O Google costuma apostar no que chama de “soluções tecnológicas” para enfrentar dilemas que, a princípio, não têm a ver com tecnologia. Foi assim na publicidade e, agora, nos direitos autorais sobre livros. O Google Books é um projeto no meio do caminho entre a proteção total e a liberação total dos direitos autorais. A solução, que envolve dinheiro, claro, tem sido elogiada como uma via possível. “Aplicamos o modelo Google de negócios. Repartimos os lucros gerados por publicidade com os detentores dos direitos”, diz o diretor de políticas públicas e relações governamentais do Google Brasil, Ivo Correa, na entrevista em vídeo abaixo, feita durante o Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais.

Das quase 7 milhões de obras já digitalizadas pelo Google Books, apenas 15% estão em domínio público – as demais 85% vêm com algum tipo de direito autoral. Aí, caso a caso, as editoras são consultadas e escolhem o que fazer. Quando o livro pertence ao acervo de uma grande biblioteca ou instituição pública, a contrapartida do Google é devolver à instituição todo o material digitalizado e abrir mão de direitos nos próximos contratos feitos por essa instituição com outras empresas.

Parece perfeito. Mas há questões importantes a serem discutidas. É de interesse da sociedade que uma empresa privada tenha controle sobre a indexação do patrimônio cultural humano na internet? Qual exatamente o algoritmo de busca que faz um e não outro livro aparecer em primeiro no ranking? Como são feitas as relações entre livros a partir dos metadados, que levariam a um conteúdo relacionado? Qual o tamanho da operação de digitalização pelo mundo (recursos financeiros, pessoas envolvidas, equipamentos)? Uma vez que há parcerias com editoras e foco em lucro, é possível admitir que exista isenção em todos esses processos? São perguntas que o Google não responde.

O que há, sim, são novas “soluções tecnológicas”, como o Content ID do YouTube. É um scanner de todo o conteúdo do site de vídeos que identifica os donos do material. As produtoras e donas do conteúdo podem então escolher entre três caminhos: pedir para o Google tirar o vídeo do ar, pedir para que toda audiência do vídeo vá para a produtora ou pedir que parte do dinheiro lucrado com links patrocinados seja revertida para a produtora. Os servidores do YouTube recebem 30 horas de vídeos por minuto (quando a Rede Globo, por exemplo, produz de 20 a 24 horas de conteúdo por dia). Diante de um número desse tamanho, é impossível deixar tanto de louvar como questionar.

Tags: , , , , , ,