Dora Bertúlio
A cultura é a alma de uma sociedade, de um povo, de um indivíduo.
Na formação da sociedade brasileira, as culturas originárias das diversas nações e povos africanos - aqui depositados em razão do tráfico de escravos no Atlântico – foram e continuam sendo marcantes e interferentes. É correto afirmar-se que o que chamamos de cultura brasileira, sem minimizar o lugar das culturas indígenas e européias, tem seu potencial de referência no modo de vida e nas manifestações culturais das etnias e nações africanas.
A História do Brasil, no entanto - e são diversos os movimentos a denunciarem e demandarem por políticas que tenham essa dimensão da realidade – não traz na formação de nossa sociedade o valor dessa contribuição, como igualmente não reconhece a potencialidade da cultura que convencionamos chamar afro-brasileira.
Os anos 90 e a continuidade nesse novo século, após 500 anos de história, têm sido marcantes na discussão pública e inserção na agenda política do país sobre as relações raciais, o que abre ambiente propício para a valorização da cultura negra como efetivamente parte da cultura nacional. Nesse contexto, então, a Conferência Nacional de Cultura insere, nas discussões para promover o debate e reflexão sobre os caminhos das políticas culturais para as décadas vindouras, o Setorial Afro-Brasileiro. Tal medida se centra na perspectiva de que os debates e a participação dos grupos e indivíduos com experiência na formulação e execução de projetos cuja linha de trabalhar e pensar traga em seu cerne a cultura afro-brasileira possam contribuir com esse novo momento de formulação das políticas culturais nacionais.
A presente Pré-Conferência, preparatória, deve então indicar ao Governo e ao Estado Brasileiro, como promover e estimular a cultura negra nacional, inseri-la positiva e necessariamente no projeto nacional de cultura a ser implementado pelas Administrações Governamentais.
Com essa introdução, temos então a tarefa de discutir e apresentar pontos que deverão intervir e, eventualmente, mudar as estratégias de implementação da cultura negra, com a perspectiva do desenvolvimento da população negra no contexto nacional. Este deve ser então o ponto de partida para a discussão do tema Gestão e Institucionalidade da Cultura Afro-Brasileira.
A gestão pública da cultura impõe um olhar com especialidade para o modo de ver e fazer da população negra, observadas as vicissitudes das relações raciais formatadas ao longo dos 500 anos de nossa história. Não se pode, então, deixar de incluir, na reflexão sobre estratégias de desenvolvimento cultural do Brasil, o ambiente sócio-político em que as relações de poder no micro e macro contexto são racistas e, consequentemente, de hierarquização dos valores culturais da população brasileira, na infeliz padronização europeia como sendo aquela que “reflete” a apreensão do significado nacional.
Se esta é a realidade das políticas e dos investimentos dos diversos setores que promovem e fomentam a cultura nacional incluída com particularidade as ações governamentais, faz-se imprescindível, neste momento de reflexão, abrir a crítica para as atuais políticas e a visão homogeneizada de uma formação cultural, quando temos um ambiente tão diverso quanto o que temos e com valores sociais díspares, privilegiando grupos em detrimento de outros grupos. Tal realidade age com total desprezo aos projetos culturais democráticos anunciados e, portanto, não cumpridos. Essa parece ser a premissa fundamental para a construção de uma política nacional de cultura, pretendida para a Conferência Nacional de Cultura do MinC.
Temos hoje normativas e regulamentos para gestão governamental da cultura com os mesmos instrumentos da Administração Pública que gerenciam as demais atividades do Estado. Esta generalização que, por certo, tem seus ganhos para o controle das atividades públicas e a utilização de recursos do Tesouro, por outro lado, se não devidamente convencionada, tende a prejudicar as populações de menor poder aquisitivo e de menor inserção no seu meio social, privilegiando grupos e indivíduos que estejam à frente das relações sociais com poder do conhecimento formal. No contexto das relações raciais, aqueles que detêm esse poder representam o valor formatado ao longo da História nacional como de mérito para o desenvolvimento, qual seja a representação do valor racial branco.
Ao visualizarmos os instrumentos para a utilização dos recursos públicos, financeiros ou de qualquer ordem que possam estabelecer ganhos, quer na valorização da cultura, quer no projeto de desenvolvimento humano – em que a cultura, em nosso entendimento, é representada pelas relações não somente de suas manifestações concretas, mas igualmente no ideário popular e inconsciente coletivo nacional – quer nas manifestações culturais propriamente ditas, verificamos os entraves institucionais. Ditos entraves não são necessariamente dirigidos para restringir a participação desses grupos e indivíduos não pertencentes aos espaços de poder tradicionais[1], mas na prática fazem essa determinação de exclusão, são estabelecidas por leis e normas do Direito Administrativo que, como aqui já dito, são produzidas com a generalidade de “normas e regulamentos da Administração Pública”, onde a particularidade das instituições e, mais ainda, a particularidade das ações e finalidades das instituições do Estado não são levadas em conta.
Nessa reflexão, a proposta que estamos levando é de que há necessidade de uma análise ponderada sobre as regras que estabelecem a participação e parceria do Estado brasileiro com os grupos, organizações e indivíduos que expressam a cultura negra nacional e agem com o intuito do desenvolvimento humano da população negra, como estratégia do desenvolvimento do país – de toda a sociedade. Análises que devem resultar em propostas de mudanças estruturais dos mecanismos de promoção e fomento da cultura nacional a ser realizada pelo Estado brasileiro, partindo de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento nacional, atendendo as particularidades dos grupos e organizações que promovem e realizam a cultura afro-brasileira, a fim de que estes possam, em equidade, participar dos ganhos e benefícios do desenvolvimento econômico do país .
Também se faz necessária a discussão e reflexão sobre os mecanismos de controle da Administração Pública para ao mesmo tempo atender a ética e o adequado uso dos recursos públicos e permitir que esses recursos possam ser utilizados de forma democrática e justa, atendendo sempre ao princípio constitucional inscrito no Art. 3º da Constituição Federal, qual seja, garantir o desenvolvimento nacional, erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais, como parte dos objetivos fundamentais da República Brasileira.
Os novos ares que devem ser trazidos pela Conferência Nacional de Cultura no estabelecimento das políticas culturais do Estado brasileiro, a serem desenvolvidas pelo Governo, devem por certo trazer nas discussões desta Pré-conferência e as propostas aqui apresentadas. Nestas, o tema desse eixo deve buscar a revisão das normativas e regulamentos no sentido de abrigar, com igualdade de condições, os movimentos trazidos e propostos pelos grupos e organizações que promovem e apoiam as manifestações culturais afro-brasileiras em um conceito amplo de cultura, onde as formas de viver das populações remanescentes de quilombos, as comunidades inseridas em área de risco dos projetos de segurança pública que, em outro painel deverá ser discutido em atenção à necessária garantia de integridade física, moral e psíquica da população negra no país.
[1] Tradicionais no sentido amplo de entender as pessoas e organizações que estão inseridas nas relações de poder social e político nacional dentro do que se poderia dizer padrão do mérito nacional.