Codigo aberto – na cultura geral

Um conceito fundamental da sociedade p2p é a noção do código aberto. No mundo do software, o código aberto revolucionou a maneira de produzir software, chegando a ameaçar os métodos tradicionais de negócio.

A que se deve esse êxito? Escrever um programa para computador é naturalmente um trabalho colaborativo. Já nos anos 50, os primeiros programadores trocavam seus códigos entre si. O desejo de aprender com os outros, e ao mesmo tempo de ajudar, está no centro das motivações dos programadores para participarem de projetos de software livre ou código aberto; estudos têm comprovado que não é o dinheiro em primeira linha. Já existem muitos trabalhos que analisam o que é o software livre e também tem alguns artigos no livro da culturadigital.br que tratam esse tema.

Neste espírito foram construídos programas tão importantes e de alta qualidade como linux, openoffice ou firefox.

Seria possível divulgar essa ideia do software livre para outros setores de atividade humana também? Tem muitas pessoas que afirmam essa pergunta. Eu acho que nem temos que pôr essa pergunta. Porque o lema do software livre, a colaboração, ja está pegando força em muitas áreas da cultura humana. Wikipedia é um exemplo muito conhecido, como youtube, flickr, e a quantidade de sites web 2.0. O que é que acontece aqui? Temos indivíduos que colaboram para criar conteúdos de qualquer forma como textos, vídeos, fotos, áudio, etc. sem fins de lucros – um dos maiores incentivos é colaborar, co-criar, formar comunidades virtuais, sentir-se unidos, participar em algo maior – e simplesmente porque as pessoas querem, porque é “fun”, dá sentido as atividades dos indivíduos, que se sentem integrados, fomentando ação participativa.

Então vemos que tudo isso é expressão de uma cultura geral global que está implantando-se no “DNA” cultural deste tempo: um DNA que reflita uma consciência coletiva, que já supera o individualismo. Nem temos que nos esforçar, isso vai se desenvolver naturalmente nas pessoas. Assim criamos uma forma de sabedoria coletiva, à qual todos tem acesso. Uma sabedoria aberta, não exclusiva. Uma sabedoria de código aberto, de colaboração, coletiva, comum.

Também já observamos como plataformas tipo Napster, etc. introduziram novos padrões de intercâmbio: o conteúdo pode ser copiado e distribuído pela infra-estrutura eletrônica muito facilmente e sem custo algum. Estes novos padrões giram em torno das leis vigentes para propriedade intelectual.

Imaginemos um mundo onde a sabedoria é acessível para todos. Onde para construir painéis solares, uma estufa solar, um biodigestor, uma máquina – qualquer coisa -, só é preciso estar online e descarregar as informações, livre de patentes e restrições. A livre circulação de informação verdadeiramente oferece a possibilidade de acabar com a pobreza. Sem sufocar a economia – ao contrário! Os painéis têm que ser costruidos e vendidos…

Além disso, ter os desenhos de produtos acessíveis online significa que estão a disposição de todo mundo – como no mundo do software, também qualquer indivíduo pode colaborar para melhorar os produtos, para achar falhas, compartilhar experiências, contribuir com novas ideias, complementos, adicionais, novas funções, etc. A sabedoria coletiva estilo código aberto proporciona a ferramenta para uma cultura sem limites, uma cultura humana, que pode alimentar nossa evolução neste planeta.

Quero terminar este artigo com uma reflexão. Muitas pessoas, artistas, engenheiros, inventores, desenhistas, etc., nos arranjos atuais, fazem de uma idéia dinheiro com patentes, colocando que a ideia é inteiramente deles. Agora, seguindo o trabalho de Rupert Sheldrake (Wikipedia) sobre os campos mórfogenéticos, uma idéia sempre tem um antecedente, descende de algo que já esteve antes. Para mim, não existe uma ideia que nasceu independente no cérebro de uma pessoa. Então, aqui temos um fundamento científico e filosófico de que toda sabedoria, enfim, é coletiva, e teria de ser acessível para todos. Ainda necessitaremos de maneiras de proteger idéias para que não sejam abusadas por terceiros, como introduzidos pelos Creative Commons .

Mais que tudo, temos que trabalhar com este lema da sabedoria código aberto como com um ideal, uma base, sem implantar novos dogmas, deixando-nos guiar pelo desejo de colaborar, co-criar, compartilhar, de formar consciência coletiva e uma humanidade mais justa e eqüitativa, participativa, onde qualquer indivíduo pode contribuir e aceder, fomentando o desenvolvimento do ser integral e de comunidades auto-determinadas e sustentáveis. (Muito obrigado Khalila por revisar o texto)

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2 Responses to “Codigo aberto – na cultura geral”

  1. Fábio, você conhece o blog da Gabriela Agustini “Video Online”? Ela apresenta um glossário interessante. Entre os termos dados, ela define o P2P e ainda fala sobre o protocolo Bit Torrent: “Peer-to-Peer (do inglês: par-a-par), entre pares, é uma arquitetura de sistemas distribuídos caracterizada pela descentralização das funções na rede, em que cada nodo realiza tanto funções de servidor quanto de cliente. Atualmente, o protocolo mais utilizado para compartilhamento de arquivos via P2P é o BitTorrent.”
    Agora eu sou amiga dela no culturadigital…fica aí a sugestão de acesso e provável intercâmbio. Abraços.

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  2. Avatar of Fabio Barone Fabio Barone disse:

    Magnolia, não conheço a ela, muito grato pela sugestão!

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