Reportagem: Lia Rangel

As principais instituições culturais vinculadas ao Ministério da Cultura vem realizando a digitalização de seus acervos sem utilizar padrões e formatos de digitalização comuns, subaproveitando as tecnologias existentes, sem saber como enfrentar as barreiras legislativas em relação a direitos autorais de obras artísticas e com pouco intercâmbio de experiências. Como não estão preparadas (não têm equipamentos nem equipe especializada suficiente), 82% delas terceirizam o processo, sendo que maior parte das empresas contratadas não possui em seu quadro profissionais de tecnologia da informação capazes de gerir redes ou pensar em conteúdos integrados.

Estes são alguns dos apontamentos revelados por uma pesquisa encomendada a Fli Multimídia pelo Ministério da Cultura (MinC) e pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP). O estudo, realizado em 2009, envolveu 14 instituições, entre elas a Biblioteca Nacional, a Cinemateca de São Paulo, a Funarte, o Iphan (ver resumo da pesquisa abaixo). As instituições responderam a um questionário com 50 perguntas sobre a situação e a metodologia de seus processos de digitalização.

A pesquisa revelou que 90% dos acervos digitalizados já podem ser acessados pela internet por qualquer usuário por meio dos sites das instituições pesquisadas, embora ainda em interfaces pouco intuitivas e de difícil navegação.  E 70% dos acervos digitalizados só não estão disponíveis na internet por restrições de direito autoral.

De acordo com o relatório produzido por Caru Schiwingel, doutora em cibercultura e coordenadora da pesquisa, o trabalho teve os seguintes objetivos: “levantar informações para subsidiar a criação de um marco regulatório para a digitalização de acervos de entidades federais ou que tenham acesso a incentivos fiscais, subsidiar a criação de um plano nacional de digitalização de acervos que contemple medidas para preservação, digitalização e difusão de acervos e provocar reflexões sobre um modelo sustentável para viabilizar a manutenção de acervos digitais”.

Reflexão, debates e políticas públicas
Durante o Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Digitalização de Acervos, que tem início hoje, a Ministério da Cultura vai devolver às instituições entrevistadas os questionários respondidos para a pesquisa e fará uma análise conjunta dos resultados. Todas estas ações fazem parte do processo do Fórum da Cultura Digital Brasileira, que tem como um de seus eixos debater ações e projetos relacionados “a memória” em tempos digitais (mais informações no blog acervodigital).

Álvaro Malaguti, gerente de projetos da RNP, questiona se faz sentido o MinC montar uma infraestrutura totalmente própria para digitalizar os acervos que estão sob sua guarda. “Não seria mais aconselhável segmentar o processo e contratar partes das demandas no mercado de empresas do ramo? Como é o ecossistema deste mercado?”, pergunta.

Propostas
Uma das propostas em discussão é a criação de um parque de digitalização. Edson Gomi, da Biblioteca Brasiliana, e Angela Bittencourt,  diretora da Biblioteca Nacional, concordam que, de um modo geral, custa caro manter equipamentos de digitalização parados, com scanners de mesa, robôs de digitalização de livros  e outros equipamentos necessários. Por isso, segundo Malaguti,  a estratégia de um parque nacional para atender a diversas instituições pode ser uma boa estratégia.

No entanto, há outras questões que devem ser consideradas. Muitos acervos, por conta de sua raridade e estado de conservação, não podem ser transportados. Outra solução seria a criação de vários parques de digitalização regionais que estariam integrados às principais instituições culturais por meio de redes de alta velocidade. Malaguti considera que um próximo passo para avançar na elaboração de um projeto aprofundado seria a realização de um mapeamento detalhado da quantidade, tipo e qualidade de acervo a ser digitalizado e armazenado pelas instituições relacionadas ao MinC.

Já José Murilo Jr., gerente de Cultura Digital do Ministério da Cultura, destaca a necessidade de se pensar a ampliação do acesso aos acervos. Durante o Simpósio, ele apresenta a proposta de criação de um protocolo aberto e distribuído para os acervos digitais. “As instituições que aderirem poderão acordar por meio deste protocolo um padrão para a organização dos metadados, dos formatos, das licenças, de forma que os acervos possam ser organizados integradamente”. Para Murilo, esta proposta pode privilegiar o usuário, numa espécie de portal da cultura brasileira.

As idéias são diversas e requerem detalhamentos aprofundados. Por isso, Roberto Romano Taddei, coordenador do Simpósio, afirma que “um dos objetivos do evento é reunir o maior número de propostas possíveis considerando as demandas das instituições públicas e privadas, das organizações da sociedade civil e dos usuários, tendo em vista a criação de políticas públicas para a democratização do acesso aos bens culturais”.

Abaixo, um resumo dos principais pontos apontados pela pesquisa:

Qualificação do Uso da Rede – Produto Técnico Digitalização de Acervos

Realização: FLi Multimídia

Coordenação: Caru Schwingel, doutora em Cibercultura

Data: Outubro de 2009

Resumo: estudo sobre digitalização dos acervos das instituições culturais vinculadas ao Ministério da Cultura e que já estão ou  serão conectadas à Rede Comep (rede acadêmica de alta velocidade)

Objetivo geral: avaliar as possibilidades para a democratização de acesso dos bens culturais

Justificativas:
– avaliar o aporte de bens culturais que as instituições entrevistadas podem fazer para a internet;
– verificar em situação estão os processos de digitalização;
– criar modelos de negócio para garantir sustentabilidade dos processos de digitalização.

Objetivos específicos:
– subsidiar a criação de um marco regulatório para a digitalização de acervos de entidades federais ou que tenham acesso a incentivos fiscais;
– subsidiar a criação de um plano nacional de digitalização de acervos que contemplo medidas de preservação, digitalização e difusão de acervos.

Instituições pesquisadas:
Ancine
Biblioteca Nacional
Casa Rui Barbosa
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular
Funarte
CTAV
Iphan
Museu da República
Museu Histórico Nacional
Museu Lasar Segall
Museu Nacional de Bellas Artes
Museu Villa Lobos
Fundação Palmares

Principais estatísticas:
– 90% dos acervos digitalizados estão na internet para consulta
– 50% dos acervos encontram-se liberados em Copyright
– 30% em Creative Commons
– 70% dos acervos que tem liberação de direitos autorais encontram-se catalogados e prontos para serem manuseados
– 70% das instituições têm política de digitalização
– 82% contratam terceiros para fazer a digitalização – maior parte das instituições terceirizadas não possui em seu quadro profissionais de tecnologia da informação capazes de gerir redes ou pensar em conteúdos integrados

Gêneros digitalizados nas instituições:
– Fotografia – 73%
– Revista – 45%
– Negativos – 45%
– Slides – 36%
– Plantas – 36%
– Jornais – 36%
– Livros – 27%
– Vídeos – 18%

Outras informações:

60% usam metadados, mas 75% não usam protocolos internacionais para definição de metadados.

75% estão insatisfeitas com os programas de automação (dificuldade relacional, lentidão, customização antiga, não tem arquivo fontes do sistema).

Modelo de negócio:
– 57% disseram ter interesse em comercializar réplicas em formato digital
– 70% gostariam de ter lojas vinculadas a venda de réplicas
– 57% dos projetos tem financiadores
– 88% usariam redes sociais para divulgar e difundir acervo

Conclusões do estudo:
– necessidade de uma política pública;
– necessidade de maior intercâmbio;
– necessidade de reformulação dos web sites (utilizar tecnologia livre) e integração de bancos de dados a sistemas – possibilitando integração com outros bancos de dados e participação do usuário;
– necessidade de definir padrões em relação aos direitos de autor e licenças;
– necessidade de funcionários do quadro público especialistas em tecnologia da informação para integrar sistemas, redes e disponibilizar os arquivos na web;
– necessidade de cooperação interinstitucional e criação de um centro público de digitalização para repensar modelos de parcerias para expandir conhecimento.

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