A palestra de abertura da Pré-conferência Nacional de Cultura Afro-brasileira ficou a cargo do advogado e professor Samuel Vida, da UFBA, que discorreu sobre o espaço da cultura afro-brasileira dentro da cultura nacional.

Para ele, a participação da cultura de matriz africana na formação da identidade brasileira é algo ainda a ser devidamente dimensionado e reconhecido por parte do Estado e da sociedade. Há, por meio das diversas manifestações culturais de matrizes africanas, um valioso legado civilizador deste país.

“A tradição trazida da África com os africanos escravizados se reinventou, se re-elaborou no Brasil e foi decisiva para dar ao povo brasileiro aspectos fundamentais da sua identidade, de suas manifestações estéticas e econômicas, seu comportamento ético, suas formas organizativas. E isto não vem sendo reconhecido adequadamente por parte do Estado, por parte da universidade, das instituições estabelecidas”, disse.

O professor afirmou, ainda, que “há um hiato entre uma contribuição efetiva, mas não reconhecida, que precisa ser valorizada e impulsionada a partir de uma identidade nacional que seja síntese das diversas contribuições. Hoje ainda não podemos falar nisso como uma realidade, é no máximo uma aspiração”.

Segundo Samuel, há um racismo institucional. “Não precisa haver um racista, o racismo está em várias formas de manifestação. Práticas eurocidentais de pensar a cultura, o crescimento econômico, que passa pela geração de riqueza, bens de consumo, como se fôssemos todos simples peça de engrenagem”.

“Admira-me incluir cultura afro-brasileira como um segmento, já que nisso estão incluídas a dança, a culinária, o teatro, como várias formas de manifestação cultural em apenas uma”. De acordo com o professor, o segmento de circo disputará em espaço de igualdade a mesma quantidade de delegados. “Nada contra o pessoal do circo, mas eles representam apenas uma modalidade – baseada em um conceito europeu de arte”.

“Corremos o risco de que, por conta de uma política de inclusão, estejamos renunciando à nossa própria identidade”. Samuel dá como exemplo um financiamento de cultura oferecido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), um financiamento para tipos de expressões nas quais os negros não estão incluídos. Ele questiona a também outros aspectos, como a espetacularização da cultura negra como o bizarro e a sensualidade exacerbada, e a etnopirataria – símbolos, cânticos ou outros elementos do candomblé ou africanos usados simplesmente como referência de expressões de domínio popular.

Crítico, faz observações com relação à atuação da Fundação Palmares e da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir): “Sinto-me muito à vontade de fazer críticas, pois há o limite institucional desses órgãos e que precisam ser superados. São extremamente importantes, mas não devem ser nossos horizontes”.

Com relação à Pré-conferência, ele entende a inciativa como significativa: “O Estado está possibilitando o debate, ouvindo diretamente, daqueles que constroem esse modelo civilizatório de tradição africana no Brasil, suas demandas, suas expectativas, seus anseios. Mas não é suficiente ouvir, é necessário que o Estado tome estas resoluções como diretrizes para as políticas públicas na área. Então, temos a expectativa de que a Conferência não seja só um momento de conversar, de ser ouvido, mas um ponto de partida para a efetivação de políticas de diversidade cultural, de reconhecimento da nossa contribuição de efetivação de uma sociedade multiracial e multiétnica no país”.

Com relação ao papel da cultura afro-brasileira, o cantor Lazzo Matumbi faz  coro: “Ela é a cultura brasileira, em todos os sentidos. Só precisa ser reconhecida e respeitada como tal”.