Posts Tagged ‘medialab prado’

Painel laboratórios experimentais – anotações

quinta-feira, dezembro 2nd, 2010

Enquanto moderava o painel sobre laboratórios experimentais no Fórum da Cultura Digital Brasileira e tuitava, eu também fazia algumas anotações a mão no caderninho. Vai aí um relance, mais como um mapa de palavras-chave do que relato extensivo.

Tapio Makela

  • Medialabs
  • Oficinas / residência
  • 90s – Universidades – primeiros hackers
  • engenharia experimental
    • DNS alternativo
  • equipamento ainda é necessário
  • aspecto social, compartilhamento de conhecimento
  • polar circuit lab
    • 4-8 weeks
    • encontro
    • financiamento mínimo
  • solar circuit – tasmania
  • p2p -> practice to policy
    • transformar as políticas de financiamento
    • discussão sobre por que a arte/tecnologia é relevante não somente para a arte, mas para a sociedade
  • backbone cultural europeu – e-c-b – falha
  • 2004 – ISEA – Talinn
    • cruzeiro de 2 dias
    • intimidade social + enredamento
  • m-cult
  • a declaração de delhi sobre um novo contexto para as novas mídias
    • além da ideia de “prover acesso”
  • lab: não somente tecnologia e sociabilidade, mas também ambiente crítico
  • marin.cc
  • em suma:
    • acesso >> conhecimento
    • salas >> encontros, listas de discussão
    • espacial >> social
    • infra pesada >> kits leves
  • art’n'd – arte e desenvolvimento – colaboração translocal
  • labs dinâmicos: lab + trabalho de campo

Barnabas Malnay

  • Kitchen Budapest
  • financiado por uma corporação
  • prezi surgiu lá
  • maio 2007
  • autonomia
  • grupo de pessoas, backgrounds e expertises diversos
  • colaborativo
  • sem paredes
  • centro da cidade
  • não existem projetos individuais
  • pesquisa baseada em produção
    • serviços
    • educação
    • pesquisa
    • visibilidade
  • submap
  • desenvolvimento de software de código aberto
  • eventos abertos
  • bacarobo

Marcos Garcia

  • Nova desordem digital
  • divisões antigas não contam mais
  • lab deve ser voltado não só a artistas, mas todos
  • Prefeitura de Madrid – público – função social
  • linhas de trabalho
    • interactivos
    • visualizar
    • lab del procomún
    • inclusiva-net
    • avlab
    • medianera lab
  • áreas
    • formas de aprendizado
    • modelos de organização e colaboração
    • genealogia dos meios
    • inovação legal
    • arquivo digital
  • formatos
    • oficinas internacionais de produção
    • oficinas de produção local
    • grupos estáveis de trabalho
    • encontros avlab
  • protocolos
    • um lugar (lab aberto)
    • mediadores culturais (interlocutores)
    • chamadas abertas (projetos/colaboradores)
    • espaço online
  • oficina de prototipagem
    • chamada internacional
    • 10 ideias + assessores
    • 50 colaboradores
    • colaboradores – granularidade
      • não é obrigatória a participação em todos os dias
    • processo aberto
    • documentar os erros
    • mediadores culturais conectam/abrem os protocolos
  • mini-oficinas espontâneas, propostas pelos usuários
  • cañas! parte festiva!
  • replicabilidade

Painel internacional – laboratórios experimentais

quinta-feira, dezembro 2nd, 2010

Uma das ações complementares ao encontro RedeLabs durante o Fórum da Cultura Digital Brasileira foi o painel internacional sobre laboratórios experimentais. Ele deveria ter sido a penúltima atividade do fórum, mas por mudanças na agenda acabamos sendo os últimos. Isso foi interessante porque pudemos nos estender por alguns minutos, e também porque saímos diretamente para a festa de encerramento, ali no saguão.

A ideia do painel era trazer diferentes referências para enriquecer o debate sobre laboratórios (de mídia, de tecnologia, experimentais, etc.). Como eu já comentei algumas vezes, aqui no Brasil muitas vezes o imaginário de “laboratórios” se limita ao icônico Media Lab do MIT. Hoje em dia existe uma grande variedade de arranjos alternativos, e se quisermos desenvolver laboratórios adequados aos dias de hoje precisamos inovar nesse sentido.

Para aproveitar ao máximo os nossos convidados (e, confesso, postergar ao máximo o aparecimento dos loucos de palestra), eu propus um formato de debate semi-aberto: após cada apresentação, três pessoas ligadas à área aqui no Brasil fariam comentários pontuais. Esses respondentes foram Daniel Gonzalez, Miguel Salvatore e Paulo Amoreira. Queria que eles ressaltassem pontos relevantes de cada fala, e construíssem pontes entre o nosso contexto e o dos convidados.

Cada um dos painelistas trouxe um recorte específico. Tapio Makela, da Finlândia, colocou alguma perspectiva histórica sobre medialabs administrados por artistas desde meados dos anos noventa. Contou causos sobre experiências, resgatou o aspecto sensível de compartilhar experiências, lembrou da importância de as pessoas cozinharem juntas e falou sobre seu projeto Marin.cc. Tapio precisou sair no meio da fala seguinte para pegar o avião de volta a Helsinki. Barnabas Malnay contou sobre o Kitchen Budapest, laboratório húngaro financiado por uma grande empresa de telecomunicações. Foi de lá que saíram desde startups inovadoras como o Prezi, até uma série de projetos colaborativos e de código aberto. Para encerrar o painel, Marcos Garcia apresentou o Medialab Prado de Madrid, um dos centros que mais têm contribuído para o desenvolvimento de projetos experimentais baseados em conhecimento livre, responsabilidade social e apropriação de tecnologias.

Apesar do cansaço do pessoal depois de três dias intensos de fórum, rolou um bom debate ao fim da sessão, a ponto de precisarmos cortar as conversas para partir para a festa. Gostei bastante da sessão. O vídeo deve estar disponível nas próximas semanas no site do Fórum (assim que rolar eu publico aqui).

Interactivos? ’10 BH

quinta-feira, setembro 23rd, 2010

Está aberta até semana que vem a chamada por projetos para a primeira edição Brasileira do Interactivos (baseado no Interactivos do Medialab Prado), que vai acontecer entre novembro e dezembro em BH, organizada pelo pessoal do Marginalia+lab.

INTERACTIVOS? é uma plataforma de pesquisa e produção para os usos criativos e educativos da tecnologia. Seu objetivo principal é expandir o uso de ferramentas de eletrônica e software para artistas, designers e educadores. Os eventos, realizados desde 2006, são um híbrido de workshop, seminário e exposição, criando um espaço de reflexão, investigação e trabalho colaborativo, aberto ao público do começo ao fim. Realizado pela primeira vez no Brasil, a edição de Belo Horizonte tem como tema Baixa Tecnologia de Ponta, voltando-se para projetos que abordem recursos tecnológicos simples e acessíveis de forma inovadora. A convocatória internacional de projetos irá selecionar as propostas que serão desenvolvidas durante o evento, em equipes interdisciplinares de colaboradores.

Entrevista – Alejo Duque

segunda-feira, agosto 9th, 2010

Há alguns meses, durante a Lift em Genebra, conversei sobre laboratórios enredados, estratégias nômades e assuntos afins com Alejo Duque. Alejo é um artista colombiano que vive na Suíça e circula por diversos espaços de arte eletrônica, ativismo midiático e afins. Também é um colega de rede Bricolabs . Vão abaixo alguns pedaços da conversa.

ITU
Alejo Duque: Esse conceito de laboratórios em rede é muito relevante aos tempos em que vivemos. Uma boa rota para trabalhar com um grupos mais amplos do que os grupos locais. De uma maneira, se estamos conversando agora é porque já fazemos alguma coisa assim. Isso já é um laboratório em rede! Não é algo novo que vamos criar. É algo que já existe, com que já trabalhamos, que nos acompanha todo o tempo em que estamos conectados em rede. O que pode ter de novo essa aproximação? O que não existe nos modelos que já temos?
efeefe: É uma questão em aberto. Há um interesse de várias áreas em fazer coisas enredadas, mas não existe uma ideia fechada nisso. Redelabs quer se perguntar exatamente isso: o que podemos propor? Ano passado, no processo do Fórum de Cultura Digital, emergiu a demanda por medialabs. Mas geralmente o que se pensa como medialab é o que se fazia dez anos atrás: estruturas. Porém hoje em dia, pelo menos nas cidades grandes, existe banda larga, os computadores e câmeras são mais baratos. Ao mesmo tempo, há centenas de projetos no Brasil que poderiam ser vistos como medialabs táticos em diferentes sentidos. O importante não é mais a estrutura, mas uma estratégia de ocupação desses espaços que já existem. A ideia agora é conceber um projeto para propor uma estratégia de rede para esses espaços. Acho importante uma coisa mais próxima ao cotidiano, mas trazendo a reflexão sobre meios eletrônicos e o tipo de cultura que se pode fazer com meios eletrônicos quando eles se hibridizam com as culturas populares.
Alejo Duque: Nas sociedades latino-americanas é muito claro o apetite voraz de copiar o que acontece no restante do mundo. É essa noção específica de globalização. Estamos vendo uma cultura das empresas que produzem o imaterial. As indústrias desaparecem, e chegam os museus interativos. Se fala em melhorar o ar das cidades, criam-se bibliotecas, tem toda a questão da gentrificação que acompanha uma cultura de serviços. É um capitalismo selvagem mas muito camuflado. As pessoas que estão responsáveis por essas mudanças querem saber o que pôr nos edifícios que estão construindo. Já não querem medialabs. Há dez anos, tudo que falava em Medialab do MIT tinha muito impacto! Felizmente, hoje falam em Fablab. Eles têm que comprar as máquinas, para fazer um Fablab em seus novos edifícios. Eu venho de um lugar muito parecido com o Brasil e penso que a pequena escala em nível social é que pode efetivar mudança e construir algo maior. É na pequena escala, onde se pode trabalhar com pequenos grupos que vão se solidificando e construindo algo maior, sem dúvida.
Em Medelín particularmente, em se falando de ajudar culturalmente um grupo social para gerar mudança, estão ajudando aos garotos que estão trabalhando com renderizaçao 3d e mundos sinteticos, animação, etc. Encanta a eles o caso da Nova Zelândia – onde passaram a fazer filmes para Hollywood, têm super estúdios, rendering farms, etc. Em Medelín estão tratando de motivar os jovens para que criem empresas nesse modelo. Estão querendo que Medelín vire um hub para empresas como a Pixar. A mim parece um pouco louco.
efeefe: Essa coisa de outsourcing
Alejo Duque: Exato.
efeefe: E se descarta todo um componente cultural que é forte e pode ser fundamental hoje em dia. Tem uma reflexão que acho importante e queria saber tua opinião: no Brasil tivemos muito tempo de instabilidade política, precariedade, em que não havia infraestrutura, etc. As pessoas precisaram desenvolver um senso de criatividade cotidiana que está muito próximo da coisa de low-tech e de aproveitar os restos do processo industrial como matéria-prima de novas invenções. E agora vejo uma coisa na Europa, nos centros de mídia interessados em software livre e low tech e esse tipo de criatividade, toda a coisa de Fablabs e de fabricar em vez de comprar. Porque aí tem um processo diferente de evolução nos últimos anos – todas as pessoas se transformaram mais em consumidores do que atores, inventores, criativos. Houve uma separação entre a criatividade e a vida cotidiana.
Com as novas tecnologias existe toda a relação com o sentido de inventividade cotidiana – a Gambiarra no Brasil, o termo similar na Colômbia, na Índia ["jugaad"]. E a maneira com que isso cria um tipo diferenciado de apropriação de novas tecnologias, eu acredito que leva a uma situação inversa – agora não estamos olhando pra fora e dizendo que devíamos fazer como eles, mas estamos dando o exemplo de como se apropriar das tecnologias para fazer as pessoas desenvolverem seu potencial de criatividade e inventividade. Queria saber da tua experiência com os medialabs da Europa nessa questão da criatividade cotidiana que a gente tem e que agora está sendo interessante também nos países desenvolvidos.
Alejo Duque: É interessante que estejam valorizando muito mais esse tipo de aproximação à tecnologia. Pra mim é estranho, porque tem essa coisa que evolui muito naturalmente quando se é pequeno e está procurando uma porca para a bicicleta ou algo assim. Alguma coisa estragou e você tem que arrumar. É muito bonito porque você pode ir à rua, olhando pro chão por um par de quadras e vai encontrar muita coisa – uma alavanca, uma chave, uma porca e muitas outras coisas. E vai guardar porque entende que mesmo que não vá usar agora pode precisar mais pra frente. Esse é seu laboratório! O laboratório está nas ruas, todo espalhado pelas ruas. E essa sensibilidade se vê valorizada agora na Europa.
De qualquer forma, nós continuamos aprendendo muito com o que eles estão fazendo. Hoje existe esse boom de arduino, cultura maker, DIY [faça você mesmo], instructables, etc. Eu chego a outra questão: sobre toda a comercialização da cultura DIY, que tentei tocar no texto coletivo da bricolabs sobre lowtech . Falei ali comparativamente sobre o catálogo da Radio Shack, que há 40 ou 50 anos era o mais importante pra quem queria aprender sobre rádio e coisas eletrônicas. Penso que a revista Make, que catalisa toda a cultura maker, está vindo por esse caminho. E me parece muito interessante que todo mundo esteja atuando muito com energias renováveis, com recuperar ímãs de HDs para gerar eletricidade, como o pessoal fez aí no Brasil [eu tinha mostrado pra ele esse vídeo do Peetsa]. Mas me parece delicado que através de todos esses sites, de certa forma tão light, hype e fashion, se esteja impulsionando um mero consumo desse tipo de apropriação de tecnologias. Vejo aí um choque frontal entre aquele sair à rua que falei antes e o que a gente aprende a fazer através da internet.
Semana passada a gente fez uma oficina na Suíça e refletimos sobre as pessoas de lugares ditos subdesenvolvidos que têm isso como filosofia de vida – pessoas que sobrevivem e vivem e pensam e todos os dias atualizam essas práticas de apropriação na sua performatividade diária, no cotidiano. Isso é uma filosofia. Essas pessoas nunca estão interessadas no que a gente tá fazendo aqui. Hacking, modding, apropriação, conversão, nada disso. Isso é uma coisa muito importante de discutir, porque a gente tá exatamente no meio do caminho. Nenhum desses senhores que trabalham na rua arrumando carros, que têm as mãos sujas de graxa, vai se interessar por isso. Óbvio que pra gente é um prazer ir conversar com eles e compartilhar, mas…
efeefe: Acho que existe um atrativo interessante para essas pessoas, que é a coisa da tecnologia. E olha isso: podemos usar o pior lado da tecnologia – o mito de estar conectado, de entrar no mundo do que as pessoas mais ricas fazem, pra atrair as pessoas. E em seguida podemos desconstruir essa ilusão e dizer: vem aqui, tu vai aprender a pegar um computador, abrir, fazer coisas com ele. E começar a informá-lo das possibilidades da tecnologia digital auxiliar suas habilidades práticas cotidianas. Não sei o caminho pra isso, mas algumas experiências já foram feitas – conversar com os mestres de culturas populares, mostrar as possibilidades das novas tecnologias. Claro que existe o risco de gerar somente mais consumidores – pessoas que querem comprar coisas, que nunca estão satisfeitas com suas vidas. Precisamos evitar isso. Mas de qualquer maneira não é justo mantê-los longe de qualquer possibilidade por medo de influenciá-los.
Alejo Duque: Vem de novo a pergunta de inclusão e exclusão, sobre a qual já conversamos um pouco na rede Bricolabs. Os políticos falam em inclusão digital. E às vezes a gente percebe que a tal inclusão é uma intromissão completa na vida privada. Pensamos em trilhar o caminho da privacidade, de resguardar a intimidade, fazer com que respeitem nossos atos, nossas pegadas digitais, que se possa decidir quando nossos rastros são indexados e estudados por uma empresa de mercado e quando não. Até mais, escolher quando eu posso deixar rastros que não são verdadeiros – pensar que se alguém me persegue vou simular que vou por esse caminho mas vou por outro.
efeefe: Pistas falsas. Tem a ver também com estratégias de inteligência nas pontas, e não no meio. Na vida cotidiana, nas ditaduras da América Latina, nos estados policiais, nas sociedades violentas, a gente também aprendeu a sobreviver no dia a dia e fazer rastros falsos, toda uma estratégia de sobrevivência e de privacidade. A gente tem uma noção de privacidade diferente: na Europa existe essa coisa do espaço privado, da casa de cada um. Já a gente no Brasil sempre tem convidados dormindo no sofá, o vizinho que tem a chave, a prima do interior que tá morando na sala. Isso constroi uma outra noção de privacidade, mais flexível.
Alejo Duque: A gente tem que pensar em quando estamos trazendo os mestres de cultura popular, como saber que estamos fazendo uma inclusão justa ou que ela está acontecendo de forma equilibrada. Que não vá virar consumismo ou colonização, tecnoconolização – introduzir tecnologias que não deveriam ser introduzidas.
efeefe: A própria ideia de inclusão já não me soa bem. Melhor é pensar que não são as pessoas que precisam se adaptar às tecnologias, em como transformar essas tecnologias para mudar a vida das pessoas. Não é que o mecânico precise enviar email ou entrar no chat, mas pensar em que tipo de tecnologia se pode desenvolver para melhorar a vida dele. Nesse sentido, a flexibilidade possível com software livre, low tech, etc, significa que se podem desenvolver novos dispositivos ou novos usos para dispositivos que já existem, especificamente para aquele cara. Então acho que é uma perspectiva que é um trabalho muito mais pesado do que tudo que já foi feito: desenvolver múltiplas tecnologias, e não só incluir. A mera inclusão, conceitualmente, sempre chega em um ponto em que não é mais necessária.
Alejo Duque: Em Medelín temos um problema estrutural. Vocês no Brasil têm uma estrutura muito maior e mais forte. Nossos grupos sao mais nômades, têm que ir de um lugar a outro com o hackerspace porque não há um lugar fixo. É muito dificil. Existem poucos lugares bons aonde ir. Por exemplo a Casa Três Pátios, centro para residências de artistas, onde estão muito interessados em uma aproximação da arte tradicional com a tecnologia. Temos que resolver nossos problemas estruturais para poder operar, e então ser capazes de abrir um espaço para ser hospitaleiros e trazer outras pessoas para gerar intercâmbios. É um metodo de trabalho que depende 100% desse tipo de interação e fluxo de informacao. Senão não o faríamos, estaria cada um em sua casa trabalhando pela internet.
efeefe: Ah, então uma questão importante: qual é a relevância de ter espaços para essas coisas? Por que as pessoas precisam de espaços e não trabalham cada um em sua casa? A ideia comum dos medialabs é de que havia tecnologias que não eram acessíveis às pessoas, e havia a necessidade de uma grande estrutura para pagar por acesso, computadores, câmeras. Quando isso vai mudando, ficando mais acessível e há ainda toda a possibilidade de trabalhar com computadores usados, qual o motivo de as pessoas ainda quererem se encontrar e compartilhar espaços? Não é somente compartilhar informação, que é possivel por email e skype, é?
Alejo Duque: O primeiro é uma coisa natural, que é o aspecto humano. Precisamos estar em grupos. É uma coisa bonita que se vê com alguns garotos que vêm ao grupo trabalhar. São dropouts, um pouco deslocados, que não se enquadram, não encaixam. Têm problemas com os grupos a que pertencem no colégio, na universidade, na carreira que estão seguindo. Problemas com o próprio sistema da Universidade, não conseguem cumprir horários e tarefas. Mas são muito bons. Fazem tudo de sua própria maneira, resolvem de maneira 100% criativa! E ali encontram um grupo com o qual podem experimentar, compartilhar. Encontram um grupo, o que é fundamental. O segundo, é quando alguém tem um problema operacional para resolver. Por exemplo, alguém que quer fazer uma obra interativa, com sensores, que quer passar uma mensagem para o mundo, essas coisas. Talvez tenha o computador, encontrou documentação na internet, mas o cara não sabe como fazer a parte eletrônica. É um pouco triste, porque existe um nível em que as pessoas vêm ao grupo para se utilizar do grupo, para seus fins pessoais. Por isso mesmo, uma das tarefas do grupo é trabalhar para que tudo seja entendido como um projeto de colaboração, e você sabe como isso é complexo e difícil.
efeefe: Não achas que aqueles techs que têm a visão mais fechada na coisa eletrônica, por exemplo, não podem também aprender com os artistas? Há um diálogo, ou então: o que podemos fazer para existir mais diálogo?
Alejo Duque: É uma situação que gera uma maravilha de interação. A palavra arte é uma que não usamos. De fato eu sou o único que teve uma formação em escola de arte. Só usamos essa palavra como piada, para rir. Para dizer “estamos fazendo arte” e brincar de tudo que significa essa história de arte. Porque sabemos bem que não queremos participar dessas economias de galeria, curadoria e exposição. É um grupo que tem muito mais gente da engenharia do que da arte. Eles gostam muito de poder sair da caixa de números e produção. Para eles é uma troca. Há diferentes maneiras de fazer e contribuir. E nós que somos artistas aprendemos muito porque os garotos têm um conhecimento e uma metodologia de trabalho muito avançada. Outra coisa que falamos é que o movimento do software livre é 50% do caminho ganho. Porque todos temos muito claro que estamos dando, entregando. Não há um problema de autoria, não é começar do zero.
efeefe: Que tipo de de estratégias se pode pensar para os grupos nômades? Para que possam compartilhar os espaços, o tempo de uso dos espaços de maneira efetiva, sem perder a flexibilidade e agilidade que têm enquanto grupos nômades? Porque existem muitas vantagens no nomadismo. E ainda, muitas estruturas existem e fazem suas próprias programações. Como conectar as estruturas e pôr no meio do caminho os grupos nômades que podem fazer o papel de informantes entre os espaços diferentes, o papel de hermes/mercúrio?
Alejo Duque: Das abelhas…
efeefe: Isso, das abelhas. Os informantes, as abelhas, já trabalham. Agora queremos criar estratégias para dar suporte a essas pessoas que cumprem essa função. Porque a institucionalidade sempre se preocupa principalmente em criar estruturas de acesso, e o que a gente está propondo no eixo redelabs é que já existem dezenas dessas estruturas. Então a pergunta é não somente como apoiar essas estruturas que já existem mas também como apoiar as coisas que existem entre as estruturas. Como criar estratégias que façam a conexão entre as estruturas.
Alejo Duque: É uma pergunta maravilhosa, que tem a ver com o que eu comentei antes: como definir o que são laboratórios em rede? Isso se liga muito bem à situação que temos. Em Medelín existe uma organização que se encarrega de usar parte dos lucros das empresas locais para traçar os caminhos para daqui a 25, 50 anos. São os que estão planejando o que vai acontecer estrategicamente com as pessoas que vivem na cidade. Conversei com o vice-presidente dessa organização. Eles vêm fazendo coisas interessantes. Estão muito preocupados porque não têm ideias novas, não encontram novas maneiras de fazer as coisas. Tiveram um momento de êxito, fizeram capitais enormes e hoje estão assustados porque estão saindo essas makerbots, repraps [impressoras 3D] se replicando por toda parte. Quem tinha a empresa para fazer injeção de plástico tem que estar um pouco assustado, porque daqui a pouco todo mundo vai fazer isso em casa. Então eles ainda têm poder, têm muito dinheiro e querem pesquisar, fazer P&D. E sabem que precisam desses grupos pequenos que operam por aí a partir das redes, que são rápidos e ágeis, que têm uma velocidade que eles nunca poderiam alcançar. Eles querem organizar essas conferências, oficinas.
Então talvez respondendo à tua pergunta: eles estão trabalhando através dessas oficinas realizadas no Museu de Ciências, em um espaço para comunidades. O grupo do Hackerspace vai lá e realiza oficinas de streaming, que também realizam no Museu de Arte Moderna. Dois públicos diferentes, um na comunidade e outro de gente que se aproxima do Museu. E também o fazem com o pessoal de 3D rendering, que certamente conhece o Blender, que é software livre, mas não sabem muito sobre outras possibilidades para compartilhar informação entre eles, e o steaming poderia ser útil. É assim que estamos operando na colombia, em Medelín particularmente. O Hackerspace está recebendo por essas oficinas, que paga seus custos.
efeefe: Existe um perigo aí que já passamos no Brasil, e começamos a mudar: a apropriação. As pessoas que têm poder e dinheiro chamam os hackers e ativistas a trabalhar como técnicos para projetos conceituais, que no fim das contas vão dar muito mais dinheiro para os financiadores. Agora a gente tá pensando em mecanismos oficiais para equilibrar a equação, para que as pessoas não tenham que vender suas almas para as instituições locais. Criar ferramentas que permitam que os coletivos autogestionados mantenham o controle sobre suas coisas e que tudo seja compartilhado. Uma possibilidade é criar mecanismos oficiais, e o governo entra como órgão para equilibrar: tudo vai ser em licença livre, não se fala mais nisso. Equilibrar a relação entre os coletivos que têm potencia e agilidade, e as instituições que têm estrutura e dinheiro. É uma coisa de desenvolver um novo modelo de relação entre as instituições e as pessoas/coletivos.
Alejo Duque: Uma última coisa: estávamos falando sobre se incluímos ou não quem costumava nos excluir antes?
efeefe: Acho que a rede tem essa coisa de que a generosidade traz mais resultados do que seu oposto. Mas acho que depende muito do contexto.

Labtolab – diário

segunda-feira, julho 12th, 2010

Consegui terminar de escrever um post sobre minha passagem por Madrid durante o Labtolab. Publiquei no blog Desvio, e pros próximos dias estou escrevendo outro post com conclusões e insights depois de ter passado pelo encontro de medialabs.

Labtolab

segunda-feira, junho 7th, 2010

Estou essa semana em Madrid para o Labtolab, encontro de laboratórios de mídia organizado pelo Medialab Prado. Vou falar um pouco sobre MetaReciclagem e tentar trazer um pouco da reflexão dos redelabs.

Minha estada aqui está sendo apoiada pelo Centro Cultural da Espanha em São Paulo.