São duas horas da tarde. O calor que emana do asfalto da rua Major Quedinho contesta o termômetro. Com certeza, faz mais de trinta graus.
Na Praça Desembargador Mário Pires, bem em frente ao tradicional Bar Estadão, uma jardineira estacionada atrai a atenção da população circulante do centro de São Paulo. Faz duas horas que está ali. Encostou, já atrasada, por volta do meio-dia.
A Jardineira é o Ônibus Biblioteca da Casa da Cultura Digital e do Ministério da Cultura. Uma homenagem à iniciativa do poeta Mário de Andrade, o primeiro Secretário de Cultura da maior cidade do Brasil, que nos anos 30 sonhou em levar livros aos leitores, perfazendo a rota do artista que vai em busca do seu público.
Fez isso criando uma ambulância de leitura que até hoje é usada como recurso por políticos que querem agradar a população.
O velho Chevrolet, de 1928, conhecido como Cabeça de Cavalo, foi alugado da Viação Caprioli de Campinas. O ônibus é uma elegante carroça motorizada, com três marchas para frente e uma para trás, além da manivela, utilizada pelo condutor, o aposentado Édson Leite, que, por 56 anos, pilotou os ônibus da frota campineira.
A Jardineira é um xodó.
Édson, de cabelos brancos e com dificuldades auditivas, divide o cenário dos bancos de couro com casais, idosos e crianças, entre elas dois garotos em situação de abandono que se encantam com a intervenção estética e democrática que ganharam da rua. O repórter da Rede Globo registra tudo.
Instalação Borgeana
Dentro do ônibus biblioteca, os jovens artistas do Coletivo Quadradão, sob orientação do produtor cultural Fábio Maleronka, da Beijo Técnico Produções Artísticas, transformaram o sonho de Mário em uma alegoria contemporânea.
Espalham seis leitores digitais de livros para serem manuseados e descobertos pelos participantes do Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais, que ocorre esta semana no Hotel Jaraguá.
Dentro do Grande Dicionário Enciclopédico Ilustrado, Edição de Luxo, capa dura, um Cool-er, fabricado pela empresa de mesmo nome, oferece as obras completas do poeta Vinícius de Moraes. Os livros foram liberados pela Biblioteca Brasiliana após um acordo com a família, detentora dos direitos autorais, e estão disponíveis para download.
Sobre a capa, um espelho ajuda a ler trechos de Canto de Ossanha e Poética, grafados no teto do ônibus:
“Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.”
Há um Kindle, da Amazon, dentro de uma Barsa e dentro de uma outra edição de luxo da enciclopédia um Ipad, da Apple.
No Kindle, lê-se Epitáfio:
“Aqui jaz o sol
Que criou a aurora
E deu luz ao dia
E aposentou a tarde”
Há algo de Borgeano em livros de capa dura que, uma vez abertos, revelam livros digitais, infinitos. Livros cuja capa é feita de espelhos que refletem trechos de livros plasmados em paredes.
Travessia
Três da tarde, o Ônibus Biblioteca parte à Cidade Universitária. Dentro dele, um repórter da TV Cultura, este escriba, Roberto Romano Taddei, jornalista e escritor, coordenador executivo do Simpósio, Maleronka, a produtora Isabel Mercês, além do condutor.
O desafio é subir a Consolação. Tarefa difícil, que o digam os atletas que já correram a São Silvestre e se furtam de apenas ter de descê-la.
O velho Cabeça de Cavalo se esforça, engasga, para uma, duas vezes. Na altura do Cemitério da Consolação, empaca. Parece que vai sucumbir. O experiente Édson usa de todos os artifícios para fazer a jardineira voltar a andar e ela prossegue.
A ação de percorrer São Paulo, com seu tráfego insensível, dentro de um carro de 1928, pode ser interpretada como uma metáfora dos desafios colocados para os defensores da universalização do acesso ao conhecimento no País. Da Biblioteca Mário de Andrade, início do trajeto, à faraônica Brasiliana – ainda em construção – dentro da Cidade Universitária, temos de percorrer a Avenida Rebouças, cruzar o Rio Pinheiros, adentrar os domínios do Butantã…
O Brasil tem uma dívida ancestral com o conhecimento. Não alfabetizou a totalidade de sua população, possui poucas bibliotecas, carece de educação pública de qualidade, tem um número indigno de livrarias e as que existem vendem livros a preços abusivos.
Como superar esse entrave? Não seria a oferta integral de todo o conhecimento compilado em língua portuguesa em meio digital, na rede mundial de computadores, um atalho que nos ajudaria a atualizar o sonho de Mário de Andrade?
A velha jardineira não aguenta. Entrega-se um pouco antes do túnel sob a Avenida Faria Lima.
Rebocada, é levada à USP por uma caminhonete Ford cinquenta anos mais nova.
Mas chega, e sua imagem altiva ao término da jornada pode ser interpretada como um sinal de que, sim, é possível superar obstáculos. E, se acreditamos em sinais dos tempos, que talvez haja uma chance para o Brasil enfim oferecer à sua população acesso irrestrito ao conhecimento.
Fotos: Paulo Fehlauer/Garapa
UPDATE: E deu no Jornal Nacional:





andre deak 27 de abril
Boa Sava. Realmente, uma tarde inspiradora. Legal que você esteve lá. E “um xodó” é ótimo! abração
Aloisio Milani 27 de abril
Rodrigo, ótima descrição e, mais, iniciativa sensacional para a discussão sobre acervos digitais. A ideia surpreende no jogo de conceitos com o kindle e com o ipad. A proposta do “ônibus” (que mais parece um calhambeque mesmo) digitaliza ideias, une tempo e espaço. Fiquei tão impressionado que acabo de falar agora com a Inezita Barroso por telefone sobre a iniciativa de vocês. Como sabe, trabalho lá no “Viola, minha viola” como roteirista, mas o que muitos talvez não saibam é que Inezita é bibliotecária, formada na primeira turma de Biblioteconomia da Universidade de São Paulo (USP), lá no terceiro andar do prédio da Caetano de Campos, na Praça da República. Comentei com ela sobre o ônibus e ela ficou maravilhada. Pelo que li aqui, o ônibus é de 1928, somente três anos depois que ela nasceu. Perguntei se ela sabia dessa iniciativa do Mário da Andrade pela admiração ao escritor e pela sua formação universitária. Ela disse que não, ficou espantada inclusive com essa história. “Nunca soube. Infelizmente não cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Eu ainda era muito moleca quando andava de patins perto da casa dele ali na Barra Funda. Foi uma pena”, diz. Perguntei então se no curso de Biblioteconomia da epoca se comentava sobre iniciativas como a dele. “Ih, não. Foi a primeira turma, dentro de um prédio onde a atenção maior era para a Filosofia. Foi um curso bom, mas estava no começo. O bom dessa história aí é lembrar agora que ouvi um monte de gente falando que inventou a biblioteca-circulante e o Mário de Andrade já pensava e fazia isso (risos)”. A Inezita leu a obra inteira do Mário de Andrade durante seu estágio na Biblioteconomia e tem ainda na casa dela alguns exemplares, guardados na estante entre livros de folclore e música. Enfim, a Inezita comentou que gostaria de ir até a USP ver o tal carro. Depois me conta até que dia ele ficará aí. Vou tentar levá-la.