Uma ‘teoria da ação social’ alternativa para o contexto da modernidade periférica brasileira e latino-americana, baseada em uma reconstrução sociológica criativa e crítica gera olhares sobre o tema da desigualdade e da sua legitimação e naturalização no Brasil contemporâneo.

Em busca de abrir caminhos para convites ao diálogo, abordo a obviedade histórica que torna a afrodescendência do Brasil um tema invisível na discussão sobre procedimentos políticos no universo das artes.

As múltiplas identidades do ‘povo negro’ são temas sempre oportunos quando se discute arte no Brasil contemporâneo. Socialmente, falar ‘negro’ (pela complexidade do termo) é falar de um forte eixo cultural e emocional brasileiro.

É complexo usar o termo ‘negro’ pois denota um posicionamento politico e dá nome a uma visão separatista recheada de preconceitos históricos a partir da cor da pele dos indivíduos em sistemas de classificação racial. Ainda nos dias de hoje, aplicam-se critérios diferentes a quem é classificado como ‘negro’ e muitas vezes, variáveis econômicas, tais como classe social, também desempenham um papel relevante nesta (des)classificação.

Alguns pensamentos, repletos de ignorâncias históricas sobre a construção de várias nações ou que reconhecem apenas como teoria cientifica a África como continente matricial da humanidade, usam como referencia que o processo das diásporas negras africanas tenha se dado apenas através do êxodo provocado por processos de exportação humana na condição de escravos com histórias de dor e subjugação que não geram orgulho a ninguém. Por este prisma, até mesmo as histórias dos ricos reinados e das culturas milenares daquele continente, são suplantadas por imagens de fome e miséria ligadas a revoluções civis modernas patrocinadas por grandes nações do mundo.

Digamos que tudo isto contamina o inconsciente coletivo no trato com a população afrodescendente ou negra ou preta. As rotas do Atlântico Negro concentram um conjunto de culpas que afasta o continente africano de suas diásporas e vice-versa.

O Brasil é a maior nação Negra fora da África. Isto confirma a história do novo continente e a trajetória de emigração de povos dos velhos continentes para as novas terras como estratégia de sobrevivência.

O mundo enxerga e interpreta o Brasil como um lugar de natureza privilegiada onde etnias, credos e culturas coexistem, resultando em uma construção de identidade a partir do encontro das semelhanças e das diferenças. Por uma certa visada antropológica isto é verdade. Os corpos aculturados aqui, neste espaço geográfico, na sua complexidade de atitudes, absorvem e expressam experiências emocionais que merecem ser observadas, estudadas e confrontadas para que se possa acompanhar e valorar os movimentos desta nação.

Concentrado na construção de periferias para centros fixos, o contexto social aqui exercitado faz com que as discussões sobre a negritude brasileira ganhe ênfase na casa dos homens de pele preta ou para aqueles simpatizantes que frequentam estas casas. É verdade que uma avaliação profunda de valores e um processo de reparação emocional se faz necessário para que aconteça a apropriação desta negritude, pois é muito difícil relevar-se por completo que o primitivo sentido da palavra ‘negro’ era ‘escravo’. A busca por respostas e posições inclusivas em processos sociais e políticos, promove o desenvolvimento de convicções ideológicas, que somadas a dados estatísticos colhidos por sensos técnicos, e também à recente tomada de posse do direito à autodeterminação étnica, promovem paulatinamente a conscientização da nação deste forte traço de sua identidade.

Em função disso, é muito comum ver alguns desses “pretos convictos” incumbidos de buscar justificativas e evidências sobre os pontos de confluência dos traços de origem matricialmente africana na identidade cultural do país. Estes ‘pretos convictos’ (algumas vezes pessoas de pele parda ou branca) acabam se responsabilizando pelo encaminhamento das discussões.

Tudo certo, salvo o equívoco de esquecer, por vezes, que as questões negras, assim como as questões indígenas e de miscigenação em geral, no caso de Brasil, dizem respeito a toda a nação. As questões de identidade que permeiam todo o planeta, aqui no Brasil estão cada vez mais conduzindo as gerações a buscar uma horizontalidade social para ocupar seus espaços de pertencimento. Portanto as questões negras são do país, da nação. Portanto tudo que ajuda a nação a assumir seus compromissos com seu lado afrodescendente é melhor pra nação.

Um conjunto de manifestações artísticas, mesmo que hibridas, compõe um recorte conceitual na arte contemporânea. A Arte Negra. Pelo prisma epistemológico, esta determinação amplia as possibilidades de reconhecer e analisar a produção estética provocada pelo olhar objetivado em determinados argumentos sociais ou culturais. Argumentos transformadores e construtores da historia humana e comumente expressados de maneira distinta. Em alguns países onde os grupos étnicos são maioria determinante como é o caso do Brasil, o que se vê como produção artística ganha tendências que merecem ser destacadas. Portanto torna-se pertinente reconhecer as danças negras, o teatro negro, o circo negro, a musica negra, as artes plásticas negras, as artes visuais negras, a literatura negra como manifestações identitárias brasileiras.

Ao se pensar em politicas públicas que medeiem ou regulamentem o fazer artístico é necessário refletir como dar visibilidade a estas questões. Um conjunto de leis existentes não tem sido suficientes para lidar com as ignorâncias nefastas estabelecidas pela história mal contada sobre as matrizes do Brasil.

Existe um longo caminho a percorrer para que o povo brasileiro se aproprie de sua própria trajetória. Mobilizações da sociedade para apreciação e reflexão sobre cultura e as abordagens múltiplas dos vários conceitos concernentes à diversidade contribuem para o desenvolvimento do pensar e do fazer criativo. E tudo reforça o papel da cultura das artes como uma potente ferramenta de educação holística. Avalio que estimular esta discussão é de extrema importância para ampliar os limites das expressões da contemporaneidade neste Brasil pós- colonial e pós- escravagista (…).

Afinal não existe história sem arte.

“o futuro está sempre a sua frente. ou as suas costas, cada vez que você dá meia volta.”
retirado do filme “Yaaba”, de Idrissa Ouedraogo, de Burkina Faso.

*Artigo de Rui Moreira, articulador da Dança na Política Nacional das Artes, publicado no dia 30 de novembro de 2015.