Primeiro foram os 26 livros originais do principal escritor brasileiro do século 19, Machado de Assis. Agora, são os versos do principal poeta nacional do século 20, Vinícius de Moraes, que chegam à rede, de graça, para download, em 15 livros. A primeira missão da biblioteca Brasiliana Digital era digitalizar o acervo de mais de 20 mil obras (livros, mapas e manuscritos) doados à USP pelo bibliófilo José Mindlin em 2006, mas o projeto acabou tendo importância maior no contexto ainda heterogêneo da digitalização de acervos de instituições públicas brasileiras.

Um levantamento realizado em outubro de 2009 pela FLi Multimídia para a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) aponta que as 14 bibliotecas ligadas ao MinC falam dialetos diferentes quando a língua é o processo de digitalização (e a preservação do patrimônio histórico brasileiro). Apesar de 70% delas terem definido políticas para essa finalidade, apenas 50% dos acervos estão livres de direitos autorais e a maioria (75%) não adota protocolos internacionais para catalogação com metadados.

A Brasiliana é bem resolvida nesse sentido – e citada como modelo pelas próprias bibliotecas públicas. Os 800 livros e 50 mapas já disponíveis para consulta e download são de domínio público e foram digitalizados na própria USP, pelo robô de US$ 220 mil (um APT 2400RA BookScan, da Kirtas Tech) apelidado de Maria Bonita (o servidor em que tudo é armazenado ‘chama-se’ Lampião). Só esse fato já toca em um ponto controverso: em 82% das bibliotecas públicas brasileiras, empresas terceirizadas são contratadas para lidar com o acervo, na maioria das vezes sem profissionais de tecnologia da informação capazes de gerir redes ou pensar em conteúdos integrados. Quarenta pessoas (entre técnicos, professores, pesquisadores e estagiários) se dedicam integralmente à Brasiliana todos os dias.

Maria Bonita, o robô que digitaliza imagens na Brasiliana. Crédito: Divulgação.

“Podemos gerar conhecimento e tecnologia a partir do trabalho de digitalização”, afirma o professor Edson Gomi, da Poli-USP, um dos coordenadores da biblioteca. “Como usamos apenas softwares livres, nosso know-how é compartilhado com qualquer instituição que se interesse pela digitalização de arquivos.” Há realmente uma demanda por colaboração entre as instituições – daí também a discussão urgente sobre o papel do Estado e a padronização de formatos nesse processo. De acordo com o levantamento encomendado pela RNP, 89% das bibliotecas gostariam de aperfeiçoar juntas os trabalhos. Tanto que o estudo recomenda a criação de  um “centro tecnológico comum às instituições”, para compartilhar de equipamentos e softwares e  facilitar parcerias.

Um dos méritos técnicos da Brasiliana Digital, por exemplo, é a capacidade de comprimir os arquivos .pdf em 95% – o que faz com que toda a obra poética de Vinícius de Moraes caiba em apenas 85 MB. A mágica é feita pelo software LuraPDF Compressor, da empresa Luratech. Fisicamente, todo o arquivo ocupa hoje 1 TB, mas já foi adquirido outro servidor, com capacidade de 15 TB. A nova biblioteca da USP também trabalha alinhada aos 15 pontos do Memorando de Intenções que resultou de encontros promovidos pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e ao documento resultado do Eixo Memória Digital do Fórum da Cultura Digital – temas que serão debatidos no Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais, de 26 a 29 de abril, em São Paulo.

Ainda não há prazo definido para todo o acervo de Mindlin estar disponível online na Brasiliana. Mas o robô, que manipula os livros raros sem danificá-los, transforma em digital até 2,4 mil páginas por hora, através de duas câmeras fotográficas – e não de um processo de scaneamento tradicional. Os planos são que, em janeiro de 2012, seja inaugurado o prédio-sede da biblioteca, onde haverá cursos e centros de debates sobre a questão dos acervos digitais. “A experiência das bibliotecas hoje é análoga à dos museus. Muitos deles estão colocando imagens digitalizadas do seu acervo na internet. Isso permite às pessoas conhecer as obras previamente ou estudá-las com calma. Este tipo de iniciativa muito provavelmente aumentará o interesse pelos museus ao invés de substituí-lo”, diz o professor Gomi.

Maquete do prédio que vai abrigar o acervo físico da Brasiliana, ainda em construção na Cidade Universitária. Crédito: Divulgação.

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Vídeo institucional da Brasiliana Digital:

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