Entrevista com Rachel Rosalen e Rafael Marchetti – idealizadores e coordenadores do rural.scapes

Em junho de 2015 fiz uma visita ao rural.scapes – laboratório em residência que acontece na Fazenda Santa Teresa, em São José do Barreiro (SP). Entre os dias 19 e 25 entrei no processo de imersão e acompanhei o cotidiano do lab, observei e registrei conversas com os artistas selecionados, os gestores e a crítica de arte. Na volta fiz um post comentando algumas questões que me chamaram a atenção nesta experiência. Compartilho agora um resumo da nossa conversa. 

Fotografias por Manoela Cardoso. 

>>Início do projeto

Rachel Rosalen: O projeto surgiu em 2013 a partir do fato de que tínhamos esse espaço para pensar e trabalhar. Começamos vindo para São José do Barreiro e a Fazenda Santa Teresa em 2010, e encaramos uma fazenda que era produtiva mas estava numa situação muito precária. Vindos da cidade, com situações urbanas muito fortes, o translado a uma situação rural fez com que pensássemos muitas coisas. Esse enfrentamento com o meio, com a natureza, com a cultura local nos fez repensar os modelos com os quais estávamos trabalhando, o meio urbano, a origem das coisas consumimos na cidade e como as consumimos. Tinha um gap muito grande entre escrever projetos para editais, trabalhar com materiais e tecnologias que se encontram na cidade, e o grande deslocamento para o meio rural com falta de telefonia, falta de internet, as distâncias e o tempo que leva até você chegar na cidade. E a fazenda tem que ser produtiva para se sustentar, então tudo isso trouxe para nós situações novas.

Rafael Marchetti: Como artistas participamos de várias residências e isso fez uma grande diferença em nossa trajetória. Por outro lado, essa estrutura era muito grande para simplesmente vir aqui e passar dois dias. E também tivemos a intenção de aproximar esses dois mundos, pois eram coisas totalmente distantes. O que a residência faz é uma tessitura, de alguma maneira junta esses mundos paralelos, cria um território comum, vira uma interface entre o meio urbano e o meio rural.

>>A residência

Rafael: Depois de um tempo de trabalhar com comunicação, design gráfico, internet e multimídia, e ter uma relação esporádica como artista em residência, reconheci a importância do deslocamento físico, de sair do lugar da cidade onde estamos saturados para administrar e compreender esse espaço, a dialética, a metalinguagem do entorno. Para nós, como artistas que trabalham sempre nas grandes cidades e capitais, tudo isso trouxe um confrontamento com este local. Todo este território, que em um primeiro olhar significava para nós a inocência da natureza, da liberdade, do calmo, do silencioso, não foi nada disso. A roça não é silenciosa e nada calma, é muito física. E ainda temos uma base militar aqui do lado. Caiu por água baixo todo esse romantismo. E aí começamos a observar que poderia ser criada outra camada sobre este território com artistas em residência. Foi assim que o programa começou a trabalhar nas idéias do urbano, do rural, do local, e ao compreendermos que essa experiência não é somente nossa, passamos a ter uma ampliação maior do território onde estamos.


 

>>Laboratório urbano-rural

Rachel: 99% dos artistas vieram de zonas urbanas. Essa chegada tem muito de experimentação e de um contato que não se tem na cidade. Não é somente ir para um lugar para produzir uma obra o projeto, já que aqui as condições são muito diferentes. Existe um deslocamento muito grande em termos de ferramentas e contexto de produção. Quando não tenho a ferramenta tenho que dar um jeito, e sempre vai ser necessário repensar e reinventar, aproveitando aquilo que se tem. A idéia do laboratório tem a ver com essa experiência.

>>Convocatórias e seleção– DIY rural

Rachel: Esse é o nosso segundo ano. O primeiro edital foi financiado pela Programa Rede Nacional Funarte de Artes Visuais na décima edição, para o qual mandamos uma proposta um pouco mais aberta. No primeiro ano nossa vontade já era de trabalhar com arte e tecnologia no meio rural, mas não sabíamos como iria circular esse edital, a qualidade das propostas, portanto decidimos deixar um pouco mais aberta a convocatória. O que marcou foi a ancoragem com o lugar e a idéia de que poderíamos (e gostaríamos) de ter oficinas e obras. Nosso compromisso com a Funarte era de no mínimo duas oficinas para a comunidade e acabamos realizando treze oficinas. Também fizemos quatro mesas redondas, três exposições, tudo isso gerou um movimento, uma onda muito grande que está reverberando nesse segundo ano. Também no ano passado decidimos que teríamos quatro projetos convidados e oito selecionados por edital. Chegaram projetos tão bons que nesse ano decidimos que todos os projetos selecionados seriam via edital. A convocatória de 2015 é mais específica e traz essa relação entre as tecnologias rurais, algumas muito arcaicas como trazer água, como tratar um animal, como lidar com uma planta e as tecnologias que consideramos mais urbanas ou ligadas a eletrônica e o digital.


 

>>Tecnologias tradicionais/rurais

Rachel: Fomos percebendo que aqui se criam tecnologias para resolver problemas específicos que não se buscam na cidade, porque o deslocamento pode levar uma tarde inteira e com os elementos que temos aqui se pode solucionar.

Rafael: Era impensável a gente oferecer equipamentos técnicos na roça, inclusive pelo custo. Também não nos interessava oferecer a realização de um projeto externo sem relação com o lugar. Desta forma fomos assinalando o que realmente temos aqui e confiando que os artistas iam perceber o valor disso. A primeira experiência foi muito importante para compreender melhor a abordagem com relação a tecnologia neste contexto, reconhecer as tecnologias locais, rurais, ver esse conhecimento tradicional que parece que nas cidades está perdido, e a relação do DIY – faça você mesmo. Aqui essa tradição é abundante. Cria-se uma ilusão de autonomia detrás do DIY mas existem várias outras questões, esse DIY é tratado fora, de certa forma, como compartilhamento mas traz uma dependência grande de acesso a equipamentos da grande indústria. Aqui existe essa tradição, mas o conhecimento é trabalhado em outros planos, não é um compartilhamento público na internet e pronto. Ao contrário, aqui se tem um conhecimento em tecnologia que para os olhos externos uma máquina resolve, mas de repente a máquina dá muito mais trabalho do que usar uma ferramenta ou outra. Ou tem um custo tão alto que não vale a pena. O rural traz de novo que as coisas podem ser feitas de outra forma.

 

Rachel: as tecnologias da roça, como agrárias, botânica, biologia, mesmo que aqui não tenham esse nome funcionam como valor de troca, com um valor econômico, o que faz uma grande diferença. Pensar a arte nessa situação é pensar que a troca é boa para todo o mundo, ela é aberta, gratuita. Fazemos eventos que chamamos fazenda aberta onde as pessoas da cidade podem visitar três vezes: no início, onde as coisas estão começando e conhecendo o contexto, depois com os projetos mais maduros e por último com os projetos finalizados.

>>Adesão da comunidade

Rachel: isso tem muito a ver com uma observação que fomos tendo dessa comunidade, da convocatória, do que se tem aqui como saberes, como cultura, e de como integramos isso dentro das convocatórias. O projeto nos ajudou a criar mais raízes e nos conectar mais com o lugar em termos de comunidade. Criamos redes e a rede vem crescendo, não só pra fora, uma vez que recebemos muitas propostas internacionais, mas também está correndo nas vias locais.

Rafael: Também pensamos criar ações sociais onde a fazenda fique aberta e seja um atrator para que gente mais nova consiga voltar para o campo e ter experiências, começar a criar dinâmicas de volta para a roça.
 

>>Produtos e estratégias de documentação.

Rafael: o sistema operativo daqui que ano a ano se atualiza, iniciou num beta. Na experiência de cada ano a rede vai se ampliando, e dentro desse sistema a convocatória é fundamental. Aceitamos que a proposta inicial aprovada pelo júri até o final pode ser modificada, até de nome, mas tem que ter uma coerência com o projeto original. Já aconteceu de um artista propor fazer uma obra em quinze dias e acabou criando cinco. O projeto é muito liquido, não somos rígidos e isso acaba permitindo uma contenção que não é do controle, acaba criando uma ramificação das propostas originais. São processos sem uma exigência final. E depois quando isso é levado para um museu, para uma cidade, a pergunta sempre é “qual é a peça?” “A peça que está instalada lá no campo?” Então a documentação é muito importante, pois através das fotos, video e texto conseguimos amarrar e criar uma imagem para um público que não está aqui. E aí vem toda a questão de arquivo, de colocar o material todo que já temos nos canais de internet que já temos e depois espelhar no Archive.org, que trabalha sobre o arquivamento de internet, e assim não depender das grandes companhias para preservar nossa memória.

>>Trocas e parcerias

Rachel: acontecem parcerias entre os artistas e locais, por exemplo Zé Mineiro, que trabalha na fazenda colaborou em vários dos projetos, encontrou soluções e mostrou, e com certeza também incorporou coisas e sistemas que estavam sendo desenvolvidos… esse tipo de intercâmbio para nós faz completamente parte do projeto. Dona Cida na cozinha traz um saber sobre as plantas, as ervas, as sementes, que de alguma maneira vão afetar projetos como o de Aniara Rodado e outros artistas que trabalham com plantas… essa mistura nos interessa muito. Crianças e adolescentes encontram os artistas, os processos, e também as pessoas mais velhas da comunidade mas dentro de uma outra condição, o que gera uma renovação do conhecimento. O projeto aqui pode ter várias camadas ou decorrências que não poderia imaginar, muitas vezes as pessoas que vem não se conhecem. Essas parcerias foram muito interessantes e bonitas de ver acontecer. Porque o processo de imersão na fazenda, na casa, na cidade, nas conversas cotidianas foi gerando interações e projetos de performance conjuntas, onde um ajuda o outro, etc. No ano passado e nesse nasceram parcerias entre os artistas participantes. Essa é outra formação de rede.

>>Documentação

Rachel: O trabalho de documentação em vídeo está sendo realizado por Manoela Cardoso e a crítica Ananda Carvalho desde a edição passada vem construindo textos e acompanhando o processo de produção dos artistas e da relação com o lugar. Temos várias maneiras de elaborar o que está sendo processado: uma é o artista falar sobre seu trabalho e trajetória, outra é uma entrevista sobre o processo de produção, e outra é o olhar de fora de acompanhar e elaborar dentro de um conceito maior que a gente está trabalhando, isso é feito por Ananda. No ano passado os críticos ficavam 4 dias, mas entendemos que para essa edição seria importante estar durante todo o processo dos 15 dias, tendo um contato cotidiano com os artistas e as obras.

>>Políticas públicas e fomento

Rachel: Existem editais, tanto que em 2013 ganhamos o Programa Rede Nacional Funarte de Artes Visuais 10′ edição e em 2014 dois prêmios PROAC em São Paulo. Mas fomos obrigados a renunciar a um dos PROAC pois não era possível obter os dois ao mesmo tempo. Um programa de residência precisa de continuidade. Nas políticas públicas a dança, teatro, cinema e música tem predominância. O que se tem para Artes Visuais é só um edital por ano. Se houvessem mais possibilidades, dobraríamos o número de projetos e residentes. Isso cria um gap de tempo, um ano de diferença. Quando terminamos o projeto no ano passado, íamos a São José do Barreiro e as crianças vinham correndo para perguntar “quando vai ser o próximo? Semana que vem?” Semana que vem não dá, mas poderia ser um a cada semestre, ou de três em três messes, mas para isso as políticas teriam que privilegiar menos a falsa democratização de pensar que um proponente poderia ganhar um projeto por ano, porque isso não sustenta ninguém, e sim pensar na qualidade dos projetos.

Rafael: A Funarte tem a política de não premiar o mesmo candidato durante dois anos seguidos, mas se o prêmio for para criar redes isso é uma contradição… uma rede não se segura sem financiamento.

 

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