Encontros Setoriais das Artes visuais

Mostrar nacionalmente a produção de arte de cada lugar, impulsionar o diálogo entre artistas e público que, sobretudo, problematize a produção e as condições do fazer artístico local em sintonia com o restante do Brasil, são algumas demandas das artes visuais contemporâneas. Demandas estas que podem ser atendidas com a circulação de artistas, de projetos, de exposições, de metodologias, de acervos públicos e privados.

Muitos desafios emergem. Desde o difícil recorte conceitual dos projetos que dialoguem com cada lugar, aos altos custos financeiros para o transporte de uma exposição de arte. Por onde começar? Primeiro o Governo Federal assumindo sua responsabilidade como indutor de fomento e da construção de uma política estruturante à Circulação para que artistas, espaços de arte e governos estaduais e municipais possam atuar juntos, sem sobreposições, em todo o território nacional.

O que define uma circulação no segmento de artes visuais? Pressupõe-se que a circulação vislumbre em seus possíveis deslocamentos, o intercâmbio entre público, artistas e as instituições formais e não formais de arte em todas as esferas públicas e privadas. Este trabalho em rede se justificaria para materializar questões como articulação, planejamento e antecipação, integrando o segmento das artes visuais com trocas constantes de informações sobre seus projetos. Nesta partilha de interesses surge como consequência também, a redução de custos na execução dos projetos como a editoração de catálogos, transporte de exposição, seguros, pesquisas curatoriais e até uma possível formação de um comitê de curatorial dessas instituições. Assim qualificamos a Circulação de Ares Visuais como um intercâmbio formador, não pela simples itinerância de exposições ou artistas, ou ainda limitada a reduzir custos, mas um intercâmbio com desejo formador de público, dos espaços de arte e dos artistas em defesa de novas atitudes de refletir, experimentar, conviver e atuar em conjunto nas artes visuais. Nesse sentido os projetos de circulação devem considerar:

  • O perfil conceitual de atuação de cada espaço;
  • A formação e pesquisa de acervos de artistas e museus locais
  • O estabelecimento de relações conceituais com os acervos das instituições receptoras e com seu programa de aquisições;
  • Dar visibilidade aos acervos das instituições;
  • A repercução na qualificação dos quadros técnicos dos espaços expositivos que recebem os projetos, como formação de museólogos, educadores, montadores, curadores, gestores, etc;
  • O trabalho com curadores assistentes locais.

A produção de cada lugar carrega índices de singularidades, portanto interessa pensar que especificidades estas produções oferecem e instauram, dando luz a outros projetos possíveis. Para isto é preciso uma política que permita que os espaços de arte proponham projetos de circulação de forma independente, no sentido das especificidades e autonomias territoriais, e articulados com as demandas da rede de espaços de arte e de artistas. No caso de museus, possibilitar também sua atuação no que é esperado de sua missão: atenção ao acervo, reflexão crítica, entretenimento, educação e circulação da produção artística e do seu acervos.

A itinerância de exposições de artes vem acontecendo no Brasil de maneira pontual e a partir de recortes curatoriais como um de uma mostra maior concebida, no geral, a partir dos grandes centros das artes brasileiras. Assim aconteceram, por exemplo, itinerância de recorte da Mostra 500 anos do Descobrimento do Brasil, de edições do Programa Rumos Itaucultural e mais recente da Bienal de Arte de São Paulo, em algumas cidades brasileiras. No entanto a motivação  principal parece ser a necessidade financeira e/ou de marketing cultural.

Existem raras exceções de instituições de arte e espaços de artistas que tem feito esforços para lidar com estes desafios de financiamento onde muitas vezes existem interesses diferentes dos interesses artísticos das próprias instituições financiadas. São esforços que dependem de situações muito especificas locais, mas que é preciso pensar de um modo mais amplo, no país como um todo e não cada espaço ou instituição individualmente.

Já os espaços de artistas ou autônomos, como também são chamados, são reconhecidos pelo perfil de serem instrumento de fomento à criação, experimentação e compartilhamento do fazer artístico, oferecendo local de pesquisa ou de criação destinado a um ou mais projetos de artistas. São espaços responsáveis pela jovem produção e caracterizado por possibilitar experiências em diferentes contextos geográficos e culturais, proporcionado pelo deslocamento, a troca, a difusão e o compartilhamento. Por estas características possuem demandas específicas de fomento que pouco são contempladas atualmente. A escassez deste tipo de financiamento faz com que estes espaços frequentemente reformatem projetos existentes para se enquadrar aos critérios dos órgãos financiadores dos demais editais que são direcionados à artistas e não à espaços ou simplesmente tenham suas atividades descontinuadas em curto espaço de tempo e o fazem por falta de recursos para manutenção mensal do imóvel, como pagamentos de aluguel, água, luz e impostos. O que evoca fomentos mais continuados e criação de marcos regulatórios para o segmento.

Como a PNA pode pensar em uma espécie de engenharia institucional de financiamento de museus e espaços autônomos com articulações nacionais? Uma das alternativas leva às interlocuções entre órgãos da gestão federal, como o Ibram-Instituto Brasileiro de Museus e a Funarte por exemplo, que mesmo a partir de pontos de vistas diferentes estão pensando o mesmo sistema de arte brasileiro no que se refere às preocupações de que modo, nesse caso os acervos, podem circular em um país continental, pensando também em envolver as secretarias estaduais e municipais que se dividem em presentes e ausentes, na busca de soluções para estas questões.

É fundamental também que essas políticas façam emergir as zonas de silêncio da produção de artes visuais, reconhecendo projetos artísticos de cidades avizinhadas e proporcionar encontros artísticos entre regiões, adensando relações entre cidades geograficamente transversais, mais do que as relações radiais de hoje entre os grandes centros da arte e as demais cidades. O que não significa mudar as relações, mas diversificá-las incluindo outros interesses.

É neste cenário geral que a PNA vem realizando encontros setoriais em pequenos grupos de trabalhos compostos por críticos, curadores, gestores de espaços de arte públicos e privados, pertencentes  a cadeia produtiva da circulação de artes visuais. O objetivo é de propor a criação de uma Rede Nacional das Artes convocando os espaços de arte para atuarem conjuntamente em um intercâmbio nas artes visuais. A Rede deve ser formada inicialmente por museus, centros culturais e espaços autônomos, nos âmbitos público e privado, fortalecendo a interlocução, troca e pensamento crítico de uns em relação aos outros e em relação à contemporaneidade. A Rede Nacional das Artes estará visível por meio de uma plataforma digital, cujo objetivo é funcionar também como mapeamento das artes, de lançamento dos editais de fomento e de fornecer indicadores para avaliação da PNA.

Além disso, os encontros buscam construir propostas estruturantes envolvendo as demais demandas das Artes Visuais, como os marcos regulatórios, a formação, memória e reflexão crítica que considerem as particularidades dos diversos espaços geridos por artistas, instituições de arte, produção artística e territórios, com o objetivo de serem implementados pelos Governos.

*Artigo de Jacqueline Medeiros, articuladora das Artes Visuais na Política Nacional das Artes, publicado no dia 26 de outubro de 2015.

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