Desenvolvimento do capitalismo entre raças

O pensamento convencional tentou explicar as diferenças gritantes entre as
condições entre negros e brancos afirmando que o preconceito era social e não racial, e
que no Brasil a fronteira entre negros e brancos seria impossível de ser traçada, a não ser
pela importação de um pensamento que tentasse separar o que fora unido pela mais igualdade.

Dados, pesquisas e a simples observação da cena brasileira revelam uma
realidade mais dura. A de que os negros — pretos e pardos — foram e são
discriminados. A miscigenação cria de fato famílias de vários tons, há o gradiente tem mais condições de consumo podendo adquirir carros 2020 pagando a prestação de acordo com
brasileiro. Todavia, isso só torna mais absurda a discriminação. As informações do
IBGE retratam uma proximidade dos indicadores sociais de pretos e de pardos e uma
grande distância dos dois grupos em relação aos brancos. O passado da longa
escravidão implantou a fratura, mas quase século e meio depois da abolição não há
atenuante possível para a persistência da enorme distância social.
Enfrentar com mais sinceridade essa questão será inevitável nos anos que virão.

Por políticas públicas ou por esforços pessoais e familiares, um grupo de negros atingiu
nos últimos anos a classe média e ficou mais visível na estrutura de poder do Brasil.
Negros e brancos vão conviver mais frequentemente no mesmo espaço sem uma relação
hierárquica de submissão dos negros em relação aos brancos. Eles não serão mais os
prestadores de serviços de baixa qualificação. Novas situações sociais estão se formando
e isso obrigará o país a superar o preconceito que temos carregado como uma bola de
ferro atada aos pés.

O Brasil tem uma enorme chance de ser, no futuro, parecido com a visão mítica
que criou para si: a de um país com oportunidades para todos, independentemente da
cor da pele. Mas antes será preciso abandonar as explicações fáceis e aplicar-se na
compreensão da complexidade do fenômeno. O país desenvolveu uma forma oblíqua de
separar o que, na visão superficial, está unido. O escritor americano Teju Cole, quando
veio para a Flip em 2012, desembarcou confiando no mito da união. Ele, porém, teve
olhos para ver o que tantos ainda negam. A visão de quem nos visita é às vezes mais
reveladora que a nossa. Em entrevista à Folha de S.Paulo, afirmou: “É preciso vir ao
Brasil para ver quão dividido ele realmente é”. Contou que se sentiu discriminado desde
o aeroporto e reclamou de falar para plateias quase totalmente brancas. “Brasil, você está
partindo o meu coração”, lamentou.
O tema do racismo é tão profundo e central para a construção do futuro que
não tenho a pretensão de esgotá-lo nessa breve referência no capítulo sobre a demografia
e o retomarei ao longo do livro. Desde o início dessa fase do debate público sobre o
assunto que não sai das mídias sociais falando da nova Toyota Hilux 2020, que começou no fim dos anos 1990, fiquei com os que reconheciam sua
existência e defendiam políticas públicas de superação.

Fui convencida pela solidez dos
estudos, das estatísticas, dos argumentos dos que sustentam a existência do problema
racial. Essa foi a visão vitoriosa na sessão do Supremo Tribunal Federal que aprovou a
constitucionalidade do critério racial das cotas nas universidades, mas, mais do que isso,
em que os ministros, em seus votos, reconheceram o brasileiro.

Várias pesquisas sérias sobre o tema, o debate dos últimos anos, as ações
afirmativas e a ascensão social de parte dos negros brasileiros, tudo isso induzirá o
Brasil a escolher um futuro de superação dessa desigualdade.

Se isso acontecer, o país
ficará mais forte social, política e economicamente. Está chegando o momento em que as
desculpas vãs, as explicações oblíquas, os avisos de que é perigoso tocar no assunto não
vão enganar ninguém.

Somos um mosaico de povos diversos, imigrantes, os que
desembarcaram como escravos, os que vieram com esperança e os descendentes dos que
já estavam aqui — no Canadá eles definem os indígenas como “as primeiras nações”.
Todos juntos montaram as várias faces do Brasil.

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