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20/09/2016 – Ritos de Criação: uma taça de vinho

“Finalmente, será hoje. Há quase seis meses a Amanda pediu pra gente começar a dar uma geral em possíveis recrutas. Eu estava fazendo isso. Estava observando os tipos mais enérgicos: ativistas ‘black bloc’, rappers, estudantes politicamente engajados e um série de pessoas que pareciam dar conta de uma ação mais direta. Do bando sou a “parideira”, a que já tive o maior número de crias nesses quarenta anos de estrada vampírica. Sou tambéme a que já viu a maior parte de suas criar morrer pouco depois. Até hoje, foram vinte e uma tentativas e apenas duas sobreviveram mais de um ano, apenas uma sobreviveu mais de três e apenas uma completou o quinto aniversário vampírico, mas não chegou ao sexto. É o problema da comissão de frente dos soldados.

Em uma de nossas missões, há alguns anos, a Amanda me apresentou a uma família de carniçais chamada Obertus, que moram no Jardim Botânico. Acabei me aproximando de um deles. Gostei do humor ácido do cara e cheguei a salivar com o cheiro forte e diferente que emana dele. É um perfume doce, mas Amanda cortou meu tesão, dizendo que era doce e venoso. Além do fato de que aquela família nos servia, mas não deveriam ser considerados rebanho.

Não que isso tenha feito lá muita diferença. Eu voltei, encurralei-o e cravei meus dentes nele para me arrepender amargamente, literalmente. O sangue dele realmente é doce e atraente, como uma planta carnívora para insetos, mas absurdamente amargo e venenoso. Eu teria o matado se não tivesse sido avisada. Depois, Amanda me fez acompanhá-la até a família para me contornar possíveis mal entendidos, ou seja, consertar a merda que fiz.

Depois é que descobri que os Obertus são um tipo diferente de carniçais. Eles não precisam de nosso sangue, já nascem assim. Dá medo saber que um lance desse pode acontecer, mas o cara sorriu e saiu com uma sacada que colocou todo mundo com a cara no chão. Constrangeu todo mundo, desde sua família até a Amanda de uma tacada só, mas ganhou o meu respeito com sua coragem e cara de pau. Ele me ganhou ali e posso dizer que tenho certa consideração por ele. Decididamente, é um cara que eu vampirizaria se não tivesse aquele gosto horrível no sangue. O grande lance foi que com isso descobri um dos melhores usos dos Obertus. Dentre outras coisas, eles são olheiros.

Leonardo Obertus me explicou melhor como funcionava o lance de olheiro e depois de uma ‘entrevista’ interminável disse que acharia uma pessoa ideal para ser minha cria. Foi aí que numa bela noite ele me apresentou ao longe um playboy mauricinho que me fez rir. Leonardo insistiu em dizer que aquele era o cara perfeito para o meu perfil e começou a me contar sobre ele.

Demorou muito para me convencer. Continuou monitorando o sujeito e me atualizando. Fez uma investigação completa. Suas observações me pareceram muito teóricas e não via o cara com chances de sobreviver sequer um mês depois de ser vampirizado. Por fim, marcou um jantar. Sabia onde o cara estaria: um restaurante na Zona Sul, onde riquinhos se reuniam para degustar vinho. Eu estava lá sentada em uma mesa com Leonardo e Raphael. Leonardo armou uma cena. Já havia se aproximado do cara antes.

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