Ensaista português proferiu palestra magna na II Conferência Nacional da Cultura
O escritor e ensaista português António Pinto Ribeiro proferiu hoje (12) palestra magna na II Conferência Nacional da Cultura. Em sua fala, afirmou que “não se resolve a atividade cultural com legislação mas, vivendo”. A frase polêmica – principalmente no Brasil, onde hoje existe uma pauta com a Reforma da Lei Rouanet, a PEC 150, o Vale Cultura e o Fundo Pró-Leitura, entre outros. Na entrevista abaixo, o ensaista fala um pouco sobre o tema, além de discutir sobre política cultural e leitura.
Pinto Ribeiro tem formação acadêmica nas áreas da Filosofia, Ciências da Comunicação e Estudos Culturais. É progrador cultural e consultor para as artes da Presidência do Governo Regional dos Açores/Direcção Regional da Cultura. Em sua conversa, mostra exemplos que deram certo em Portugal, no estímulo à leitura, entre outras.
- O senhor afirmou que não se resolve a atividade cultural com legislação mas, vivendo. É algo polêmico, não?
Eu explico. Eu acho que a legislação deve ser incentivadora. As leis existem em um estado democrático para que não haja atropelos sociais e devem ser instrumentos que facilitem os direitos dos cidadãos. Não adianta apenas existirem leis se não houver condições de produção, de informação e educação cultural. É preciso viver isso, democraticamente.
- Em sua palestra, o senhor destacou a questão da diversidade cultural. Portugal está avançado neste debate?
Portugal, no domínio da interculturalidade é muito avançado. Portugal é um dos países que melhor acolhe os imigrantes. É verdade que as leis protegem mas, se não houvesse no portugues a pré-disposição de receber, não seria só a lei que faria.
- O senhor considera que é papel do Estado intervir na cultura?
É papel do Estado facilitar aos criadores que criem e aos públicos que possam ter acesso. Em Portugal temos a Lei do Mecenato e o Ministério da Cultura trabalha com um programa semelhante aos Editais que ocorrem no Brasil. Durante muito tempo os europeus e os sul-americanos estavam centrados no apoio à criação. Mas é preciso também um trabalho de formação cultural, que possibilite formar o gosto cultural.
- Esse é um tema que, na pré-conferência setorial do Livro, Leitura e Literatura foi discutido: no caso, do mediador de leitura. Vocês se veem avançados neste sentido?
A formação depende da cidade e da experiência pessoal. Em alguns aspectos o Brasil está mais avançado: por exemplo, em projetos regionais, para cidades com até 15 mil habitantes. No que se refere à leitura, a alfabetização é um fato em Portugal. Mas existe a “iletricia cultural” – o que no Brasil é conhecido como analfabetismo funcional. Há pessoas que sabem ler mas não conseguem decodificar um horário de trem. É um trabalho grande a fazer porque quando a gente sente prazer no que está a ler, está mais disposto a ler mais.
- E como se incentiva a ler mais?
Tem de trabalhar na escola, na família e, às vezes, contra a televisão. Eu não sou daquele tipo reacionário, que é contra a televisão. Mas é preciso gerar o tempo que o jovem gasta vendo TV.
- Mas hoje as crianças passam também muito tempo em frente ao computador…
O computador pode ser uma via de leitura. Não é mal, nem bom, depende do que a criança vê no computador.
- E o senhor é a favor, então, de o Estado regular a programação da TV, para que tenha mais conteúdo cultural e educativo?
As Tvs generalistas (abertas) fazem a sua programação. O Estado não pode impor a programação. Mas, em troca da licença pode decidir que tenha uma parte da programação mais educativa. Hoje, em Portugal, o governo tem estimulado a criação de canais alternativos. Mas é preciso, também, informar que eles existem.
- Hoje, no Brasil, no que diz respeito à leitura, temos o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), que estimula a democratização do acesso aos livros, entre outras ações. Ainda não somos um país de leitores, mas investimos nisso. O que está sendo feito em Portugal para aumentar o gosto pela leitura?
Temos em Portugal o Plano Nacional da Leitura. O Ministério da Cultura tem, para isso, a colaboração de jornais e grandes centros culturais. Há um exemplo bem interessante: há um conjunto de médicos que aderiu ao plano e, depois de suas consultas, falam sobre livros que eles gostam. Assim, o paciente fica curioso e pode querer também ler. É preciso incentivar a curiosidade.
- O que o senhor achou de participar a II Conferência Nacional da Cultura?
Tem dois aspectos fascinantes. Um deles é que o trabalho anterior à conferência possibilitou ter um diagnóstico da situação cultural brasileira (ele se refere às conferências municipais, estaduais e às pré-conferências). Sabe-se, assim, o que se está pensando no Brasil. Isso não significa, no entanto, que não devem haver pesquisas e estudos. Mas o diagnóstico foi feito a partir do pulsar das pessoas. Outro aspecto é que a conferência é a prova viva da diversidade cultural brasileira. Ontem, na abertura, eu vi manifestações culturais de índios, negros, moradores do Amazonas, das mais diversas regiões. Isso é de uma riqueza rara.


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