Confira, abaixo, o artigo de Paulo Ormindo Azevedo sobre a presença de animais no circo. Paulo Ormindo, ex-conselheiro do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC),  é arquiteto, Professor Doutor da Universidade Federal da Bahia e especialista em Patrimônio Imaterial. No dia 17 de novembro de 2009,  apresentou o texto diante do Ministro da Cultura, Juca Ferreira, e do Meio Ambiente, Carlos Minc.

“O homem tem utilizado desde as épocas imemoriais para lhe ajudar no trabalho, no transporte, na caça, na guarda e como fiel companheiro. Mas também como esporte, laser e magia. Desenvolveu com ele relações que vão desde o afeto e o carinho até a dependência e a dominação. E os animais entendem esses sentimentos e retribuem no mesmo tom. A domesticação é, com toda educação, um processo de aculturação.

Os animais, inclusive os mais balofos paquidermes, fazem parte de nossa cultura imaterial. Não é por outra razão que eles são personagens importantes da literatura infantil, do cinema de animação, dos gibis, do bumba meu boi, do jogo do bicho e do circo. Quem não se lembra do espanto ao ver pela primeira vez um surrealista camelo desfilando numa cidade do interior em meio a ruidosos palhaços e um urso pedalando uma bicicleta de madeira do companheiro Leonardo ou um elefantinho plantando bananeira sob lona de um circo mambembe.

Pois neste país de milhares de crianças abandonadas e presídios transbordando literalmente pelo ladrão, querem tirar os bichos do circo, sob o pretexto de que são maltratados. Os camelos e leões são um dos pontos altos dos espetáculos circenses e seus proprietários não querem perder estas galinhas de ovos dourados, que custam fortunas, o que não exclui que em muitos casos esses animais sejam enjaulados e transportados de forma inadequada.

Por que essas caridosas criaturas não fazem campanha proibindo o abate de milhões de aves, bois, porcos, peixes diariamente para serem devorados nas churrascarias e restaurantes de todo o mundo? Por que não propõem a exclusão da Espanha da União Européia por permitir as touradas, ou que se proíba toda pesquisa científica com cobaias e humanos chipanzés?

Se existem maus tratos nos circos, se a carne não é de primeira, eles devem ser abolidos, mas não os animais. Precisamos, sim, criar ao lado do Estatuto da Criança e do Adolescente o Estatuto dos Animais, como fizeram os europeus e norte americanos, para regular o tratamento, não só dos bichos de circo e safári, como os de tração, de guarda e cobaias. E que se penalize adequadamente os traficantes de animais silvestres, os promotores de farras do boi e rinhas de canários, galos e cachorros.

Mas não contribuam para que o circo se acabe em nosso país, exatamente quando ele renasce em todo o sistema Soleil. Com ele morreriam o suspense, as quimeras, a ilusão, a magia, humor, e a fantasia. Caro Ministro, vós que sois o próprio MinC, não permitas que esta corda se parta e toda magia seja globalmente desfeita.”