Redelabs – Caminhos brasileiros para a Cultura Digital Experimental

Em outro post, falei sobre dois modelos lembrados com frequência quando se fala em laboratórios de mídia. Para o nosso contexto aqui no Brasil, esses exemplos externos são importantes menos por suas características específicas – infra-estrutura, funcionamento, costura institucional ou metodologias – do que por sua adequação às características do contexto em que se inserem. Também levantei nesse texto anterior que uma certa sensação de liberdade pode ser o elemento que esses modelos diferentes têm em comum. Como a proposta do projeto redelabs é promover o diálogo entre essas iniciativas de todo o mundo com o que é interessante e possível fazer aqui no Brasil, quero começar a desdobrar um pouco das nossas particularidades, e pensar em como isso pode apontar caminhos futuros. Abaixo eu tento relacionar alguns fatos, eventos, estruturas e redes que têm alguma relação com isso. Estou certamente bastante limitado à minha própria experiência, e adoraria receber comentários e sugestões sobre o que mais for relevante.

Tecnologias enredadas no Brasil

Nos anos recentes, as tecnologias de informação e comunicação se desenvolveram em um ritmo bastante acelerado, disseminando-se por praticamente todas as áreas do conhecimento. Os brasileiros viramos recordistas no tempo mensal de uso de internet, especialmente com o uso em massa de redes sociais – uma tendência que seria vista em todo mundo alguns anos depois do que por aqui. As tecnologias em rede fazem cada vez mais parte do imaginário – mais um motivo para experimentação, crítica e reflexão. Grande parte dos programas de inclusão digital do terceiro setor e do setor público também já entenderam que sua missão não pode estar limitada a oferecer acesso e atuam na dinamização de projetos, formação de público e desenvolvimento do potencial de jovens criadores.

Em particular, cresceram de maneira significativa as ações no cruzamento entre arte, ciência, tecnologia e sociedade. Uma quantidade cada vez maior de espaços, eventos, redes e programas dedicam esforços a promover reflexão, produção e a articulação na área – costurando atuação entre as instituições culturais e artísticas, a academia, os coletivos independentes, o governo e a indústria. Artistas, produtores, estudantes e curiosos têm cada vez mais oportunidades para se conhecer e aprender uns com os outros. Não só brasileiros – frequentemente, os eventos realizados aqui contam com a presença de nomes importantes do mundo todo, enquanto eventos de todo o mundo também convidam representantes brasileiros. Instituições de naturezas diversas têm fomentado a criação e exibição de projetos críticos e engajados, reconhecendo a relevância dessa produção. O mesmo em eventos como o FILE, o Emoção Art.Ficial, o Arte.Mov, a Submidialogia e tantos outros. No Brasil ainda não existe uma visão clara de circuito, mas grande parte dessas iniciativas operam em parcerias informadas. Estratégias conjuntas já parecem estar no horizonte, é só questão de criar os mecanismos adequados.

Uma particularidade: “mídia” e “laboratório”

Eu demorei para prestar atenção nisso, mas é emblemático que aqui no Brasil a gente fale em “a mídia” como uma palavra no singular. Talvez isso seja um eco dos tempos em que praticamente o único meio de comunicação relevante era aquela grande emissora de televisão. Talvez tenha a ver com a tendência que os meios de comunicação de massa têm ao uníssono, ao alinhamento e à falta de diversidade. De qualquer forma, às vezes me dá a impressão de que usar o termo “mídia” para identificar esse tipo de experimentação convergente para a qual queremos propor caminhos acaba por limitar bastante sua compreensão: muitas pessoas pensam que se trata de “fazer vídeos”, ou então de “fazer meios de comunicação alternativos” – o que é necessário, mas não é o foco aqui. Um assunto sobre o qual todo mundo acha que precisa tomar uma posição clara a favor ou contra acaba tendo pouco espaço para aquele tipo de liberdade sobre o qual eu falava antes. Por isso a tentativa de desviar um pouco do foco na mídia e concentrar mais nas possibilidades de intercâmbio entre espaços de articulação, ou laboratórios.

Semana passada no Labtolab, Gabriel Menotti me falou que achava a ideia de laboratório tão ou mais complicada que a de mídia. Concordo que alguns dos significados geralmente atribuídos a laboratórios são realmente difíceis (falei sobre eles no outro post – exclusão, ênfase em infra-estrutura, desconexão com a realidade lá fora). Mas ainda assim, muitas interpretações são possíveis. Tentando equacionar uma construção que vá além da ideia disseminada de laboratórios de mídia, prefiro manter o termo que permite uma maior flexibilidade de interpretação.

Raqueando estruturas

Talvez porque até há pouco tempo não existia quase nenhuma possibilidade formal de financiamento de projetos experimentais, as pessoas interessadas na área aprenderam a ocupar todo espaço possível, mesmo em projetos com outras naturezas. Um exemplo emblemático é o papel que o SESC de São Paulo exerce há alguns anos – como um dos únicos espaços que abrigavam um tipo de experimentação que se posicionava entre o ativismo midiático e a educação. Muita gente começou ou desenvolveu a carreira oferecendo oficinas no SESC. Um caso próximo (entre dezenas ou centenas desenvolvidos por conhecidos): entre janeiro e fevereiro de 2007, eu organizei com Ricardo Palmieri o LaMiMe – Laboratório de Mídias da MetaReciclagem. Foi uma ocupação temporária da sala de internet do SESC Avenida Paulista, que ofereceu oficinas sobre eletrônica básica e hardware livre (arduinos, etc.), software livre (pd, cinelerra, ardour, etc.) e outras. Foi uma oportunidade excelente para troca de conhecimento e para conhecer gente nova. Mas o formato de oficina condiciona as trocas para um lado mais instrumental e pontual, e coíbe um pouco o ritmo mais caótico e despretensioso da descoberta. Por mais que se beneficiem mutuamente, a educação e a experimentação têm objetivos e naturezas distintas, e é necessário que aconteçam com respeito a essas diferenças.

O mesmo pode ser visto no contexto dos Pontos de Cultura: pessoas interessadas em desenvolver projetos experimentais mas que por força dos formatos possíveis acabaram se submetendo à lógica educacional. Repito: oficinas são fundamentais. Mas não são tudo.

Propondo novos caminhos

Em vez de ficar sempre tentando encontrar brechas nos formatos possíveis, precisamos pensar em quais são os formatos que podem dar conta de equilibrar a diversidade de necessidades pessoais, artísticas, institucionais e sociais.

Outro post aqui nesse blog debateu a questão da experimentação e da incorporação do erro dentro do processo. Em um desdobramento daquela conversa na rede MetaReciclagem, eu citei uma imagem que Ivana Bentes trouxe para o debate Arte Open Source (com Giselle Beiguelman e André Mintz, na última Campus Party): “a obra é o lixo do processo artístico”. O fato de grande parte dos mecanismos de apoio à arte ainda se basearem na ideia de obra pode ser uma das causas pelas quais existe mais competição do que colaboração. Como fazer para trazer essa dimensão do processo para dentro do ciclo? Hoje em dia, um espaço que tem recebido reconhecimento pela inovação e relevância é o Eyebeam, em Nova Iorque. Um dos formatos com os quais eles trabalham são as fellowships, bolsas concedidas para artistas destacados, não necessariamente ligadas a um projeto específico. Será que isso é um caminho interessante? Certamente, nos últimos anos têm aparecido oportunidades similares aqui no Brasil. Só para citar algumas: as bolsas da Funarte, que desde o ano passado reconhecem a cultura digital como uma área de investigação e produção, ou o programa Rumos do Itaú Cultural. Também o Prêmio Sergio Motta, o novo File Prix Lux e alguns recentes prêmios do Ministério da Cultura propõem questões próximas. O Minc ainda criou no ano passado o projeto XPTA.Labs, que se posiciona de maneira bastante incisiva na questão experimental, e justamente nessas semanas deve estar saindo o resultado do edital de Esporos de Cultura Digital, que também se propõe a apoiar espaços de articulação e produção.

Um pouco do meu pé atrás em propor uma política centrada em laboratórios parte do princípio de que a falta de infra-estrutura – equipamentos e acessibilidade – não é mais o maior obstáculo à produção. O coordenador de um laboratório de mídia europeu há pouco comentou comigo que está encarando um problema grave: o espaço e a infraestrutura de sua organização vão triplicar nos próximos anos, mas o orçamento para atividades deve diminuir em 30%. Ele questiona hoje em dia a retórica de infraestrutura que usou para conquistar apoio institucional em seu contexto. O que acho que faz mais falta aqui no Brasil é a falta de mecanismos adequados para a troca, exibição, formação de público e – é claro – sobrevivência. Estamos em um momento em que temos abertura para propor esses mecanismos.

Daí vêm algumas perguntas que tenho repetido nas últimas semanas para algumas pessoas, e que quero fazer também a qualquer pessoa interessada no assunto:

  • Faz sentido pensar em um projeto que tenha por foco apoiar e desenvolver ações de cultura digital experimental? No que ele deveria consistir?
  • Como ir além do modelo de laboratório de mídia? Acesso à internet, equipamentos para produção e espaços de encontro estarão cada vez mais disponíveis. Se é possível fazer cultura digital experimental em uma livraria que ofereça internet wi-fi, no próprio quarto ou na garagem de casa, o que um espaço que se dedica a isso precisa ter para atrair as pessoas e fomentar a troca e a produção colaborativa?
  • É possível construir uma conversa realmente colaborativa entre laboratórios? Pensar em um cenário em que as diferentes instituições e grupos envolvidos se proponham a, mais do que demandar recursos, também oferecer partes de sua estrutura, conhecimento aplicado e oportunidades de apoio para uma rede aberta de laboratórios de cultura digital experimental. Mais do que residências, promover itinerâncias e nomadismo comunicante pode ser uma boa.
  • Qual a necessidade que temos hoje em dia de infra-estrutura? O Minc está caminhando no sentido de interligar seus espaços com fibra ótica – o que cria uma possibilidade de uso de banda larguíssima para experimentação e projetos. O que é possível propor em uma estrutura interconectada dessas?

Ideias, correções ou sugestões? Aguardo demonstrações de interesse e comentários abaixo.

9 comments

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  2. pensando a partir da primeira pergunta:

    Faz sentido pensar em um projeto que tenha por foco apoiar e desenvolver ações de cultura digital experimental? No que ele deveria consistir?

    a primeira coisa que sou levado a pensar é em economia da cultura, economia da dádiva e da abundância. Já se sabe um pouco como isto pode ser mais interessante que a economia da escassez, mas ainda tem tudo a ser desvelado.
    Pois bem, da maneira que venho pensando, o caso é inventar (experimentalizar) um modelo de circulação de riquezas. inventar um ciclo de libertação das riquezas disponíveis. A atenção necessária, é o foco na liberação, que as riquezas já existem. Daí, o processo é que passa a ser o jogo a ser jogado.

    abraço
    pedro

  3. Salve FF, quanto tempo, hein? Satisfação ver sua reflexão, que me fez pensar noutras coisas também, para depois mais embaixo ir direto às suas perguntas. A ‘migração’ do ‘foco na mídia’ para ‘as possibilidades de intercâmbio entre espaços de articulação, ou laboratórios’ te traz uma dificuldade, no meu entender, em termos de poder de convencimento de certas agentes que possam a vir a financiar o que é necessário. Usar o ‘foco na mídia’ tem ainda um poder de argumentação que é talvez mais palpável, talvez pragmático inclusive por causa da decadência em praça pública dos formatos comerciais dessa mídia. :-))

    O sujeito tende a saber do que se está falando quando o que se coloca na roda de discussão é produção áudio-visual: todo o debate sobre política de visibilidade, afirmação de identidade, diversidade, etc.

    Por outro lado ‘pensar em um projeto que tenha por foco apoiar e desenvolver ações de cultura digital experimental’ permite explorar a necessidade de canais de expressão também, talvez explorando o belo-político, estética e política, imaterialidade e política, não sei.

    Mas o certo é que esses laboratório, pelo que entendi do que você escreveu, sempre serão laboratórios de mídia. O que me parece interessante de pensar é como, sendo laboratórios de mídia, eles poderiam ser e fazer TAMBÉM. Vejo algumas possibilidades: interações para a troca de experiências artísticas e de artistas; interações/ocupações urbanas em centros deteriorados; espaços-tempo para trocas com professores universitários, com mestres de cultura popular, com pensadores autônomos (a semelhança com os diálogos da casinha não é mera coincidência); …

    Acho possível a instauração dessa conversa colaborativa de que você se pergunta. Mas eu tenho pra mim que o modelo precisa de certa maneira deixar claro que a relação possível de se estabelecer é a de ganha-ganha. Isso pode parecer meio mercenário, mas não é. Tô querendo dizer que minha impressão é que o impulso à colaboração, ao exercício do dom precisa ser motivada por certas garantias de satisfação também, e que não são somente de ordem subjetiva. Ser ouvido e considerado, por exemplo, ou ter sua produção levada em conta, mesmo que essa produção seja subjetiva, é uma condição de participação bem objetiva. Tô me fazendo entender? E fórmula pra isso não é fácil de achar. Tem muito a ver com os sujeitos que você chama para sua casa, aquelas pessoas que você sabe que no final da tarde do sábado vão estar na sua casa compartilhando, rindo de verdade, trazendo alguma coisa do coração e de coração aberto para receber também.

    Vou ficando por aqui, já escrevi demais?
    abs
    Lula

  4. massa efe,

    estou elaborando uns questionamentos/ações, mas de imediato: a cultura digital experimental não está diretamente proporcional à infra-estrutura, mas às conexões entre os saberes das pessoas e de seus processos, experimentos, que se tenha acesso não só para observar, mas para tocar, sentir.

    depois comento mais,

    valeu pela iniciativa.

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  8. Parece-me que o modelo de Labs está sendo superado por estruturas mais interessantes que implicam a formação de redes temporárias de criação que podem resultar em outras ações criativas, propondo novos modelos econômicos, como o Circuito Fora do Eixo p. ex. Talvez fosse importante discutir como fomentar a proliferação desse tipo de equipamento-dispositivo, em detrimento da aposta em centros de fomento à produção em si.

    Outro ponto que me parece importante frisar é que a noção de cultura digital tornou-se redundante. Vivemos um processo de digitalização da cultura em todos os níveis e que é transversal. Isso posto, estamos falando de cultura e ponto. A isonomia entre inclusão digital e inclusão social foi rompida. Vivemos em um país em que o perfil do acesso social à Internet é feito majoritariamente pelas classes C e D e em que 49% da população acessa a Internet a partir de Lan Houses.

    Essas pessoas estão fazendo uma revolução silenciosa e implantando GatoNets sem pedir licença e acessando paraísos conformados das telecomunicações — as tvs a cabo com seus pacotes cheios de mesmice.

    Como transformar esses espaços em dispositivos de ação criativa? Ou melhor, como combinar as nossas expectativas com esses bolsões de emergência, orientados para outra constelação cognitiva?

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