Efêmero Revisitado no RS

Eis que depois de alguns meses de molho, o “Efêmero Revisitado” volta a circular por estas bandas.

Desta vez, é por conta do lançamento do livro no Rio Grande do Sul. A primeira parada foi 9/5, novamente em Santa Maria, mas desta vez na Feira do Livro 2012, na praça Saldanha Marinho, em pleno coração do coração do Rio Grande.

Às 19h30, fiz algumas “conversas sobre teatro e cultura digital” no espaço Livro Livre, em bate papo com André Galarça, ator formado pela UFSM e integrante do Teatro Por que Não?, de Santa Maria (na foto acima). Muita gente talvez tenha se erguntado “mas denovo?”, porque houve um lançamento no início de 2012 em Santa Maria, no SESC local (como pode-se ver na foto abaixo).

Apesar do bom público e da boa impressão (pelo menos pra mim) do evento de janeiro, o contexto foi outro (a feira do livro), o lugar, diferente (na praça central da cidade), e a conversa variou um tanto: foi de “futuro do jornalismo” a “o que mudou na sua vida depois de escrever um livro”.

Tentei responder a todas as questões; fiquei feliz só delas existirem em mais de 10, algo raro quando se trata de assuntos desconhecidos de muita gente (como ainda é o teatro digital). Pelas minhas contagens, devem ter visto a conversa umas 60 pessoas, entre os talvez 40 sentados e outros tantos que passavam pela praça, sentavam um pouco, e seguiam seu rumo. Um salve a Feira do Livro de Santa Maria e a produtora OPSs! pelo convite e recepção. [Dei uma entrevista rápida a Rádio Itapema local, comandada pelo camarada Márcio Grings; assim que descolar o áudio reproduzo aqui].

Transmissão da Pós-TV/Lançamento do Efêmero em Porto Alegre

No dia seguinte, 10/5, quinta-feira, houve lançamento do livro em Porto Alegre, na Palavraria, no Bom Fim (Vasco da Gama, 165). Lá rolou também uma conversa sobre teatralidade digital que transmitida no #Tubodeensaio, programa da Pós-TV, webtv ligada ao Circuito Fora do Eixo. Eu e Cláudia Schulz, gestora do Palco Fora do Eixo, conversamos por Skype com Márcio Meirelles, diretor do Teatro Vila Velha de Salvador-BA, e Leonardo Roat, doutorando em Ciências da Linguagem da Unisul, de Florianópolis-SC – e também um dos entrevistados do “Efêmero”.

Apesar de alguns problemas técnicos (os dois skypes marcados para o momento deram pau diversas vezes, o que é normal nestes casos), a conversa foi bem produtiva; podemos fazer uma ponte legal com Márcio Meirelles. Os vídeos do programa (Tubo de Ensaio) podem ser assistidos aqui. Agradeço ao pessoal da Casa Fora do Eixo POA que ajudou a produzir todo o evento – inclusive o coquetel que rolou após a conversa – e aos amigos e interessados que apareceram na noite agradável de quinta 10/5 em Porto Alegre.

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Efêmero Revisitado para download

Depois do lançamento no Festival CulturaDigital.br, em dezembro, no Rio de Janeiro, e no Sesc Santa Maria, em janeiro de 2012, aqui está “Efêmero Revisitado: Conversas sobre teatro e cultura digital” na íntegra, pra download e visualização on-line.

Colocamos o livro no Scribd, no Issuu – aquela site/ferramenta muito usado para visualizar revistas online – e em PDF, pra download simples, no RapidShare.

Para obter a versão impressa do livro, escreva para baixacultura@gmail.com; sai R$15, com frete incluso.

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Saiu o livro!

Caros,

Depois desse blog estar muto relapso, finalmente uma atualização: está pronto o livro para qual este blog nasceu.

O nome dele é “Efêmero Revisitado: Conversas sobre teatro e cultura digital“, tem 192 páginas e em breve será distribuído para professores, universidades, grupos, companhias e escolas de teatro, bem como outros interessados na complexa relação entre o teatro e a cultura digital – se você é um deles, escreva para baixacultura@gmail.com que a gente conversa.

Será lançado oficialmente neste próximo sábado, 3 de dezembro, às 18h30, no Festival CulturaDigital.br, no Rio de Janeiro, dentro da programação do espaço Visualidades, logo após a apresentação de Lucas Pretti, do Teatro para Alguém. Cariocas e outros que estejam pelo Rio neste dia e hora, apareçam!

Após o lançamento, ele também estará disponível aqui nesta página para download nos mais variados formatos, bem como para navegação na página “Livro” aqui acima.

Por enquanto, dê uma olhadinha no aperitivo do livro que preparamos, com a apresentação, prefácio sumário e primeiro capítulo.

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contracapa

O livro – primeiro projeto de Selo do BaixaCultura, página que edito e que trata de cultura livre e (contra) cultura digital – está divido em duas partes: Contextos e Experimentos & Reflexões.

Em Contextos, estão dois capítulos: o primeiro chamado “Teatro e tecnologia, uma longa história“, uma tentativa de ampliar o contexto de certos momentos da relação entre teatro e tecnologia na história que vai desde o surgimento do mecanismo do deus ex machina na Grécia Antiga até o happening e a performance, passando pela uso da luz elétrica por Adolphe AppiaGordon Craig, a Gesamtkunstwerk (obra de arte total) de Wagner e pelas vanguardas históricas do inicio do século XX.

O segundo, ”Mídias e cultura digital no teatro“, traz uma visão panorâmica do estado da arte da discussão sobre teatro e as tecnologias digitais. Começa no período pré-internet, com o início do boom do uso de mídias no teatro e dos experimentos que vão resultar no conceito de teatro pós-dramático, de Hans-Thies Lehmann, passa pela discussão sobre o que seria o teatro digital (atores+bits?) a partir do Manifesto Binário, do grupo catalão La Fura Dels Baus, e do conceito da pesquisadora dos Estados Unidos Nadja Masura. E, por fim, fala-se da dificuldade de se categorizar em um mundo híbrido como o de hoje e de um futuro possível para o teatro digital: a aproximação das artes cênicas com a ideia dos jogos eletrônicos/digitais (os populares videogames).

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sumário

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A parte II, Experimentos & Reflexões, traz seis entrevistas e conversas realizadas para a pesquisa. Buscou-se, inicialmente, destacar as opiniões, análises e experiências de dois dos principais grupos que trabalham com teatro e a cultura digital no Brasil: Teatro para Alguém, representados aqui por seus fundadores Renata Jesion e Nelson Kao, e Phila7, através de seu diretor Rubens Velloso.

Na sequência, há a entrevista com o ator e diretor Leonardo Roat, que recentemente defendeu uma dissertação acadêmica sobre o assunto e continua a pesquisa no doutorado em Ciências da Linguagem na Unisul, em Santa Catarina;  com  Tommy Pietra, do Teatro Oficina, grupo que tem uma larga experiência no uso das mídias na cena; Renato Ferracini, do Lume Teatro e professor da pós-graduação em teatro da Unicamp, que embora não se dedique à pesquisa na área, tem sua opinião sobre os meandros da relação entre o teatro e a tecnologia digital como ator, pesquisador, diretor e espectador crítico do que assiste.

Encerra-se esta parte com a conversa com Fabrício Muriana, Maurício Alcântara e Juliene Codognotto, da Bacante, importante centro de crítica teatral na rede, espectadores frequentes dos mais variados espetáculos do país e oriundos de uma experiência de trabalho com teatro e a tecnologia digital na II Trupe de Choque.

Ao final do livro, há ainda um Glossário, com mais detalhes sobre alguns dos inúmeros nomes citados durante o trabalho, além das Referências, dos Agradecimentos e de outros dados indispensáveis para um livro - como a Ficha Catalográfica, o papel em que foi impresso, etc.

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Ficha Técnica

Projeto gráfico: Calixto Bento / www.clxb.com.br
Capa: Montagem sobre fotos de Nelson Kao e Alessandra Fratus
Revisão: Ben-Hur Demeneck, Juliana Bassaco, Marcelo De Franceschi, Leonardo Feltrin Foletto
Transcrição das entrevistas: Leonardo Feltrin Foletto, Giane Lara, Marcelo
De Franceschi.
Edição: Leonardo Feltrin Foletto


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Entrevista (2): Rubens Velloso

A segunda entrevista que publico aqui é com Rubens Velloso, diretor da cia. Phila 7 -uma das pioneiras brasileiras na combinação de linguagens cênicas com audiovisuais e digitais. Rubens faz um trabalho experimental de intersecção de linguagens e me recebeu em sua casa, na Lapa, zona Oeste de São Paulo, no início da noite de segunda-feira, 30 de maio de 2011.

Em sua apresentação no site da Phila 7, consta que Rubens:

atuou e atua nas mais diversas áreas artísticas, do teatro ao cinema, passando pela música e artes-plásticas. Entre suas principais realizações para o teatro encontram-se encenações como O Círculo de Giz Caucasiano, A Alma Boa de Setsuam, Terror e Miséria no III Reich, todas de Bertold Brecht. Explorou as diversas formas do teatro de vanguarda juntamente com o diretor Joe Chaikin, do grupo americano Open Theatre. Em 2000 dirigiu a cantata cênica Carmina Burana, de Karl Orff, e Il Guarani, de Carlos Gomes, ambas no Theatro Municipal de São Paulo. Em 2002, dirigiu o espetáculo El Amor Brujo, no Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande. Dirigiu o espetáculo Galileu Galilei de Bertold Brecht em abril de 2005. Convidado pelo produtor Eduardo Bonito, em 2006, dirige no Brasil o espetáculo Play on Earth em parceria com Julian Maynard-Smith (Inglaterra) e Jeffrey Tan (Cingapura). Dirigiu ainda A Verdade Relativa da Coisa em Si, e RODA. Em 2008, dirige o espetáculo What’s Wrong with the World? em parceria com Julian Maynard-Smith (Inglaterra) no Teatro OI Futuro no Rio de Janeiro, o mais recente espetáculo da Cia Phila7.

Fiz também um post com a entrevista com Rubens no BaixaCultura, página em que sou um dos editores. Os áudios da entrevista podem ser ouvidos na íntegra, parte 1 e parte 2.

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Entrevistas (1): Drika Nery

Hoje começo a postar alguma das entrevistas que estão sendo realizadas para a execução da reportagem. A primeira é com Drika Nery, escritora e dramaturga, autora de “Cardápio de Soluções Indigestas“, exibida no Teatro para Alguém dentro do projeto “Os 10 Dramaturgos – 2010″, onde os 10 dos 12 formados pelo Núcleo de Dramaturgia do SESI 2009 escreveram peças inéditas para o site.

Drika é apresentada no site do TPA como “uma ex-futura cineasta paulistana que está poeta em alguns momentos, mas na maior parte do tempo pratica a heresia de escrever pra teatro. Integra o Centro de Dramaturgia Contemporânea (CDC), grupo de dramaturgos, desde 2006. É uma das autoras da peça “Jardim inverso” dirigida por Paulo Faria, que esteve em cartaz em São Paulo entre novembro de 2009 e março de 2010 (Teatro N.Ex.T e Sede Luz do Faroeste). Roteirizou e dirigiu os curtas “Augusta rua” (2005), “Realidade experimental” (2004) e “Réstias” (2003).

A conversa que tivemos foi no café do Espaço Unibanco, na rua Augusta, em 27/05, num fim de tarde/início de noite de uma sexta-feira cinzenta, meio frio meio chuvosa, típica de São Paulo. Desconte os barulhos alheios e as falas atabalhoadas do entrevistador que vos escreve.

Clique no link de cada uma para abrir o áudio em uma nova janela.

Entrevista Drika Nery, parte 1

Entrevista Drika Nery, parte 2

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No processo da escrita

O blog está há algum tempo desatualizado porque este mês de março foi o das entrevistas. Realizei quase 10 entrevistas com o pessoal do TPA e com outras que giram em torno. Em breve falarei um pouco delas e as colocarei no blog, até como uma forma de manter a regularidade aqui. Esse abril que se avizinha será mais de sentar a bunda e escrever do que entrevistar, então é bem possível que ocorra mais atualizações aqui – nem que sejam com textos que mostrem como anda sendo esse meu processo de investigação sobre teatralidade digital a partir do caso teatro para Alguém.

O que já posso adiantar é que não, o livro não será teórico. Meu lugar de fala, como dizem os que estudam semiótica, não é de alguém do teatro, e jamais conseguirei esse lugar no pouco tempo que estou tendo para fazer o estudo. Então será muito mais uma reportagem grande que tentará, a partir do caso do TPA, discutir o status quo da questão do teatro/teatralidade digital do que qualquer outra coisa. No fim, é isso que previ no projeto, um livro-reportagem.

É assim que a coisa tem se encaminhado, pelo menos.

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Santaella e as culturas do pós-humano (1)

Dando sequência ao fichamento/clipping de textos teóricos que ando lendo sobre o(s) assunto(s) em questão, passo a falar de “Cultura e artes do pós-humano“, de Lucia Santaella, uma das principais referêrencias brasileiras quandos e fala de cultura digital, semiótica e arte digital, dentre outros assuntos que ela se debruça sempre com muita lucidez e clareza.

Ainda que o texto de Lucia flua bem, o assunto abordado pelo livro é denso, amplo e complexo, como o próprio título do livro sugere. Neste primeiro post, destacarei alguns trechos que mais “bateram” em mim dos primeiros capítulos do livro.

Fonte: SANTAELLA, Lucia. Cultura e artes do pós-humano.São Paulo; Paulus, 2003.

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Introdução

Santaella fala que os precursores de uma Cultura do “disponível e transitório” foram os walkmans, controles remotos, fotocopiadoras, videocassetes, walktalk, nos anos 80.

“Essas tecnologias, equipamentos e as linguagens criadas para circularem neles têm como principal característica propiciar a escolha e o individualizados, em oposição ao consumo massivo. São esses processos comunicativos que considero como construtivos de uma cultura das mídias. Foram eles que nos arrancaram da inércia da recepção das mensagens impostas de fora e nos treinaram para a busca da informação e do entretenimento que desejamos encontrar”. (p. 15-16)

Na sequência, fala da “nova mídia” e usa uma citação do clássico “A sociedade em Rede”, de Manuel Castells, para sintetizar o perfil dessa nova formação cultural:

(…) A nova mídia determina uma audiência segmentada, diferenciada que, embora maciça em termos de números já não é uma audiência de massas em termos de simultaneidade e uniformidade da mensagem recebida. (…) A audiência visada tende a escolher suas mensagens, assim aprofundando sua segmentação, intensificando o relacionamento individual entre o emissor e o receptor”.

Sobre o computador, a “mídia das mídias”:

A aliança entre computadores e redes fez surgir o primeiro sistema amplamente disseminado que dá ao usuário a oportunidade de criar, distribuir, receber e consumir conteúdo audiovisual em um só equipamento. Uma máquina de calcular que foi forçada a virar máquina de escrever há poucas décadas, agora combina as funções de criação, distribuição e de recepção de uma vasta variedade de outras mídias dentro de uma mesma caixa”.(p.20)

Sobre arte e ousadia, uma boa citação, que concordo inteiramente e diz muito do que se pensa/fala/pesquisa em teatralidade(s) digital:

A arte que cria problemas tem sido para mim um território privilegiado para o exercício da ousadia do pensamento que não teme em abraçar sínteses, fazendo face aos enigmas e desafios do emergencial; um território privilegiado para dar margem à imaginação que ausculta o presente, nele pressentindo o futuro. (p.27)

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Capítulo 2 – Cultura Midiática

Sobre as transformações da cultura no século XX, um belo parágrafo:

“Até meados do século XIX, dois tipos de cultura se delineavam nas sociedades ocidentais: de um lado, a cultura erudita das elites, de outro lado, a cultura popular, produzida no seio das classes dominadas. O advento da cultura de massa a partir da explosão dos meios de reprodução técnico-industriais – jornal, foto, cinema, seguido da onipresença dos meios eletrônicos de difusão, rádio e televisão – produziu um impacto até hoje atordoante naquela tradicional divisão da cultura em erudita, de um lado,  e cultura popular, de outro.  Ao absorver e digerir, dentro de si, essas duas formas de cultura, a cultura de massas tende a resolver a polaridade entre o erudito e o popular, anulando suas fronteiras. Disso resultam cruzamentos culturais em que o tradicional e o moderno, o artesanal e o industrial mesclam-se em tecidos híbridos e voláteis próprios das culturas urbanas”.

A partir daí, Santaella fala da cultura das mídias – termo que ela cunhou em 1992 para designar a então nascente cultura que se distinguia da cultura de massas por principalmente possibilitar a escolha de produtos alternativos – e da cada vez mais mistura que foi se engendrando nas muitas culturas existentes. Disso, ela ressalta que a cultura humana é um continuum, cumulativa no sentido de mudança e transformação, fortalecendo a questão sempre pertinente: não morre uma cultura com o “aparecimento” de outra.  Não morreu o teatro, nem o romance, com o aparecimento do cinema; o livro não desapareceu com a explosão do jornal, nem deverão ambos desaparecer com a internet. Poderão, como já está, mudar de suporte, do papel para a tela eletrônica, assim como o livro saltou do couro para o papiro e deste para o papel.

Como se não bastassem as instabilidades e reorganizações constantes dos cenários culturais com o advento da cultura das mídias, a revolução digital surge para embaralhar mais ainda.  Como diz Santaella, no cerne dessa revolução está a possibilidade aberta pelo computador de converter toda informação – texto, som, imagem, vídeo – em uma mesma linguagem universal. Através da digitalização e da compressão de dados que ela permite, todas as mídias podem ser traduzidas, manipuladas, armazenadas, reproduzidas e distribuídas digitalmente” (p. 59-60)

Ao final do capítulo, ela faz uma pergunta profética e que todos vem fazendo hoje, mesmo que não se dêem conta disso e das consequências do questionamento que fazem:

Será que a cibercultura, com a convergência de midias que ela promove, irá absorver para dentro de si toda a cultura midiática, ou será que a cultura midiática continuará a existir paralelamente à ela, ambas convivendo através de novos conflitos e alianças que, por enquanto, ainda não estamos conseguindo discernir? (p.60)

Para falar rapidamente do assunto, creio aqui que não, pelo menos não por hora, haja vista o hibridismo cotidiano entre mecanismos/manifestações da cultura digital e da cultura das mídias.

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Capítulo 3 – Uma visão Heterotópica das Mídias Digitais

Nesse terceiro capítulo Santaella retoma o contexto de surgimento do digital e da cultura digital. Fala, mais uma vez, de que os primórdios da cultura das mídias foi dada com os equipamentos técnicos que propiciaram novos processos de comunicação, tais como a multiplicação dos canais de televisão a cabo, videocassete, jogos eletrônicos,etc, que trouxeram a escolha que a cultura de massa até então não ofertava.

Este crescimento das multiplicidades de mídias, como diz Santaella, “foi dando margem ao surgimento de receptores mais seletivos, individualizados, o que foi, sem dúvida, preparando o terreno para a emergência da cultura digital, na medida em que esta exige receptores atuantes, caçadores em busca de presas informacionais de sua própria escolha”. (p.68)

Dentre diversas discussões pertinentes que a autora aborda – e que, por falta de espaço e tempo, não resumirei aqui – é interessante trazer aqui a citação final do capítulo (Santaella é pródiga em fechamentos poéticos de capítulos):

“Se a ocupação era impossível nos meios de massa, o ciberespaço, diferentemente, está prenhe de vãos, brechas para a comunicação, informação, conhecimento, educação e para a formação de comunidades virtuais estratégicas que devem ser urgentemente exploradas com um faro que seja política e culturalmente criativo, antes que o capital termine por realizar a proeza de colonizar o infinito” (p.76).

Bingo. Ocupar espaços, ficar bandeiras relevantes no ciberespaço antes que os grandões endinheirados os façam, deveria ser um lema para sair gritando nas ruas, virtuais e reais.

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Capítulo 4 – Substratos da Cibercultura

Este capítulo, como o nome prenuncia, é bastante importante para nossos estudos, especialmente por trazer detalhes da consolidação/nascimento da cultura digital/cibercultura.

Inicia definindo – mais para facilitar a contextualização da cibercultura do que para guardar tudo em “caixinhas” – seis eras culturais: oral, escrita, impressa, de massas, das mídias e digital. Logo vem o esclarecimento: “nenhuma era cultural desapareceu com a outra. Ela sofre reajustamentos no papel social que desempenha, mas continua presente. Não se trata, portanto, da passagem de um estado das coisas a outro, mas uma complexificação, do imbricamento de uma cultura na outra“. (p.78).

Então, faz um “Da cultura de Massas a Cultura das Mídias” e “Da cultura das Mídias à Cibercultura” a fim de nos contextualizar as duas transições culturais que tem o século XX como elemento de tempo central. A primeira, cultura das massas, tem o seu nascimento com o jornal, o telégrafo e a fotografia, oriundos diretamente da Revolução Industrial dos séculos anteriores, e o seu apogeu com o cinema e a televisão, especialmente no período do final dos anos 60 e início dos anos 70, quando a difusão televisiva atinge seu ponto máximo de maturação e, a partir daí, se satura, com os diversos dispositivos que dão ao espectador um mínimo poder de escolha (videocassete, games) começando a dar a pá de cal na hegemonia da televisão, que ainda hoje permanece, mas em crise (ou não?).

Os microcomputadores dos anos 80 dão o passo inaugural para transformar o espectador também em usuário. “Na medida em que o usuário foi aprendendo a falar com as telas (…) seus hábitos exclusivos de consumismo automático passaram a conviver com hábitos mais autônomos de discriminação e escolhas próprias. Nascia aí a cultura da velocidade e das redes que veio trazendo consigo a necessidade de simultaneamente acelerar e humanizar a nossa interação com as máquinas” (p. 82).

Como se vê, a especialização da audiência por meio da possibilidade da  liberdade de escolha do usuário começa cedo, nos anos 80, na cultura das mídias, e acelera muito com o surgimento da internet, onde cada um pode ser produtor, criador, compositor, montador, etc, de seus próprios produtos.  Cria-se assim uma sociedade de distribuição reticular de integração em tempo real, que passa a concorrer com a até então sociedade piramidal um-muitos.

No tópico “Digitalização: esperanto das máquinas”, a autora faz uma didática explicação (a partir de Joel Rosnay, de “O Homem Simbiótico”) sobre o processo de digitalização que nunca é demais lembrar: “A digitalização consiste em dividir uma grandeza física que varia e evolui no tempo em pequenas frações, mediante seu valor em intervalos regulares (para a música em um CD, 40 mil vezes por segundo. Em seguida, é necessário quantificar esse valor, atribuindo-lhe um código informático sob forma binária, utilizando apenas dois números, 0 e 1 (bits da informação). O sinal digital traduz-se assim por um fluxo de bits estocado em um disco laser e agrupado em pacotes, sendo suscetível de ser tratado em qualquer computador” (p.83)

Através da digitalização, todas as fontes de informação – de fenômenos materiais a processos naturais – estão “homogeneizados” em cadeias sequenciais de 0 e 1 – entre eles o áudio e o vídeo. A revolução da digitalização se faz visível face a inevitável comparação com o antes disso, onde todos os suportes eram incompatíveis: o papel para o texto, a película química para a fotografia ou filme, fita magnética para o som ou vídeo, e assim por diante. Atualmente, a transmissão de informação digital não depende do meio de transporte (fio de telefone, ondas de rádio, cabo), pois sua qualidade permanece perfeita, pois tudo é padronizado pelos dígitos de forma igual. Pra bem ou pra mal, não há mais “ruídos” e “perdas”, coisa comum com o prcesso analógico.

Outro fator importante do digital é a estocagem, muito menos onerosa que a do analógico. Diz Santaella: “foram fundidas, em um único setor de todo o digital, as quatro principais formas de comunicação humana: o documento escrito (imprensa, revista, livro); o audiovisual (televisão, vídeo, cinema); as telecomunicações (telefone, satélites, cabo) e a informática (computadores, programas informáticos). É esse processo de unificação que costumam chamar de “convergência das mídias”. (p.84)

Nos tópicos seguintes desse capítulo, fala-se sobre a história da internet, interface e ciberespaço, algo que, tamanha a documentação existente, não vale citar por aqui. Só destaco algumas citações boas de pescar e colocá-las em algum contexto: “As redes de computadores formam uma treliça de processadores heterogêneos, todos eles podendo atuar como fontes e como escoadouros” (p.89). “Os computadores e as redes que os ligam constituem o ciberespaço” (p.90).

Sobre os hiperlinks e a navegação caótica no ciberespaço, algumas boas citações:

Qualquer coisa armazenada em formato digital pode ser acessada em qualquer tempo e em qualquer ordem. A não linearidade é uma propriedade do mundo digital. Nele, não há começo, meio e fim. Quando concebidas em forma digital, as ideias tomam forma não-lineares. A chave-mestra para essas sintaxes de descontinuidade se chama hiperlink, a conexão entre dois pontos no espaço digital”. (p.94)

Quando se navega nas redes, as associações são radicalmente imprevisíveis, como são imprevisíveis os caminhos que são seguidos a cada dia pelos usuários de uma grande biblioteca. Daí a alusão que a literatura sobre internet não se cansa de fazer á lendária biblioteca borgiana, a biblioteca de babel, composta de infinitas galerias hexagonais” (p.95).

Curiosidade eletrônica pré-internet, que prepara para uma constatação atual: a não-linearidade das mídias já está encarnada na própria maneira de viver: “A MTV desafiou nossa capacidade sensória com imagens vívidas, cortes rápidos e sons eletrônicos intensos, preparando nossa sensibilidade para o mundo digital em devir. Antes da MTV, pensava-se que ninguém seria capaz de fazer sentido de um corte menor do que dois segundos. Hoje, os vídeos usam regularmente cortes de um terço ou um quarto de segundo” (p.97).

Sobre a cibercultura, Santaella aponta como características ser “descentralizada, reticulada, baseadas em módulos autônomos“, tendo como fonte fundamental o microprocessador e ser não limitada ao desktop – aliás, desktop esse ainda caracterizado de forma rudimentar, grosseira, que passará por evoluções constantes e ininterruptas.

Por fim, depois de discutir a inteligência coletiva e a TV digital, o capítulo fecha coma discussão sobre uma possível “era pós-midiática”, onde, dentre outras coisas, o acasalamento da informática com a televisão e as telecomunicações vão possibilitar sistemas híbridos em coevolução acelerada.






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Teatro em Conexão

Semana passada houve o ciclo  de debates/oficina Teatro em Conexão, oferecido pelo Teatro para Alguém na Oficina Oswald de Andrade, no Bom Retiro, em São Paulo. Copio abaixo o release de divulgação do evento e colo o folder para ficar guardardo como registro:

Os debates têm por objetivo aprofundar a discussão já iniciada internamente (veja nosso debate sobre Cultura Digital), e abri-la cada vez mais para a participação de todos os públicos. Dessa forma iniciamos com um exemplo do que temos feito ao longo destes 2 anos, transmitindo ao vivo um ensaio aberto de Édipo, dirigido por Elias Andreato. O público poderá ver em ação uma grande encenação e e conversar com os seus membros e com o TPA, presencialmente ou via internet.

No dia seguinte, 16/02/2011 diversos artistas que trabalham com Arte e tecnologia trarão suas experiências e comentarão sobre as mudanças geradas pelo surgimento do digital, das redes e da Internet em cada um de seus ramos artísticos. Estão confirmados o músico Skowa, a artista multimídia Rachel Rosalen, o visionário e pensador de Cultura Digital Cláudio Prado e o curador do festival artCena Fábio Ferreira.

A seguir faremos um ensaio aberto de nosso próximo espetáculo, Vozes Urbanas, com presença do autor Sérgio Roveri, vencedor do Prêmio Shell 2006 e de Lourenço Mutarelli, além de toda a equipe do TPA.

Por fim, traremos a discussão especificamente para o Teatro, com a presença de Antônio Araújo, diretor do Teatro da Vertigem, José Fernando de Azevedo, diretor do Teatro de Narradores e de Marcelo Lazaratto, diretor da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico. Exploraremos temas como Internet Colaborativa e Teatro Colaborativo, a comparação entre experiências em espaços não-convencionais e o não-espaço (Internet), entre outros.

Foram quatro dias de uma programação intensa. Muitas conversas nas mesas de debate e nos bastidores. Para minha pesquisa, especialmente os dois últimos dias foram importantes. O primeiro por apresentar o experimento “Vozes Urbanas”, uma “peça” que assistíamos ora num telão – quando a cena era passada fora de nosso campo de visão – ora ao vivo, quando a ação ocorria na nossa frente. Essa confusão de realidades, ora teatro ora cinema ora sei lá mais o quê, provocou muitas ideias malucas na minha cabeça. Por mais que já havia estudado casos diferentes, ver ao vivo um experimento acontecer na tua frente é sempre interessante.

Já o segundo dia valeu muito por ser uma mesa de pessoas das artes cênicas, diretores/professores/teóricos que contribuíram para a discussão cultura digital por uma perspectiva do teatro. Essa visão do teatro enxergando o que o TPA faz e o que chamamos provisoriamente aqui de “teatralidade digital” trouxe mais ideias na cabeça de todo mundo e provocou discussões acaloradas e produtivas.

As principais provavelmente giraram em torno do porquê de vincular o que o TPA faz com a o teatro, já que, na opinião de alguns da mesa, seria até mais fácil desvincular o fazer da arte teatral para fins de experimentação mesmo, e na constituição de uma linguagem para esse tipo de coisa que aqui chamamos de “teatralidade digital”. Mais do que dar um nome para o que se faz, é importante criar uma linguageum suficientemente forte para que essa “coisa” se estabeleça e aí, quem sabe, surja um nome e ninguém mais questione – como acontece em áreas hoje consolidades que começaram assim, como a videodança e a perfomance.

Um agradecimento especial à parceria de todo o TPA (Renata, Kao, Lucas, Bianca, Márcio), que me receberam muito bem e me deixaram à vontade para circular durante o evento, e ao meu xará e também oriundo de Santa Maria Leonardo Roat, ator/diretor/pesquisador do mesmo assunto que eu no mestrado em Ciências da Linguagem da Unisul, em Floripa. Muito mais avançado na pesquisa que eu, Roat me colocou tantas perguntas enquanto conversávamos na oficina que, confesso, me deixou atordoado – e ainda mais motivado para ir fundo num assunto que, desde sempre, é instigante.

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Teoria Digital (1): Renato Cohen e o “pós-teatro”

Começo aqui o clipping – ou melhor, fichamento – de alguns textos teóricos que ando lendo sobre o assunto em questão. Por conta de ter mais leituras sobre comunicação e cultura digital do que propriamente de teatro, é por este flanco que adentro no assunto, esperando que, da cultura digital, chegue aos poucos no teatro/teatralidade digital, e a partir daí regresse ao estudo da história do teatro. Assim visualizo hoje a questão, mas nada impede que isso mude amanhã e depois.

O primeiro texto que ficho aqui é de Renato Cohen e está em “Teoria Digital – 10 anos do File” (comprei por R$30 na bendita Feira de Livros da USP; no site tá estrondosos R$80) compilação de textos publicados nestes 10 anos do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, que acontece anualmente em São Paulo. Renato (1956-2003) foi um dos grandes artistas multimídia a falar (e fazer) perfomance no Brasil, especialmente usando as novas mídias. Esse texto do livro foi publicado pelo FILE em 2004.

O texto faz um balanço rápido e bem teórico sobre conceitos como “pós-teatro” e “pós-drama” e relaciona brevemente questões como a relativização da presença tendo por foco a perfomance – aqui, apresentado relacionadoo ao teatro. Como de costume, negrito alguns trechos que achei importante e comento quando consigo.

Fonte: PÓS-TEATRO: PERFOMANCE, TECNOLOGIAS E NOVAS ARENAS DE REPRESENTAÇÃO. (p. 327-333). IN: Teoria Digital – 10 anos do File. São Paulo; Imprensa Oficial, 2010.

“ A criação de nova arenas da representação com a entrada onipresente do duplo virtual das redes telamáticas (web-internet) amplifica o espectro da perfomance e da investigação cênica com novas circuitações, navegações de presenças e consciências na rede e criação de interescrituras de textos. Com uma imersão em novos paradigmas de simulação e conectividade, em detrimento da representação, a nova cena das redes, dos lofts, dos espaços conectados desconstrói os axiomas da linguagem teatro: atuante, texto, púbico – ao vivo, num único espaço, instaurando o campo do pós-teatro”. (p. 328)

O trecho em negrito é deveras esclarecedor: o paradigma da simulação e da conectividade (através de mecanismos mediados pela rede) emerge como mais forte que o da representação, o que, por sua vez, tem como consequência a descontrução dos axiomas – elementos essenciais, digamos – que constitui o teatro: atuação, o texto e o público. Estes novos paradigmas estariam desconstruindo a NECESSIDADE daquilo que caracteriza a linguagem do teatro: ator, texto, público. Esta desconstrução, por sua vez, determina a criação do campo do “pós-teatro”, que seria esse, digamos, “novo” teatro que surge do enfraquecimento do poder da representação em prol da simulação e da conectividade.

“A cena pós-teatral é a cena ampliada (..), uma cena que altera as noções de presença, corpo, espaço, tempo, textualidade, pela inserção da simultaneidade, da velocidade e que, ao mesmo tempo, é plena de dramaticidade ao figurar o acontecimento em escala social e subjetiva”. (p. 328)

Mais comentários sobre o que Cohen chama de Pós-teatro. Buscar entender o conceito de PÓS-TEATRO, proposto por Rosalind Krauss (Escultura em Campo Ampliado).

“A contaminação do teatro pelas artes visuais, cinéticas e eletrônicas dá um novo salto com a emergência das redes telamáticas que permeiam uma comunicação em tempo real e uma extensão do corpo e da presença, que é eminentemente performatizada”. (p. 329)

É interessante buscar entender essa hibridização da arte. Pegar como isso se concretiza, um balanço histórico, porque ao que parece a “teatralidade digital” tem muito do que se convenciona chamar de perfomance e toma emprestado conceitos radicais e herméticos das artes visuais/digitais. É difícil fazer uma separação do que seria teatro e o que seria perfomance; talvez deva buscar um conceito de cada um e, então, separá-las. Não sei se isso poderá ajudar a entender estes processos, porque, ao que parece, a hibrizidação é um caminho sem volta, de maneira que tentar “dividir” os conceitos para entendê-los separadamente não sei se é a melhor ideia.

Essa extensão do espaço cênico no espaço virtual não pressupõe, a nosso ver, uma ‘desrealização’ das formas e presenças, e sim uma recoonfiguração da cena e da comunicação à luz dos novos suportes e materializações da arte-ciência contemporânea.” (p.329)

Interessante observação, que na teoria é melhor compreensível que na prática. A teatralidade digital seria encarada como uma reconfiguração do teatro como a gente o conhece à luz dos novos suportes tecnológicos/digitais – ou, em escala mais ampla, à luz da cultura digital. Mas, na prática, como se dá essa reconfiguração? Através do hibridismo com outras artes, como as visuais, o cinema, a música? Perguntas sem respostas, claro. Vale entender também que o fato de se abrir um novo flanco com a teatralidade digital não significa que o teatro “tradicional” morreu; não se pode cometer o erro de alguns de matar aquilo que já existe em prol do novo. O cinema não matou a fotografia, o rádio não matou as apresentação ao vivo de música, a televisão não matou o rádio e nem a internet vai matar a TV nem o rádio nem o impresso; todos convivem juntos, no máximo mudam algumas características, no que é uma das principais características do mundo que a gente vive hoje: a convivência de MUITAS coisas e mídias diferentes, cada um buscando seu lugar no mundo.

“Esse projeto de desrealização da cena é, na verdade, uma ataque à cena naturalista e tem sua gênese no século XX, com o projeto de um teatro não-mimético - na cena biomecânica de Meierhold, na rota das sur-marionetes de Gordon Craig, nas utopias futuristas de Khlébnikov, Shlemmer e El Lissitski”. (p.329)

“São fundadores dessa gênese (uma nova “poiesis” anti-realista) o formalismo futurista, o sonorismo dadá, o fluxo automático dos surrealistas, e, finalmente, as experimentações com a body-at, o conceitualismo e o minimalismo que vão compor as matrizes da cena contemporânea”. (…)

Uma cena pré-virtual desenha-se nos experimentos de arte-perfomance em inúmeras intervenções com tecnologia, juntando corpo, narrativa e pesquisa de suportes: dos experimentos sonoros de John Cage à dança autogerativa e numérica de Merce Cuningham; dos experimentos da fax art, net art realizados pelos Fluxus às video-perfomances de Nan June Paik; do vocoder e da digitalidade de Laurie Anderson às paisagens tecnológicas de Stefen Haloway.

Esta cena produz uma nova teatralidade polifônica e polissêmica que é desenvolvida também em espetáculos multimídia, como as óperas ‘Life & Times of Joseph Stálin (1973)’ e Einstein on the beach (1975), do encenador Robert Wilson, (…) numa cena de intensidades em que os vários procedimentos criativos trafegam sem a hierarquia clássica texto-ator-narrativa. (328-329-330)

Importante entender que o “novo” não é tão novo assim. Se hoje Cohen fala de um”pós-teatro”, onde os paradigmas da conectividade e da simulação tomam parte da tradicional predominância da representação, cabe entender que isso não aconteceu simplesmente com a internet; já vinha sendo “ensaiado” uma alteração da representação como eixo central das artes cênicas em outras eras, especialmente nos movimentos vanguardistas do início e meio do século XX.

As referências citadas por Cohen são todos movimentos que, de alguma forma, contribuíram para a queda do realismo, que, por sua vez, se encontra na teatralidade digital, onde há talvez mais SIMULAÇÃO do que REALIDADE. Mas o que seria essa cena pré-virtual? Não basta dizer que ela é apenas “não realista”… Essa teatralidade digital estaria ligada, então, ao uso de diversos procedimentos criativos sem a necessidade de utilizar a hierarquia clássica texto-ator-narrativa do teatro? Bastaria subverter o uso do texto, dos atores e da narrativa tradicional para ser caracterizado como uma nova teatralidade, “pós-teatro”? Questões e mais questões a ficar.
“Essa nova cena está ancorada em alternâncias de fluxos sêmicos e de suportes, instalando o hipersigno teatral da mutação, da desterritorialização, da pulsação do híbrido. O contemporâneo contempla o múltiplo, a fusão, a diluição dos gêneros: trágico, lírico, épico, dramático” (331-332)

Seria então o teatro contemporâneo caracterizado como um “pós-tudo”, onde vale misturar tudo e todos? Não seria simplista demais essa colocação, porque acaba por não definir nem explicar nada – mas também não seria essa a intenção mesmo, não explicar nada?

Para didadtizar a coisa, vou fazer um levantamento das questões propostas nesse texto e nos meus comentários:

1) Perfomance X Teatro? Quais as diferenças? Há necessidade de se diferenciar ambos para entend~e-los? faz sentido dividir para entender hoje?

2) A teatralidade digital estaria NECESSARIAMENTE ligada ao uso de diversos procedimentos criativos sem a necessidade de utilizar a hierarquia clássica texto-ator-narrativa do teatro? Bastaria subverter o uso do texto, dos atores e da narrativa tradicional para ser caracterizado como uma nova teatralidade, “pós-teatro”?

3) O teatro contemporâneo seria caracterizado como um “pós-tudo”, onde vale misturar tudo e todos? E a teatralidade digital estaria ligada NECESSARIAMENTE ao advento dos paradigmas da conectividade e da simulação em prol da representação, tradicionalmente caracterizadora do fazer teatral?

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Ps: Outro texto sobre Cohen e sua obra que deverá pintar por aqui em breve é esse aqui – http://www.overmundo.com.br/overblog/renato-cohen-e-a-criacao-cenica-em-processo.

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Textos jornalísticos sobre teatralidade digital (4)

O texto da vez é uma matéria/crítica publicada no Estadão, a cargo da crítica/pesquisadora Beth Néspoli. Nos primeiros parágrafos fala da experiência do Fluídos, um longa-metragem exibido e criado em tempo real, para mais ao fim falar mais sobre o caso do Teatro para Alguém.

TEATRO? CINEMA? OU…

Fonte: Estadão – http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090502/not_imp364285,0.php (2/05/2009)

O mistério do teatro reside numa aparente contradição. Como uma vela, consome a si mesmo no próprio ato de criar luz. Assim a historiadora Margot Berthold definiu um dos aspectos fundadores da arte teatral, sua criação em tempo real diante do espectador. Só as chamadas artes cênicas têm tal característica? Bem… não mais.

Quem se sentar diante da tela na sala de cinema do Centro Cultural São Paulo, nos dias 16, 24 e 30 de maio para ver o longa Fluidos verá uma obra sendo criada e exibida em tempo real e aberta ao imponderável como no palco. Isso porque os atores estarão no lado de fora do cinema, em três diferentes locações, interpretando cenas, como no teatro, cuidadosamente ensaiadas. As imagens serão captadas “on line” e em plano sequência, ou seja, sem cortes ou edições, e transmitidas ao vivo para dentro da sala de cinema.

Os percalços de ordem emocional a que todo ator está sujeito se ampliam nesse filme pelo fato do elenco atuar em espaços públicos, sujeitos a interferências de desavisados, como já ocorreu nos ensaios. Com tantas características teatrais essa arte ainda pode ser chamada de cinema? “Eu acho que sim, porque a recepção está mediada por tela e as interpretações são naturalistas, criadas para a câmera e não para o público involuntário. As pessoas presentes no set são figurantes desavisados ou, caso interfiram, atores”, argumenta o diretor dessa proeza cinematográfica, Alexandre Carvalho. Na quarta à noite, o Estado acompanhou um ensaio no bar do Centro Cultural São Paulo desse longa que tem seis atores no elenco e orçamento de R$ 50 mil ganhos em edital municipal.

No dia anterior fora a vez da reportagem do Estado ir até a casa da diretora Renata Jesion, conhecer “ao vivo” o palco de seu “Teatro pela internet”. Curiosamente, ela faz questão de definir como teatral a arte que cria na sala de sua casa diante de uma câmera, ainda que suas produções cheguem ao público mediadas pela tela do computador. Basta escolher o que ver num cômodo da “casa virtual” que se abre diante dos olhos no site www.teatroparaalguem.com.br.

[Percebe-se, ou eu estou viajando, uma ironia fina com o "curiosamente" Renata faz questão definir sua arte como teatral?]

Peça feita para a exibição na rede é ainda assim teatro? “Sim porque a interpretação é teatral, não usamos locações, a peça inteira é filmada na sala-palco, em plano sequência, sem cortes, e a primeira exibição é feita em tempo real, na casa, na presença de um público convidado“, diz Renata Jesion.

[A eterna pergunta que não quer calar aqui novamente. As justificativas de Renata são basicamente as mesmas das matérias anteriores. É de notar o quanto as pessoas precisam "enquadrar" o que faz o TPA para poderem entender a ação, em vez de apenas ver o que acontece e não buscar rótulos pra tudo. É o típo de hábito que, ao que parece, costuma acontecer normalmente enquanto uma prática artística diferente se estabelece - ou se constitui, melhor dizendo.]

Por fim, o que Renata e Carvalho produzem é outra arte, híbrido de teatro e cinema? Não seriam os únicos. A Cia Phila 7, por exemplo, já criou espetáculos na interação virtual entre intérpretes de diferentes continentes. Porém Renata e Carvalho não definem o que fazem como “arte multimídia” e sim como experimentação em teatro, no caso dela; em cinema, no dele. Por que? A explicação talvez resida no desejo e na formação de ambos.

[Arte multimídia entraria aqui como um suposto "guarda-chuva" para enquadrar tudo aquilo que não se encaixa no que habitualmente entendemos como teatro ou cinema. Mais uma vez revela-se a necessidade de rótulos, que, de alguma forma, é explicado pelo hábito natural das pessoas de compreenderem o mundo através de comparações, especialmente à coisas que já conhecem.]

Antunes Filho é o mestre de Renata Jesion, que integrou o Centro de Pesquisa Teatral (CPT-Sesc) de 1992 a 1997, participando de peças como Trono de Sangue e Vereda da Salvação. Inspirada na vida de seu pai, escreveu 123.023 J, alusão aos números tatuados em prisioneiros de campos de concentração. Dirigida por Ariela Goldman, essa montagem circulou muito e está no repertório de seu teatro virtual. Já Alexandre Carvalho é cineasta formado pela USP e dirigiu os curta-metragens Portas da Cidade e Vila Prudente.

Renata deseja ter um patrocinador para o seu teatro virtual e assim poder fazer mais apresentações ao vivo, com público, em tempo real. Já Carvalho quer seguir experimentando em cinema, seja ao vivo, seja “na lata”. Fazem o que cabe aos artistas: ousar experimentos. Ao público, importa se o que fazem oferece boa fruição. É conferir.

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