A necessidade de pensar as questões de infraestrutura para ampliar o acesso à comunicação e garantir que a população possa lutar por seus direitos foi o assunto central da primeira mesa de discussão do Seminário Internacional da Cultura Digital Brasileira. Entre os palestrantes: o sociólogo e professor da Faculdade Casper Líbero Sérgio Amadeu, TC, da Casa de Cultura Tainã, José Luiz Ribeiro Filho, diretor de Serviços e Soluções da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e Diogo Moyses, curador do eixo infraestrutura do Fórum da Cultura Digital Brasileira. A moderação foi feita por Álvaro Malaguti, da RNP.
Sérgio começou sua apresentação defendendo a necessidade de garantir conexões nas cidades por meio de nuvens abertas, ligadas a backnobone (rede de alta velocidade) que não seja privado. “O Brasil tem um custo de telecomunicações, que é base para comunicaçaõ em rede, absurdo”, disse. O sociólogo defendeu que sejam disponibilizadas redes wirelless nos espaços públicos afirmando: “gratuidade incetiva a conectividade”.
Como exemplo, ele citou as cidades Quissamã (RJ), Sud Menucci (SP) e Tapira (MG), que já oferecem internet gratuita à população. “Nesses lugares, houve uma rápida elevação de usuários na rede. O acesso precisa ser pensado como direito e não somente como negócio”, disse.
Pensando na democratização da comunicação, ele sugeriu ainda a ocupação livre das faixas do espectro eletromagnético das ondas de rádio usadas para TV analógica. “Em 10 anos, não haverá mais transmissão analógica. Defendo aqui o espectro magnético como via pública, para garantir diversidade e criatividade à produção na web. Assim, mais gente poderá se comunicar”, concluiu. (Leia artigo “Espectro e Mobilidade para a Inclusão Digital no Brasil”, do Sérgio Amadeu. E veja a sua apresentação no Slideshare)
Na sequência, TC, da Casa de Cultura Tainã, de Campinas, falou sobre sua experiência de combinar tecnologia com a luta das comunidades quilombolas. “Desde a década de 90, buscamos nos apropriar das novas tecnologias, desenvolvendo a capacidade de observar o que dominar essas tecnologias pode vir a significar no futuro”, disse.
Ele citou ainda a rede mocambos como exemplo de apropriação da internet e chamou a atenção para a necessidade de pensar no uso social das novas tecnologias: “É importante pensar além do acesso, para garantir a qualidade dessa interação com a rede. É legal falar da inclusão digital, mas incluir para que? Essa é a questão”. Com a rede, segundo TC, foi possível aproximar as comunidades dos núcleos de formação, permitindo o domínio e compreensão do uso das ferramentas. “Só com isso dá para fazer da internet um instrumento para lutar pelos direitos”, encerrou.
O terceiro palestrante da tarde, José Luiz Ribeiro Filho, assumiu o microfone fazendo um retrospecto do trabalho da RNP, na construção do primeiro backbone público do país. “O papel do setor acadêmico foi importante porque, naquela época, entendíamos o que acontecia no resto do mundo e pudemos trazer essa contribuição”, disse. José Luiz citou ainda outras iniciativas da RNP: Rede Clara, Rede Comep, Rede Ipê. Veja a apresentação no Slideshare do palestrante
Um retrospecto do cenário das telecomunicações no país foi feito por Diogo Moyses. Ele mostrou a concentração bastante rigorosa de todos os serviços e preços altos impostos. “Não vou nem entrar na questão da qualidade do serviço…O importante ressaltar é que 66% das conexões consideradas banda larga são de até 256 kbps contratado [...] Esse é o modelo de hoje e me parece que está se consolidando que ele não é capaz de incluir o conjunto da população nesses serviços que são de relevância evidentemente pública [..] O modelo é formado para um país de classe média, o que evidentemente não somos”.
Para ele, o acesso à banda larga deve ser visto como um direito fundamental. “A partir do momento que se garante isso, alguém tem que se responsabilizar pelo dever. O Estado passa a garantir o acesso.” Outras diretrizes essenciais para políticas públicas na área, segundo Diogo, é o acesso de forma individual, para garantir equidade, e a necessidade de velocidades altas.
Na rodada de perguntas, o arquiteto Pablo de Soto, da Espanha, membro do coletivo Hackitectura, apresentou a guifi.net, rede coletiva de alta velocidade, e Sérgio Amadeu levantou a importância de também garantir o princípio da neutralidade da rede na hora de pensar em infraestrutura. “Esse deve ser o ponto zero”.
Integrantes da plateia vindos de Roraima, Ceará, Rio de Janeiro levantaram a questão da dificuldade de infraestrutura vivida em todo o país. “Se vocês acham ruim 356 k, em Fortaleza isso custa R$80 reais”. “Ninguém vê o Brasil que existe de MG para cima”.
A programação desta quarta-feira do Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital segue com o ato de abertura e, na sequência, shows com bandas do Circuito Fora do Eixo.

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