilidade nacional e internacional. A música experimental ganhou espaço, em pontos de encontro como o Baixo Augusta em São Paulo e a Audio Rebel no Rio de Janeiro, apresentando ao público uma nova geração de músicos e compositores de grande talento. E assim vai.

Mas então, de onde surge esse tão repetido questionamento sobre “a miséria de nossa cultura”? Um dos fatores pode ser a pouca visibilidade que as manifestações culturais atuais tem conseguido nos cada vez mais diminutos espaços de mídia, somada à quase total ausência de reflexão crítica sobre essa produção. Ou seja, muito se produz, pouco circula e quase nada é divulgado, apresentando e discutido junto a um público além dos interessados diretos. Dessa forma, fica difícil para a sociedade perceber a força da produção atual de cultura no Brasil.

Faz alguns anos que tenho pensado sobre essa questão, intimamente e também em intervenções públicas: se não podemos falar o mesmo dos últimos cinco anos, ao menos durante o período do governo Lula, entre 2003 e 2010, a produção cultural brasileira foi incentivada de forma consistente, e assim ampliada em agentes, produções e qualidade. Mas a reflexão crítica sobre essa produção não recebeu praticamente nenhum estímulo durante esse período. Ou se ateve aos círculos cada vez menores do meio acadêmico, ou viu o seu espaço desaparecer aos poucos junto com a diminuição e extinção de suplementos culturais e outros veículos. A tão aclamada chegada da internet infelizmente não se mostrou capaz de renovar os espaços de mapeamento, apresentação e reflexão sobre a produção cultural contemporânea. É claro que surgiram blogs e revistas digitais, a maior parte especializadas em uma ou outra linguagem artística, e algumas excelentes. Mas a grande parte delas existiu de forma efêmera e sem capacidade de penetração em um público mais amplo.

Vimos, nesse período, os suplementos e cadernos culturais dos grandes jornais perderem tamanho e capacidade de pautar leituras e debates, quando não desapareceram completamente. Acompanhamos também a extinção também das poucas revistas culturais com alta circulação no país. E tudo isso sem ser acompanhado de novas propostas ou construções de espaços de reflexão cultural. É impressionante, para um país com a rica produção audiovisual como o nosso, não existir nenhuma revista de cinema de grande circulação em atividade. Assim como não faz sentido que não haja nenhuma publicação destinada à música, um dos grandes símbolos da nossa cultura. O mesmo acontece nas outras linguagens artísticas, e fica ainda mais gritante quando percebemos que não há no Brasil nenhum periódico de grande circulação sobre cultura e arte, de forma aberta e transdisciplinar.

Em paralelo, o custo de divulgação dos projetos culturais incentivados pelo poder público ou contemplados em editais é alto. Há, em praticamente qualquer planilha orçamentária, itens como mídia, divulgação e assessoria de imprensa. Que esses valores não tenham sido utilizados para estimular novas mídias culturais, nos mais diversos formatos, ficando restritos à  grande mídia cada vez mais concentrada e a espaços de propaganda inócuos, como vidros de ônibus e totens de publicidade, é uma das misérias da nossa política cultural.

Alguns anos atrás, um importante assessor de imprensa e produtor carioca fez uma provocação: sugeriu que os fazedores de cultura se preocupassem em utilizar os recursos destinados a mídia e publicidade em revistas independentes de cultura, prestigiando-as com anúncios e possibilitando a sustentabilidade delas. Infelizmente, a provocação passou em branco, não sendo entendida por produtores e artistas, que continuaram acreditando que conseguiriam mais espaço e divulgação de seus produtos culturais se utilizassem esses recursos no apinhado espaço da grande mídia e nas formas tradicionais de publicidade. Uma demonstração do descompromisso dos artistas e produtores com processos culturais mais amplos.

Em paralelo a isso, as regras e políticas de publicidade estatal dificultam a utilização em mídias com fins culturais de sequer uma parcela dos valores multimilionários gastos pelas diferentes esferas públicas em publicidade impressa. Dá para imaginar a diferença que ocorreria no cenário de publicações culturais se uma parcela mínima desses valores (1 ou 2%, por exemplo) fossem utilizados no fomento de periódicos culturais? Para isso, seria necessário um amplo diálogo entre Ministério da Cultura, Ministério das Comunicações e SeCom, e também a mobilização dos artistas, pesquisadores e fazedores de cultura para a importância do estímulo a publicações voltadas à apresentação e reflexão sobre a cultura contemporânea.

Da mesma forma, é impressionante como a cultura tem se dissociado das atividades e do interesse dos estudantes e pesquisadores universitários. A divulgação das diversas manifestações culturais atuantes no Brasil em revistas que poderiam ser distribuídas para bolsistas, por exemplo, com o apoio das agências de pesquisas, seria uma forma de aproximar novamente a cultura das universidades federais. O mesmo já foi feito, com bastante sucesso, em revistas de divulgação científica.

Ou seja, não faltam possibilidades de se criar incentivos para periódicos culturais, e o mais importante, sem que para isso seja necessário disputar os mesmos recursos que são voltados para a produção cultural em si. Mas para isso é necessário política. E para se fazer política, é necessário interesse da sociedade. Algo que só é constituído com estímulos e disputas de narrativas. Hoje a reflexão cultural se encontra na sombra, num não-lugar entre a academia, a comunicação e a cultura. É mais do que hora de se mudar isso.

*Artigo de Sergio Cohn, articulador da Literatura na Política Nacional das Artes, publicado no dia 26 de outubro de 2015.

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