Recados em Rede

Encontros Setoriais da Música

Nos últimos anos ocorreu na cultura musical brasileira um fenômeno que precisa ser observado com atenção: o surgimento de uma complexa rede de associações e cooperativas de músicos e produtores musicais articuladas entre si e com as esferas governamentais.

Se observarmos com um pouco mais de distância veremos um contexto cultural mais amplo e intrincado, marcado pelo aparecimento, sobretudo, da “voz direta da periferia falando alto e em todos os lugares do país”, formulação que assumo aqui como uma síntese do que muitos já disseram sobre o tema. Num mundo populoso, jovem, hiper-urbanizado e tecnológico, em que as relações culturais se manifestam cada vez mais de maneira horizontal e em rede, é inexorável relativizar de uma vez por todas os conceitos verticais de periferia e centro, de resto já um tanto deslocados desde pelo menos os anos de 1980.

Na música popular brasileira, por exemplo, continua em vigor a convivência de dois modos de produção diferentes, tensos mas entrelaçados em seu interior: o industrial, que assumiu, a partir da década de 1970, proporções gigantescas com as gravadoras de discos vinculadas aos grandes veículos de comunicação; e o artesanal, lugar dos poetas-músicos criadores de uma obra marcadamente individualizada.

É sabido que as recentes transformações tecnológicas digitais trouxeram uma nova ordem cultural. A música brasileira esteve entre os primeiros segmentos a repercutir, com sua dose natural de ruído, o eco das mudanças.Também foi pioneira em perceber o som e o sentido dessas transformações e suas consequências econômicas, mas também estéticas e políticas. Não mudaram apenas as condições de produção e troca. Mudou a própria música, que agora está reunida em torno de uma complexa, mas indispensável e mais do que nunca possível, agenda em comum.

Entre os movimentos associativos recentes, a Rede Música Brasil (RMB) parece ser o mais amplo e significativo. Trata-se de um fórum de entidades nacionais do setor musical que se reuniram num primeiro instante para promover uma conferência nacional da música brasileira e buscar mecanismos de interlocução com os governos. O grupo cresceu e ganhou uma agenda independente, participando também da gestão da Feira Música Brasil (FMB) 2009/2010, organizada pela Funarte/MinC. Incorporou novas entidades e alcançou um amplo escopo de temas culturais e econômicos sobre a nossa música.

Pelo tradicional entendimento de centro/periferia poderia assumir genericamente o seguinte mapa: periferias econômicas e culturais estariam representadas, por exemplo, por entidades como a Cufa (Central Única das Favelas) e o Fora do Eixo; localizadas geograficamente no centro econômico, mas com interesses culturais até certo ponto periféricos do padrão do grande mercado musical estariam o GAP (Grupo de ação parlamentar Pró-Música) e a ARPUB (Associação brasileiras das rádios públicas); e no cerne geográfico do centro econômico estariam bem localizadas a Associação Procure Saber e a UBEM (União brasileira de editoras de Música). Isto sem falar de setores da música clássica e da educação musical que orbitam em outras esferas de interesses.

É evidente que este exercício de geopolítica, entre algumas das entidades da RMB, está fadado ao fracasso. Serve apenas para tencionarmos uma hipótese que revela, no limite, fronteiras tênues e nebulosas de interesses. Hoje o cenário é mais complexo e é por esta razão que o pensamento dualista centro/periferia não dá conta do recado. Aliás, são múltiplos os recados da Rede. Num esforço político de agregação, a RMB lançou, durante as duas edições da FMB, cartas sistematizando 10 pontos para uma política da música no Brasil. Ali estão consolidadas discussões decantadas em reuniões e encontros cuja origem remonta às primeiras Câmaras Setoriais estimuladas pelo Ministério da Cultura (MinC), em 2003, e depois institucionalizadas, em 2010, como Colegiados Setoriais. No início de 2015, a Fundação Nacional das Artes (Funarte) assumiu o compromisso de redesenhar a sua própria instituição, no contexto dos múltiplos recados que este novo cenário contemporâneo exige, em torno da formulação de uma Política Nacional das Artes (PNA). 

Na realidade, um desdobramento natural e esperado daquilo que o MinC realizou de modo mais amplo até 2010 com o Plano Nacional de Cultura, mas agora com foco específico nas linguagens artísticas. Sabemos o valor simbólico e econômico que a nossa música tem dentro e fora do país. Portanto, não é a toa que o primeiro dos dez pontos da cartas da RMB seja a criação da “Agência Nacional da Música”. Agência num sentido livre, não técnico. Ou, num sentido ainda mais poético, uma “Casa da Música”.

Ao que tudo indica, esta é a percepção coletiva do setor musical sobre a necessidade de uma nova instituição vinculada ao MinC onde poderíamos cuidar com mais eficiência dos assuntos que envolvem, por exemplo, os direitos autorias no mundo analógico e digital, as questões trabalhistas dos músicos e produtores, os marcos legais e os dispositivos de fomento, difusão e regulamentação da nossa cadeia criativa/produtiva. Isto é, assuntos transversais que ultrapassam a esfera propriamente da cultura e se relacionam com as áreas do trabalho, educação, ciência e tecnologia, exportação, entre outras.

Em suma, assuntos que são como que recados de um complexa rede de desejos artísticos e interesses econômicos. Portanto, esta é a pauta contemporânea e urgente da música do Brasil. E por tudo isso, a Rede Música Brasil parece ser hoje o fórum mais representativo e agregador da nosso setor porque é capaz de responder com o dinamismo necessário às reviravoltas dessa rede de recados. Uma nova ordem já está imposta e as políticas públicas precisam responder a altura.

*Artigo de Cacá Machado, articulador da Música na Política Nacional das Artes, publicado no dia 26 de outubro de 2015.

Cacá Machado

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1 Comment

  1. Bacana o artigo, parabéns Cacá. Aprecio todas iniciativas que possam vir a fazer valer$ o dia de artistas, compositores, labels, editores e todos envolvidos na indústria da música no Brasil. Vc tem o link da carta sistematizando 10 pontos para uma política da música > que escreveu no artigo. Tenho interesse em discutir com meus alunos e em palestras. abs

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