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  • A arte do insólito

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    por: conferencianacional, em Sem categoria no dia 26/07/2010

    Representante do Circo no Plenário do Conselho Nacional de Política Cultural, Alice Viveiros de Castro apresenta mais um artigo sobre a história dessa arte que encanta as pessoas por todo o mundo.

    “O circo é a arte do insólito, do inesperado, do surpreendente. Gente que faz coisas inimagináveis, de deixar outras gentes de boca aberta e com o coração na boca.

    O circo é a arte de realizar proezas, enfrentar riscos, colocar-se à prova apenas pelo prazer de surpreender e encantar o público.

    O circo é a arte do diverso. Tudo cabe debaixo de uma lona, tudo pode entrar na roda mágica do picadeiro.

    A história do circo é a longa trajetória dos que se esmeram em dominar a técnica de fazer estranhos movimentos, chegando ao cúmulo de arriscar a própria vida apenas para entreter seus semelhantes e terem a suprema satisfação de vencerem a si mesmo.

    Os primeiros circenses eram exímios caçadores, ágeis, fortes, de grande pontaria e de muito bom humor. Gosto de imaginar uma tribo pré-histórica atirando-se à caça do almejado bizão. Os trogloditas organizados fecham o cerco ao animal. Primeiro chegam os mais ágeis corredores que acuam o bicho, depois vem os mais fortes provocando e enfrentando a fera de frente, deixando o animal cansado e pronto para ser atingido pelas toscas lanças dos melhores lanceiros do grupo. Pronto, agora é a hora, todos olham para o barbudo dono da melhor pontaria, aquele que sabe tudo de lanças e como melhor cravá-la na garganta do futuro alimento. Mas eis que incentivado pelos olhares ansiosos de seus companheiros ele, subitamente, começa a girar a lança de uma mão para a outra, primeiro devagar, depois com rapidez e leveza, hipnotizando a todos. A todos menos ao bizão, que aproveita a confusão e foge…

    Ou talvez, quem sabe, o esperto malabarista tenha se contido, acertado o bicho bem no meio dos olhos e voltado para a caverna carregado em triunfo. Mais tarde, depois do lauto banquete, sentado em roda, aquecendo-se ao fogo, enquanto a tribo rememora a caçada nosso herói se põe a realizar proezas com a lança. Passa-a de uma mão para a outra, atira-a para o alto e pega-a por trás. Gira-a em movimentos rápidos e surpreendentes dando à lança uma nova função, não mais arma mortal, mas objeto de puro prazer e encantamento.

    As primeiras proezas circenses de que temos notícias estão diretamente ligadas à caça aos touros. Para nossos antepassados mais remotos ir á caça era a mais importante atividade do grupo, mistura de festa e ato de profunda fé e religiosidade. Os achados arqueológicos de Catal Huyuk, antiquíssima cidade da região da Anatólia, na Turquia, já demonstram a forte presença da arte de dominar um touro e sobre ele realizar saltos e acrobacias diversas. Algo que já era admirável há mais de 8.000 anos.

    As primeiras imagens de acrobatas foram encontradas em Knossos em Creta e tem mais de 4.500 anos. Belas jovens realizam ousados e arriscados movimentos sobre um imenso touro que é contido por um rapaz forte e musculoso. Na China, em Wuqiao, pinturas numa pedra, da mesma época, mostram o lendário batalhão de cavaleiros acrobatas que conseguiram derrotar o inimigo surpreendendo-o com seus saltos e inacreditáveis peripécias no lombo dos cavalos. Lá pelo ano 3.000 A.C as pirâmides do Egito já eram decoradas com figuras de malabaristas, equilibristas e contorcionistas.

    Artistas da proeza sempre existiram quer se apresentassem nas ruas, feiras, palácios ou sobre improvisados tablados. Para os antigos toda expressão que aliava domínio técnico, apuro na execução e harmonia nos movimentos era admirada e reconhecida como arte.

    A divisão entre arte erudita e arte popular, que sempre existiu mas se fortalece nos últimos séculos da idade média como forma de garantir apoio da igreja às expressões culturais mais bem comportadas, é que vai colocar as artes do corpo em um lugar de discriminação e desimportância.

    Reis e Papas tentam regulamentar as expressões artísticas separando as que deveriam ser apoiadas e incentivadas das que não mereciam nenhuma consideração e eram apenas expressão dos baixos instintos, devendo ser ignoradas ou proibidas. Em 1274, Afonso X, rei de Castela se dá ao trabalho de classificar os jograis* em 6 diferentes tipos, separando o jogral que tangia instrumentos, contava novas, recitava e cantava versos, portando-se com dignidade, dos bufões e trejeitadores, mímicos que só serviam para divertir a plebe com grosserias e palhaçadas.

    A nobreza esmerava-se em patrocinar seus artistas preferidos e os reis passam a instituir as Reais Companhias de dramas, comédias e música, base dos Teatros, Operas e Corpos de Baile Nacionais. Os artistas dos teatros de feira, funâmbulos que se equilibravam atravessando cordas em grande altura, amestradores de animais, saltadores, malabaristas, mímicos, mágicos, bonequeiros e outros que tais acabam ficando de fora do mundo da Arte com A maiúsculo, não recebendo verbas oficias nem ganhando o apoio da Igreja e do Estado. Mas o público nunca os abandonou e a nobreza e o clero sempre frequentaram suas arquibancadas com prazer e alegria… só não davam dinheiro nem valor….(até hoje, até hoje….. )

    O Circo casa de espetáculo, espaço redondo onde se exibem números diversos de proezas e fantasia surge na segunda metade do século XVII. Franceses e britânicos brigam pela criação do circo moderno, cada um puxando para si a primazia de ter reunido num único espaço os diversos números da arte da equitação e os mais diferentes exercícios de pericia e habilidades.

    Em 1776 o sargento inglês Philip Astley faz um sucesso retumbante com sua casa de espetáculo, um picadeiro onde montava grandes pantomimas com números de adestramento de cavalos, exibições de acrobacias equestres e mais equilibristas, aramistas, saltadores e malabaristas.

    O Circo nasce como espaço onde tudo pode ser exibido desde que seja capaz de surpreender, emocionar ou impactar o público. Teatro, música, dança, cenários retumbantes, figurinos maravilhosos, todos os meios eram válidos para encantar a audiência.

    No Brasil o primeiro palhaço veio nas caravelas com Pedro Álvares Cabral. Diogo Dias era seu nome e já havia trabalhado em comédias e arremedilhos antes de se aventurar nas travessias de mares nunca d’antes navegados. Ao ver os índios dançando na outra margem do rio, logo após a primeira missa, Diogo passou-se para o outro lado e começou a dar saltos e piruetas e a rir com os da terra que logo se encantaram e com ele formaram uma grande roda.

    Circenses cheios de energia e coragem apresentaram-se nas regiões das Minas Gerais já nos idos de 1720, deixando desesperado o bispo D. Frei Antonio de Guadalupe que se queixava ao Santo Ofício dos ciganos que infestavam Vila Rica e outras regiões com suas comédias e óperas imorais.

    O século XIX é o século do circo. Companhias atravessam os continentes e pouco a pouco vão criando dinastias locais de grandes artistas. É assim no Brasil onde as famílias circenses chegam, criam raízes e abrasileram-se… Chiarinis, Seyssel, François, Stankowichs, Stevanowichs, Silvas, Temperanis, Olimechas, Manges e tantos outros são a base do circo brasileiro. Um circo que sempre soube ir onde o povo está.

    Hoje no Brasil calcula-se que mais de 1500 circos estejam em atividade entretendo uma platéia de mais de 20.000.000 milhões de espectadores por ano. Além dos circos itinerantes, que mantém viva a tradição da lona, temos mais de 50 escolas e projetos sociais que ensinam as artes circenses e são o berço de novas trupes e companhias.

    Tradicionais, contemporâneos, clássicos ou modernos não importa muito o estilo de cada um. Cada época se emociona ou se surpreende do seu jeito particular e próprio. Mas o fato é que homens e mulheres do século XXI temos muito em comum com nossos antepassados, tal qual nossos avós das cavernas sabemos admirar gente capaz de realizar com graça e perícia coisas que nós nem sonhávamos imaginar.”

    Nota:
    Jogral vem do latim “jocus”, brincadeira, diversão. Mesma origem de lúdico. O termo era usado em toda a idade média e renascimento para os artistas de diferentes habilidades que percorriam os castelos tocando, cantando e realizando pequenas proezas. É a origem de “juggler” e “jongleur”, malabarista em inglês e francês respectivamente.

  • DIVERSIDADE, DESIGUALDADE E A DISTRIBUIÇÃO DO BOLO

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    por: conferencianacional, em Sem categoria no dia 20/07/2010

    Acompanhe, abaixo, o texto de Claudio Barría, que traz contribuições para o debate sobre políticas de fomento à produção artística. Claudio é integrante do Colegiado Setorial de Circo, no Conselho Nacional de Política Cultural, e do Comitê Consultivo do Fundo Nacional de Cultura.

    “O debate, sempre acalorado e pertinente, embora também enfadonho e desgastante, sobre a repartição de recursos de apoio ou incentivo com base na divisão regional do país, que é afinal, o debate sobre a desigualdade estrutural no pacto federativo, tem uma importância histórica colocada justamente pelo fato da própria estrutura do Estado brasileiro ter-se erguido em cima de uma lógica imperial/colonial que, por mais que pareça ter mudado, sob o influxo das leituras midiáticas da modernidade, de fato a distribuição do poder, a concentração dos centros econômicos, políticos, financeiros e das grandes cadeias econômicas da cultura, continuam – 500 anos depois – reproduzindo a mesma desigualdade, e se concentrando no eixo Rio São Paulo, com eventuais deslocamentos para São Paulo/Minas, enfim, no sudeste, cede do antigo império, das oligarquias e das elites tupiniquins, entre as quais encontramos, ontem e hoje, aquelas que sempre foram consideradas como a verdadeira expressão artística e cultural do Brasil ou da então chamada Alta cultura.

    Nesse quadro, de tão naturalizado, é fácil entender que alguns fiquem chocados ao se deparar com propostas que busquem uma certa “redistribuição”.  Deparados também perante o legítimo temor de ter suas produções artísticas descobertas da mão protetora do Estado.  A questão não é fácil, e de fato, não vejo que possa ser resolvida a partir de critérios numéricos, de dados do que há. Até porque o que há é justamente o produto dessa desigualdade estrutural que quer se mudar. Pelo menos nós queremos mudar e acredito que o MinC e a Funarte também. Os que não quiserem, tudo bem, a gente se enfrenta no campo, mas o debate de fundo para mim é isso. Quer dizer, dai partimos, da possibilidade de deixar o quadro da cultura diferente do que está, do contrário não faz sentido e seria melhor voltarmos à velha política de balcão.

    Uma vez colocados do mesmo lado, daqueles que querem mudar essa desigualdade estrutural consolidada em um regionalismo “sudeste-cêntrico”, podemos começar a buscar os melhores modos de fazer.  Agora isso não será possível sem rompermos com algumas lógicas, e sem abrir mão de alguns benefícios, em especial os que estivermos fazendo arte no sudeste. Como é o nosso caso.

    O primeiro passo, ou exercício, se preferirem, me parece ser, superar de uma boa vez a velha lógica da “divisão do bolo”.  Essa idéia de que alguém nos está devendo algo ou que “conseguimos” agora um tesouro que há que repartir, não contribui em nada e, pelo contrário, estimula algumas das agressivas e indignadas reações dos que, como sempre, acham que merecem mais. No mínimo, dificulta, digamos, tecnicamente, definir o que é mais e o que menos, nos empurrando para critérios abstratos e quantitativos, falsamente científicos. Para ser mais claro, os dados do IBGE são como a Bíblia, você pode justificar quase qualquer coisa em nome dela se não contextualizar corretamente.  Os dados devem ser organizados e reordenados de acordo com um critério político claro, um objetivo comum, no caso, fomentar a produção artístico-cultural em todo o território nacional, como um projeto de nação, não de algumas pessoas que supostamente fazem mais porque são melhores, como podemos entrever, não sem espanto, nas entrelinhas de alguns argumentos.  Até aqui nada de novo, trata-se do do-in cultural de que falou o Ministro Gil no início do seu mandato e que deu origem aos pontos de cultura e ao Cultura Viva.

    Dai que, no mínimo, para evitar uma esquizofrenia na política nacional de cultura, a divisão de verbas, pontuais ou estruturais, de editais ou de programas de fomento e fundos, devam necessariamente responder à mesma lógica: identificar onde precisamos de maior investimento para potencializar a produção e circulação de bens culturais, sejam espetáculos, pesquisar, estudos, equipamentos, manutenção de grupos, em qualquer uma das áreas das artes cênicas.

    De fato a produção cultural nos grandes centros como Rio e São Paulo, que concentra a maioria dos recursos, nem por isso atende a imensa maioria da população que ali mora, haja vista que bairros e municípios mais populosos e periféricos estão ainda hoje, quase totalmente desprovidos de equipamentos culturais básicos, como bibliotecas, cinemas, salas de teatro e mesmo espaços adequados para a instalação de lonas, tendo os o circos itinerantes que se desdobrar em mil funções extremamente penosas para poder montar um espetáculo.

    Entretanto, tentar encarar essa realidade complexa – para cuja identificação, de fato, não possuímos mecanismos claros e eficientes que a possam definir com clareza, de modo a servirem de orientação de políticas -, com base uma política multifocada a partir da fragmentação do território em micro-regiões, de uma diversidade tal que nem as subprefeituras conseguem vislumbrar, que dirá gerir, significaria, não apenas tornar a maquinária do incentivo à cultura uma aparelhagem imensa e inoperante, mas, e principalmente, desconhecer os determinantes históricos estruturais que, embora não apenas, são também parte de uma anomalia a ser corrigida para potencializar a produção artístico-cultural e seu escoamento para os diversos usuários e consumidores Brasil afora, e pelo mundo também.

    Parece-me que essa tentativa, se tida como diretriz, não teria como se manter ou se construir atrelada a percentuais fixos de “distribuição do bolo” colocados à priori, sob risco de perder sua capacidade de responder a uma demanda que é dinâmica e complexa.  Mesmo que, de um modo ou outro, esses percentuais, a posteriori, venham demonstrar, com clareza, os focos regionais de uma política de incentivo destinada a estimular a produção artística e não apenas, a reproduzi-la.  Entretanto, esse demonstrativo, não virá de uma leitura abstrata baseada em uma espécie de paternalismo regional, que não faz outra coisa senão reproduzir a subalternização dessas regiões, mas será definido pela própria demanda articulada aos critérios de fomento, se estruturado um mecanismo flexível de avaliação de projetos que supere as conhecidas limitações com que se deparam as comissões de avaliação de propostas em editais públicos, que em alguns casos chegam ao extremo de depender apenas do “parecer do parecerista”.

    Assim, um modo minimamente coerente com a política que vem sendo implementada pelo próprio governo, e que vem sendo referendada nas suas diretrizes nas conferências nacionais de cultura, seria definir critérios de incentivo que 1 – priorizem, aberta e claramente, determinado tipo de atividade cultural quanto a um perfil definido não pelos aspectos estéticos, mas pelo local, público focal e modo da sua produção, articulando o contexto sócio-econômico dessa produção; 2 – avaliem, com base nisso, comparativamente os investimentos de modo a efetivar essa prioridade sem, entretanto, mutilar a legítima demanda dos produtores de cultura nos grandes centros, dando a estes o destaque segundo critérios específicos de ampliação das platéias e também fortalecimento das cadeias produtivas existentes e, por último 3 – possam apoiar mecanismos de ampliação das parcerias de patrocínio por parte do setor privado, incentivando o patrocínio a setores ainda intocados pelo mercado (isso inclui formas específicas “periféricas” do fazer da cultura popular, como também, regiões menos centrais onde o retorno para eles será diferenciado, porém, real).

    É importante frisar a idéia de definir critérios e mecanismos claros, baseados na idéia de “prioridade”, não de exclusão, e que permitam evitar ao máximo, tanto a reprodução da atual lógica, como controlar as arbitrariedades para a decisão.  Essa espécie de “triagem” proposta nos dois primeiros pontos, não descartaria as propostas não priorizadas, mas constituiria um banco de projetos pré-aprovados que poderiam ser incluídos automaticamente em outros mecanismos de incentivo fiscal para a captação de recursos privados ou de parcerias locais, com municípios e estados.

    Não é a minha intenção apresentar uma proposta fechada e definida, muito menos detalhada e definitiva, sobre o mecanismo de avaliação dos projetos e propostas de apoio às artes cênicas, mas apenas tentar contribuir com alguns elementos para refletirmos sobre a superação de um impasse que nos antecede em muito, qual seja a questão da distribuição de recursos nas diversas régios de Brasil, atrelado as suas estruturas históricas.  De qualquer modo, mesmo que não seja esta a melhor forma de operar, nem a proposta mais adequada (não tenho essa pretensão), acredito que seja, no mínimo, necessário ampliarmos nosso debate no sentido de buscar os modos de fortalecer a produção artística, em espacial do Circo, do Teatro e da Dança -que o que nos afeta diretamente-, ali onde esta estiver e nas condições em que ela surgir, considerando a nossa história, não apenas no que ela nos fala da nossa diversidade, mas também das nossas desigualdades.”

  • Meninos eu vi!

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    por: conferencianacional, em Sem categoria no dia 08/07/2010

    Confira o artigo de Alice Viveiros de Castro, representante do Circo no Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC), de 2 de abril de 2003.

    “Meninos eu vi,

    Eu vi  isto tudo começar!

    Me lembro de um tempo em que Circo era aquela lona imensa armada na Praça Onze, e os circenses um mundo à parte de tudo. Maravilhoso, surpreendente, mas à parte. Mágico, misterioso e inacessível.

    Já o teatro não, teatro era moda. Todo mundo ia e muita gente fazia. Todo o colégio que prestasse tinha pelo menos um grupo em atividade. Fazia-se teatro nas igrejas, nos prédios, nos bairros. Onde jovens se encontrassem havia um grupo de teatro… E o grande barato era fazer parte de um Grupo.
     
    A direção era coletiva e na maioria das vezes o texto também. E quem fazia teatro vivia indo ao teatro.  Hoje é Dia de Rock lotava e os amigos disputavam quem já tinha assistido mais vezes. Vi Gracias Señor, do Oficina, e eu nunca vou me esquecer da incrível sensação de passar do balcão do Teatro Mesbla direto para o palco segurando uma corda.  O teatro na década de 70 era participativo. Ninguém falava em “interativo”, a palavra era participação. E tome água na cara, beijos, flores para o público, e muitos abraços, que na década de 70 todo mundo se abraçava muito… Tempos do desbunde e de muito amor.

    Eu não tinha a menor idéia de como aquilo começara. Só mais tarde fui saber da importância do A Comunidade1, um grupo de artistas  que abandonou os Teatros formais e foram para o MAM, misturando palco e platéia, rompendo com a frontalidade e a verticalidade da cena italiana.  Não vi SOMMA – os melhores anos das nossas vidas, e fiquei enlouquecida. O espetáculo era um desbunde. A ordem das cenas mudava a cada dia, cada espetáculo era único. A platéia participava intensamente e se misturava com os atores pelo palco e pelos camarins. Mas a censura pegou pesado e o espetáculo foi proibido depois de 15 sessões. Eu não vi, mas me lembro que foi nessa época que ouvi falar pela primeira vez de Amir Haddad.

    Amir foi um guru. (E ainda é, ah… ainda é!). Diretor bem sucedido, rompeu com o teatrão e foi trabalhar com jovens artistas, pesquisando linguagens, reinventando a cena e experimentando sem parar. O grupo que ele dirigia se instalou no Teatro Cacilda Becker (fazendo jus ao nome de Centro Experimental Cacilda Becker) e foi lá que eles inventaram a moda de ensaiar nas ruas. E daí começou o Teatro de Rua e o Grupo Tá Na Rua.

    Tempos interessantíssimos. Valia tudo. A palavra de ordem era “experimentação”. Descobria-se o corpo com os exercícios de “expressão corporal”.  E viva Klaus e Angel Vianna, Nelly Laport e Graciela Figueroa! Viva os mestres do movimento!

    O mais característico do teatro dos anos 70 era a liberdade para buscar novos caminhos. Ninguém seguia regras. Valia se inspirar nas tradições do cordel, da revista, garimpar textos poloneses, dançar e cantar em cena, mergulhar no teatro psicológico e se esbaldar em comédias rasgadas. Sufocados pelos tristes e tenebrosos tempos da ditadura os artistas começaram a perceber que o teatro não mudava o mundo, mas que era muito bom partilhar inquietações… O teatro político de resistência começava a conviver, nem sempre em harmonia, com a turma do desbunde…. E as mesas do Tratoria, do Acapulco ou do El Faro se transformavam em campos de batalha entre os que queriam discutir a função social do artista e os que queriam falar do teatro como caminho para a expressão do indivíduo. Poucos percebiam que era possível juntar tudo… E haja chope e baseado para dar conta de tanta efervescência criativa…

    As grandes mudanças se deram em três frentes indissoluvelmente relacionadas: a estética, o processo de criação e as relações de produção. Foi lá nos anos 70 que a idéia de um grupo de artistas unidos por um projeto e que dividiam a bilheteria em percentuais se consolidou. E haja reunião para discutir se algumas funções teriam um percentual maior ou se o mais justo era a divisão igualitária… Na época nos chamávamos de Alternativos. Éramos um Movimento e tome reunião na Casa do Estudante…  Grupos surgiam, se desmanchavam em novos grupos e tome exercício, laboratório, ficar nu porque o corpo e a alma eram um só e um artista não podia ter pudores de pequenos burgueses. E improvisações que duravam horas e muitas leituras de Grotowisk, Brecht e Eugênio Barba com o seu revolucionário Ilhas Flutuantes. Todo mundo indo ver Maria e Seus Cinco Filhos e descobrindo a importância de João Siqueira 2. E essa galera Zona Sul pirou vendo Luiz Mendonça 3 apresentando Madame Satã como ator. Até que surgiu um grupo de nome esquisitíssimo com um espetáculo hilário, que não propunha nada mas que mudou tudo: Asdrúbal Trouxe o Trombone.

    Asdrúbal foi um fenômeno! Um grupo jovem que já estourou no primeiro espetáculo e acabou levando multidões ao teatro em todo o país. O movimento agora era nacional.  Os Alternativos faziam sucesso e provavam a viabilidade de uma nova estrutura de produção. Havia no ar um jeito novo de ser empreendedor. Ousadia dava lucro e era possível viver de teatro com uma produção independente, cooperativada e solidária.

    No início dos anos 80 os maiores sucessos de bilheteria eram espetáculos de grupo e os prêmios oficiais reconheciam o talento de uma nova geração que chegava…

    Foi a partir do sucesso do Asdrúbal que uma galera empreendedora e louca, Perfeito Fortuna à frente, resolveu, em 1982, criar o Circo Voador.

    A Escola de Circo

    Enquanto isso, o circo tradicional vivia uma crise, precisava renovar seus artistas.  E Luiz Olimecha 4 lutava para criar a Escola Nacional de Circo. Um espaço de alto nível onde os filhos de circenses aprenderiam números tradicionais que estavam desaparecendo. Seria a primeira escola oficial da América do Sul, com os melhores professores recrutados entre os profissionais de circo de todo o país e com instalações moderníssimas.

    Orlando Miranda, presidente do Instituto Nacional de Artes Cênicas comprou a briga e conseguiu, depois de anos de batalha, a Escola Nacional de Circo foi inaugurada no dia 13 de maio de 1982.

    Mas o que é que uma coisa tem a ver com a outra???  Teatro alternativo e a criação de uma escola para ensinar as milenares artes circenses??? Pois foi essa mistura de tradição e modernidade que acabou dando nestes grupos e artistas que fazem parte deste catálogo. E tudo começou no mesmo ano: 1982

    O Circo Voador

    Meninos eu Vi ! Vi a lona sendo armada no Arpoador. O Circo Voador juntando rock, dança, teatro e circo. Manhas e Manias, Banduendes por Acaso Estrelados, mais os poetas do Beijo na Boca e Sem Vergonha, inaugurando em 15 de janeiro de 1982 uma nova era na cidade. Caetano eufórico, feliz : ” – Este circo está lindo, tem tudo para levantar voo…” E Perfeito Fortuna organizando, anárquica e amorosamente, a desordem criativa de toda uma geração.

    Breno Moroni e Maluh Morenah tomando a rua e ensinando técnicas de circo e de dublê. Vi gente pegando fogo, rolando escadas, descobrindo o prazer de ser audaz e intrépido.  O verão de 82 mudou a cara desta cidade para sempre.

    Depois veio o rapa e a lona foi para a Lapa, com a Surpreendamental Parada Voadora e o projeto de fazer da abandonada Fundição Progresso um casa de todos os malucos foi virando realidade.

    A Rua

    A geração que tinha descoberto o prazer do corpo em movimento descobriu a sabedoria da rua e passou a venerar os artistas que nela se apresentavam.
     
    Temos aqui que abrir um parágrafo especial. Momento de homenagem a um ícone dos anos 80, alguém que transformou para sempre o conceito do que é um grande artista. Vamos por seu nome em maiúsculas, e tirar o nosso chapéu em homenagem ao TIGRE.

    Artista de Rua, completo, sublime, Tigre dominava seu público com a agilidade e a picardia de um charlatão medieval. A arte de entreter uma platéia de passantes, de paralisa-los por horas à fio, de manter a energia da roda lhe foi passada nessa corrente mágica que atravessa os tempos, capaz de fazer de um mulato brasileiro do final do século XX herdeiro direto de  Tabarin, artista de rua do século XVI.

    Pois é, Tigre vivia da rua, do dinheiro miúdo que pingava em seu chapéu coco. Como ele sempre existiram outros tantos nas praças desse Brasil. Na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro eles podem ser encontrados no Largo da Carioca, na Praça Quinze, na Feira de São Cristóvão, ou em qualquer outro espaço de encontro em que multidões circulam frenéticas mas onde ainda é possível ficar parado, de pé, de bobeira, ouvindo uma dupla de embolada, admirando um louco que salta um aro cheio de facas, descobrindo qual a melhor erva para curar lumbago ou  admirando, num misto de nojo e encantamento, um comedor de  vidro.

    Tigre era um pirofagista ou, como diz o decreto que regulamenta a profissão de artista, um Comedor de fogo, aquele que “introduz e expele fogo pela boca, utilizando-se de tochas, acendendo-as e apagando-as sucessivamente; faz também demonstrações de insensibilidade epidérmica ao fogo”.  Mas isso não tinha a menor importância. Como todo bom artista de rua, seu espetáculo não era a demonstração de perícia em alguma proeza específica. O grande barato era a sua habilidade em nos manter ali, completamente absortos na roda, presos ao magnetismo do artista que nos entretinha com piadas improvisadas na hora, comentários de ocasião e a promessa de que logo logo veríamos alguma coisa absolutamente inusitada.

    Meninos eu Vi ! Quantas e quantas vezes fiquei lá, feito uma tonta, parada nas escadarias da Câmara dos Vereadores, a boca aberta, basbaque, esquecida da hora, vendo  Tigre, o encantador de gentes…

    Em torno da roda, extasiados, estavam Perfeito, Breno, Malu, João Carlos da Cia. Aérea, Mariozin do Teatro de Roda, João Siqueira, José Lavigne  e toda a turma do Manhas e Manias, Amir Haddad e tanta, tanta gente que queria fazer coisas diferentes de um modo diferente e que através do Tigre e de seus companheiros compreendeu ali, naquela roda, o quão grande é o mundo, o quão efêmero é o tempo, o quanto pode a vontade quando ela é a expressão generosa de toda uma geração.
     
    A grande Soma de Tudo : Um bando de Intrépidos

    Este catálogo é uma boa mostra do que deu misturar a tradição milenar do circo e da rua com a ansiedade de uma geração que queria se mudar para mudar o mundo. Modernos, antenados, conectados e profundamente interessados em contribuir para manter a cadeia mágica que liga todos os homens através dos tempos:  a tradição de se exibir para partilhar com o outro o seu prazer de fazer coisas inusitadas… O que é ser artista senão alguém que se expõem para que o encontro entre todos os membros da tribo se dê através do ritual mágico do espetáculo?

    E nada mais espetacular do que o Circo. Festival de proezas e ousadias, espaço ideal para as evoluções de homens e mulheres intrépidos!

    Em 1986 o Circo Voador era um sucesso total. Casa de show onde se apresentavam os maiores nomes da música e se lançavam as jovens bandas de rock que de lá iam estourar por todo o país. Era também um centro de oficinas de teatro e dança, um espaço de resgate da gafieira e das grandes orquestras, um lugar para se começar um projeto de hortas comunitárias, uma creche diferente, enfim o Circo era a casa de todo mundo que fazia, queria fazer e curtia ver coisas interessantes.

    No verão, nas areias do Posto 9, Perfeito Fortuna e Jorginho de Carvalho tiveram um papo que mudou a história do Circo no país. Foi sob o sol de Ipanema que eles se deram conta que aquele era ano de Copa do Mundo. A seleção brasileira ia para o México e eles queriam ir também. Mas como? Papo vai, papo vem, no melhor estilo empreendedor carioca, ali mesmo eles desenharam o projeto Circo Voador no México: montar uma lona que levasse ao México a cultura brasileira. Logo conseguiram os primeiros apoios, e o projeto foi crescendo. O Governo Sarney gostou da idéia e ajudou a montar a rede de patrocinadores. Só tinha um problema o México é um país apaixonado por circo, e lá ninguém compreenderia o nome Circo Voador sem espetáculos de circo, só com shows de música e teatro.
     
    Mas isso não era um problema para voadores, bastava montar uma trupe, pegar alguns alunos recém formados da Escola Nacional de Circo, juntar com a galera do Manhas e Manias, do Abracadabra, gente da Graciela Fiqueroa e pronto. Dalmo Cordeiro ficou encarregado de arregimentar a trupe e a notícia se espalhou. Fernando Neder veio lá do Recife e trouxe um nome genial: International Intrépida Trupe. E o bando todo, uma mistureba de artistas de todos os matizes e formações se mandou para o México num avião de carga da FAB.

    Lá, pela primeira vez, Vanda Jacques, Beth Martins, Dani Lima, Fernando Neder, Alberto Magalhães, Paulinho Dias, Rachel Rache, Michael Rodrigues, Dalmo Cordeiro se apresentaram juntos. O projeto do Circo Voador não deu muito certo, o local era longe, a divulgação teve problemas, os patrocinadores começaram a dar para trás, mas aquela galera viveu momentos únicos em Guadalajara e quando voltaram para o Rio já tinham decidido criar um grupo: A Intrépida Trupe.

    Aos “mexicanos” se somaram logo a inglesa Felicity Simpson, o colombiano Hector Combo, os cariocas Ricardo Camilo e Claudia Goudá, a Passarinho. Mas foi em outubro, numa festa no sambódromo que a equipe Intrépida se completou com a chegada dos palhaços Xuxu (Luiz Carlos Vasconcellos), Piro-Piro (Geraldim Miranda) e Dudu (Eduardo Andrade). Ali tinha início uma nova fase do circo no Rio de Janeiro e no Brasil.

    Meninos eu Vi ! Vi e fiquei pasma. Era circo, mas era alguma outra coisa também. Muitas outras coisas juntas. Os números entravam um por dentro do outro, se mesclavam. Enquanto o monociclista dançava um tango com a moça na perna de pau, os palhaços já estavam na cena, criando o clima para a entrada de 3 lindas nadadoras suspensas no ar. E eu que não tinha percebido o quanto de mar e existe no ar…

    As reações foram as mais diversas, todas intensas. – Isto não é circo – esbravejavam alguns tradicionais. – Mas como é possível a moça se equilibra na cabeça do rapaz ? Isso é circo, mas também é dança, é teatro, isso é dança-teatro-circo!

    Os fundadores da Intrépida Trupe estão por toda parte deste catálogo. E também artistas para quem o grupo foi uma inspiração fundamental: alunos da Intrépida, parceiros da Intrépida, admiradores da Intrépida.

    Intrépido é o paraibano Luiz Carlos Vasconcellos, mestre Xuxu, formador e inspirador dos novos palhaços por este país. E da paraíba veio a grande parceira Ieda Dantas com sua Fuzarca e seus Gigantes da Lira. E foi ela quem nos seus tempos de administradora descobriu o quanto o espaço do Teatro Nélson Rodrigues era bom para voadores.

    A conexão Paraíba-Rio nos trouxe ainda Geraldim Miranda, artista de tudo, referência do circo social, projeto que ele começou nos seus tempos de Intrépida. Pois foi a Intrépida que em parceria com a FASE e o Se Essa Rua Fosse Minha, lá pelos distantes idos de 1992, começou a desenvolver a utilização do circo com projeto de inserção social.

    Intrépidos são também os Irmãos Brothers e suas sisters. Intrépida de primeira hora é Dani Lima que encontrou na dança sua mais completa expressão e redescobriu a arte milenar de dançar nas alturas.

    A Intrépida é meio assim mãe de tudo. Grande árvore cheia de braços e frutos…

    Anônimos

    Meninos eu Vi ! Vi mais gente chegando, sangue novo no pedaço. De perna de pau, batucando e tomando a praça. Já estavam na estrada há tempo mas eu só vi quando o Geraldim resolveu fazer um encontro, o Circo no Circo Voador. E lá o Teatro de Anônimo assumiu seu lugar.

    No início foi a poesia, depois a rua, e perna de pau e percussão. Foram para a escola de Circo e lá viraram trapezistas de alto nível e palhaços. Grandes palhaços, generosos palhaços. Tão generosos que criaram um encontro em que todo mundo brilha e se diverte: O Anjos do Picadeiro.
     
    Os Anônimos, como os intrépidos, tem seus filhos, primos e parceiros. Abayomi, Cia. do Público, Cordão do Boi Tatá, Diadokai, é tudo uma mesma galera que partilha espaços e projetos. Generosos e solidários esses Anônimos…
     
    É muito significativo que os dois principais grupos do Rio de Janeiro tenham surgido no mesmo ano: 1986. E que por caminhos tão diversos tenham bebido nas mesmas fontes e hoje partilhem a mesma casa. Os Anônimos vêm da Zona Norte/Centro, os Intrépidos da Zona Sul. Mas todos beberam da tradição da Escola Nacional de Circo, cresceram no Circo Voador e estão agora, com seus amigos, parceiros e companheiros, juntos na Fundição Progresso e neste catálogo.

    Meninos eu Vi. E sei que ainda vou ver muitos mais…”

    1. A Comunidade (1968 -1970 ) Marcos Flacksman, Amir Haddad, Paulo Afonso Grisolli, Tite de Lemos, João Siqueira, Jacqueline Laurence, Maria Esmeralda, Roberto de Cleto, Colmar Diniz, Luiz Armando Queiroz, Joel de Carvalho, Cecília Conde, Nelly Laport entre outros.

    2. João Siqueira ( 1941 – 1998 ) Ator, diretos e autor. Participou do A Comunidade e do Grupo Carreta, em 1976 funda o Grupo Dia -  a -  Dia, estreando o espetáculo Palhaçadas.  Em 1977 monta Maria e Seus Cinco Filhos, espetáculo que lhe deu o prêmio Mambembe de melhor autor, fato que se repetiria em 1981 com Honório dos Anjos e dos Diabos. Deixou escrito texto inédito sobre o palhaço Benjamin de Oliveira.

    3. Luiz Mendonça – ator, diretor e autor de tradicional família nordestina, foi um dos criadores de Nova Jerusalém. Militou no PCB e despontou no CPC da UNE. Veio para o Rio e aqui dirigiu grupos de teatro em fábricas e comunidades, pratica que manteve ao longo de toda a vida. Apaixonado pelo teatro popular e pelas tradições nordestinas dirigiu, entre outros:  Um Sábado em Trinta; Viva o Cordão Encarnado; Lampião no Inferno e Da Lapinha ao Pastoril. Redescobriu o teatro de Revista com Rio de Cabo a Rabo. Excelente diretor de atores lançou Elba Ramalho; Tânia Alves e centenas de atores cantores. O “velho” foi o meu primeiro mestre.

    4. Luiz Olimecha – circense, filho e neto de circenses, presidente do Sindicato dos Artistas, passou a vida atrás do sonho de construir a Escola Nacional de Circo. Conseguiu. Implantou e dirigiu a ENC até a chegada de Fernando Collor.

  • Belo Horizonte aprova nova legislação para o circo

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    por: conferencianacional, em Sem categoria no dia 05/07/2010

    Estado de Minas, publicado no dia 28/05/2010 

    Com novo Código de Posturas, companhias terão licença de um ano para mudar de local na cidade sem enfrentar nova burocracia

    Depois de mais de 10 anos de luta, o circo mineiro venceu uma importante batalha. A atividade foi regulamentada em Belo Horizonte, por meio do novo Código de Posturas, aprovado em abril. A capital foi a primeira cidade no país a tomar a decisão. A nova legislação reconhece o espetáculo circense como atividade de diversão pública de caráter permanente, com funcionamento itinerante. A diretora da área de circo do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de Minas Gerais (Sated-MG), Sula Mavrudis, explica que, antes da regulamentação, o circo era entendido na prefeitura como evento. “O circo não é evento, apesar de sua itinerância. É uma atividade contínua”, diz.

    Antes, os circos tinham que tirar alvará cada vez que mudavam de bairro. “Agora, o alvará vai valer por um ano em todas as regiões da cidade, independentemente de onde estiverem”, acrescenta. Entre outras inovações da nova legislação, destacam-se a desburocratização do processo de licenciamento, maior facilidade para a itinerância dos circos na cidade e diminuição dos custos para a instalação.

    “Os circenses comemoram a regulamentação e esperam que outras cidades brasileiras sigam o exemplo da capital mineira. Antes, os circos médios e pequenos tinham enorme dificuldade para se instalar em Belo Horizonte, como ainda têm em todas as cidades brasileiras”, diz a diretora da Sated-MG. O dono do circo Alvarado, com origem em Itabirito, na Região Central de Minas, Marco Antônio Alvarado, que está na quinta geração circense na família, conta que nunca esteve em BH com seu circo devido à quantidade de formalidades que tinham de ser cumpridas. “A burocracia inviabilizava o circo na capital. Devido à nova legislação já estou me programando para levar nosso espetáculo para vários pontos da capital.”

    O dono do circo Mágico Globo, Jair de Almeida Signorelli Júnior, lembrou que há 30 anos Belo Horizonte tinha circo em quase todos os bairros. “Hoje não se vê isso mais.” Para ele, a regulamentação veio não apenas para beneficiar os circenses, mas principalmente a população. “No ano passado, ficamos em BH por oito meses, mas tivemos que sair porque recebemos multa de R$ 4,5 mil quando estávamos no Bairro Milionários, no Barreiro.” Segundo Signorelli, a administração regional concedeu a instalação da lona, mas mesmo assim a prefeitura multou, “sem aviso prévio”.

    Para Fernanda Vidigal, coordenadora do Festival Mundial de Circo – evento que teve início quinta-feira na cidade e vai até o dia 30, com programação extensa em diversas praças públicas da cidade –, facilitar a circulação de espetáculos circenses em Belo Horizonte demonstra a preocupação em reconhecer as especificidades dessa produção. “Fiquei muito feliz com mais uma conquista da classe circense. É o reconhecimento de uma arte que permanece no imaginário popular e que continua a encantar gerações.”

  • Era uma vez um elefante que se equilibrava por um fio…

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    por: conferencianacional, em Sem categoria no dia 14/06/2010

    Confira, abaixo, o artigo de Paulo Ormindo Azevedo sobre a presença de animais no circo. Paulo Ormindo, ex-conselheiro do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC),  é arquiteto, Professor Doutor da Universidade Federal da Bahia e especialista em Patrimônio Imaterial. No dia 17 de novembro de 2009,  apresentou o texto diante do Ministro da Cultura, Juca Ferreira, e do Meio Ambiente, Carlos Minc.

    “O homem tem utilizado desde as épocas imemoriais para lhe ajudar no trabalho, no transporte, na caça, na guarda e como fiel companheiro. Mas também como esporte, laser e magia. Desenvolveu com ele relações que vão desde o afeto e o carinho até a dependência e a dominação. E os animais entendem esses sentimentos e retribuem no mesmo tom. A domesticação é, com toda educação, um processo de aculturação.

    Os animais, inclusive os mais balofos paquidermes, fazem parte de nossa cultura imaterial. Não é por outra razão que eles são personagens importantes da literatura infantil, do cinema de animação, dos gibis, do bumba meu boi, do jogo do bicho e do circo. Quem não se lembra do espanto ao ver pela primeira vez um surrealista camelo desfilando numa cidade do interior em meio a ruidosos palhaços e um urso pedalando uma bicicleta de madeira do companheiro Leonardo ou um elefantinho plantando bananeira sob lona de um circo mambembe.

    Pois neste país de milhares de crianças abandonadas e presídios transbordando literalmente pelo ladrão, querem tirar os bichos do circo, sob o pretexto de que são maltratados. Os camelos e leões são um dos pontos altos dos espetáculos circenses e seus proprietários não querem perder estas galinhas de ovos dourados, que custam fortunas, o que não exclui que em muitos casos esses animais sejam enjaulados e transportados de forma inadequada.

    Por que essas caridosas criaturas não fazem campanha proibindo o abate de milhões de aves, bois, porcos, peixes diariamente para serem devorados nas churrascarias e restaurantes de todo o mundo? Por que não propõem a exclusão da Espanha da União Européia por permitir as touradas, ou que se proíba toda pesquisa científica com cobaias e humanos chipanzés?

    Se existem maus tratos nos circos, se a carne não é de primeira, eles devem ser abolidos, mas não os animais. Precisamos, sim, criar ao lado do Estatuto da Criança e do Adolescente o Estatuto dos Animais, como fizeram os europeus e norte americanos, para regular o tratamento, não só dos bichos de circo e safári, como os de tração, de guarda e cobaias. E que se penalize adequadamente os traficantes de animais silvestres, os promotores de farras do boi e rinhas de canários, galos e cachorros.

    Mas não contribuam para que o circo se acabe em nosso país, exatamente quando ele renasce em todo o sistema Soleil. Com ele morreriam o suspense, as quimeras, a ilusão, a magia, humor, e a fantasia. Caro Ministro, vós que sois o próprio MinC, não permitas que esta corda se parta e toda magia seja globalmente desfeita.”

  • Colegiado define a criação do Grupo de Trabalho Animais no Circo

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    por: conferencianacional, em Sem categoria no dia 09/06/2010

    A discussão sobre a presença de animais no circo foi um dos pontos centrais do último encontro do Colegiado Setorial de Circo, realizado nos dias  1º e 2 de junho. O encontro aconteceu em Brasília, na 4ª Reunião Ordinária dos Colegiados do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC). Após os debates, definiu-se a criação do Grupo de Trabalho com vistas ao encontro de uma relação que atenda à continuidade da arte circense, proteja os animais e garanta a segurança do público.

    O Grupo de Trabalho contará com representação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), FUNARTE, IBAMA e profissionais da área. Para representar o Colegiado, foi escolhido Flávio Viana e Silva. O Colegiado ainda elegeu Alice Viveiros de Castro e Jonilson José de Moura, respectivamente titular e suplente, para compor o Plenário do CNPC.

    A reunião também colocou em pauta temas como o novo formato do Fundo Nacional de Cultura (FNC) e os Fundos Setoriais. De acordo com a nova proposta, o circo será beneficiado pela criação do Fundo de Artes Cênicas e demonstrou apoio às propostas apresentadas e ao enorme avanço nos trabalhos na área. Veja a relação dos participantes na Reunião:

    Abel Araújo de Carvalho (Artistas, Grupos e Trupes)

    Alice Viveiros de Castro (Pesquisa, Escola de Circo e Circo Social)

    Claudio Andrés Mancilla (Pesquisa, Escola de Circo e Circo Social)

    Flávio Viana e Silva (Circo Itinerante)

    Geraldo Santos Passos (Região Sul)

    Jonilson José de Moura (Região Nordeste)

    Júlio Cesar Coelho (Pesquisa, Escola de Circo e Circo Social)

    Luis Carlos de Araújo (Região Centro-Oeste)

    Marcelo Bones (Funarte)

    Marcos Teixeira (Funarte)

    Mauro Alves Guimarães (Artistas, Grupos e Trupes)

    Naelson Abreu da Silva (Circo Itinerante)

    Vanda Jacques Leite (Artistas, Grupos e Trupes)

    Wladimir Spernega (Região Sudeste)

    Xisto José Costa (Artistas, Grupos e Trupes)

    Leia mais

  • Pré-conferência reúne todas as tendências do circo

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    por: conferencianacional, em Sem categoria no dia 10/03/2010

    A Plenária Setorial de Circo contou com representantes de todas as regiões brasileiras e de todas as tendências do circo durante as Pré-Conferências Setoriais de Cultura. 

    O coordenador de Circo da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Marcos Teixeira, calcula que o colegiado teve uma renovação de quase 50% de seus membros. Entre as entidades presentes estavam a Abracirco (Associação Brasileira de Circo) e a Ubci (União Brasileira de Circo Itinerante). O evento foi realizado em Brasília, de 7 a 9 de março de 2010.

    Confira aqui as propostas que serão encaminhadas à II Conferência Nacional de Cultura

    Eixo 1 – Produção Simbólica e Diversidade Cultural
    Criar um sistema Nacional de Memória da Atividade Circense, dedicada a documentação, preservação, restauração, pesquisa, formação, aquisição e difusão de acervos.

    Eixo 2 – Cultura, Cidade e Cidadania
    Garantir o acesso da classe trabalhadora circense aos serviços básicos através de um conjunto de ações interministeriais (Saúde, Educação, Trabalho, MDS, Cultura, entre outros).

    Eixo 3 – Cultura e Desenvolvimento Sustentável
    Criar linhas de crédito e financiamento com juros sociais e programas subsidiados (a exemplo do BNDES, CAIXA, entre outros), bem como programas de fomento ligados ao FNC, mais percentual de loteria e Pró-Cultura, que contemplem fundos de emergência e as atividades de: formação, criação, produção, circulação, pesquisa, manutenção, exibição, festivais e outros que fomentem a atividade circense, mantendo e aprimorando prêmios e editais já existentes.

    Eixo 4 – Cultura e Economia Criativa
    Criação de leis federais para estimulo à redução ou isenção de taxas e impostos para atividade circense (ex.: isenção do ISS, ECAD e outros).

    Eixo 5 – Gestão e Institucionalidade da Cultura
    Criação de uma lei federal que reconheça o circo como patrimônio cultural.

    Veja aqui a lista de delegados eleitos para a II CNC

    Sul
    Filipe Miguel Sotero
    Flavio Torricelli

    Sudeste
    Sula Mavridis
    Camilo Torres

    Centro-Oeste
    Luis Landim
    Erika Mesquita

    Nordeste
    Jonilson José de Moura
    Flavio Brito

    Norte
    Carlos Serra
    Marcio dos Santos

  • Olá, mundo!

    1 comentário

    por: conferencianacional, em Sem categoria no dia 18/01/2010

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