Digitalizar os acervos é vital para a sobrevivência no século 21 das iniciativas de preservação de patrimônio cultural, como bibliotecas, museus, universidades etc. Por meio da ação é expandido o acesso às obras, o que representa uma oportunidade de aprimorar os serviços oferecidos ao público e levar o conhecimento para além das fronteiras físicas das instituições. Essa é a visão da holandesa Anne Vroegop, coordenadora da DISH – Digital Strategies for Heritage (Estratégias Digitais para o Patrimônio), uma conferência internacional bienal sobre acervo digital e as possibilidades que as novas tecnologias trazem para as organizações culturais.

Convidada a participar do Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais, que acontece de 26 a 29 de abril em São Paulo, Anne falará no evento sobre a importância de pensar os papéis das instituições de patrimônio cultural em uma sociedade em rede e a necessidade de padronização de metadados e outras soluções técnicas para avançar na digitalização.

Na entrevista a seguir, ela e seu colega de trabalho Frans Hoving, que também participará do Simpósio, contam um pouco mais das ações desenvolvidas por eles na Holanda.

Perfil da Anne no Twitter: @Annevroegop

Blog: http://www.annevroegop.nl/

1. O que é a Conferência DISH do Instituto Holandês para o Patrimônio (Netherlands Institute for Heritage) e que questões costumam ser discutidas no evento?

“DISH [Conferência sobre Estratégias Digitais para o Patrimônio] é uma iniciativa do Instituto Holandês para o Patrimônio e da Fundação DEN, que é o centro de conhecimento holandês de tecnologia da informação e comunicação para o patrimônio cultural.

Todos os anos na Holanda, Reino Unido e EUA conferências sobre aplicações digitais para acervos procuram mostrar melhores práticas e bons exemplos de como digitalizar conteúdo e apresentá-lo em aplicações inovadoras. É o que fazemos. Queremos investigar a influência disso nas organizações ligadas a manutenção de patrimônio, que devido às mudanças na sociedade enfrentam muitos desafios e precisam tomar decisões estratégicas sobre os seus serviços. Desafios que não podem ser resolvidos em um nível mais operacional. As decisões estratégicas sobre o seu papel e, portanto, suas relações com o público e o governo são inevitáveis.

Nas conferências bi-anuais da DISH temos por objetivo partilhar conhecimentos de estratégias digitais. Algumas questões que estão sendo exaustivamente discutidas por aqui e devemos levar para aí são:

– Quais papéis instituições de patrimônio cultural têm em uma sociedade em rede?
– Qual é o impacto da digitalização sobre essas organizações?
– Por que certos serviços digitais são mais bem sucedidos do que outros?
– Quais modelos de negócios são adequados para o setor do patrimônio cultural?”

2. Considerando a experiência do DISH, por que é importante a digitalização dos acervos?

“Digitalizar o acervo é vital para as empresas de preservação de patrimônio. Se você não faz isso com suas coleções, você não existe na sociedade do século 21. Por meio da digitalização é expandido o acesso às obras e aprimorado os serviços oferecidos para o público, os cientistas e outros interessados. E como manter o patrimônio cultural demanda muito investimento público, é importante que os acervos estejam disponíveis para toda a sociedade.

A digitalização também contribui para o desenvolvimento de novos modelos de negócio. Na Holanda, as instituições de preservação de patrimônio dão livre acesso a todo o conteúdo e arrecadam dinheiro com serviços extras como scannear sob demanda, venda de fotografias, entre outros. E, finalmente, toda a digitalização de conteúdo contribui para o surgimento de uma coleção internacional digital, no qual acervos e instituições se enriquecem mutuamente.”

3. O que o Brasil pode aprender com o DISH e com a experiência europeia no geral?

“A experiência europeia mais importante é a dificuldade de organizar uma cooperação bem sucedida. Objetivos e ideais comuns são essenciais, mas só podem ser alcançados se todos os contribuidores se beneficiarem com a relação. A meu ver, a condição indispensável a isso é o reconhecimento da necessidade de padronização de metadados e outras soluções técnicas.”

4. Como você vê o avanço das bibliotecas privadas, como o Google Books? É possível pensar em parceria com instituições governamentais? Hospedar documentos de interesse público em estruturas privadas traz algum risco?

“O projeto Google Books provocou muita polêmica. As pessoas temem que as empresas privadas não contribuam para o acesso livre e aberto para todos. Coleções de patrimônio são formadas, mantidas e preservadas com dinheiro público, então, em nossa opinião, isso significa que elas estão disponíveis para todos. As empresas privadas vão esperar um retorno sobre seu investimento (exceto as organizações sem fins lucrativos, coisa que o Google não é). O risco é que as informações podem daqui a um período longo ou curto de tempo não ficar mais disponíveis ou ter o seu acesso pago.

Parcerias público-privadas podem ser um desafio interessante. Pensar em formas inovadoras de ligações entre organizações comerciais e instituições governamentais precisa ser feito, porque a digitalização é um processo caro e esses arranjos podem beneficiar ambos os lados.”

5. O copyright ainda é um obstáculo para a digitalização de acervos. Como seria uma política pública adequada que levasse em consideração os direitos dos cidadãos?

“Esse é um dilema, porque, por um lado, acreditamos que cada autor/criador deve lucrar com seu trabalho e criatividade. Por outro lado, quanto mais restritiva a política é, menos as pessoas vão entrar em contato com a obra.

No geral, sentimos que todo o público e as informações devem ser livres de direitos autorais e a duração desses direitos sobre obras de arte deveria ser limitada no tempo e estar relacionada de alguma forma com a morte do artista.

Na Holanda, estamos familiarizados com um determinado tipo de licença para o material criado recentemente que é chamado “Creative Commons“. Sob essa licença todo o conteúdo está disponível para pesquisa e pode ser usado, reutilizado e remixado. O que não resolve, é claro, o problema com o copyright em todo o trabalho já existente.

Um estudo interessante sobre esse assunto é o feito recentemente pela Comissão Europeia sobre direitos de autor na economia do conhecimento, que está disponível em: http://ec.europa.eu/internal_market/copyright/docs/copyright-infso/greenpaper_en.pdf.”

Entrevista: Henrique Costa

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