Rafaella Carrà, o kitsch na música pop e a indústria cultural contemporânea

Após alguns meses de férias [do blog!], é hora de voltar a escrever por aqui. E a inspiração vem desse vídeo que você encontra logo abaixo: Rafaella Carrá cantando Hay de venir al sur.

Antes de começar a análise propriamente dita, quero fazer um desabafo. É impressionante a variedade de coisas que encontra-se no YouTube! Qualquer vídeo que você assista já te oferece diversos outros, os famigerados “vídeos relacionados”. Às vezes você entra pra ver um vídeo e acaba passando uma boa horinha ou duas vendo outros vídeos e ampliando sua gama da pesquisa inicial. São clipes de música, trechos de shows, vídeo-aulas, reportagens, vídeos amadores, animações, comerciais, futebol, trechos de filmes, novelas e seriados, etc, etc, etc.

Por exemplo, outro dia toquei uma música do Bon Jovi no violão na casa de um amigo. Ele foi fazer uma busca no YouTube para assistirmos ao clipe da música, e por um erro de digitação no título, o primeiro resultado foi o Bon Jovi tocando no programa do Faustão. Refiz a busca em casa, outro dia, mas o vídeo do Faustão não estava nem entre os primeiros resultados. É a lógica digital dos mecanismos de busca em um caos que nos favorece. E isso nos trás de volta ao nosso tema.

Rafaella Carrà

Rafaella Carrà

Rafaella Carrà, segunda nos conta a Wikipedia em inglês, é/foi uma dançarina, apresentadora de TV e cantora italiana, que trabalhou e arrebentou nos grandes meios de comunicação na própria Itália [na rede pública RAI - Radiotelevisione Italiana], na Espanha [na rede pública TVE - Televisión Española] e na América Latina, tendo fixado-se na Argentina no final da década de 1970, onde atuou junto à ATC [atual Canal Siete ou TV Pública]. Ela tem um currículo no mínimo respeitável, com hits musicais internacionais em várias línguas – além de italiano, espanhol e inglês, tem versões em francês, alemão, estoniano e até em turco. Atuou também no cinema desde os 9 anos [no filme Tormento del passato, de 1952 e dirigido por Mario Bonnard], atuou em mais de 20 filmes e também em programas ficcionais de televisão, inclusive nos Estados Unidos [interpretando a protagonista Sophia em I Spy, em 1966]. Ainda segundo a Wikipedia, ela retornou ao tubo de elétrons – e agora também telas de plasma, LCD e LED e dispositivos móveis – apresentando um programa de âmbito internacional na RAI italiana em 2008 chamado Carramba! Che fortuna.

Bom, mas vamos ao vídeo! Recebi o link de uma amiga pelo MSN, e de início não vi muito atrativo. Por isso recomendo, caso você também não tenha visto nada de interessante, que assista-o mais uma ou duas vezes, e então não surpreenda-se caso de repente esteja assistindo-o várias vezes na sequência. É interessantíssimo de tão bizarro, uma verdadeira pérola da pop music kitsch. Essa mulher é a Sidney Magal feminina européia. O vídeo tem muito pano pra manga: dá falar sobre o kitsch/brega, sobre os anos 80 e outros artistas, sobre o feminismo [se você reparar na letra, tem um tom de "mulher sexualmente independente", algo bastante recente na história da humanidade], sobre a coreografia, a linguagem do vídeo, casamento entre astros da TV com a música, enfim… Pra fazer uma análise detalhada mesmo desse vídeo seria preciso umas 10 páginas em média, vou tentar achar um foco.

A maior dúvida que fica em mim é se os produtores dessa obra – por meio dessa mulher e da equipe de dança – estão apresentando uma coreografia “séria” [artistica e esteticamente comprometidas com algo], ou se estão escrachadamente tirando sarro, fazendo algo destinado a parecer ridículo, hilário. Sempre penso que manifestações culturais muito carregadas de referências pontuais contemporâneas envelhecem rapidamente. Então não sei se o motivo de eu achar praticamente todo detalhe do vídeo bizarramente hilário é pelo fato de eu não ter participado dessa cultura anos 1970/80, e automatica e inconscientemente vejo tudo isso como ultrapassado e beirando o ridículo. Mas a impressão que tenho é essa: de que ela e os dançarinos estão “forçando a barra” para dar um tom humorístico ao clipe e à música, um kitsch bastante consciente.

Então veja os detalhes: as inclinadas de perna nas danças; as expressões faciais dos dançarinos, que fazem até careta; os planos abertíssimos, onde mal podemos ver o rosto do elenco; os zooms longuíssimos; a letra da música, que sugere o amor [leia-se sexo] como cura para a loucura, e que diz que somos inconsoláveis sem amantes; os graciosos movimentos de mão da cantora, que é uma belíssima mulher, diga-se de passagem; o cenário exótico; a saída de trás dos arbustos de Rafaella; a latinidade sonora; e a cereja do bolo, pra consolidar o estilo anos 1980 da linguagem, a fusão final em forma de estrela.

Capa de disco de Rafaella

Capa de disco de Rafaella

Minha curiosidade ficou tão instigada com esse clipe que fiz uma pequena pesquisa videográfica, com ajuda dos já referidos vídeos relacionados do YouTube. Vi outros clipes de Rafaella Carrà, apresentações em programas de TV, versões em outras línguas, entre outros. O que achei mais bacana nessa história toda é que a grande maioria dos vídeos que assisti são do tempo onde o U-matic era o dispositivo de vídeo padrão para armazenamento da produção televisiva. E hoje já estão em grande número difundidos na internet por meio de sites de compartilhamento de vídeos. De outro modo, dificilmente teríamos acesso a esse e muitos outros materiais. Quer dizer que vídeos compartilhados pela internet têm também função de registro de memória e de difusão do que foi ultrapassado pela nossa voraz indústria cultural dos “grandes sucessos de todos os tempos da última semana”. É, mais um motivo para os barões conservadores da indústria fonográfica buscarem respaldo legal para coibir a difusão e compartilhamento de materiais audiovisuais pela internet.

Mas aqui também está um motivo para pesquisadores intervirem a favor do compartilhamento via internet: esses materiais não só podem ajudar em pesquisas acadêmicas historiográficas, mas como podem tornar-se objetos de pesquisas sobre o consumo e fruição cultural na primeira década do século XXI, entre outros. É notável a demanda de encararmos a internet também com esse viés construtivo para setores importantes da sociedade – como a pesquisa acadêmica – como contrapeso ao ponto de vista de alguns setores da indústria do entretenimento que estão dificultando os processos de compartilhamento audiovisual pela internet. Há também representantes da indústria que conseguem enxergar esse “compartilhamento rizomático desenfreado” como estratégia positiva de atuação. A internet segue outras lógicas, diferentes das lógicas do capital que dominam a indústria cultural, principalmente por seu caráter imaterial, onde a reprodutibilidade atinge seu auge, tal qual a conhecemos hoje.

Bom, fica aqui então a reflexão. A análise detalhada do clipe de Hay que venir al sur fica para uma outra ocasião, quem sabe um videocast… E lembre-se: “para hacer bien el amor hay que venir al sur, lo importante es que lo hagas con quien quieras tu. Y si te deja no lo pienses mas: buscate otro mas bueno, vuelvete a enamorar“. Divirta-se com o vídeo!

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