Por que é preciso debater políticas públicas para acervos digitais? Qual a importância de uma biblioteca online? A quem essa discussão interessa? Ao ler o nome do evento que entitula este espaço, Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais, muitas perguntas surgem. Para entender o que exatamente é proposto pelo evento e dar início à cobertura do Simpósio, entrevistamos o seu coordenador, Roberto Taddei.
Jornalista, escritor e autor da coleção “Conquiste a Rede”, um manual de produção de conteúdos artísticos e jornalísticos na internet, lançado em 2006, Roberto explica que os leitores digitais trazem uma grande possibilidade de divulgação de conhecimento, informação e cultura. “A partir de apenas um dispositivo, pessoas numa cidade pequena no interior do país podem ter acesso a toda produção cultural do mundo disponível na rede”, diz. Isso sem falar na preservação de arquivos originais antiquíssimos, que poderiam ficar livre do manuseio, e consequente deterioração, ao ser disponibilizados para consulta no formato digital.
E como toda novidade, esse modelo esbarra em questões de outra natureza exigindo “novos acordos e convenções”, usando palavras do próprio Roberto. Daí a necessidade de juntar os atores interessados para discutir diante disso que caminhos e posturas o país pode adotar. A fim de organizar o debate, os curadores selecionados estabeleceram Grupos de Trabalho sobre grandes temas impactados: direito autoral, áudio, texto e imagem e vídeo. Convidaram ainda experiências internacionais bem-sucedidas e inovadoras a mostrar seus erros e acertos e chamam agora a população brasileira a participar deste debate.
Vale lembrar que o Simpósio é gratuito, aberto ao público (sujeito à lotação do auditório) e será transmitido pela rede neste endereço. Todo o tipo de colaboração e participação é muito bem-vinda. Para explicar um pouco mais, passo a palavra ao Roberto Taddei.
1. Como podemos vislumbrar a importância dos acervos digitais para a educação e para a cultura?
A ideia é simples. O Brasil precisaria de mais duas revoluções industriais para fazer com que todos os municípios tenham bibliotecas tão boas como as encontradas no Rio de Janeiro e em São Paulo. As iniciativas nesse sentido, que começaram com Dom João VI e seguem esparsas e esporádicas até Mindlin, não são suficientes para um país como o nosso. Com a tecnologia, queremos dar um salto. Um equipamento eletrônico, seja ele um leitor digital, um celular ou um computador, pode armazenar ou acessar um acervo tão rico quanto o do Real Gabinete de Leitura, da Biblioteca Nacional, ou mesmo da Cinemateca de São Paulo.
Esse sempre foi também o sonho da internet, o de oferecer conteúdos ilimitados ao público comum. Mas nós evoluímos para um novo modelo. E esse modelo requer novos acordos e convenções. Não é mais publicar conteúdos apenas em sites na rede, mas sim organizar tudo de maneira intercambiável, com acesso por meio de diferentes suportes e plataformas, de fácil indexação e consulta por parte do público.
Assim, um único equipamento desses, seja na Praça Onze ou em São Gabriel da Cachoeira representam a mesma coisa, representam o que melhor o Brasil produziu nos últimos quinhentos anos, e antes disso também. Representa ainda a chance de qualquer cidadão entender a própria história, entender o presente e dá mais chances para que o futuro seja planejado e construído. Pode parecer mais um entre os inúmeros sonhos de grandeza deste país. Mas não é esta a lição que os formadores das grandes bibliotecas do Brasil nos dão? Dessa forma, estudantes, artistas e o público em comum, em qualquer lugar do país, terão acesso aos mesmos conteúdos.
2. Sobre as políticas públicas de digitalização, em que o Simpósio pode contribuir para a ampliação do acervo digital brasileiro?
O simpósio servirá de base para a formulação de possíveis políticas públicas para a criação e manutenção de acervos digitais. Queremos conhecer as experiências, identificar as dificuldades e ouvir as demandas dos diversos setores e atores. Lembrando sempre que não estamos falando apenas de livros, mas de conteúdos de todas as mídias.
A conclusão pode ser no sentido de se criar linhas de incentivo, ou normas de participação, ou ainda uma grande base de dados nacional onde seria possível pesquisar todo e qualquer acervo digitalizado em língua portuguesa, por quê não? O simpósio é uma iniciativa de vários grupos, e todos querem participar na construção dessas possibilidades.
3. Como foi pensada a composição das mesas?
A ideia dos curadores (Pedro Puntoni, Edson Gomi, Pablo Ortellado, José Murilo e Marcos Wachowicz) foi procurar uma composição diversificada, mesclando experiências bem sucedidas com casos inovadores onde a questão da sustentabilidade seja importante.
Juntar estudiosos do Brasil e do exterior para debater as questões mais importantes relacionadas à questão dos acervos digitais também foi central nas discussões. Procuramos cercar o assunto de todos os lados, com suas várias nuances, para que consigamos ter, ao final do simpósio, um retrato acurado dos desafios que se colocam para o Brasil daqui em diante.
4. O Simpósio reunirá experiências de diversas partes do mundo. O que você espera desse encontro?
Esperamos conhecer melhor as experiências e ouvir de seus idealizadores e representantes quais foram os desafios e quais são, ainda, os objetivos não alcançados, os desejos futuros e as visões a longo prazo para esse processo.
É bom lembrarmos que quando falamos de digitalização de acervos e também de acervos digitais, não estamos tratando de um serviço ou de uma obra com data definida para terminar, mas sim da criação de um processo que deve ser debatido à exaustão para que possamos antever os problemas futuros, problemas que nem conhecemos ainda.
É claro que temos questões imediatas a resolver, e muitos dos convidados presentes trazem contribuições valiosas para esse debate. Queremos aprender com os acertos mas também com os erros e dificuldades de cada um. Acima de tudo, queremos compartilhar de uma visão ambiciosa de futuro onde a distribuição e compartilhamento de informações seja uma realidade não apenas para a população brasileira mas, num segundo momento, também para toda a comunidade lusófona.
5. Qual a expectativa em relação ao público presente?
Queremos estimular a discussão de várias maneiras. Teremos alguns dos melhores representantes de exemplos de manutenção e criação de acervos digitais no mundo; estudiosos de direito autoral, de criação de sistemas para a manutenção dos acervos; historiadores e pesquisadores também estarão presentes no evento.
Além de todos esses atores, queremos que o público em geral compareça e entenda melhor quais os desafios. Queremos estimular a troca de informações e contatos, criando sinergias e estimulando novas parcerias ideológicas ou comerciais. Por fim, buscamos um melhor entendimento do assunto e a conscientização do público para a necessidade de o Brasil vencer o atraso nesse processo e conquistar uma posição de destaque no mundo quando falamos de distribuição de conteúdos digitalizados.
O país já tem uma liderança em muitos temas relacionados à cultura digital mas não chegou ainda a construir a ponte com o universo analógico que precede o digital. É importante reconhecermos que o salto final e necessário para a consolidação de uma democracia digital passa pelo compartilhamento do conhecimento produzido pelas gerações anteriores, pelos nossos ancestrais. É essa a discussão e entendimento que procuramos.
6. A Brasiliana é uma experiência pioneira nessa área. O que pode ser aprendido com ela?
São muitas as lições que a Brasiliana nos dá. Entre elas, a primeira é a lição da generosidade de pessoas como o José Mindlin que dedicou uma vida à coleção de um acervo fundamental para o entendimento do Brasil e também de sua família, que disponibiliza e possibilita que esse acervo chegue até o público.
A Brasiliana é um excelente exemplo em duas frentes. A primeira é que você tem a doação de uma biblioteca completa para a Universidade de São Paulo, que poderá, por sua vez, oferecer todo esse conteúdo para seu corpo discente e alunos, além de pesquisadores de São Paulo e região. A outra frente, tão ou mais importante, é a digitalização desse acervo e a disponibilização dele em vários formatos digitais.
Dessa forma, mais do que privilegiar o público de São Paulo, esse acervo poderá – a princípio –ter o mesmo acesso por estudiosos e cidadãos de qualquer outro estado do Brasil e talvez do mundo. O projeto da Brasiliana nos ensina também que um homem, com esforço, paixão e trabalho, pode criar uma biblioteca e mudar a vida de muita gente. No entanto, para mudar um país, é preciso que todos tenham essa mesma generosidade e que trabalhem em conjunto, consolidando essas iniciativas brilhantes.
Pela rede
Blog: Sol Forte Lá Fora
Twitter: @rrtaddei
Entrevista: Henrique Costa
Marcia Ribeiro 12 de abril
Como posso participar do Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais ? Pode ser pela minha instituição, já que sou Bibliotecária coordenadora do SIBi da Universidade de Taubaté?
Gabriela Agustini 12 de abril
Olá Marcia,
Para participar presencialmente do Simpósio, basta chegar no Novotel Jaraguá e fazer a inscrição na porta. Recomendo que você chegue cedo, pois a inscrição está sujeita à lotação do auditório. Obrigada e abs, Gabriela
Ana Paula de Azevedo 14 de abril
Reparei mesmo que não tem link para inscrições. Quer dizer que as incrições serão feitas somente na hora? A partir de que horário? Obrigado.
basicregisters 17 de abril
Boa noite
São Paulo é tão grande não é mesmo? O Novotel Jaraguá fica onde mesmo?
Como ainda , em algumas ocasiões, a presença física é necessária, há que se ter um endereço e um bairro, n´est-ce pas? telefone? skype?
Gabriela Agustini 18 de abril
Olá,
O endereço e informações de como chegar no hotel estão em: http://culturadigital.br/simposioacervosdigitais/onde/
Muito obrigada e abs,
Gabriela
Edson Britoi 22 de abril
Vai ser concedido certificado de participação? Com carga horária de quantas horas?
Gabriela Agustini 22 de abril
Olá Edson, será concedido certificado geral de toda a atividade. Assim que souber quantas horas estarão especificadas no documento, te aviso. Obrigada e abs,