Apropriação das novas tecnologias para produção de informação e consequente ampliação da comunicação, ciberativismo, midialivrismo, copyright X cultura livre, propriedade intelectual, diploma de jornalismo foram alguns dos temas abordados na mesa de discussão da manhã deste terceiro dia do Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital Brasileria. Participaram do debate: Ivana Bentes, da UFRJ e do pontão ECO, Alex Primo, da UFRGS, Anapuaká Muniz, da Web Brasil Indígena, Jean Burgess, pesquisadora australiana co-autora do “Youtube e a Revolução Digital”, Jamie King, do Vodo.net e o moderador André Deak, curador do eixo comunicação do Fórum da Cultura Digital.
Ivana abriu as apresentações fazendo uma “síntese hiperbólica das questões que interessam a ela”, como a própria professora definiu. A apropriação da tecnologia pelos cidadãos para fazer o controle de forma política foi destacado por ela. “A ideia da vigilância reversa me parece extremamente positiva. Significa a apropriação do sistema para outros usos, outras formas. É o monitoramento feito por quem seria objeto de monitoramento”, disse, citando o exemplo do Copwatch, uma rede de ativistas que documenta ações policiais ao redor do mundo.
Para ela, essa apropriação é fundamental ao se pensar nas novas características do mundo de hoje, do capitalismo cognitivo, marcado também pelo surgimento dos não especialistas que produzem comunicação qualificada dentro das economias criativas. “Essa produção doméstica é imprescindível”, apontou. Segundo a professora de comunicação, essa possibilidade de ampliação de novas vozes é um grande ganho da era tecnológica. “Não é que elas não existiam antes, mas com a internet ganham mais espaço”.
A tese foi reforçado por Alex Primo, que mostrou como a comunicação está se transformando com as tecnologias digitais e como as intervenções participativas mudam as relações de poder e de produção cultural. A maneira como a mídia e as redes sociais se relacionam de forma complementar foi ressaltada por ele. “O que seriam dos blogs sem a mídia de massa e o que seria da mídia de massa sem os blogs? Não dá para ficar no “ou isso ou aquilo”, é “isso e aquilo”", disse.
Ele defendeu ainda a não obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo: “Se nós vamos defender a liberdade de expressão, ela deve ser empregada em todos os âmbitos. Não se pode resolver um problema de mercado com essa exigência”, pontuou.
Na sequência, Ánapuaká Muniz mostrou a experiêcia da Web Brasil Indígena, rede que abriga conteúdos e experiências sobre e produzidas por indígenas. “Tudo foi feito por nós em WordPress, nos apropriamos da tecnologia completamente. Nada foi terceirizado”, disse. Ánapuaká levantou a importância da tecnologia para documentar uma cultura, registrar histórias que se perdem no tempo e contou ser a oralidade a metodologia utilizada no processo. “Não utilizamos técnicas jornalísticas”.
A “revolução dos usuários” e a urgência do compartilhamento livre
A convidada internacional Jean Burgess, da Austrália, mostrou a pesquisa que deu origem ao livro “Youtube e a Revolução Digital”. Analisando 4.300 vídeos dos mais assistidos na comunidade, concluiu-se que 70% desse conteúdo havia sido postado por usuários, responsáveis pela criação de 50% desses vídeos. “O Youtube é um acervo cultural da nossa época, um mapa do que está acontecendo no mundo, promotor de intercâmbio entre culturas”, disse citando o exemplo de uma novela mexicana famosa nas Filipinas.
A “genialidade” do Youtube foi contestada pelo último palestrante da manhã, o inglês Jamie King, que abriu sua apresentação dizendo considerar o servico contraditório. “Ele abre a comunicação para as pessoas compartilharem seus vídeos, que acabam alimentando um gigantesco sistema econômico sem retribuir financeiramente nenhum dos usuários”. O conflito da cultura livre com o copyright foi bastante abordado. “Esse sistema é irracional, estamos infrigindo essas leis o tempo todo. Vão prender todo mundo?”, provocou.
Jamie falou ainda da experiência de fazer o filme “Steal this film”, compartilhado pela rede e aberto a receber doações dos usuários. “Nossas vidas mudaram, as oportunidades começaram a aparecer, recebemos dinheiro, nos abriu diversas portas. Ganhamos ambições e acreditamos que podemos pensar primeiro no direito de expressão antes de pensar no modelo financeiro. Queremos exercer o direito de ser copiado, o direito de expressar nossas ideias, nossas criações”.
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