Imagine criar uma solução para preservar, ao mesmo tempo, áudio, vídeo, imagens, texto e milhões de combinações entre eles operadas por um software (por sua vez operado por um humano). Acervos de videogames são certamente os mais complexos de gerir, o que levou o diretor do Computerspiele Museum (Alemanha), Andreas Lange, a dizer enfaticamente no Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acevos Digitais: “Se você consegue preservar um game, você consegue preservar tudo”.

Veja os principais pontos levantados na palestra:

- Primeiro, um link MUITO legal: a linha do tempo dos games, imperdível!

- Games são uma importante questão formativa da sociedade alemã de hoje – e de todo o mundo, na verdade. O parlamento alemão considera relevante estimular a cultura nacional preservando este patrimônio cultural contemporâneo.

- A questão central é: como preservar a experiência de jogo? Games são desenhados para uma combinação muito específica entre hardware, sistema operacional e bibliotecas de formatos. Soma-se a isso o fato de computadores terem vida limitada (bem menor que a de livros, por exemplo). “Talvez ainda exista um disquete de 1993 com os dados ainda preservados, mas não há um computador que possa lê-lo”, diz o pesquisador.

- Solução são os emuladores, que simulam um outro sistema menos complexo nos computadores atuais. Há uma preocupação diferente de reprodução em relação aos demais tipos de documentos. Nos games, a velocidade precisa ser a mesma que o original. O som e as cores também.

- Segundo Lange, games são os primeiros objetos digitais da história com direito autoral. Então você pode fazer ideia dos problemas legais nessa área.

- Lange demonstra um emulador do game ‘Ghostbuster’ para C64 e outro que simula um joystick de Atari num iPhone. São tentativas de recriar a experiência usando suportes diferentes (um teclado, no primeiro caso, e um celular, em outro)

- Prós da preservação de games:
. é possível usar o código original (não há formatos perdidos)
. geralmente emuladores são gratuitos
. dica de software para emuladores – MAME (mamedev.org), sigla de Multiple Arcade Machine Emulator

- Contras:
. perda de experiência – “Lost of look and feel”, segundo a fala em inglês de Lange
. games são softwares, mas também são interfaces. É o mesmo problema que enfrentam os artistas digitais: como preservar seus arquivos feitos em novas mídias que já envelheceram?
. os próprios emuladores precisam eles mesmos ser preservados

- O governo alemão garantiu 3,97 milhões de euros como financiamento ao museu até janeiro de 2012

- Também está em estudo na Europa uma plataforma comum para desenvolvimento de emuladores, a KEEP – Keeping Emulation Enviroments Portable – www.keep-project.eu

- Questões legais. Não há definição do que é multimídia na legislação atual da União Europeia, por isso cada país tem a possibilidade de interpretar como quiser. Games são projetos audiovisuais e de software, o que complica mais ainda a definição de uma legislação de direito autoral. Lange defende que games sejam citados formalmente nas leis pelo mundo, como uma categoria específica, uma determinação do tipo “Fica permitido recriar sistemas computacionais obsoletos em softwares”

- Lange também aponta a Fundação Getúlio Vargas, do RJ, como um centro para discutir a cultura gamer – http://direitorio.fgv.br/cts/games

- E um artigo sobre games na América Latina, com o título “O continente perdido” – http://www.edge-online.com/features/south-america-the-lost-continent

- Por fim, uma reflexão linda feita a partir de uma pergunta da plateia, sobre como preservar a experiência. “Imagine: você sai desse hotel, coloca um pé na rua e olha o horizonte, o centro de São Paulo, sente o vento um pouco frio no rosto, alguma fome e depois sai caminhando com mil pensamentos. Isso é vida. Nem tudo dessa experiência é preservável. Com games também se escolhe o que se quer eternizar.”

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