As cidades digitais, o open video, o direito à comunicação e as possibilidades de cidadania no ambiente de convergência tecnológica foram alguns dos assuntos tratados nesta rodada de conversas no Seminário “Cidadania e Redes Digitais”, que acontece desde ontem, na Faculdade Casper Líbero, em São Paulo. Participaram da mesa: Franklin Coelho, da UFF, Fábio Josgrilberg, da Metodista, Elizabeth Sark, do Open Video Alliance e João Brant, do Coletivo Intervozes. A medicação foi feita pelo professor da Cásper Claudio Novaes Pinto Coelho.
A experiência de Piraí Digital foi o tema da primeira apresentação, do professor Franklin. “A cidade digital tem como referência a cidade real e constitui uma nova forma de organização e integração do território: interligado por meio de uma rede pública de transmissão de voz, dados e imagem. É o lugar onde o cidadão se torna o principal ator na produção, gestão e usufruto dos benefícios das novas tecnologias”, explicou.
Franklin diz que é preciso pensar a inclusão digital para além dos telecentros. “Estamos construindo o primeiro backbone público no estado do Rio de Janeiro”, afirmou. Ele mencionou ainda que o projeto fez uma economia de R$ 2 milhões ao optar pelo software livre.
As cidades digitais continuaram em pauta na apresentação de Fabio Josgrilberg. “Esse é o lugar que faz uma opção radical pela comunicação e isso mantém a diversidade cultural e a democracia”. Para ele, nesse tipo de ambiente, a mudança política só acontece quando a realidade comunicacional informal já sustentou a formalização da mudança. O professor lembrou ainda que a cidade historicamente sempre foi palco dos avanços na cidadania e classificou a cidade digital como “protagonista na busca de soluções coletivas, processos econômicos e batalhas diárias de sobrevivência”.
Na sequência, Elizabeth Stark, do movimento OpenVideo Alliance, falou sobre a necessidade de garantir a liberdade de expressão na rede e mostrou a importância do open standards para a criatividade audiovisual. A cultura do remix foi abordada: “É essencial que se possa fazer uso de partes de vídeos para criar algo novo em cima”, disse. Licenças abertas, software livre e neutralidade da rede também foram apontados como essencias na discussão sobre open vídeo. “Os criadores de vídeo não podem depender da benevolência dos controladores da estrutura da rede”.
Na rodada de perguntas, questionada sobre a diferença de qualidade entre os softwares proprietários e livres para edição de vídeo, ainda acrescentou: “O melhor do software livre é que se você não está satisfeito com algo tem a liberdade de mudar”.
O último a falar foi João Brant, que focou a apresentação na necessidade de garantir o direito à comunicação e lembrou das dificuldades de acesso presentes no país. “Na Finlândia o governo define banda larga como direito do cidadão e no Brasil esse serviço mal chega à periferia”. A consequência disso é a grande dificuldade enfrentanda pela pessoas em completar o ciclo da informação. “Enquanto o acesso à comunicação estiver sendo tatado por uma lógica de mercado, estaremos preso em uma lógica que não é a da comunicação”.
Para Brant é urgente mudar o serviço de banda larga disponível no país. “Precisamos pensar na banda larga como serviço a ser prestado em regime público, como é o da telefonia fixa. Isso não significa deixar na mão do governo e sim ter metas de qualidade, de universalização, controle de preços, garantia de continuidade. É preciso pensar num plano nacional de banda larga com a complexidade que o brasil precisa”.

Mesa 6: Sociedade de Controle, Biopoder e Anonimato
A última e mais esperada mesa do Seminário “Cidadania e Redes Digitais” teve os mecanismos de controle como tema principal. Participaram da rodada de discussão: Alexander Galloway, da Universidade de Nova York, Laymert Garcia dos Santos, professor da Unicamp e Sérgio Amadeu, da Faculdade Casper Líbero, moderados pela também professora da Casper Heloiza Gomes de Matos.
A apresentação de Galloway focou os aspectos técnicos da regulação. “O princípio fundador da rede é o controle e não a descentralização [...] As redes são assimétricas. E como é uma relação onde existe uma situação de desigualdade, assimetria e antagonismo?”, disse. Para ele, os protocolos de internet, que permitem a comunicação entre as máquinas, operam fora de medos do controle do poder. “Reduzir a lógica da infraestrutura da máquina para a lógica dos governos e corporações é falso [...] Um sistema que usa protocolos é um sistema que opera entidades anônimas individuais”. Galloway defende que infraestrutura técnica é tão importante quanto os poderes corporativo, comercial ou governamental. “O que as redes podem fazer? Derrubar governos, por exemplo”. Galloway mostrou que a rede permite uma liberdade de criação, produção, mas ao mesmo tempo tudo isso é feito sob uma vigilância constante.
Na sequência, Sérgio Amadeu continuou na mesma linha de Galloway, colocando ambivalência e ambiguidade como as palavras mais importantes do momento. “A rede é de controle ao mesmo tempo que é de comunicação”, disse. E qual o problema de estar sob controle? “O problema do ponto de vista da comunicação é se o controle descambar para a dominação”, disse citando Foulcault. Ainda concordando com Gallaway, Sergio falou sobre os protocolos que asseguram a comunicação na rede serem universais e totalizantes. “Protocolos são condutores e organizadores na biopolítica na sociedade de controle”. E, nesse cenário, quem seriam os controladores? “A indústria do copyright, a indústria do entretenimento, serviços de telecom, e o direito”, provocou Sérgio Amadeu, que deixou o microfone com uma śerie de perguntas. Dentre elas: “existe uma geometria que permite superar as técnicas de vigilância? Os ciberviventes estão fadados à nova fase do biopoder?”
Laymert amarrou os conceitos expostos por Galloway e Sergio mostrando como foco mudou do produto em su para os produtores. “A questão não é mais o que se diz, o que se produz, mas quem é que faz o design das redes e ao fazer isso possibilita ou não acessos, entradas e saídas”, disse. E levantou ainda mais uma questão importante: “como exercer a dominação em espaço aberto, já que estamos evoluindo dessa forma?, ao que ele mesmo respondeu: “a tecnologia da mobilidade total demanda controle, uma vez que a disciplina porssível nos espaços mais estáveis vai se perdendo”. Para ele, o momento atual que a sociedade atravessa é de incertezas. “A sociedade de controle promove descontroles descomunais”. E “o controle é impessoal”, como bem citou Galloway na rodada de perguntas.
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