A abordagem das demandas, especificidades e transversalidades da arte digital na formulação de políticas públicas voltadas à área foi o principal assunto do encontro sobre o tema promovido no Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital Brasileira. O debate ocorrido na tarde desta quinta-feira foi moderado pelo curador do respectivo eixo temático no Fórum, Cícero Inácio da Silva. Após a apresentação inicial, expuseram suas considerações a artista, professora da PUC-SP e diretora artística do Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia, Giselle Beiguelman; o pesquisador da Universidade Aberta da Catalunha, na Espanha, Pau Alsina; a artista, criadora do Canal Contemporâneo e representante do segmento no Conselho Nacional de Política Cultural, Patrícia Canetti; o poeta e produtor de mídia interativa, André Vallias; e o sociólogo e professor da Unicamp, Laymert Garcia dos Santos.
Em sua palestra, Giselle Beiguelman falou sobre os problemas existentes no Brasil em termos de hardware (infraestrutura física), software (programas) e peopleware (usuários da tecnologia), que condicionam a existência da arte digital. Entre outras questões, mencionou as restrições de acesso à eletricidade em regiões como o Norte do país, a falta de tomadas nos espaços culturais, a oferta reduzida de serviços de acesso público à internet e a carência de softwares e “programas institucionais” contínuos e públicos para a arte digital.
Contudo, Giselle ressaltou que a produção se realiza a despeito das dificuldades, comportando “usos alternativos das tecnologias, desenvolvidos à revelia das universidades, do governo e da massa crítica” de especialistas. A artista defendeu o estímulo a essa estética emergente de “crítica de uso e uso crítico” dos meios, por meio da promoção do “letramento digital” e da implementação de espaços de criação, desenvolvimento, fruição e agenciamento. “Isso nos permitira falar de uma geração tecnofágica, em lugar de produsadores ou fansumidores, escravos felizes patrocinando as marcas” dos produtos tecnológicos, argumentou.
Confira aqui as telas mostradas na apresentação de Giselle Beiguelman.
Políticas públicas no contexto espanhol e brasileiro
Pau Alsina relatou uma série de projetos e estudos dos quais tem participado na Espanha, como a elaboração de diagnósticos para o planejamento de políticas culturais como o Libro Blanco de la Interrelación entre Arte, Ciencia y Tecnologia, o Plan Estratégico de Cultura de Barcelona, e o Plan Estratégico de Medialab Estruch Sabadell. Nessas experiências, Pau identificou linhas de orientação ligadas à singularidade e transversalidade da arte digital, à promoção da interlocução entre cultura, indústria, inovação, tecnologia e educação; à integração dos processos de formação, pesquisa, produção e difusão; e à articulação entre o local e o global.
Após a exposição sobre o contexto espanhol, Patrícia Canetti expôs um panorama da mobilização da sociedade e das iniciativas recentes do governo brasileiro para a constituição de uma política para a arte digital. Recordou a conquista de uma vaga para o setor no Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC), instalado em 2008, bem como sua inclusão na tabela de áreas e segmentos culturais do Conselho Nacional de Incentivo à Cultura, que aconteceu na última semana.
Patrícia deu destaque também para os passos que julga necessários para a consolidação das políticas contínuas : a composição de um colegiado de arte digital vinculado ao CNPC; a realização de uma pré-conferência setorial sobre o tema na fase preparatória para a 2ª Conferência Nacional de Cultura; e a aprovação do Plano Nacional de Cultura no Congresso Nacional. Este terá como um de seus desdobramentos a possibilidade de formulação de planos nacionais setoriais, e um deles poderá atender as especificidades da arte digital.
Poesia concreta e conhecimentos tradicionais
Em sua apresentação, André Vallias leu um texto poético, recordando a história dos meios de comunicação, da escrita com ideogramas à computação e internet. Falou também do aspecto “recursivo” e de “consciência de linguagem” presente nos poemas, fatores, segundo ele, ressaltados na cultura contemporânea. Por fim, o poeta e produtor de mídias interativas aludiu às convergências da cibernética com a poesia concreta nos anos 50 e 60, e citou uma das mostras inaugurais de arte digital, Cybernetic Serendipity, realizada em Londres, em 1968.
Por fim, Laymert Garcia dos Santos questionou como a arte e a cultura digital devem ser abordadas na perspectiva cultural brasileira. Para o sociólogo, a cibernética dissolveu fronteiras da arte e da cultura, substituindo a anterior divisão entre conhecimento tradicional e valores modernos pela articulação entre os dois universos. A perspectiva indígena sobre o mundo e a tecnologia passa, então, a ser tão contemporânea quanto a tecnocientífica.
Após comentar o projeto de organização de uma ópera sobre a Amazônia, com a participação de grupos indígenas ianomâmis e instituições do Brasil e Alemanha envolvidas com a cultura e arte digital, Laymert afirmou que o Brasil é “convocado” a contribuir com suas diferenças (culturais) no cenário da nova geopolítica, assim como já ocorre com China, Índia e Rússia, países que mesclam modernização com suas tradições.
karini 21 de junho
eu odeio essa merda e are digital, por que tenho quefazertrabalhos dissa merda de porra!