Posts Tagged ‘laboratórios de mídia’

Plenária do eixo arte digital – relatoria

domingo, julho 4th, 2010

Pesquisando o processo construído colaborativamente no Fórum de Cultura Digital sob a coordenação de Cícero Silva, encontrei um post de Henrique Costa resumindo a plenária. Alguns pontos ali certamente têm relação com a conversa de redelabs:

  • Política de criar uma universidade aberta de arte digital. Pólos da Universidade Aberta do Brasil (UAB) podem ser os mídia labs e Minc daria suporte às prefeituras. Cultura de educação à distância. Cursos de arte digital têm que ser livres. Pensar na linha da educação à distância. É mais fácil entrar nas prefeituras do que nas universidades.
  • Mídia labs funcionando 24h.
  • Artista administra o Pontolab.

Mais aqui.

O relatório final do Cícero aprofunda alguns desses pontos de maneira bem articulada, mas vou deixar isso pra outro post.

Modelos e Perspectivas – Empyre

segunda-feira, junho 28th, 2010

Passei uma tarde da semana passada relendo o debate sobre Modelos e perspectivas para Centros de Mídia e Organizações de Arte em Rede moderado por Marcus Bastos em agosto de 2008 na lista Empyre. Na época eu estava cadastrado na lista, mas a vida estava uma correria e não consegui participar muito.

Marcus Bastos começou o debate com uma citação de Ned Rossiter:
existe uma necessidade urgente de novas formas institucionais que reflitam processos ‘relacionais’ para fazer frente a sistemas existentes de governança e estruturas representacionais ultrapassadas.

E na sequência fez referência ao texto de Michael Century, Pathways to Innovation.

Vale a pena ler o arquivo completo da discussão, mas escolhi alguns trechos interessantes, abaixo. Não me preocupei em manter a coerência das discussões, só pincei alguns parágrafos que podem ser relevantes na conversa sobre Redelabs. A tradução é minha, e com pouca revisão – deve ter alguns equívocos ou falhas.

Marc Garrett

a cultura é uma interface fluida, complexa e diversa, sempre em transformação e dinâmica. A chave é saber como nós, praticantes, podemos nos tornar agentes mais ativos dentro dessa interface múltipla. Se nós como agentes ativos estamos mais conectados, envolvidos nessa interface cultural para transformar contextos sociais através de nossas práticas criativas, então nós estamos transformando nossa cultura e sua interface.

Anna Munster

(…) os artistas terão dificuldades no futuro. Especialmente artistas jovens que não foram ‘adestrados’ no funcionamento das instituições e não necessariamente sabem como jogar o jogo duplo, ou seja, falar no jargão para obter dinheiro e depois fazer suas coisas. Se dão melhor aqueles artistas que se consolidaram nos confortáveis centros de pesquisa em arte-ciência dos anos noventa e vão obter os recursos porque sempre foi assim. A vantagem é que o trabalho deles geralmente é entediante, então talvez possamos ignorá-lo ;-) .

Marc Garrett

Talvez o mundo das ‘belas artes’ tenha dificuldades para ver a diferença entre arte-mídia e o trabalho digital criado sob o guarda-chuva das ‘Indústrias Criativas’.

Gabriel Menotti

Para ver o trabalho de outras pessoas (sejam imagens dele ou os próprios trabalhos/processos, desde que enredados), eu só preciso me conectar. A quantidade de recursos necessária para conectar-se é muito menor do que o necessário para viajar, por exemplo.

Simon Biggs

Um pouco de promiscuidade entre departamentos, instigado e acompanhado no nível dos indivíduos envolvidos, mas com os apoios institucional e de pesquisa necessários para fazer as coisas acontecerem, parece ser a receita de sucesso.

Na ciência isso não é nenhuma novidade. O novo é que os criativos podem agora juntar-se à festa com alguma coisa nas mãos. Isso estabelece uma sensação de equidade entre os diversos envolvidos que facilita muito a colaboração. A questão é se esse tipo de oportunidades será sustentado e aonde ele pode levar em dez anos.

Anna Munster

Eu sei que parece que a gente saiu um pouco da questão dos centros de mídia para redes e sustentabilidade, mas acho que existem conexões importantes. A conexão está no tipo de centro de mídia que queremos construir e imaginar para uma época vindoura em que a ‘tecnologia’ – como usada e abusada nos anos noventas – não será tão sustentável. Isso pode significar que aqueles ‘centros’ previamente dedicados a grandes projetos vão desaparecer e que nodos menores e mais distribuídos vão virar os lugares quentes… embora eu não tenha ido ao Node.London, eu acompanhei suas atividades à distância e acho que foi uma tentativa preliminar de fazer exatamente esse tipo de coisas.
(…)
De fato, ainda existe a sensação de que as novas mídias – com exceção de alguns bolsos – é curada fora das estruturas hegemônicas do mundo da arte, especialmente os circuitos de bienais e festivais. Mas eu ainda vejo terríveis curadorias de novas mídias por gente de novas mídias que continua priorizando a tecnologia como temática que sustenta as novas mídias. Então aqui diferentes estruturas hegemônicas estão trabalhando – a hegemonia das instituições artísticas e/ou a hegemonia de certas modas e formas, como os games. Apesar de que no fim das contas as duas hegemonias estão conectadas a questões de dinheiro!

Marc Garrett

Eu acho que o interessante no Node.London – que foi uma curva de aprendizado impressionante, mas também uma experiência dolorosa ao mesmo tempo – é que ele foi muito grande. Mesmo que houvesse muita rede, conexões e coisas distribuídas acontecendo ao longo do mês com mais de 150 projetos, e 40 nodos por toda Londres – na verdade havia uma atitude centralizada e uma conexão organizacional centralizada de pessoas, chegando até a cerca de 30 organizadores. Todos os outros se envolveram mais como nodos e espaços regionais, consistindo em parceiros. Esses parceiros eram instituições como o Tate, o Science Museum, o ICA, a Universidade Birkbeck, que ofereceram seus espaços para conferências, discussões on-line e como centros de encontros. Organizações menores como a nossa galeria (que na verdade é uma garagem), a Limehouse, Eventspace, Mediaspace, Area10 e mais um monte.
(…)
O maior problema foi que era um território novo para todos nós. Para algo assim funcionar melhor, eu acredito que deveria ser diverso em termos de infraestrutura, com nodos conectando-se uns aos outros durante o ano todo. Compartilhando recursos continuamente e compartilhando informação e ideias sobre como manter uma conexão menos centralizada. Eu penso que teria que ser um processo informado mais naturalmente que deixasse as coisas desenvolverem-se em estágios diferentes em tempos diferentes, localmente. Incluiria-se aí o uso ecológico e alternativo de tecnologias como um impulso mútuo, com habilidades compartilhadas e pagamento de acordo. Ideias mais abertas e encontros de vez em quando para lidar com necessidades locais em vez de objetivos gerais.
(…)
Eu sou muito otimista com as possibilidades de como as conexões podem ser mais funcionais, práticas e acessíveis entre as práticas das belas artes e da mídia-arte.

Simon Biggs

Precisamos nos perguntar por que os centros de mídia e as redes existem. Qual seu propósito? Eu argumentaria que um elemento chave em suas missões é estimular a criação de novas audiências para novas formas de arte, encorajar novas formas de engajamento público e questionar as frequentemente moribundas dinâmicas entre todos da área, sejam artistas, curadores, teóricos ou consumidores. Certamente, para mim, a razão principal para trabalhar com novas mídias é que elas oferecem novas modalidades de engajamento interpessoal. As práticas das novas mídias têm como fundamento uma conceitualização dos meios artísticos que exigem que sejam constantemente desafiados e questionados para que novos tipos de arte e novos relacionamentos entre pessoas possam ser forjados.

Johannes Birringer

[Posso falar da] minha própria experiência como diretor ou instigador de um laboratório de verão anual em uma pequena região no sudoeste da Alemanha onde se localiza o nosso Interaktionslabor.

Nós o temos realizado por seis anos, inicialmente apoiados pelo governo da região, e depois de dois anos nos tornamos autônomos e agora operamos de baixo para cima. A cada ano temos vinte ou mais artistas que se reúnem e trabalham intensamente no local por algum tempo. Não só artistas – nós recebemos qualquer pessoa interessada em “interação” (não exatamente a mesma coisa que a interatividade técnica, mas nós trabalhamos bastante com possibilidades de design de interface e comunicação).

A experiência de trabalho tornou-se uma experiência social e espiritual cristalizante. Ou seja, reunir artistas e desenvolvedores de software, performers, escritores com muitos backgrounds diferentes (culturais e profissionais). Isso trouxe algumas questões que não conseguimos resolver totalmente. Uma delas é a localização do lab e seu relacionamento com o desenvolvimento de infra-estrutura regional (envolvendo economia, e o interesse de alguns daqueles que inicialmente nos apoiaram e que acreditavam que a gente desenvolveria aplicações práticas e faria algum dinheiro). Também a questão de envolver audiências ou vizinhanças (o lab está localizado em uma mina de carvão e o vilarejo adjacente não se preocupa muito em pensar na gente)… quando convidamos o público, os artistas midiáticos ou as audiências interessadas em tecnologia vêm da cidade ou de ainda mais longe, mas ainda não está claro se os habitantes da região se preocupam muito com arte midiática ou arte digital.

Então a gente tentou várias táticas – convidamos salas de aula e educadores, trouxemos artistas convidados de passagem, convidamos observadores, a TV e o rádio, publicamos livros e catálogos (que não vendem, então a gente os distribui), temos um website, e trabalhamos em rede, e levamos o lab para outros lugares (fomos convidados a ir ao Brasil). E criamos peças que podem ser vistas em outros lugares, espaços, contextos, podem ser disseminados como objetos de mídia baseados em telas ou projetos online.
(…)
Como nos relacionar localmente com “nossos” espaços de arte midiática, ou gerá-los, e como nos relacionar globalmente com outros que a gente possa conhecer. Existe intercâmbio, cooperação? Existe um ‘circuito de festivais’ como existe nas disciplinas ‘hegemônicas’?

Marc

Estamos todos enfrentando a urgência de precisar que algo seja formulado e usado de modo que nós e outros possamos construir ou lidar com questões contemporâneas, ou outras. Mesmo que tenhamos o uso da internet para suportar nossos fóruns e ideias, estamos divididos por muitos fatores diferentes que têm a ver com nosso condicionamento social. Isso evita que a gente trabalhe junto tão bem quanto poderia. Precisamos de mais exemplos e modelos concretos de trabalho além de projetos que desafiem e critiquem. Estar engajado criticamente nem sempre ajuda, quando se trata somente de questionar e não de realmente oferecer alternativas fora das armadilhas em que estamos todos presos atualmente.

Johannes

Alguém pode perguntar qual é o relacionamento entre uma galeria ou organização independente como o Furtherfield e, digamos, o Culture Lab em Newcastle (parte da universidade) ou o Media Lab do MIT ou outros labs ligados a universidades (o Senselab está dentro da universidade?). Como as galerias ou labs que oferecem oportunidades de residências e exposições para artistas emergentes se relacionam, ou negociam, com as atividades discursivas e de pesquisa nas universidades (onde as ‘narrativas de pesquisa’ são frequentemente escritas). Onde se podem ler as narrativas de pesquisa dos independentes? Um grupo como o Transmute (ver aqui) poderia ter completado sua ambiciosa instalação de telepresença sem o financiamento e o suporte logístico de um monte de universidades?

Gisela Domschke

Eu aprecio muito o valor das organizações independentes, que existem pelo esforço do trabalho imaterial voluntário. Mas eu não acredito que isso signifique que o governo não deveria investir em ‘espaços abertos’ onde esses diversos nodos autônomos podem se encontrar e interagir.

Anna Munster

O Senselab não está baseado na universidade, mas está alojado na Sociedade de Arte e Tecnologia (SAT) em Montreal (que está alinhada de diversas maneiras com a Universidade de Montreal principalmente através do envolvimento de pessoal acadêmico nos dois lugares e através de alguns projetos co-financiados). A motivação para o Senselab era a princípio, acredito eu, fazer alguma coisa longe das restrições das agendas determinadas pela Universidade para produção de pesquisa. A motivação e o trabalho são totalmente voluntários, mas eles estão fazendo algumas coisas muito boas, incluindo organização de eventos, exposições e a nova publicação Inflexions cuja primeira edição foi sobre ‘pesquisa-criação’.
(…)
Eu prefiro um baixo nível de conhecimento técnico do que um baixo nível de conhecimento artístico! Essa questão de deixar a arte de fora dos programas universitários de arte e tecnologia acontece em todo o currículo atualmente e vai ser parte da problemática natureza futura da produção artística com inclinações técnicas. Até que a gente deixe de lado o atualmente limitado horizonte de educação universitária baseada em utilitarismo, não teremos uma boa interação entre arte e tecnologia com exceção de algumas pessoas que realmente acreditam no valor da história da mídia-arte, por exemplo…

Mas eu acredito sim que existam sinais em toda parte de que artistas, tecnólogos, produtores culturais e pensadores estão entediados desse modelo utilitário e que é por isso que pequenas redes sociais, festivais independentes, workshops, e até grupos de leitura estão voltando à ativa após o que parece ter sido um par de décadas esquecidos!! Então, eu me sinto esperançosa de que estamos vendo e ainda veremos arenas inteiramente novas e práticas de mídia-arte que incorporem essencialmente questões em dimensões éticas e sociais como absolutamente fundamentais (em vez de algo ‘para o qual’ se use a arte, por exemplo).

Danny Butt

Quando a gente discute ‘sustentabilidade’, eu me preocupo um pouco sobre as iniciativas de Universidades que parecem depender da visão de um único funcionário da Universidade sobre o potencial do “externo” à instituição, e que este indivíduo tenda a assumir o papel de tradutor de atividades independentes (frequentemente pouco alinhadas às prioridades da Universidade) em formatos reconhecíveis institucionalmente. Talvez esse acadêmico sinta então que mantém um certo nível de ‘pesquisa real’ para ganhar validação e obter suporte para as ‘outras atividades’. Existem algumas oportunidades táticas excelentes nesse tipo de trabalho para redistribuir recursos para projetos temporários (eu mesmo tento fazê-lo), mas me parece que existe algo faltando no nível de ‘sustentabilidade’, seja lá o que essa palavra horrível signifique nesse contexto.

Eu estou consciente de que esse tipo de ataques táticos à Universidade me parece menos importante do que a tentativa de alterar o tecido dela mesma fazendo-a mais aberta ao tipo de práticas inter e transdisciplinares que foram importantes para o meu próprio desenvolvimento. Esse é o trabalho um tanto lento de construir a agenda de pesquisa, ganhar registros de trilhas, obter financiamento, influenciar práticas de contratação. Resumindo, isso envolve a construção de uma comunidade dentro da academia, dentro dos termos internos à academia (de maneira crítica, é claro). E o trabalho fora da academia parece adquirir um papel mais específico como um ambiente de aprendizado coletivo através do qual eu me sensibilizo às limitações da própria academia que quero afetar. E talvez eu sinta que um pouco do meu (bem-intencionado) trabalho prévio tentando construir coisas fora da academia ao mesmo tempo em que trabalhava dentro dela sofria de uma falta de noção de realidade sobre meu próprio engajamento e capacidade de ocupar o mesmo espaço de alguém fora da Universidade.

Sally Jean Norman

Em termos de conexões institucionais, acadêmicas e públicas, o ZKM é engraçado – ou era, uma década atrás quando trabalhei lá. Ele tem/tinha conexões privilegiadas com a Universidade de Karlsruhe, uma das maiores e mais ricas da Alemanha, o que oferece um conjunto de conhecimento técnico para alguns projetos baseados em computação do ZKM, mas para artistas-estrelas do ZKM com seus próprios – e frequentemente anônimos – programadores pessoais, esse tipo de conexão não existia. Eu tive a sorte de trabalhar com um cientista da computação chamado Bernd Lintermann matriculado na Universidade que dessa forma foi parar no mundo da arte e interessantemente hoje dirige o Institute for Visual Media. A repercussão pública local era limitada às pessoas que atravessavam a rua de uma cidade muito conservadora; se não fossem atropeladas por um bonde ou desencorajadas pelo arame farpado em volta do prédio da Suprema Corte em frente ao ZKM (uma antiga fábrica de munição), eram sobreviventes curiosos. Os maiores públicos vinham de mais longe, direto do aeroporto de Frankfurt ou do outro lado da fronteira em Strasbourg para eventos prestigiados.

Sustentabilidade? Eu acho o termo em si sem sentido já que se trata de um enquadramento temporal – o que na França chamamos de conjuntura. Não é necessariamente um critério para mim a menos que estivermos falando de energias criativas. Sustentabilidade estrutural, organizacional ou institucional pode ser desejável mas pode ser altamente prejudicial. Sustentar a habilidade/agilidade de adaptação, de renegociar as relações, é crucial. O workshop do Senselab no Culture Lab no ano passado fez todo o sentido. Mas eu não tenho ideia se ele poderia acontecer novamente. Às vezes, para sustentar a energia criativa, a pessoa precisa abandonar a infraestrutura que era vital anteriormente. Panta rei. Desculpas para truísmos. Parte da busca de orientação.

Redelabs – Caminhos brasileiros para a Cultura Digital Experimental

terça-feira, junho 15th, 2010

Em outro post, falei sobre dois modelos lembrados com frequência quando se fala em laboratórios de mídia. Para o nosso contexto aqui no Brasil, esses exemplos externos são importantes menos por suas características específicas – infra-estrutura, funcionamento, costura institucional ou metodologias – do que por sua adequação às características do contexto em que se inserem. Também levantei nesse texto anterior que uma certa sensação de liberdade pode ser o elemento que esses modelos diferentes têm em comum. Como a proposta do projeto redelabs é promover o diálogo entre essas iniciativas de todo o mundo com o que é interessante e possível fazer aqui no Brasil, quero começar a desdobrar um pouco das nossas particularidades, e pensar em como isso pode apontar caminhos futuros. Abaixo eu tento relacionar alguns fatos, eventos, estruturas e redes que têm alguma relação com isso. Estou certamente bastante limitado à minha própria experiência, e adoraria receber comentários e sugestões sobre o que mais for relevante.

Tecnologias enredadas no Brasil

Nos anos recentes, as tecnologias de informação e comunicação se desenvolveram em um ritmo bastante acelerado, disseminando-se por praticamente todas as áreas do conhecimento. Os brasileiros viramos recordistas no tempo mensal de uso de internet, especialmente com o uso em massa de redes sociais – uma tendência que seria vista em todo mundo alguns anos depois do que por aqui. As tecnologias em rede fazem cada vez mais parte do imaginário – mais um motivo para experimentação, crítica e reflexão. Grande parte dos programas de inclusão digital do terceiro setor e do setor público também já entenderam que sua missão não pode estar limitada a oferecer acesso e atuam na dinamização de projetos, formação de público e desenvolvimento do potencial de jovens criadores.

Em particular, cresceram de maneira significativa as ações no cruzamento entre arte, ciência, tecnologia e sociedade. Uma quantidade cada vez maior de espaços, eventos, redes e programas dedicam esforços a promover reflexão, produção e a articulação na área – costurando atuação entre as instituições culturais e artísticas, a academia, os coletivos independentes, o governo e a indústria. Artistas, produtores, estudantes e curiosos têm cada vez mais oportunidades para se conhecer e aprender uns com os outros. Não só brasileiros – frequentemente, os eventos realizados aqui contam com a presença de nomes importantes do mundo todo, enquanto eventos de todo o mundo também convidam representantes brasileiros. Instituições de naturezas diversas têm fomentado a criação e exibição de projetos críticos e engajados, reconhecendo a relevância dessa produção. O mesmo em eventos como o FILE, o Emoção Art.Ficial, o Arte.Mov, a Submidialogia e tantos outros. No Brasil ainda não existe uma visão clara de circuito, mas grande parte dessas iniciativas operam em parcerias informadas. Estratégias conjuntas já parecem estar no horizonte, é só questão de criar os mecanismos adequados.

Uma particularidade: “mídia” e “laboratório”

Eu demorei para prestar atenção nisso, mas é emblemático que aqui no Brasil a gente fale em “a mídia” como uma palavra no singular. Talvez isso seja um eco dos tempos em que praticamente o único meio de comunicação relevante era aquela grande emissora de televisão. Talvez tenha a ver com a tendência que os meios de comunicação de massa têm ao uníssono, ao alinhamento e à falta de diversidade. De qualquer forma, às vezes me dá a impressão de que usar o termo “mídia” para identificar esse tipo de experimentação convergente para a qual queremos propor caminhos acaba por limitar bastante sua compreensão: muitas pessoas pensam que se trata de “fazer vídeos”, ou então de “fazer meios de comunicação alternativos” – o que é necessário, mas não é o foco aqui. Um assunto sobre o qual todo mundo acha que precisa tomar uma posição clara a favor ou contra acaba tendo pouco espaço para aquele tipo de liberdade sobre o qual eu falava antes. Por isso a tentativa de desviar um pouco do foco na mídia e concentrar mais nas possibilidades de intercâmbio entre espaços de articulação, ou laboratórios.

Semana passada no Labtolab, Gabriel Menotti me falou que achava a ideia de laboratório tão ou mais complicada que a de mídia. Concordo que alguns dos significados geralmente atribuídos a laboratórios são realmente difíceis (falei sobre eles no outro post – exclusão, ênfase em infra-estrutura, desconexão com a realidade lá fora). Mas ainda assim, muitas interpretações são possíveis. Tentando equacionar uma construção que vá além da ideia disseminada de laboratórios de mídia, prefiro manter o termo que permite uma maior flexibilidade de interpretação.

Raqueando estruturas

Talvez porque até há pouco tempo não existia quase nenhuma possibilidade formal de financiamento de projetos experimentais, as pessoas interessadas na área aprenderam a ocupar todo espaço possível, mesmo em projetos com outras naturezas. Um exemplo emblemático é o papel que o SESC de São Paulo exerce há alguns anos – como um dos únicos espaços que abrigavam um tipo de experimentação que se posicionava entre o ativismo midiático e a educação. Muita gente começou ou desenvolveu a carreira oferecendo oficinas no SESC. Um caso próximo (entre dezenas ou centenas desenvolvidos por conhecidos): entre janeiro e fevereiro de 2007, eu organizei com Ricardo Palmieri o LaMiMe – Laboratório de Mídias da MetaReciclagem. Foi uma ocupação temporária da sala de internet do SESC Avenida Paulista, que ofereceu oficinas sobre eletrônica básica e hardware livre (arduinos, etc.), software livre (pd, cinelerra, ardour, etc.) e outras. Foi uma oportunidade excelente para troca de conhecimento e para conhecer gente nova. Mas o formato de oficina condiciona as trocas para um lado mais instrumental e pontual, e coíbe um pouco o ritmo mais caótico e despretensioso da descoberta. Por mais que se beneficiem mutuamente, a educação e a experimentação têm objetivos e naturezas distintas, e é necessário que aconteçam com respeito a essas diferenças.

O mesmo pode ser visto no contexto dos Pontos de Cultura: pessoas interessadas em desenvolver projetos experimentais mas que por força dos formatos possíveis acabaram se submetendo à lógica educacional. Repito: oficinas são fundamentais. Mas não são tudo.

Propondo novos caminhos

Em vez de ficar sempre tentando encontrar brechas nos formatos possíveis, precisamos pensar em quais são os formatos que podem dar conta de equilibrar a diversidade de necessidades pessoais, artísticas, institucionais e sociais.

Outro post aqui nesse blog debateu a questão da experimentação e da incorporação do erro dentro do processo. Em um desdobramento daquela conversa na rede MetaReciclagem, eu citei uma imagem que Ivana Bentes trouxe para o debate Arte Open Source (com Giselle Beiguelman e André Mintz, na última Campus Party): “a obra é o lixo do processo artístico”. O fato de grande parte dos mecanismos de apoio à arte ainda se basearem na ideia de obra pode ser uma das causas pelas quais existe mais competição do que colaboração. Como fazer para trazer essa dimensão do processo para dentro do ciclo? Hoje em dia, um espaço que tem recebido reconhecimento pela inovação e relevância é o Eyebeam, em Nova Iorque. Um dos formatos com os quais eles trabalham são as fellowships, bolsas concedidas para artistas destacados, não necessariamente ligadas a um projeto específico. Será que isso é um caminho interessante? Certamente, nos últimos anos têm aparecido oportunidades similares aqui no Brasil. Só para citar algumas: as bolsas da Funarte, que desde o ano passado reconhecem a cultura digital como uma área de investigação e produção, ou o programa Rumos do Itaú Cultural. Também o Prêmio Sergio Motta, o novo File Prix Lux e alguns recentes prêmios do Ministério da Cultura propõem questões próximas. O Minc ainda criou no ano passado o projeto XPTA.Labs, que se posiciona de maneira bastante incisiva na questão experimental, e justamente nessas semanas deve estar saindo o resultado do edital de Esporos de Cultura Digital, que também se propõe a apoiar espaços de articulação e produção.

Um pouco do meu pé atrás em propor uma política centrada em laboratórios parte do princípio de que a falta de infra-estrutura – equipamentos e acessibilidade – não é mais o maior obstáculo à produção. O coordenador de um laboratório de mídia europeu há pouco comentou comigo que está encarando um problema grave: o espaço e a infraestrutura de sua organização vão triplicar nos próximos anos, mas o orçamento para atividades deve diminuir em 30%. Ele questiona hoje em dia a retórica de infraestrutura que usou para conquistar apoio institucional em seu contexto. O que acho que faz mais falta aqui no Brasil é a falta de mecanismos adequados para a troca, exibição, formação de público e – é claro – sobrevivência. Estamos em um momento em que temos abertura para propor esses mecanismos.

Daí vêm algumas perguntas que tenho repetido nas últimas semanas para algumas pessoas, e que quero fazer também a qualquer pessoa interessada no assunto:

  • Faz sentido pensar em um projeto que tenha por foco apoiar e desenvolver ações de cultura digital experimental? No que ele deveria consistir?
  • Como ir além do modelo de laboratório de mídia? Acesso à internet, equipamentos para produção e espaços de encontro estarão cada vez mais disponíveis. Se é possível fazer cultura digital experimental em uma livraria que ofereça internet wi-fi, no próprio quarto ou na garagem de casa, o que um espaço que se dedica a isso precisa ter para atrair as pessoas e fomentar a troca e a produção colaborativa?
  • É possível construir uma conversa realmente colaborativa entre laboratórios? Pensar em um cenário em que as diferentes instituições e grupos envolvidos se proponham a, mais do que demandar recursos, também oferecer partes de sua estrutura, conhecimento aplicado e oportunidades de apoio para uma rede aberta de laboratórios de cultura digital experimental. Mais do que residências, promover itinerâncias e nomadismo comunicante pode ser uma boa.
  • Qual a necessidade que temos hoje em dia de infra-estrutura? O Minc está caminhando no sentido de interligar seus espaços com fibra ótica – o que cria uma possibilidade de uso de banda larguíssima para experimentação e projetos. O que é possível propor em uma estrutura interconectada dessas?

Ideias, correções ou sugestões? Aguardo demonstrações de interesse e comentários abaixo.

Laboratórios de Mídia – referências

domingo, junho 13th, 2010

A ideia de laboratório de mídia é uma construção diversa e bastante genérica – e justamente por isso, com significados distintos. Muitos modelos diferentes usam esse nome: de grandes estruturas que se propõem a dar forma ao futuro da humanidade, até iniciativas de pequenos grupos que, em sentido complementar, promovem a apropriação crítica das tecnologias, buscando humanizar o desenvolvimento e uso destas. Além de dezenas de outros formatos que se inserem no contexto da educação, do uso comercial de novas mídias, da busca artística formal, etc. Este post pretende explorar dois modelos emblemáticos e relacionados: o Medialab do MIT e alguns laboratórios de mídia europeus.

O Medialab do MIT é uma das maiores referências de um modelo que propõe grandes estruturas, ligadas à indústria de tecnologia e à academia. Ele cumpre um papel bastante complexo, e por vezes contraditório. Por um lado agrega pessoas criativas de todo o mundo, que trazem toda sua bagagem de vivências e referências para um ambiente multicultural e inovador, onde têm acesso a uma estrutura técnica e de conhecimento sem comparação. Por outro lado, o Medialab se insere em um contexto bastante delicado: provê patentes e inovações em um contexto econômico e político que se baseia na transformação do cotidiano em comércio. Mesmo que muitos dos projetos desenvolvidos no Medialab estejam baseados no estímulo à participação e à inclusão social, muitas vezes sua estrutura acaba legitimando um estilo de vida (um futuro imaginário) baseado no consumismo, na comoditização da criatividade e na manutenção de desigualdades em nível internacional a partir de um regime de propriedade intelectual apoiado pelo estado. Para não falar na tendência a um papel professoral que fica no limite entre a arrogância e o messianismo. O Medialab criou duas subsidiárias internacionais – na Irlanda e na Índia – que fecharam as portas depois de poucos anos de atuação.

Já alguns laboratórios de mídia europeus foram formados com outras bases – relacionados à arte em novas mídias, e/ou dialogando com o ativismo midiático ligado à cena squatter dos anos noventas, com os movimentos altermundista, do copyleft e do software livre e com uma matriz de atuação hacker/DIY. Seguem também uma certa linhagem da contracultura europeia que tem suas raízes em 1968 e em tudo que veio depois daquilo. Ao longo dos últimos quinze anos, esses laboratórios conseguiram aproveitar o interesse institucional advindo da disseminação das tecnologias de informação e comunicação para viabilizar estruturas e eventos que trouxeram resultados positivos para o mundo inteiro. O contraditório desse modelo está em uma certa crise de identidade que assume quando a retórica política das indústrias criativas tenta cooptar suas práticas para transformar toda essa potência em meras oportunidades de espetáculo e exploração comercial, trocando a reflexão e o aprofundamento por um vício superficial na novidade tecnológica. Esses laboratórios lutam para encontrar o equilíbrio entre a dependência de recursos do estado/empresas e o quanto precisam ceder em troca.

Existem muitas diferenças entre esses dois modelos, mas é importante buscar aquilo em que elas convergem. Apesar das diferenças institucionais, é possível ver uma condição em comum entre as pessoas que atuam nesses dois contextos: uma certa liberdade, que tem pelo menos dois diferentes aspectos. O primeiro é a liberdade de definição de temas de atuação. Sem dúvida é uma liberdade relativa e definida a posteriori, totalmente condicionada pela orientação temática de quem recruta e mantém essas pessoas. Mas ainda assim, fica a impressão de que elas ganham espaço por conta da paixão que nutrem por uma ideia, um insight ou um assunto, em vez de precisar se submeter a uma orientação prévia das instituições. Isso é o contrário do que elas encontrariam em um ambiente formal de trabalho ou usualmente no ensino tradicional. Certamente, essa liberdade não está somente nos laboratórios de mídia. Ela está presente por vezes no fomento à inovação na universidade ou em alguns mecanismos e instituições artísticas. Mas é um elemento que se pode identificar nessas estruturas tão diferentes entre si.

O segundo aspecto presente é a liberdade de experimentar. Em um sentido talvez bastante específico: os projetos que desenvolvem não requerem resultados objetivamente mensuráveis de imediato. Outra vez, ao contrário do mundo do trabalho, que avalia a todo momento a produtividade de qualquer ato e promove uma especialização que isola áreas de conhecimento. Como surgiu no nosso debate online da semana passada, esse aspecto experimental naturaliza (ou deveria naturalizar) o erro como elemento fundamental da criação.

Bem articuladas, essas liberdades propiciam um espaço de oxigenação e renovação, e talvez esses laboratórios emerjam como mediadores situados do conflito entre criação e consumo. Olhando sob um ponto de vista amplo, esse é um papel fundamental, que pode dar alguma pista sobre como podemos atestar a relevância da área. Exatamente nesse nicho que estamos observando, essa relevância não tem quase nada a ver com o impacto econômico direto da produção cultural, mas de seu papel simbólico. Seu papel de influência no imaginário social, de politização (em sentido amplo) daquilo que de outra forma é visto como mera ferramenta.

Esses projetos são quase sempre multidisciplinares e participativos. Existem dezenas, talvez centenas de instituições, projetos, redes mais ou menos organizadas e coletivos que se situam nesse cruzamento de áreas. Entretanto, elas próprias têm questionado a definição de laboratório de mídia. É uma longa discussão, e o que vai abaixo é só um resumo.

A ideia de laboratório implica certamente conotações positivas, como o aspecto experimental, a criação de conhecimento e ser um espaço de troca, aprendizado e teste de hipóteses. Mas também incorpora algumas limitações: sugere uma ênfase no acesso a infra-estrutura e equipamentos de alto custo, o que é cada vez menos o caso; traz uma sensação de exclusividade, de que só pessoas com alguma certificação podem ter acesso; e uma certa apreensão de que se trate de um ambiente não comprometido com a aplicação prática ou com a relevância de suas ações “no mundo real” – o eterno projeto piloto, que nunca sai da elucubração. Existem, obviamente, muitas outras interpretações possíveis para o termo, mas essas são as que emergem nas conversas com as pessoas envolvidas.

Já o tema mídia pode levar ao condicionamento à atuação com tecnologias de informação e comunicação, e com frequência esse é um dos aspectos menos importantes dos projetos desenvolvidos. Alguns deles só fazem um uso instrumental das tecnologias, e concentram-se muito mais em aspectos conceituais, estéticos, sociais, de gestão e outros. Em consequência, se cria uma situação na qual para inserir-se nos mecanismos de viabilização estrutural e financeira, alguns projetos precisam propor a utilização pro-forma de qualquer tipo de mídia, o que os desvia de seus objetivos reais.

De qualquer forma, o nome laboratório de mídia é mantido por falta de alternativa. Alguns se posicionam como laboratórios experimentais, outros explicitam que não necessitam de uma estrutura física própria posicionando-se como coletivos ou agências. Há ainda os deixam de questionar, e logo se veem com problemas internos de relacionamento porque as pessoas estão dedicando tempo demais a fazer coisas nas quais não têm nenhum interesse porque se deixaram condicionar pela estrutura institucional.

O que emerge das conversas com pessoas interessadas na área é um foco em experimentação, no cruzamento entre arte, ciência, cultura, tecnologia, educação e design, e em diálogo com a sociedade. Reconhecer que essa experimentação vai muito além do que geralmente se associa às ideias de laboratório e mídia é um começo, mas ainda precisamos conversar muito mais sobre que estratégias podem ser delineadas entre os diferentes atores, as diferentes forças e os múltiplos contextos que os circundam, em particular aqui no Brasil. Um bom caminho pode ser deixar temporariamente de lado toda a estrutura e as atividades dessas referências internacionais, e concentrar mais no que elas compartilham na essência: liberdade, experimentação, e temática multi-disciplinar. A partir daí a gente constroi a nossa resposta específica. Ou pelo menos tenta ;)