A frase-título deste post, dita pelo pesquisador da Universidade de Montreal (Canadá), Jean-Claude Guedon, é o resumo de toda uma teoria sociológica defendida por ele. No vídeo abaixo, em entrevista dada à equipe da FLi Multimídia durante o Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais, ele conceitua a internet como a precursora de um tempo em que se formará uma nova individualidade: não mais a totalitária (religiosa ou política) nem a capitalista tradicional (que cada pessoa é como um átomo autossuficiente). Guedon cunhou o termo “individualidade fonêmica” para representar este novo tempo. Ele entende o fonema como um bom exemplo da natureza desses novos indivíduos: parecem átomos, autônomos, mas são átomos que só existem na diferenças e semelhanças em relação aos outros. A sociedade em rede, enfim.

Veja a explicação detalhada no vídeo:

O que tudo isso tem a ver com a digitalização de acervos? Guedon relaciona essa visão sociológica a outras duas “sociologias”, conforme já tinha exposto na palestra no simpósio: a das máquinas e dos documentos. “Digitalizamos os livros para as máqunas lerem, não para as pessoas”, diz. Por isso a importância de lutar pela liberação dos direitos autorais e da vigilância pública sobre projetos como o Google Books. Guedon acha a intenção do Google “extremamente perversa”. “Eles nos darão o acesso aos livros como se fosse um presente, mas serão donos das informações computacionais, dos algoritmos, o bem mais precioso.”

O debate é rico justamente porque expõe diversas visões de mundo. Um dos diretores do Google no Brasil, Ivo Correa, também participou do simpósio e foi entrevistado neste blog. Ele obviamente defende – ou pelo menos explica – o posicionamento da principal empresa da internet em relação à digitalização. Não se trata apenas de defender um lado ou outro, mesmo porque todos têm suas contradições e desafios, mas enxergar a questão de forma mais ampla. Guedon, por exemplo, coloca que tudo o que fruimos do mundo é mediado, hoje, por máquinas. “Nossa visão de mundo é moldada pelo algoritmo de busca do Google.”

Dai a conclusão do próprio Guedon de que a internet vai fazer com que todas as relações entre as pessoas seja repensada, e aos poucos alterará leis, costumes e cultura. “Assim é uma verdadeira revolução.”

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