Aparelho de superar ausências

O Phila7 – grupo liderado por Rubens Velloso e um dos pioneiros no trabalho com digital no país – está promovendo um seminário bastante interessante em São Paulo chamado “Aparelho de Superar Ausências“ .

O objetivo das atividades é trabalhar as relações entre a cena teatral com as novas tecnologias e discutir sobre como incorporar no teatro as novas formas midiáticas que vêm transformando a condição humana.

A programação está dividida em dois momentos: nos meses de março e abril acontece os seminários e no final de abril e começo de maio os workshops.

O primeiro ciclo de debates, “A Noção do espaço no contemporâneo”, começou ontem e vai até 7 de março. Só tem gente boa: segunda 4/3 Giselle Beiguelman, terça 5/3 Fernando Iazetta, quinta 7/3 Laymert Garcia dos Santos – e na quarta 6/3 eu, honrado de estar no meio de gente que muito admiro, a falar sobre o Efêmero Revisitado e a relação teatro e cultura digital.

A ideia é fazer uma grande roda de debates com os 10 selecionados pra oficina, o pessoal do Phila7 e outros convidados. Minha fala vai tentar centrar em dois aspectos: a presença e a imersão.

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Na primeira parte, vou falar um pouco dos “regimes” de presença (virtual, física, mental) e do quanto ela “não é fruto apenas da percepção, mas do desejo de ver”, como diz o alemão Hans-Thies Lehman, teórico do pós-dramático. A partir daí, nesta parte quero ainda trazer a fala de Renato Ferracini presente no livro, em que ele trata da presença como uma relação de jogo; se você cria uma relação num espaço de jogo com o público, não importa se é vídeo, on ou offline. Nesse sentido, como conclui o ator, diretor e professor da Unicamp, “qualquer outra linguagem que advenha de uma relação tecnológica tem que, assim como o ator, se diluir e propor o jogo, não impor”.

O desafio dos grupos e cias. de hoje é proporcionar que esta tecnologia entre e proponha o jogo de modo convincente com os atores/espectadores, algo que tentarei mostrar como se dá através dos exemplos usados no livro – o Teatro para Alguém, Teatro Oficina, o próprio Phila7 – e outros que surgiram depois da publicação, casos dos espetáculos de Márcio Meirelles no Teatro Vila Velha (especialmente “O Olho de Deus“), Kollwisztrasse52, de Esmir Filho, e Julia, de Christiane Jatahy.

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No segundo momento, vou entrar na ideia de imersão, desde sempre presente no teatro, e relacionar com os jogos digitais. Como diz a pesquisadora Janet Murray em Hamlet no Holodeck:

À medida que o mundo virtual ganhar uma expressividade crescente, nós nos acostumaremos lentamente a viver num ambiente imaginário que, por enquanto, achamos assustadoramente real. Então, não estaremos mais interessados em saber se os personagens com quem interagimos são atores roteirizados, companheiros de improvisação ou chatterbots computadorizados, nem continuaremos a refletir sobre se o lugar que ocupamos existe como uma fotografia de um cenário teatral ou como um gráfico gerado por computador, ou se ele chega até nós através de ondas de rádio ou por fios telefônicos. A essa altura, quando o próprio meio dissolver-se em transparência, estaremos perdidos no faz-de-conta e interessados apenas na história. Não vamos nos dar conta disso quando acontecer, masnaquele momento – ainda que sem os sintetizadores de matéria – nós nos sentiremos à vontade no holodeck

A questão que se propõe, então, é se não seria uma realidade próxima imaginar que um espectador vá ao teatro e lá, em vez de se sentar em sua poltrona à espera da peça, seja convidado a interpretar um dos personagens da montagem num poderoso simulador 3D, onde o “avatar” a ser assumido já foi treinado durante meses para realizar aquela função e está com todo o espetáculo “decorado”, bastando ao usuário/espectador apenas colocar suas idiossincrasias no “jogo” que se dará a partir da narrativa da peça? Seria isso ainda teatro ou um jogo?

Pra além das definições, o fato é que a evolução crescente da tecnologia digital estará em breve a tornar esse tipo de peça realidade -se já não é em alguns lugares e ainda não sabemos. Numa sociedade afeita a colaboração como a de hoje, não à toa vivemos quase o que alguns chamam de “gamificação” da vida. Vivemos em uma época de pessoas multitarefa, que leem um artigo como este e na mesma velocidade os escrevem e se esquecem de que um dia fizeram tudo isso. Como envolver um público com esse perfil e conseguir extrair o precioso minuto de sua atenção? Transformar em jogos uma ação corriqueira é uma das melhores opções. Seria o tipo de interação proporcionada pelos games desejável também no teatro?

A ideia é trazer como exemplo o “teatro-game” Incubadora, dirigido por Ivan Andrade, espetáculo que faz os espectadores interferirem (ou brincarem) com os três personagens através de celulares conectados a uma rede interna.

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Ao final, esse esboço quer se tornar um ensaio, a também ser publicado aqui. Torcemos e aguardemos.

L.

P.s: O evento vai ser transmitido em streaming aqui.

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Quando o efêmero encontra o digital – Revista Continuum

Produzi uma matéria sobre teatro digital para a Revista Continuum nº38, do Itau Cultural (que pode ser baixada aqui), de agosto/setembro.

Segue ela na íntegra, que pode ser acessada também no site da revista.

Quando o efêmero encontra o digital

Seja como espectadores, seja como atores, aprendemos desde sempre que o teatro é olho no olho, é a presença física de uma plateia assistindo ao vivo ao jogo entre atores de carne e osso. Essa natureza efêmera do teatro, que dura quanto cada espetáculo deixar, sempre foi tida como impossível de reproduzir – e é o que vinha poupando a cena teatral dos ventos digitais que há tempos  varreram discos, fotografias e filmes e os tornaram disponíveis a cliques de mouse diante de uma tela de computador. De alguns anos para cá, porém, os ventos se tornaram furacão e finalmente atingiram o teatro. Com a internet, estar em algum lugar deixou de ser uma condição real, física. Os corpos se digitalizaram e, com eles, as artes cênicas.
Ainda não são muitos pelo Brasil, nem pelo mundo, mas já existem grupos cênicos que pesquisam as possibilidades binárias da relação da cultura digital com o teatro. Hoje, as principais experi-ências usam transmissões ao vivo pela web com o intuito de ligar palcos e plateias em diferentes lugares. Mas junte projeção de vídeos, performances, iluminação e as artes visuais com streaming de vídeo, tecnologia 3D, holografias, videomapping, celulares e presenças on e o!-line e teremos possibilidades cada vez maiores de experimenta-ções criativas para um futuro próximo.

Uma das experiências brasileiras na área é da companhia Phila7, de São Paulo. Em 2006, com seu segundo espetáculo, Play on Earth, o grupo tornou-se pioneiro no uso da internet para cria-ção e apresentação de uma peça teatral que uniu três elencos em três continentes ao mesmo tempo: Phila7 em São Paulo, Station House Opera em Newcastle, Inglaterra, e Cia Theatreworks em Cingapura. Em 2008 surgiu a continuação de Play on Earth, a peça What’s Wrong with the World?, espetáculo ao vivo entre Rio de Janeiro e Londres que contava com quatro telões e cinco possibilidades de imagens. As mesmas cenas eram apresentadas nas duas cidades, com transmissão simultânea via streaming em inglês e português, com três atores em cada cidade interagindo entre si e também via internet, por telas digitais.

TEATRO PELA INTERNET

Outro grupo brasileiro que se destaca na mistura de teatro e tecnologia digital é o Teatro para Alguém. Criado em dezembro de 2008 pelo casal Renata Jesion – atriz formada pelo Centro de Pesquisa Teatral (CPT-Sesc) – e Nelson Kao – cenógrafo, iluminador e diretor de fotografia –, o grupo consolidou um formato específico. Encenadas numa sala adaptada para teatro na casa dos criadores, as peças são curtas – inicialmente de até 10 minutos, mas que depois se estenderam para 30 minutos – e gravadas por uma câmera que “joga” com os atores e transmite ao vivo, de graça, via streaming pelo site teatroparaalguem.com.br.

Nesse formato, o grupo realizou mais de 50 espetáculos, entre parcerias e produções próprias. Em 2009, seu ano mais profícuo, montou 13 pe-ças. Além disso, fez apresentações em outros formatos, como a antinovela Corpo Estranho, do escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli, um seriado em episódios curtos que teve duas temporadas gravadas (2009 e 2010) para a exibição no site, sem transmissão ao vivo. A produção constante e inovadora valeu ao Teatro para Alguém destaque na mídia nacional e uma indicação ao Prêmio Shell de 2010 na categoria Especial pela iniciativa de criação cênica via internet.

De 2011 para cá, o grupo diminuiu o ritmo de produção e passou a diversificar suas atividades. Começou, por exemplo, a gravar e transmitir também os ensaios de algumas de suas webpeças. E, em 30 de junho deste ano, partiu para outros campos e inaugurou um novo projeto: a TPA, rede social de artistas em que cada profissional pode criar sua página, montar seu portfólio e se relacionar com outros “trabalhadores” das artes.

O projeto Vila Digital, ligado ao teatro Vila Velha, de Salvador, é um dos que mais recentemente tentaram buscar uma ligação entre o efêmero do teatro e os bits do digital. Encabeçado por Márcio Meirelles, ex-secretário de Cultura da Bahia e atual diretor do Vila, o projeto busca construir um núcleo de tecnologia que viabilize a criação de cenários e instalações digitais/interativas. A primeira experiência se deu com O Olho de Deus – o Avesso dos Retalhos, que encerrou temporada no final de junho deste ano.

O espetáculo se passava em dois lugares do teatro Vila Velha ao mesmo tempo, no Palco Principal e no do Cabaré dos Novos, interligados através de projeções audiovisuais, transmissões simultâneas de voz, imagens e trilha sonora. Ainda em junho, houve a transmissão ao vivo pela internet diretamente do blog da peça [oavessodosretalhos.blogspot.com.br]. O espectador, tanto ao vivo quanto pela rede, podia escolher de onde queria assistir à ação da peça, uma crônica da decadente aristocracia baiana conduzida por duas senhoras muito religiosas que vivem numa dimensão “fantástica” do mundo.

MÚLTIPLOS TEATROS

Duas das principais conversas que ouvi durante a produção de Efêmero Revisitado: Conversas sobre Teatro e Cultura Digital (selo BaixaCultura) – livro que produzi em 2011 sobre o assunto por meio da bolsa Funarte para Reflexão Crítica em Mídias Digitais – foram especulações sobre a “morte” das peças tradicionais e a ironia típica dos puristas: “Isso não é teatro”. De fato, não é “só teatro”, e nenhum dos envolvidos nessas experiências sustenta o contrário – embora se mantenha a tríade atores, público e mensagem que define teoricamente essa arte.

Renata Jesion, do Teatro para Alguém, fala de “outro teatro, uma bifurcação que está acontecendo agora, no século XXI, que te dá outra possibilidade”. Rodolfo Araújo, jornalista, pesquisador e autor da dissertação de mestrado pela PUC/SP Panorama da Teatralidade Remidiada, diz que “estamos falando de algo que não é mais teatro, mas que tem na essência uma teatralidade expandida”. Rubens Velloso, diretor da companhia Phila7, endossa o coro de Araújo: “Eu não quero nomear de teatro nem de digital, porque, quando você fala em teatro digital, nomeia duas coisas que já têm carimbo na sociedade. Mas certamente o teatro está no que a Phila7 faz”, diz.

Quanto à questão sobre a “morte” das peças tradicionais, parece não haver mais crise. As inven-ções de hoje não acabam com as tecnologias e práticas já existentes, mas convivem com elas. Declarou-se o fim do concerto musical ao vivo com a criação do fonógrafo, na segunda metade do século XIX, assim como da pintura com a fotografia, do teatro com a criação do cinema, do cinema com o alvorecer da televisão, e assim por diante. Ante a sobrevivência de todas as artes declaradas mortas tempos atrás, não é difícil prever que também o teatro tradicional não acabará. É mais provável que estejamos vendo o nascimento de múltiplos teatros – midiáticos, digitais, virtuais, computacionais, abertos, flexíveis, remixá-veis. Melhor para o público.

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Efêmero Revisitado no RS

Eis que depois de alguns meses de molho, o “Efêmero Revisitado” volta a circular por estas bandas.

Desta vez, é por conta do lançamento do livro no Rio Grande do Sul. A primeira parada foi 9/5, novamente em Santa Maria, mas desta vez na Feira do Livro 2012, na praça Saldanha Marinho, em pleno coração do coração do Rio Grande.

Às 19h30, fiz algumas “conversas sobre teatro e cultura digital” no espaço Livro Livre, em bate papo com André Galarça, ator formado pela UFSM e integrante do Teatro Por que Não?, de Santa Maria (na foto acima). Muita gente talvez tenha se erguntado “mas denovo?”, porque houve um lançamento no início de 2012 em Santa Maria, no SESC local (como pode-se ver na foto abaixo).

Apesar do bom público e da boa impressão (pelo menos pra mim) do evento de janeiro, o contexto foi outro (a feira do livro), o lugar, diferente (na praça central da cidade), e a conversa variou um tanto: foi de “futuro do jornalismo” a “o que mudou na sua vida depois de escrever um livro”.

Tentei responder a todas as questões; fiquei feliz só delas existirem em mais de 10, algo raro quando se trata de assuntos desconhecidos de muita gente (como ainda é o teatro digital). Pelas minhas contagens, devem ter visto a conversa umas 60 pessoas, entre os talvez 40 sentados e outros tantos que passavam pela praça, sentavam um pouco, e seguiam seu rumo. Um salve a Feira do Livro de Santa Maria e a produtora OPSs! pelo convite e recepção. [Dei uma entrevista rápida a Rádio Itapema local, comandada pelo camarada Márcio Grings; assim que descolar o áudio reproduzo aqui].

Transmissão da Pós-TV/Lançamento do Efêmero em Porto Alegre

No dia seguinte, 10/5, quinta-feira, houve lançamento do livro em Porto Alegre, na Palavraria, no Bom Fim (Vasco da Gama, 165). Lá rolou também uma conversa sobre teatralidade digital que transmitida no #Tubodeensaio, programa da Pós-TV, webtv ligada ao Circuito Fora do Eixo. Eu e Cláudia Schulz, gestora do Palco Fora do Eixo, conversamos por Skype com Márcio Meirelles, diretor do Teatro Vila Velha de Salvador-BA, e Leonardo Roat, doutorando em Ciências da Linguagem da Unisul, de Florianópolis-SC – e também um dos entrevistados do “Efêmero”.

Apesar de alguns problemas técnicos (os dois skypes marcados para o momento deram pau diversas vezes, o que é normal nestes casos), a conversa foi bem produtiva; podemos fazer uma ponte legal com Márcio Meirelles, lá de Salvador, e com Leonardo Roat, de Florianópolis, além de Cláudia Schulz, que mediou a conversa. Márcio, diretor experiente no teatro “tradicional” e ex-secretário da cultura da Bahia, comentou um pouco sobre  ”O Olho de Deus  - O Avesso dos Retalhos“, peça que está estreando neste mês e que dialoga forte com a tecnologia digital ao ser encenada em dois ambientes ao mesmo tempo, um projetado no outro - e que tem como diretor de tecnologia o VJ Pixel, parceiro da Casa da Cultura Digital e diretor do MemeLab.

Os vídeos do programa (Tubo de Ensaio) podem ser assistidos aqui. Agradeço ao pessoal da Casa Fora do Eixo POA que ajudou a produzir todo o evento – inclusive o coquetel que rolou após a conversa – e aos amigos e interessados que apareceram na noite agradável de quinta 10/5 em Porto Alegre.

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Efêmero Revisitado para download

Depois do lançamento no Festival CulturaDigital.br, em dezembro, no Rio de Janeiro, e no Sesc Santa Maria, em janeiro de 2012, aqui está “Efêmero Revisitado: Conversas sobre teatro e cultura digital” na íntegra, pra download e visualização on-line.

Colocamos o livro no Scribd, no Issuu – aquela site/ferramenta muito usado para visualizar revistas online – e em PDF, pra download simples, no RapidShare.

Para obter a versão impressa do livro, escreva para baixacultura@gmail.com; sai R$15, com frete incluso.

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Saiu o livro!

Caros,

Depois desse blog estar muto relapso, finalmente uma atualização: está pronto o livro para qual este blog nasceu.

O nome dele é “Efêmero Revisitado: Conversas sobre teatro e cultura digital“, tem 192 páginas e em breve será distribuído para professores, universidades, grupos, companhias e escolas de teatro, bem como outros interessados na complexa relação entre o teatro e a cultura digital – se você é um deles, escreva para baixacultura@gmail.com que a gente conversa.

Será lançado oficialmente neste próximo sábado, 3 de dezembro, às 18h30, no Festival CulturaDigital.br, no Rio de Janeiro, dentro da programação do espaço Visualidades, logo após a apresentação de Lucas Pretti, do Teatro para Alguém. Cariocas e outros que estejam pelo Rio neste dia e hora, apareçam!

Após o lançamento, ele também estará disponível aqui nesta página para download nos mais variados formatos, bem como para navegação na página “Livro” aqui acima.

Por enquanto, dê uma olhadinha no aperitivo do livro que preparamos, com a apresentação, prefácio sumário e primeiro capítulo.

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contracapa

O livro – primeiro projeto de Selo do BaixaCultura, página que edito e que trata de cultura livre e (contra) cultura digital – está divido em duas partes: Contextos e Experimentos & Reflexões.

Em Contextos, estão dois capítulos: o primeiro chamado “Teatro e tecnologia, uma longa história“, uma tentativa de ampliar o contexto de certos momentos da relação entre teatro e tecnologia na história que vai desde o surgimento do mecanismo do deus ex machina na Grécia Antiga até o happening e a performance, passando pela uso da luz elétrica por Adolphe AppiaGordon Craig, a Gesamtkunstwerk (obra de arte total) de Wagner e pelas vanguardas históricas do inicio do século XX.

O segundo, ”Mídias e cultura digital no teatro“, traz uma visão panorâmica do estado da arte da discussão sobre teatro e as tecnologias digitais. Começa no período pré-internet, com o início do boom do uso de mídias no teatro e dos experimentos que vão resultar no conceito de teatro pós-dramático, de Hans-Thies Lehmann, passa pela discussão sobre o que seria o teatro digital (atores+bits?) a partir do Manifesto Binário, do grupo catalão La Fura Dels Baus, e do conceito da pesquisadora dos Estados Unidos Nadja Masura. E, por fim, fala-se da dificuldade de se categorizar em um mundo híbrido como o de hoje e de um futuro possível para o teatro digital: a aproximação das artes cênicas com a ideia dos jogos eletrônicos/digitais (os populares videogames).

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sumário

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A parte II, Experimentos & Reflexões, traz seis entrevistas e conversas realizadas para a pesquisa. Buscou-se, inicialmente, destacar as opiniões, análises e experiências de dois dos principais grupos que trabalham com teatro e a cultura digital no Brasil: Teatro para Alguém, representados aqui por seus fundadores Renata Jesion e Nelson Kao, e Phila7, através de seu diretor Rubens Velloso.

Na sequência, há a entrevista com o ator e diretor Leonardo Roat, que recentemente defendeu uma dissertação acadêmica sobre o assunto e continua a pesquisa no doutorado em Ciências da Linguagem na Unisul, em Santa Catarina;  com  Tommy Pietra, do Teatro Oficina, grupo que tem uma larga experiência no uso das mídias na cena; Renato Ferracini, do Lume Teatro e professor da pós-graduação em teatro da Unicamp, que embora não se dedique à pesquisa na área, tem sua opinião sobre os meandros da relação entre o teatro e a tecnologia digital como ator, pesquisador, diretor e espectador crítico do que assiste.

Encerra-se esta parte com a conversa com Fabrício Muriana, Maurício Alcântara e Juliene Codognotto, da Bacante, importante centro de crítica teatral na rede, espectadores frequentes dos mais variados espetáculos do país e oriundos de uma experiência de trabalho com teatro e a tecnologia digital na II Trupe de Choque.

Ao final do livro, há ainda um Glossário, com mais detalhes sobre alguns dos inúmeros nomes citados durante o trabalho, além das Referências, dos Agradecimentos e de outros dados indispensáveis para um livro - como a Ficha Catalográfica, o papel em que foi impresso, etc.

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Ficha Técnica

Projeto gráfico: Calixto Bento / www.clxb.com.br
Capa: Montagem sobre fotos de Nelson Kao e Alessandra Fratus
Revisão: Ben-Hur Demeneck, Juliana Bassaco, Marcelo De Franceschi, Leonardo Feltrin Foletto
Transcrição das entrevistas: Leonardo Feltrin Foletto, Giane Lara, Marcelo
De Franceschi.
Edição: Leonardo Feltrin Foletto


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Entrevista (2): Rubens Velloso

A segunda entrevista que publico aqui é com Rubens Velloso, diretor da cia. Phila 7 -uma das pioneiras brasileiras na combinação de linguagens cênicas com audiovisuais e digitais. Rubens faz um trabalho experimental de intersecção de linguagens e me recebeu em sua casa, na Lapa, zona Oeste de São Paulo, no início da noite de segunda-feira, 30 de maio de 2011.

Em sua apresentação no site da Phila 7, consta que Rubens:

atuou e atua nas mais diversas áreas artísticas, do teatro ao cinema, passando pela música e artes-plásticas. Entre suas principais realizações para o teatro encontram-se encenações como O Círculo de Giz Caucasiano, A Alma Boa de Setsuam, Terror e Miséria no III Reich, todas de Bertold Brecht. Explorou as diversas formas do teatro de vanguarda juntamente com o diretor Joe Chaikin, do grupo americano Open Theatre. Em 2000 dirigiu a cantata cênica Carmina Burana, de Karl Orff, e Il Guarani, de Carlos Gomes, ambas no Theatro Municipal de São Paulo. Em 2002, dirigiu o espetáculo El Amor Brujo, no Teatro Glauce Rocha, em Campo Grande. Dirigiu o espetáculo Galileu Galilei de Bertold Brecht em abril de 2005. Convidado pelo produtor Eduardo Bonito, em 2006, dirige no Brasil o espetáculo Play on Earth em parceria com Julian Maynard-Smith (Inglaterra) e Jeffrey Tan (Cingapura). Dirigiu ainda A Verdade Relativa da Coisa em Si, e RODA. Em 2008, dirige o espetáculo What’s Wrong with the World? em parceria com Julian Maynard-Smith (Inglaterra) no Teatro OI Futuro no Rio de Janeiro, o mais recente espetáculo da Cia Phila7.

Fiz também um post com a entrevista com Rubens no BaixaCultura, página em que sou um dos editores. Os áudios da entrevista podem ser ouvidos na íntegra, parte 1 e parte 2.

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Entrevistas (1): Drika Nery

Hoje começo a postar alguma das entrevistas que estão sendo realizadas para a execução da reportagem. A primeira é com Drika Nery, escritora e dramaturga, autora de “Cardápio de Soluções Indigestas“, exibida no Teatro para Alguém dentro do projeto “Os 10 Dramaturgos – 2010″, onde os 10 dos 12 formados pelo Núcleo de Dramaturgia do SESI 2009 escreveram peças inéditas para o site.

Drika é apresentada no site do TPA como “uma ex-futura cineasta paulistana que está poeta em alguns momentos, mas na maior parte do tempo pratica a heresia de escrever pra teatro. Integra o Centro de Dramaturgia Contemporânea (CDC), grupo de dramaturgos, desde 2006. É uma das autoras da peça “Jardim inverso” dirigida por Paulo Faria, que esteve em cartaz em São Paulo entre novembro de 2009 e março de 2010 (Teatro N.Ex.T e Sede Luz do Faroeste). Roteirizou e dirigiu os curtas “Augusta rua” (2005), “Realidade experimental” (2004) e “Réstias” (2003).

A conversa que tivemos foi no café do Espaço Unibanco, na rua Augusta, em 27/05, num fim de tarde/início de noite de uma sexta-feira cinzenta, meio frio meio chuvosa, típica de São Paulo. Desconte os barulhos alheios e as falas atabalhoadas do entrevistador que vos escreve.

Clique no link de cada uma para abrir o áudio em uma nova janela.

Entrevista Drika Nery, parte 1

Entrevista Drika Nery, parte 2

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No processo da escrita

O blog está há algum tempo desatualizado porque este mês de março foi o das entrevistas. Realizei quase 10 entrevistas com o pessoal do TPA e com outras que giram em torno. Em breve falarei um pouco delas e as colocarei no blog, até como uma forma de manter a regularidade aqui. Esse abril que se avizinha será mais de sentar a bunda e escrever do que entrevistar, então é bem possível que ocorra mais atualizações aqui – nem que sejam com textos que mostrem como anda sendo esse meu processo de investigação sobre teatralidade digital a partir do caso teatro para Alguém.

O que já posso adiantar é que não, o livro não será teórico. Meu lugar de fala, como dizem os que estudam semiótica, não é de alguém do teatro, e jamais conseguirei esse lugar no pouco tempo que estou tendo para fazer o estudo. Então será muito mais uma reportagem grande que tentará, a partir do caso do TPA, discutir o status quo da questão do teatro/teatralidade digital do que qualquer outra coisa. No fim, é isso que previ no projeto, um livro-reportagem.

É assim que a coisa tem se encaminhado, pelo menos.

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Santaella e as culturas do pós-humano (1)

Dando sequência ao fichamento/clipping de textos teóricos que ando lendo sobre o(s) assunto(s) em questão, passo a falar de “Cultura e artes do pós-humano“, de Lucia Santaella, uma das principais referêrencias brasileiras quandos e fala de cultura digital, semiótica e arte digital, dentre outros assuntos que ela se debruça sempre com muita lucidez e clareza.

Ainda que o texto de Lucia flua bem, o assunto abordado pelo livro é denso, amplo e complexo, como o próprio título do livro sugere. Neste primeiro post, destacarei alguns trechos que mais “bateram” em mim dos primeiros capítulos do livro.

Fonte: SANTAELLA, Lucia. Cultura e artes do pós-humano.São Paulo; Paulus, 2003.

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Introdução

Santaella fala que os precursores de uma Cultura do “disponível e transitório” foram os walkmans, controles remotos, fotocopiadoras, videocassetes, walktalk, nos anos 80.

“Essas tecnologias, equipamentos e as linguagens criadas para circularem neles têm como principal característica propiciar a escolha e o individualizados, em oposição ao consumo massivo. São esses processos comunicativos que considero como construtivos de uma cultura das mídias. Foram eles que nos arrancaram da inércia da recepção das mensagens impostas de fora e nos treinaram para a busca da informação e do entretenimento que desejamos encontrar”. (p. 15-16)

Na sequência, fala da “nova mídia” e usa uma citação do clássico “A sociedade em Rede”, de Manuel Castells, para sintetizar o perfil dessa nova formação cultural:

(…) A nova mídia determina uma audiência segmentada, diferenciada que, embora maciça em termos de números já não é uma audiência de massas em termos de simultaneidade e uniformidade da mensagem recebida. (…) A audiência visada tende a escolher suas mensagens, assim aprofundando sua segmentação, intensificando o relacionamento individual entre o emissor e o receptor”.

Sobre o computador, a “mídia das mídias”:

A aliança entre computadores e redes fez surgir o primeiro sistema amplamente disseminado que dá ao usuário a oportunidade de criar, distribuir, receber e consumir conteúdo audiovisual em um só equipamento. Uma máquina de calcular que foi forçada a virar máquina de escrever há poucas décadas, agora combina as funções de criação, distribuição e de recepção de uma vasta variedade de outras mídias dentro de uma mesma caixa”.(p.20)

Sobre arte e ousadia, uma boa citação, que concordo inteiramente e diz muito do que se pensa/fala/pesquisa em teatralidade(s) digital:

A arte que cria problemas tem sido para mim um território privilegiado para o exercício da ousadia do pensamento que não teme em abraçar sínteses, fazendo face aos enigmas e desafios do emergencial; um território privilegiado para dar margem à imaginação que ausculta o presente, nele pressentindo o futuro. (p.27)

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Capítulo 2 – Cultura Midiática

Sobre as transformações da cultura no século XX, um belo parágrafo:

“Até meados do século XIX, dois tipos de cultura se delineavam nas sociedades ocidentais: de um lado, a cultura erudita das elites, de outro lado, a cultura popular, produzida no seio das classes dominadas. O advento da cultura de massa a partir da explosão dos meios de reprodução técnico-industriais – jornal, foto, cinema, seguido da onipresença dos meios eletrônicos de difusão, rádio e televisão – produziu um impacto até hoje atordoante naquela tradicional divisão da cultura em erudita, de um lado,  e cultura popular, de outro.  Ao absorver e digerir, dentro de si, essas duas formas de cultura, a cultura de massas tende a resolver a polaridade entre o erudito e o popular, anulando suas fronteiras. Disso resultam cruzamentos culturais em que o tradicional e o moderno, o artesanal e o industrial mesclam-se em tecidos híbridos e voláteis próprios das culturas urbanas”.

A partir daí, Santaella fala da cultura das mídias – termo que ela cunhou em 1992 para designar a então nascente cultura que se distinguia da cultura de massas por principalmente possibilitar a escolha de produtos alternativos – e da cada vez mais mistura que foi se engendrando nas muitas culturas existentes. Disso, ela ressalta que a cultura humana é um continuum, cumulativa no sentido de mudança e transformação, fortalecendo a questão sempre pertinente: não morre uma cultura com o “aparecimento” de outra.  Não morreu o teatro, nem o romance, com o aparecimento do cinema; o livro não desapareceu com a explosão do jornal, nem deverão ambos desaparecer com a internet. Poderão, como já está, mudar de suporte, do papel para a tela eletrônica, assim como o livro saltou do couro para o papiro e deste para o papel.

Como se não bastassem as instabilidades e reorganizações constantes dos cenários culturais com o advento da cultura das mídias, a revolução digital surge para embaralhar mais ainda.  Como diz Santaella, no cerne dessa revolução está a possibilidade aberta pelo computador de converter toda informação – texto, som, imagem, vídeo – em uma mesma linguagem universal. Através da digitalização e da compressão de dados que ela permite, todas as mídias podem ser traduzidas, manipuladas, armazenadas, reproduzidas e distribuídas digitalmente” (p. 59-60)

Ao final do capítulo, ela faz uma pergunta profética e que todos vem fazendo hoje, mesmo que não se dêem conta disso e das consequências do questionamento que fazem:

Será que a cibercultura, com a convergência de midias que ela promove, irá absorver para dentro de si toda a cultura midiática, ou será que a cultura midiática continuará a existir paralelamente à ela, ambas convivendo através de novos conflitos e alianças que, por enquanto, ainda não estamos conseguindo discernir? (p.60)

Para falar rapidamente do assunto, creio aqui que não, pelo menos não por hora, haja vista o hibridismo cotidiano entre mecanismos/manifestações da cultura digital e da cultura das mídias.

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Capítulo 3 – Uma visão Heterotópica das Mídias Digitais

Nesse terceiro capítulo Santaella retoma o contexto de surgimento do digital e da cultura digital. Fala, mais uma vez, de que os primórdios da cultura das mídias foi dada com os equipamentos técnicos que propiciaram novos processos de comunicação, tais como a multiplicação dos canais de televisão a cabo, videocassete, jogos eletrônicos,etc, que trouxeram a escolha que a cultura de massa até então não ofertava.

Este crescimento das multiplicidades de mídias, como diz Santaella, “foi dando margem ao surgimento de receptores mais seletivos, individualizados, o que foi, sem dúvida, preparando o terreno para a emergência da cultura digital, na medida em que esta exige receptores atuantes, caçadores em busca de presas informacionais de sua própria escolha”. (p.68)

Dentre diversas discussões pertinentes que a autora aborda – e que, por falta de espaço e tempo, não resumirei aqui – é interessante trazer aqui a citação final do capítulo (Santaella é pródiga em fechamentos poéticos de capítulos):

“Se a ocupação era impossível nos meios de massa, o ciberespaço, diferentemente, está prenhe de vãos, brechas para a comunicação, informação, conhecimento, educação e para a formação de comunidades virtuais estratégicas que devem ser urgentemente exploradas com um faro que seja política e culturalmente criativo, antes que o capital termine por realizar a proeza de colonizar o infinito” (p.76).

Bingo. Ocupar espaços, ficar bandeiras relevantes no ciberespaço antes que os grandões endinheirados os façam, deveria ser um lema para sair gritando nas ruas, virtuais e reais.

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Capítulo 4 – Substratos da Cibercultura

Este capítulo, como o nome prenuncia, é bastante importante para nossos estudos, especialmente por trazer detalhes da consolidação/nascimento da cultura digital/cibercultura.

Inicia definindo – mais para facilitar a contextualização da cibercultura do que para guardar tudo em “caixinhas” – seis eras culturais: oral, escrita, impressa, de massas, das mídias e digital. Logo vem o esclarecimento: “nenhuma era cultural desapareceu com a outra. Ela sofre reajustamentos no papel social que desempenha, mas continua presente. Não se trata, portanto, da passagem de um estado das coisas a outro, mas uma complexificação, do imbricamento de uma cultura na outra“. (p.78).

Então, faz um “Da cultura de Massas a Cultura das Mídias” e “Da cultura das Mídias à Cibercultura” a fim de nos contextualizar as duas transições culturais que tem o século XX como elemento de tempo central. A primeira, cultura das massas, tem o seu nascimento com o jornal, o telégrafo e a fotografia, oriundos diretamente da Revolução Industrial dos séculos anteriores, e o seu apogeu com o cinema e a televisão, especialmente no período do final dos anos 60 e início dos anos 70, quando a difusão televisiva atinge seu ponto máximo de maturação e, a partir daí, se satura, com os diversos dispositivos que dão ao espectador um mínimo poder de escolha (videocassete, games) começando a dar a pá de cal na hegemonia da televisão, que ainda hoje permanece, mas em crise (ou não?).

Os microcomputadores dos anos 80 dão o passo inaugural para transformar o espectador também em usuário. “Na medida em que o usuário foi aprendendo a falar com as telas (…) seus hábitos exclusivos de consumismo automático passaram a conviver com hábitos mais autônomos de discriminação e escolhas próprias. Nascia aí a cultura da velocidade e das redes que veio trazendo consigo a necessidade de simultaneamente acelerar e humanizar a nossa interação com as máquinas” (p. 82).

Como se vê, a especialização da audiência por meio da possibilidade da  liberdade de escolha do usuário começa cedo, nos anos 80, na cultura das mídias, e acelera muito com o surgimento da internet, onde cada um pode ser produtor, criador, compositor, montador, etc, de seus próprios produtos.  Cria-se assim uma sociedade de distribuição reticular de integração em tempo real, que passa a concorrer com a até então sociedade piramidal um-muitos.

No tópico “Digitalização: esperanto das máquinas”, a autora faz uma didática explicação (a partir de Joel Rosnay, de “O Homem Simbiótico”) sobre o processo de digitalização que nunca é demais lembrar: “A digitalização consiste em dividir uma grandeza física que varia e evolui no tempo em pequenas frações, mediante seu valor em intervalos regulares (para a música em um CD, 40 mil vezes por segundo. Em seguida, é necessário quantificar esse valor, atribuindo-lhe um código informático sob forma binária, utilizando apenas dois números, 0 e 1 (bits da informação). O sinal digital traduz-se assim por um fluxo de bits estocado em um disco laser e agrupado em pacotes, sendo suscetível de ser tratado em qualquer computador” (p.83)

Através da digitalização, todas as fontes de informação – de fenômenos materiais a processos naturais – estão “homogeneizados” em cadeias sequenciais de 0 e 1 – entre eles o áudio e o vídeo. A revolução da digitalização se faz visível face a inevitável comparação com o antes disso, onde todos os suportes eram incompatíveis: o papel para o texto, a película química para a fotografia ou filme, fita magnética para o som ou vídeo, e assim por diante. Atualmente, a transmissão de informação digital não depende do meio de transporte (fio de telefone, ondas de rádio, cabo), pois sua qualidade permanece perfeita, pois tudo é padronizado pelos dígitos de forma igual. Pra bem ou pra mal, não há mais “ruídos” e “perdas”, coisa comum com o prcesso analógico.

Outro fator importante do digital é a estocagem, muito menos onerosa que a do analógico. Diz Santaella: “foram fundidas, em um único setor de todo o digital, as quatro principais formas de comunicação humana: o documento escrito (imprensa, revista, livro); o audiovisual (televisão, vídeo, cinema); as telecomunicações (telefone, satélites, cabo) e a informática (computadores, programas informáticos). É esse processo de unificação que costumam chamar de “convergência das mídias”. (p.84)

Nos tópicos seguintes desse capítulo, fala-se sobre a história da internet, interface e ciberespaço, algo que, tamanha a documentação existente, não vale citar por aqui. Só destaco algumas citações boas de pescar e colocá-las em algum contexto: “As redes de computadores formam uma treliça de processadores heterogêneos, todos eles podendo atuar como fontes e como escoadouros” (p.89). “Os computadores e as redes que os ligam constituem o ciberespaço” (p.90).

Sobre os hiperlinks e a navegação caótica no ciberespaço, algumas boas citações:

Qualquer coisa armazenada em formato digital pode ser acessada em qualquer tempo e em qualquer ordem. A não linearidade é uma propriedade do mundo digital. Nele, não há começo, meio e fim. Quando concebidas em forma digital, as ideias tomam forma não-lineares. A chave-mestra para essas sintaxes de descontinuidade se chama hiperlink, a conexão entre dois pontos no espaço digital”. (p.94)

Quando se navega nas redes, as associações são radicalmente imprevisíveis, como são imprevisíveis os caminhos que são seguidos a cada dia pelos usuários de uma grande biblioteca. Daí a alusão que a literatura sobre internet não se cansa de fazer á lendária biblioteca borgiana, a biblioteca de babel, composta de infinitas galerias hexagonais” (p.95).

Curiosidade eletrônica pré-internet, que prepara para uma constatação atual: a não-linearidade das mídias já está encarnada na própria maneira de viver: “A MTV desafiou nossa capacidade sensória com imagens vívidas, cortes rápidos e sons eletrônicos intensos, preparando nossa sensibilidade para o mundo digital em devir. Antes da MTV, pensava-se que ninguém seria capaz de fazer sentido de um corte menor do que dois segundos. Hoje, os vídeos usam regularmente cortes de um terço ou um quarto de segundo” (p.97).

Sobre a cibercultura, Santaella aponta como características ser “descentralizada, reticulada, baseadas em módulos autônomos“, tendo como fonte fundamental o microprocessador e ser não limitada ao desktop – aliás, desktop esse ainda caracterizado de forma rudimentar, grosseira, que passará por evoluções constantes e ininterruptas.

Por fim, depois de discutir a inteligência coletiva e a TV digital, o capítulo fecha coma discussão sobre uma possível “era pós-midiática”, onde, dentre outras coisas, o acasalamento da informática com a televisão e as telecomunicações vão possibilitar sistemas híbridos em coevolução acelerada.






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Teatro em Conexão

Semana passada houve o ciclo  de debates/oficina Teatro em Conexão, oferecido pelo Teatro para Alguém na Oficina Oswald de Andrade, no Bom Retiro, em São Paulo. Copio abaixo o release de divulgação do evento e colo o folder para ficar guardardo como registro:

Os debates têm por objetivo aprofundar a discussão já iniciada internamente (veja nosso debate sobre Cultura Digital), e abri-la cada vez mais para a participação de todos os públicos. Dessa forma iniciamos com um exemplo do que temos feito ao longo destes 2 anos, transmitindo ao vivo um ensaio aberto de Édipo, dirigido por Elias Andreato. O público poderá ver em ação uma grande encenação e e conversar com os seus membros e com o TPA, presencialmente ou via internet.

No dia seguinte, 16/02/2011 diversos artistas que trabalham com Arte e tecnologia trarão suas experiências e comentarão sobre as mudanças geradas pelo surgimento do digital, das redes e da Internet em cada um de seus ramos artísticos. Estão confirmados o músico Skowa, a artista multimídia Rachel Rosalen, o visionário e pensador de Cultura Digital Cláudio Prado e o curador do festival artCena Fábio Ferreira.

A seguir faremos um ensaio aberto de nosso próximo espetáculo, Vozes Urbanas, com presença do autor Sérgio Roveri, vencedor do Prêmio Shell 2006 e de Lourenço Mutarelli, além de toda a equipe do TPA.

Por fim, traremos a discussão especificamente para o Teatro, com a presença de Antônio Araújo, diretor do Teatro da Vertigem, José Fernando de Azevedo, diretor do Teatro de Narradores e de Marcelo Lazaratto, diretor da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico. Exploraremos temas como Internet Colaborativa e Teatro Colaborativo, a comparação entre experiências em espaços não-convencionais e o não-espaço (Internet), entre outros.

Foram quatro dias de uma programação intensa. Muitas conversas nas mesas de debate e nos bastidores. Para minha pesquisa, especialmente os dois últimos dias foram importantes. O primeiro por apresentar o experimento “Vozes Urbanas”, uma “peça” que assistíamos ora num telão – quando a cena era passada fora de nosso campo de visão – ora ao vivo, quando a ação ocorria na nossa frente. Essa confusão de realidades, ora teatro ora cinema ora sei lá mais o quê, provocou muitas ideias malucas na minha cabeça. Por mais que já havia estudado casos diferentes, ver ao vivo um experimento acontecer na tua frente é sempre interessante.

Já o segundo dia valeu muito por ser uma mesa de pessoas das artes cênicas, diretores/professores/teóricos que contribuíram para a discussão cultura digital por uma perspectiva do teatro. Essa visão do teatro enxergando o que o TPA faz e o que chamamos provisoriamente aqui de “teatralidade digital” trouxe mais ideias na cabeça de todo mundo e provocou discussões acaloradas e produtivas.

As principais provavelmente giraram em torno do porquê de vincular o que o TPA faz com a o teatro, já que, na opinião de alguns da mesa, seria até mais fácil desvincular o fazer da arte teatral para fins de experimentação mesmo, e na constituição de uma linguagem para esse tipo de coisa que aqui chamamos de “teatralidade digital”. Mais do que dar um nome para o que se faz, é importante criar uma linguageum suficientemente forte para que essa “coisa” se estabeleça e aí, quem sabe, surja um nome e ninguém mais questione – como acontece em áreas hoje consolidades que começaram assim, como a videodança e a perfomance.

Um agradecimento especial à parceria de todo o TPA (Renata, Kao, Lucas, Bianca, Márcio), que me receberam muito bem e me deixaram à vontade para circular durante o evento, e ao meu xará e também oriundo de Santa Maria Leonardo Roat, ator/diretor/pesquisador do mesmo assunto que eu no mestrado em Ciências da Linguagem da Unisul, em Floripa. Muito mais avançado na pesquisa que eu, Roat me colocou tantas perguntas enquanto conversávamos na oficina que, confesso, me deixou atordoado – e ainda mais motivado para ir fundo num assunto que, desde sempre, é instigante.

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