TEXTOS

  • Sobre  “Entre Salvador e o Recôncavo”  de Silvana Rezende.

    Leia o texto abaixo:

    Os caminhos que se cruzam por Tininha Llanos

    O ato da deambulação é para o artista contemporâneo uma das formas poéticas de pesquisar materiais para a sua produção. Deambular é um ato de psicogeografia muito praticado entre os povos nômades da antiguidade, e que significava experimentar emocionalmente os caminhos de um ponto à outro sem qualquer fim objetivo. Porém esta ação se transformou em uma lacuna histórica, pois deixou de ser praticada pelas sociedades que se fixaram e criaram os limites geográficos e territoriais.  Somente após a revolução industrial, e as guerras mundiais passamos a experimentar novamente a geografia terrestre de forma despretensiosa com os movimentos contra culturais.

     A reprodução panorâmica estática como matéria para a arte representativa sofreu fortes transformações com a invenção da fotografia. Esta em movimento fez surgir um simulacro fértil da figuração humana, a possibilidade de exibir o mundo com toda a sua velocidade, fez da imagem em movimento  uma arte tão dinâmica  quanto era possível acompanhar.

    A imagem em movimento passou a ser comparada àquela estática, representada em materiais plásticos.  Nossa memória  repleta de movimento, comunicava plasticamente por  imagens estáticas.  A plástica do movimento  se tornou a perfumaria da contemporaneidade. Com a representação da memória em uma linguagem audiovisual da lembrança que temos de um lugar que um dia fomos, ou que iremos em algum momento.

    “Entre Salvador e o Recôncavo” de Silvana Rezende é um vídeo arte que trata da trajetória entre rodoviárias. Num primeiro momento, para o transeunte comum, essa trajetória pode parecer algo desinteressante. Apesar de fixarmos o olhar na janela de um automóvel enquanto viajamos, milhões de outras imagens passam em nossos pensamentos, estas representadas por sentimentos como preocupação, alegria, dor, saudade, memória, etc. São caminhos que se cruzam e fazem com que o ir e vir se torne experiências psicogeográficas. Este segundo momento é o que nos interessa  no vídeo de Silvana, pois ele se torna um reflexo do que hoje acontece na região do Recôncavo Baiano, principalmente na cidade de Cachoeira. As paisagens são as mesmas, porém em direções opostas, apenas em um dado segundo se cruzam. O público de “Entre Salvador e o Recôncavo” naquele momento, não pára para assistir ao projeto por duas horas inteiras, o contato se faz em fragmentos suficientes para o reconhecimento da “viagem”. As sensações surgem como em uma viagem emocionalmente dinâmica. As imagens parecem estáticas, como fotogramas da memória.

    Perguntamos em um outro momento para alguns transeuntes  na região da rodoviária de Cachoeira, se eles saberiam dizer em que dado momento os ônibus que viajam entre as rodoviárias de Salvador e Cachoeira se cruzam, uma das respostas mais interessantes foi  a de um homem que disse não saber pois o que lhe interessava além de seus pensamentos, era a paisagem. Ao explicá-la, esta era uma paisagem estática!

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