Um pedaço da africa no sul do Brasil -A primeira Semussum Brasil – Semana de musica com software livre foi em colaboração e parceria com o Ponto de Cultura Odomodê-Afro Sul

Foi a primeira vez que estive em Porto Alegre. Bom, estive antes naquele primeiro FSM, mas ali não conta, pois estava no forum, nem conheci um gaúcho. Desta vez, além de me estabeler em uma região central, convivi com pessoas natas daquela cidade, que  me mostraram que a cultura gaúcha é muito mais brasileira do que muitas pessoas acreditam, que junto à colonização européia, a vinda de polacos, alemães, judeus… Africanos também se estabeleceram por lá. E foram muitos, estão espalhados por toda a Porto Alegre e região. Sim, lá tem Cultura Afro-Gaúcha!

Leiam meu relato! Estou muito feliz de ter conhecido o Paulo Romeu, a Iara, Dona Maria, Mestre Paraquedas, Mestre Borel, Mestre Chico, PC !!!! Ter recebido o axé de Bábà Diba de Iyemonjà ! vou falar um pouco de cada e o que foi esse encontro com mestres da cultura afro-brasileira, e como me ensinaram lá, afro-gaúcha.

Mestre Paraquedas e Cris Figo

Fortalecer em Porto alegre no Rio Grande do Sul, ações artísticas que tratam sobre consciência negra e valorização da matriz africana é a tarefa fundamental exercida nos 35 anos do Grupo Afro Sul, Centro Cultural Africanista localizado numa das avenidas mais movimentadas da Capital Gaúcha a Avenida Ipiranga, no passado foi uma Escola de samba e depois Bloco Afro Odomodê, que saia no carnaval portoalegrense pelas ruas tocando samba e ganhando vários carnavais, sendo sempre uma banda que além de música, era também um grupo de dança. Hoje, além da banda , o grupo Afro-Sul  virou também centro – cultural, que pela auto-estima da herança ancestral oferece em um pequeno espaço ocupado, um trabalho social de valor inestimável.

Paulo Romeo é um dos responsáveis pelo projetos e um dos musicistas que oferece Oficinas de instrumentos percurssivos, inclusive um grupo só para mulheres chamado de gurias da percussão. Ele veio de São Paulo ainda jovem e foi morar na periferia de Porto Alegre, lá conheceu um pouco da realidade dos quilombos urbanos  e ainda jovem passou a pesquisar ritmo, instrumentos e desenvolvê-los. Em Porto Alegre conheceu Iara, sua companheira de trajetória, uma gaúcha guerreira que pesquisou sobre dança Afro e desenvolveu a performance em dança do grupo Afro sul, ensaiando e planejando figurino, coordenando o grupo em show e viagens  para várias partes do Brasil e do exterior.

Tuxaua PC e Akin

Quem nos recepcionou e fez as honras da casa foi o camarada PC Barbosa, premiado pelo MinC pelo edital Tuxaua, organiza por lá encontros entre mestres griôs e tecnologia. O encontro foi entre os dias 7 e 14 de março de 2010.

PC nos levou logo no primeiro dia para conhecer o batuque do Terreiro de Bábà Diba de Iyemonjà a festa lá é muito parecida com as festas de terreiro de Umbanda daqui, festa de caboclo. No altar muitas imagens, santos, enfeites. O toque dos tambores é feita com as mãos. Foi muito especial, pois o terreiro era de Iemanjá, meu orixá de cabeça. Fiquei bastante emocionada, e o caboclo me orientou para cuidar bem do que estávamos fazendo ali. Acé!

Conhecemos lá o fabuloso Mestre Paraquedas que foi do primeiro grupo de paraquedistas do exército brasileiro, conhecendo na juventude o capital Lamarca, lá no Rio de Janeiro. Ele é compositor e cantor de muitos sambas num estilo muito irreverente. Profundo conhecedor também dos batuques de lá, levou a equipe Semussum para conhecer a casa que ele é filho. Mestre Paraquedas gravou diversas músicas de seu repestório e com certeza estará na coletânea Semussum Brasil. Vamos aguardar o trabalho ficar pronto. O mestre é também cenógrafo tendo realizado vários cenários para o Grupo AfroSul e parece que já trabalhou profissionalmente no Rio de Janeiro. Foi ele quem nos presenteou com esse panô do mascote Semussum Brasil. Sinto muito não ter registrado em vídeo muitas de suas histórias, acho que de alguma forma o mestre estava protegido por alguma entidade da captação de suas imagens, pois toda vez que íamos para uma entrevista algum “acontecimento” rolava. Ah, foi assim também com o camarada PC… respeitemos!

Mestres Paraquedas e Quinho Caetés

Conhecer o Mestre Borel foi o que mais me impressionou. Esse mestre é uma escola viva sobre a família linguística Yorybá da Nigéria e toda a Cultura Afro-Brasileira. Fomos visitá-lo em sua casa, a esperança era que ele pudesse nos contar um pouco da história de sua vida, ou pelo menos toca-se alguns dos toques de seu alabé. Mas o encontramos muito adoentado, já tem dois anos que esse mestre sofre no coração. Felizmente ele permitiu nos entrevistá-lo e com sábias palavras comentou o momento que estamos vivendo hoje em relação ao descaso com o conhecimento ancestral e sua força.Atotô mestre Borel!

Foram 7 dias intensos de muita troca de informação. No domingo, dia que chegamos, o Odomodê estava realizando uma sambada que ocorre sempre nesse dia, e ofereceram à equipe Semussum uma recepção com churras e muito partido alto. Não estive presente, mas Daniel e Quinho nos contaram como foi, muita festa. No outro dia fizemos a reunião, que foi energizada com as falas de Paulo, PC, Mestre Quinho e Ronaldo Eli.

Mestre Quinho no panô

Nos dias que se seguiram, a luta foi entre a máquina e a energia elétrica, resolvida a energia por nosso camarada sapo, que puxou uma gambiarra de uma instalação bem nova no palco do Odomodê, do outro lado de onde estávamos montando o estúdio improvisado. Ficamos lutando homens e máquinas. Mas apesar das dificuldades, o trabalho foi ficando fino, com muito paciência Cris Figo e Daniel foram configurando a máquina, de vez em quando reiniciando o jack, o ardour e procurando o motivo para alguns xruns e o desligamento involuntário de Ogum.

Mestre Quinho Catés do coco de Umbigada

Mestre Quinho ofereceu oficinas de coco. E apesar da zabumba nativa da família não ter viajado de Olinda para Porto Alegre, improvisou com outros instrumentos de percussão. Na oficina descobri como é difícil marcar com o ganzá, olhando Yalodê tocar até parece fácil. A oficina foi o maior sucesso reunindo sempre mais de 30 pessoas. Levando-as no último dia, domingo dia da sambada local, à uma apresentação de coco de umbigada, sem Beth, sem a tradicional zabumba de tronco de coité.

Importante agradecer à toda a família Afro-Sul/Odomodê pela recepção, à Dona Maria pelas deliciosas refeições, Mestre Para-quedas pelas histórias e por nossa bandeira do Leão de Judá, à família coco de umbigada por proporcionar essa trip, e à família semussum por mais uma missão cumprida.

Essa é a busca, compreender, assimilar, ensinar, registrar, nossa cultura ancestral, de raíz, brasileira.

Iê Semussum!

por do sol do Guaíba em POA