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Saiu o livro!

Caros,

Depois desse blog estar muto relapso, finalmente uma atualização: está pronto o livro para qual este blog nasceu.

O nome dele é “Efêmero Revisitado: Conversas sobre teatro e cultura digital“, tem 192 páginas e em breve será distribuído para professores, universidades, grupos, companhias e escolas de teatro, bem como outros interessados na complexa relação entre o teatro e a cultura digital – se você é um deles, escreva para baixacultura@gmail.com que a gente conversa.

Será lançado oficialmente neste próximo sábado, 3 de dezembro, às 18h30, no Festival CulturaDigital.br, no Rio de Janeiro, dentro da programação do espaço Visualidades, logo após a apresentação de Lucas Pretti, do Teatro para Alguém. Cariocas e outros que estejam pelo Rio neste dia e hora, apareçam!

Após o lançamento, ele também estará disponível aqui nesta página para download nos mais variados formatos, bem como para navegação na página “Livro” aqui acima.

Por enquanto, dê uma olhadinha no aperitivo do livro que preparamos, com a apresentação, prefácio sumário e primeiro capítulo.

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contracapa

O livro – primeiro projeto de Selo do BaixaCultura, página que edito e que trata de cultura livre e (contra) cultura digital – está divido em duas partes: Contextos e Experimentos & Reflexões.

Em Contextos, estão dois capítulos: o primeiro chamado “Teatro e tecnologia, uma longa história“, uma tentativa de ampliar o contexto de certos momentos da relação entre teatro e tecnologia na história que vai desde o surgimento do mecanismo do deus ex machina na Grécia Antiga até o happening e a performance, passando pela uso da luz elétrica por Adolphe AppiaGordon Craig, a Gesamtkunstwerk (obra de arte total) de Wagner e pelas vanguardas históricas do inicio do século XX.

O segundo, ”Mídias e cultura digital no teatro“, traz uma visão panorâmica do estado da arte da discussão sobre teatro e as tecnologias digitais. Começa no período pré-internet, com o início do boom do uso de mídias no teatro e dos experimentos que vão resultar no conceito de teatro pós-dramático, de Hans-Thies Lehmann, passa pela discussão sobre o que seria o teatro digital (atores+bits?) a partir do Manifesto Binário, do grupo catalão La Fura Dels Baus, e do conceito da pesquisadora dos Estados Unidos Nadja Masura. E, por fim, fala-se da dificuldade de se categorizar em um mundo híbrido como o de hoje e de um futuro possível para o teatro digital: a aproximação das artes cênicas com a ideia dos jogos eletrônicos/digitais (os populares videogames).

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sumário

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A parte II, Experimentos & Reflexões, traz seis entrevistas e conversas realizadas para a pesquisa. Buscou-se, inicialmente, destacar as opiniões, análises e experiências de dois dos principais grupos que trabalham com teatro e a cultura digital no Brasil: Teatro para Alguém, representados aqui por seus fundadores Renata Jesion e Nelson Kao, e Phila7, através de seu diretor Rubens Velloso.

Na sequência, há a entrevista com o ator e diretor Leonardo Roat, que recentemente defendeu uma dissertação acadêmica sobre o assunto e continua a pesquisa no doutorado em Ciências da Linguagem na Unisul, em Santa Catarina;  com  Tommy Pietra, do Teatro Oficina, grupo que tem uma larga experiência no uso das mídias na cena; Renato Ferracini, do Lume Teatro e professor da pós-graduação em teatro da Unicamp, que embora não se dedique à pesquisa na área, tem sua opinião sobre os meandros da relação entre o teatro e a tecnologia digital como ator, pesquisador, diretor e espectador crítico do que assiste.

Encerra-se esta parte com a conversa com Fabrício Muriana, Maurício Alcântara e Juliene Codognotto, da Bacante, importante centro de crítica teatral na rede, espectadores frequentes dos mais variados espetáculos do país e oriundos de uma experiência de trabalho com teatro e a tecnologia digital na II Trupe de Choque.

Ao final do livro, há ainda um Glossário, com mais detalhes sobre alguns dos inúmeros nomes citados durante o trabalho, além das Referências, dos Agradecimentos e de outros dados indispensáveis para um livro - como a Ficha Catalográfica, o papel em que foi impresso, etc.

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Ficha Técnica

Projeto gráfico: Calixto Bento / www.clxb.com.br
Capa: Montagem sobre fotos de Nelson Kao e Alessandra Fratus
Revisão: Ben-Hur Demeneck, Juliana Bassaco, Marcelo De Franceschi, Leonardo Feltrin Foletto
Transcrição das entrevistas: Leonardo Feltrin Foletto, Giane Lara, Marcelo
De Franceschi.
Edição: Leonardo Feltrin Foletto


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Entrevistas (1): Drika Nery

Hoje começo a postar alguma das entrevistas que estão sendo realizadas para a execução da reportagem. A primeira é com Drika Nery, escritora e dramaturga, autora de “Cardápio de Soluções Indigestas“, exibida no Teatro para Alguém dentro do projeto “Os 10 Dramaturgos – 2010″, onde os 10 dos 12 formados pelo Núcleo de Dramaturgia do SESI 2009 escreveram peças inéditas para o site.

Drika é apresentada no site do TPA como “uma ex-futura cineasta paulistana que está poeta em alguns momentos, mas na maior parte do tempo pratica a heresia de escrever pra teatro. Integra o Centro de Dramaturgia Contemporânea (CDC), grupo de dramaturgos, desde 2006. É uma das autoras da peça “Jardim inverso” dirigida por Paulo Faria, que esteve em cartaz em São Paulo entre novembro de 2009 e março de 2010 (Teatro N.Ex.T e Sede Luz do Faroeste). Roteirizou e dirigiu os curtas “Augusta rua” (2005), “Realidade experimental” (2004) e “Réstias” (2003).

A conversa que tivemos foi no café do Espaço Unibanco, na rua Augusta, em 27/05, num fim de tarde/início de noite de uma sexta-feira cinzenta, meio frio meio chuvosa, típica de São Paulo. Desconte os barulhos alheios e as falas atabalhoadas do entrevistador que vos escreve.

Clique no link de cada uma para abrir o áudio em uma nova janela.

Entrevista Drika Nery, parte 1

Entrevista Drika Nery, parte 2

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Teatro em Conexão

Semana passada houve o ciclo  de debates/oficina Teatro em Conexão, oferecido pelo Teatro para Alguém na Oficina Oswald de Andrade, no Bom Retiro, em São Paulo. Copio abaixo o release de divulgação do evento e colo o folder para ficar guardardo como registro:

Os debates têm por objetivo aprofundar a discussão já iniciada internamente (veja nosso debate sobre Cultura Digital), e abri-la cada vez mais para a participação de todos os públicos. Dessa forma iniciamos com um exemplo do que temos feito ao longo destes 2 anos, transmitindo ao vivo um ensaio aberto de Édipo, dirigido por Elias Andreato. O público poderá ver em ação uma grande encenação e e conversar com os seus membros e com o TPA, presencialmente ou via internet.

No dia seguinte, 16/02/2011 diversos artistas que trabalham com Arte e tecnologia trarão suas experiências e comentarão sobre as mudanças geradas pelo surgimento do digital, das redes e da Internet em cada um de seus ramos artísticos. Estão confirmados o músico Skowa, a artista multimídia Rachel Rosalen, o visionário e pensador de Cultura Digital Cláudio Prado e o curador do festival artCena Fábio Ferreira.

A seguir faremos um ensaio aberto de nosso próximo espetáculo, Vozes Urbanas, com presença do autor Sérgio Roveri, vencedor do Prêmio Shell 2006 e de Lourenço Mutarelli, além de toda a equipe do TPA.

Por fim, traremos a discussão especificamente para o Teatro, com a presença de Antônio Araújo, diretor do Teatro da Vertigem, José Fernando de Azevedo, diretor do Teatro de Narradores e de Marcelo Lazaratto, diretor da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico. Exploraremos temas como Internet Colaborativa e Teatro Colaborativo, a comparação entre experiências em espaços não-convencionais e o não-espaço (Internet), entre outros.

Foram quatro dias de uma programação intensa. Muitas conversas nas mesas de debate e nos bastidores. Para minha pesquisa, especialmente os dois últimos dias foram importantes. O primeiro por apresentar o experimento “Vozes Urbanas”, uma “peça” que assistíamos ora num telão – quando a cena era passada fora de nosso campo de visão – ora ao vivo, quando a ação ocorria na nossa frente. Essa confusão de realidades, ora teatro ora cinema ora sei lá mais o quê, provocou muitas ideias malucas na minha cabeça. Por mais que já havia estudado casos diferentes, ver ao vivo um experimento acontecer na tua frente é sempre interessante.

Já o segundo dia valeu muito por ser uma mesa de pessoas das artes cênicas, diretores/professores/teóricos que contribuíram para a discussão cultura digital por uma perspectiva do teatro. Essa visão do teatro enxergando o que o TPA faz e o que chamamos provisoriamente aqui de “teatralidade digital” trouxe mais ideias na cabeça de todo mundo e provocou discussões acaloradas e produtivas.

As principais provavelmente giraram em torno do porquê de vincular o que o TPA faz com a o teatro, já que, na opinião de alguns da mesa, seria até mais fácil desvincular o fazer da arte teatral para fins de experimentação mesmo, e na constituição de uma linguagem para esse tipo de coisa que aqui chamamos de “teatralidade digital”. Mais do que dar um nome para o que se faz, é importante criar uma linguageum suficientemente forte para que essa “coisa” se estabeleça e aí, quem sabe, surja um nome e ninguém mais questione – como acontece em áreas hoje consolidades que começaram assim, como a videodança e a perfomance.

Um agradecimento especial à parceria de todo o TPA (Renata, Kao, Lucas, Bianca, Márcio), que me receberam muito bem e me deixaram à vontade para circular durante o evento, e ao meu xará e também oriundo de Santa Maria Leonardo Roat, ator/diretor/pesquisador do mesmo assunto que eu no mestrado em Ciências da Linguagem da Unisul, em Floripa. Muito mais avançado na pesquisa que eu, Roat me colocou tantas perguntas enquanto conversávamos na oficina que, confesso, me deixou atordoado – e ainda mais motivado para ir fundo num assunto que, desde sempre, é instigante.

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Textos jornalísticos sobre teatralidade digital (4)

O texto da vez é uma matéria/crítica publicada no Estadão, a cargo da crítica/pesquisadora Beth Néspoli. Nos primeiros parágrafos fala da experiência do Fluídos, um longa-metragem exibido e criado em tempo real, para mais ao fim falar mais sobre o caso do Teatro para Alguém.

TEATRO? CINEMA? OU…

Fonte: Estadão – http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090502/not_imp364285,0.php (2/05/2009)

O mistério do teatro reside numa aparente contradição. Como uma vela, consome a si mesmo no próprio ato de criar luz. Assim a historiadora Margot Berthold definiu um dos aspectos fundadores da arte teatral, sua criação em tempo real diante do espectador. Só as chamadas artes cênicas têm tal característica? Bem… não mais.

Quem se sentar diante da tela na sala de cinema do Centro Cultural São Paulo, nos dias 16, 24 e 30 de maio para ver o longa Fluidos verá uma obra sendo criada e exibida em tempo real e aberta ao imponderável como no palco. Isso porque os atores estarão no lado de fora do cinema, em três diferentes locações, interpretando cenas, como no teatro, cuidadosamente ensaiadas. As imagens serão captadas “on line” e em plano sequência, ou seja, sem cortes ou edições, e transmitidas ao vivo para dentro da sala de cinema.

Os percalços de ordem emocional a que todo ator está sujeito se ampliam nesse filme pelo fato do elenco atuar em espaços públicos, sujeitos a interferências de desavisados, como já ocorreu nos ensaios. Com tantas características teatrais essa arte ainda pode ser chamada de cinema? “Eu acho que sim, porque a recepção está mediada por tela e as interpretações são naturalistas, criadas para a câmera e não para o público involuntário. As pessoas presentes no set são figurantes desavisados ou, caso interfiram, atores”, argumenta o diretor dessa proeza cinematográfica, Alexandre Carvalho. Na quarta à noite, o Estado acompanhou um ensaio no bar do Centro Cultural São Paulo desse longa que tem seis atores no elenco e orçamento de R$ 50 mil ganhos em edital municipal.

No dia anterior fora a vez da reportagem do Estado ir até a casa da diretora Renata Jesion, conhecer “ao vivo” o palco de seu “Teatro pela internet”. Curiosamente, ela faz questão de definir como teatral a arte que cria na sala de sua casa diante de uma câmera, ainda que suas produções cheguem ao público mediadas pela tela do computador. Basta escolher o que ver num cômodo da “casa virtual” que se abre diante dos olhos no site www.teatroparaalguem.com.br.

[Percebe-se, ou eu estou viajando, uma ironia fina com o "curiosamente" Renata faz questão definir sua arte como teatral?]

Peça feita para a exibição na rede é ainda assim teatro? “Sim porque a interpretação é teatral, não usamos locações, a peça inteira é filmada na sala-palco, em plano sequência, sem cortes, e a primeira exibição é feita em tempo real, na casa, na presença de um público convidado“, diz Renata Jesion.

[A eterna pergunta que não quer calar aqui novamente. As justificativas de Renata são basicamente as mesmas das matérias anteriores. É de notar o quanto as pessoas precisam "enquadrar" o que faz o TPA para poderem entender a ação, em vez de apenas ver o que acontece e não buscar rótulos pra tudo. É o típo de hábito que, ao que parece, costuma acontecer normalmente enquanto uma prática artística diferente se estabelece - ou se constitui, melhor dizendo.]

Por fim, o que Renata e Carvalho produzem é outra arte, híbrido de teatro e cinema? Não seriam os únicos. A Cia Phila 7, por exemplo, já criou espetáculos na interação virtual entre intérpretes de diferentes continentes. Porém Renata e Carvalho não definem o que fazem como “arte multimídia” e sim como experimentação em teatro, no caso dela; em cinema, no dele. Por que? A explicação talvez resida no desejo e na formação de ambos.

[Arte multimídia entraria aqui como um suposto "guarda-chuva" para enquadrar tudo aquilo que não se encaixa no que habitualmente entendemos como teatro ou cinema. Mais uma vez revela-se a necessidade de rótulos, que, de alguma forma, é explicado pelo hábito natural das pessoas de compreenderem o mundo através de comparações, especialmente à coisas que já conhecem.]

Antunes Filho é o mestre de Renata Jesion, que integrou o Centro de Pesquisa Teatral (CPT-Sesc) de 1992 a 1997, participando de peças como Trono de Sangue e Vereda da Salvação. Inspirada na vida de seu pai, escreveu 123.023 J, alusão aos números tatuados em prisioneiros de campos de concentração. Dirigida por Ariela Goldman, essa montagem circulou muito e está no repertório de seu teatro virtual. Já Alexandre Carvalho é cineasta formado pela USP e dirigiu os curta-metragens Portas da Cidade e Vila Prudente.

Renata deseja ter um patrocinador para o seu teatro virtual e assim poder fazer mais apresentações ao vivo, com público, em tempo real. Já Carvalho quer seguir experimentando em cinema, seja ao vivo, seja “na lata”. Fazem o que cabe aos artistas: ousar experimentos. Ao público, importa se o que fazem oferece boa fruição. É conferir.

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Textos jornalísticos sobre teatralidade digital (3)

Agora é a vez de uma matéria publicada no site Trópico, assinada por Alan de Faria. Repare que ela foi publicada apenas um dia antes da entrevista com a TPM no post anterior. Seria coincidência?

MINHA CASA, MEU TEATRO

A ATRIZ E DIRETORA RENATA JESION ENCENA PEÇAS EM SUA SALA DE VISITAS E AS TRANSMITE AO VIVO PELA INTERNET

Fonte: Trópico – http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/3090,1.shl (16/06/2009)

“Dez minutos!”, grita o diretor. Atores, então, iniciam suas mandingas antes de entrar no palco. “Cinco minutos!”, ecoa novamente. Verificam-se as luzes, os objetos, as marcações das cenas. E, quando falta apenas um minuto, já estão todos a postos.

[Repare que é utilizada a descrição do começo da gravação da matéria anterior, assim como na matéria anterior.]

É o início de uma peça no Teatro para Alguém, projeto criado em novembro do ano passado pela atriz e diretora Renata Jesion e por Nelson Kao. Em seu “palco”, porém, não há cortina e não há público. Ao menos fisicamente. O motivo? As peças do TPA são produzidas exclusivamente para serem vistas pela internet.

O projeto surgiu de uma necessidade minha de fazer teatro. Por essa razão, eu o faço na minha casa mesmo para alguém que nem eu sei quem é”, conta Jesion, que diz não ter se inspirado em nenhum outra idéia semelhante.

“Não sou ´internética´. Não fiquei procurando projetos parecidos na web”, argumenta a atriz e diretora, que, inclusive, ficou surpresa quando amigos seus comentavam que se tratava de um projeto pioneiro. É possível.
No YouTube, por exemplo, podem ser encontradas facilmente cenas de algumas montagens teatrais e centenas de trechos de “stand-up commedies”. Em contrapartida, o TPA disponibiliza peças inteiras.

O site é construído como uma “casa” e contém seis espaços. Na Grande Sala, é possível assistir à “miniemsérie” “Corpo Estranho”, assinada pelo escritor e desenhista Lourenço Mutarelli. “É um espaço exclusivamente do Mutarelli, não tem concorrência. Sempre quis trabalhar com ele, porque o admiro muito”, diz Jesion. No Sótão, ficam em cartaz as peças teatrais propriamente ditas. Na Sala de E-Star, são encenadas minipeças. O Quarto é um espaço reservado para fotos e histórias a respeito das montagens. O Banheiro Merda! é o blog do projeto. E, por fim, no Porão ficam arquivadas as produções do TPA.

[Com a reformulação do site, esta arquitetura está diferente. Não há mais a ideia de "casa" e seus ambientes.]

A princípio, conta Jesion, o projeto só teria a Sala de E-Star. “A ideia inicial seria trabalhar com pequenos textos de autores e outros artistas que nunca haviam escrito para teatro”, diz. Foi com esse objetivo que ela convidou o escritor Antônio Prata para escrever uma pequena história para ser encenada no TPA –ele é o autor de “O Arthur”, dirigida pela própria Jesion e encenada pela divertida atriz Iara Jamra.

“Eu não conhecia pessoalmente o Prata, mas lia seus trabalhos. Ao longo de seis meses, pedi a ele para enviar algum texto que poderia ser encenado no TPA e que não ultrapassasse dez minutos”, explica. “Na primeira vez, ele enviou um texto de cinco páginas! Liguei para ele e comentei: ´O que você enviou é uma peça de 40 minutos, não pode ser…´ Ele respondeu: ´Mas não é como no jornalismo, um minuto por lauda?´”, diverte-se Jesion, que teve que explicar ao escritor que, no teatro, o tempo é do autor, um movimento simples pode durar um minuto.

Já o processo da segunda “miniemcena” foi mais tranquilo. Ao ler o livro de contos da carioca Paula Parisot, “A Dama da Solidão” (Companhia das Letras), Jesion escolheu encenar o conto “O Vício”. “Foi engraçado, pois, quando disse a ela que gostaria de encená-lo, ela confessou que se tratava, em sua opinião, de seu pior conto. Poderia até ser, mas era totalmente encenável”, afirma Jesion.

Há oito meses no ar, o site tem tido em média 20 mil acessos por mês, segundo Jesion. “Muitas vezes recebemos mensagens de pessoas que moram longe do eixo Rio-São Paulo, dizendo que nunca foram ao teatro, mas que, depois de assistir às peças no site, ficaram com vontade”, diz.

Para ela, o projeto ajuda a fomentar o teatro brasileiro de autor, uma vez que não oferece peças comerciais. O TPA, de alguma forma, é mais uma forma de tentar driblar os editais dos programadores culturais, a dependência de instituições e o aluguel de teatros privados. “A classe teatral não tem grana, é complicado alugar um espaço e com o dinheiro da bilheteria pagá-lo. Dificilmente isso dá certo.”

[Apresenta-se a estrutura do TPA como, de certa forma, uma espécie de "outra via" para o fazer teatral, já que "presencialmente" muitas vezes é tão difícil produzir teatro não-comercial de qualidade.]

Camarim no quarto

Trópico esteve presente na gravação da peça “Por Conta da Casa”, de Sergio Roveri, em cartaz na Sótão do TPA. Ao entrar na residência de Jesion, localizada no bairro Butantã, na capital paulista, é difícil imaginar que todas as montagens são encenadas em sua sala de estar, que já se transformou até mesmo em danceteria, por necessidade de uma produção.

Para a gravação das peças do TPA, Jesion investiu R$ 20 mil: comprou uma câmera em alta definição, 12 refletores e cortinas negras, que estão espalhados pela sala.

[Números importantes para a apuração]

Na peça de Roveri, a sala tornou-se um bar. Assim, o que era apenas um assento plástico transformou-se no banco do boteco. “Não há limitação física, de espaço”, explica Jesion. O que era o quarto do casal hoje é uma espécie de camarim, com roupas de inúmeras montagens. “Chega a ser divertido. Em nenhum momento, sinto minha privacidade ameaçada. Mas, é claro, temos um quarto que ninguém entra, que é a nossa casa. O restante é teatro”, conta Jesion.

Vira e mexe, Jesion é questionada sobre se o seu projeto é realmente teatro _e não televisão ou cinema. Ela diz que não está preocupada em classificar o projeto, mas que seu principal objetivo é buscar uma linguagem teatral própria.

Eu sei que é teatro, mas é óbvio que tem diferenças em relação ao tradicional. Não tem os três sinais para anunciar o início, mas tem alguém berrando aqui antes da câmera ser ligada e a peça começar”, diz. “

[A velha pergunta eternamente colocada nas matérias evidencia o caráter, digamos, de "zona cinzenta" que se encontra este tipo de prática. Ninguém entende direito, e todos questionam se o fato de não haver o "aqui e agora" torna isso ainda assim teatro].

A câmera, porém, é apenas um meio para registrar e ajudar na difusão do evento cênico. Não é como no cinema ou na TV. Além disso, a interpretação é sempre teatral, inclusive na minissérie do Mutarelli.” A primeira exibição de cada montagem do TPA é sempre mostrada ao vivo na internet. Depois, uma gravação fica disponível no site.

Para Zeca Bittencourt, convidado para dirigir “Por Conta da Casa”, um dos motivos que o levou a aceitar o convite de Jesion foi a proposta de gravar as peças em plano-sequência. “Enquanto no teatro convencional, o público pode observar o palco inteiro e o diretor tem a função de levar o olhar dele para determinado espaço, aqui no TPA é a câmera quem faz isso”, afirma.

E, de fato, é o que acontece. Definidas as posições da câmera comandada por Kao, os atores tomam seus lugares e iniciam a encenação do texto. “É curioso perceber que, mesmo não tendo público, o burburinho ‘de bastidores’ também acontece. Faltando dez minutos, passamos o texto, corrigimos a maquiagem, ficamos tensos quando está próximo do início e, quando tudo começa, vamos num só embalo”, diz Jesion, com a empolgação de quem faz do teatro a sua vida. E, agora, também a sua casa.

[Assim como no trecho da descrição dos bastidores do início da transmissão, aqui também se relata o "burburinho". Pelos relatos e pela observação até aqui, nota-se que é algo que realmente chama atenção e, de alguma forma, aproxima do teatro convencional, que também tem esse burburinho. Mas logicamente que o fato de ter esse burburinho não tem nada a ver com o fato do que o TPA faz ser teatro ou não; é apenas um ponto a se observar].

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Textos Jornalísticos sobre teatralidade digital (2)

Dando sequência a publicação de matérias sobre o assunto, colo aqui um texto/entrevista com Renata Jesion – atriz, diretora, produtora e uma das idealizadoras do TPA – que saiu na Revista TPM. A reportagem é de Flora Paul, e os negritos e itálicos usados foram usados por mim para destacar aleatoriamente alguns trechos.

TEATRO VIRTUAL

SE VOCÊ NÃO VAI ATÉ O TEATRO, O TEATRO PARA ALGUÉM LEVA ELE ATÉ SUA CASA, AO VIVO E DE GRAÇA

Fonte: http://revistatpm.uol.com.br/so-no-site/entrevistas/teatro-virtual.html#1(17/6/2009)

O elenco grita “merda”, para dar sorte. As luzes diminuem, focadas no palco. Fumaça, silêncio. A peça começa. E o público, cadê? Quem gosta de teatro sabe que a falta de público não é tão rara. “Às vezes havia uma plateia lotada, às vezes só tinha duas pessoas”, conta Renata Jeison, sobre sua última temporada no tablado. Depois de se revoltar com o fato, a atriz, diretora e produtora resolveu o problema idealizando o Teatro para Alguém: se você não vai ao teatro, ele vai até você.

Transmitido pela internet, você assiste a peças ao vivo e de graça. Mas isso é teatro? Sim e não. “É teatro, é cinema, é um pouco de TV e não é nenhuma dessas três: é uma quarta linguagem”, explica Renata. Na sala de sua casa, adaptada com panos negros e refletores de luz, diversas peças são encenadas para o site www.teatroparaalguem.com.br. Em cartaz este mês, está o conto “Maçã Argentina”, texto de Índigo, com a atriz Maria Manoella, na Sala de E-star da casa virtual. Já na sala de sua casa real, de onde são transmitidas as peças, a diretora falou ao site da Tpm para explicar como, afinal, funciona esse teatro.

Como surgiu a ideia do Teatro para Alguém?

Tenho 18 anos de carreira e, como toda carreira, tive sucessos e fracassos. Durante uma temporada, há dois anos, deparei com um teatro em que às vezes havia uma plateia lotada, às vezes só tinha duas pessoas para assistir à peça. Depois de tanto tempo, você pensa que enche o saco fazer teatro assim. Você quer fazer, mas nem sempre as pessoas querem estar na plateia. Então um dia fui para casa revoltada, falei para o meu marido: “Já que me é tão vital fazer, vou começar a fazer teatro para ninguém”. Mas também é burro pensar isso, porque o teatro é uma arte que necessita da testemunha, não é como um pintor, que pinta um quadro em seu ateliê sem precisar de público. Então decidi fazer para alguém que queira ver. Não me interessa saber se são 100, 500 ou 1 pessoa, se está na sala da própria casa. E aí, ao longo de dez meses, no ano passado, fui construindo essa ideia, criamos o site, até que, no fim do ano passado, a gente estreou.

Você falou sobre a questão da testemunha. Parte do teatro não tem a necessidade da presença física?

Então, totalmente. Todo mundo tem me perguntado: “Porra, mas isso é teatro?”, e eu falo: “Porra, é teatro”. Também é teatro, mas busca uma nova linguagem. Tem quem fale que eu quero que o público deixe de ir ao teatro, mas não é isso. É uma soma, não uma ausência, é mais uma forma de a gente se expressar, é mais uma mídia para o artista. É uma busca dessa quarta linguagem que a gente nem sabe o que é ainda – é teatro, é cinema, é um pouco de TV e não é nenhuma dessas três, é uma quarta linguagem. É óbvio que é diferente fazer sem a pulsação do público, sem ele ver o teu suor saindo dos poros, mas a gente faz dentro de um formato acreditando que é teatro, só que com uma câmera como um meio de transmitir isso para quem está longe desse espaço.

E como é a resposta do público?

Temos resposta de inúmeras formas. Fazíamos só uma sala ao vivo – são três virtuais, mas todas são uma sala da minha casa – e agora tentamos fazer quase tudo ao vivo. Nesse ao vivo chamamos o público, começou a ter um público assistindo da sala da minha casa. Mas é minha casa, não posso colocar no jornal falando que vai ter uma apresentação ao vivo e abrir a sala da minha casa. A minha vontade era fazer isso, mas não dá. Então tem atores que querem ver como isso acontece, críticos querendo escrever sobre o projeto, curiosos que mandam e-mail querendo saber como que é isso, então tem o público ao vivo. Na casa virtual também tem o banheiro, um blog de discussão que todo mundo pode participar. As pessoas querem saber mais sobre os textos, mandam aplausos virtuais, é superbacana.

Como vocês sustentam toda a estrutura do projeto? Tem patrocínios?

No começo peguei meu dinheiro e investi para começar o projeto. Vislumbrei, me iludi, que teríamos patrocínio rápido. Seis meses depois, isso ainda não aconteceu. É uma coisa muito nova, as empresas, a mídia, a publicidade ainda não entendem. Está difícil, já acabaram as economias. Eu continuo pagando as pessoas, os autores, os atores, mas simbolicamente. Queria remunerar todos merecidamente, mas ainda não dá. Mesmo assim, o site nunca será pago, nunca vamos ter ingressos, porque o desejo é democratizar a cultura, com um texto de qualidade, com atores de qualidade, em alta definição, da melhor forma possível. Contribuições são bem-vindas, mas precisamos é de um patrocinador, o quanto antes.

Vocês adaptam textos de literatura, encenam contos, romances de autores como Antônio Prata. Como é feita essa escolha?

É uma escolha através de feeling, de experiência. O Antônio Prata foi nosso primeiro autor. Ele falou: “Mas eu não escrevo teatro!”, e eu respondi: “É por isso que eu estou te chamando”. São textos que, ao ler, eu consigo pensar em uma encenação. Tenho recebido textos incríveis, existem muitos autores bons por aí, e vou atrás das pessoas em que acredito. Usamos textos de literatura e quase não adaptamos. Às vezes a gente adapta um pouquinho, mas esse desafio também é um tesão. E, quando há uma adaptação, pedimos para o autor fazer.

As peças encenadas no teatro virtual servem como um exercício para serem levadas para o teatro convencional?

Sim, temos esse projeto. Por isso que eu digo que não é uma forma de ofuscar o teatro. Mas colocar uma peça em um teatro é muito caro, existem inúmeras dificuldades para você poder se expressar. Então, fazemos na sala da minha casa. Mas tudo que sai daqui foi feito para ir aos palcos. O Lourenço Mutarelli escreveu uma minissérie para nós, é a menina dos olhos, que é apresentada na Grande Sala. Ele conheceu os atores e escreveu um texto incrível para eles, chamado Corpo Estranho. Fizemos a primeira temporada, vamos começar a filmar a segunda e com certeza faremos uma terceira. A ideia é juntar essa trilogia e fazer uma puta peça de teatro, o desejo é esse.

Você considera o projeto como uma forma de divulgar o teatro na mídia?

A grande mídia tem espaço para grandes produções, mas são as que quase não precisam mais desse espaço. Quem consegue patrocínio de um dia para o outro é quem quase não precisa de patrocínio. Existem pequenas e médias produções incríveis em termos de conteúdo artístico que a gente vê que não tem esse espaço. Essa nova era digital é a hora para divulgar o teatro. Tem muita coisa bacana na internet que ainda não dá dinheiro, mas essa mídia serve, cada vez mais, como espaço de divulgação.

Quais são os próximos planos do projeto?

A ideia é criar como um Orkut, mas uma rede cultural. Foi assim que pensei, lá no começo. Queria que os autores colocassem os textos no site, daí de repente um ator da Argentina, da Rússia pensasse: “Quero encenar esse texto!”, procurasse um tradutor, montasse a cena, fizesse a peça acontecer dentro do teatro para alguém da casa dele.

E todo mundo poder fazer um Teatro para Alguém?

Eu tenho algumas regras, chamo até de dogmas, de brincadeira. Claro que sim, as pessoas podem fazer um Teatro para Alguém em suas casas, mas o teatro deve ser um espaço vazio, porque o teatro vende ilusão, esse é o trabalho do ator. É preciso ter um mínimo de equipamentos de qualidade, nada caro, mas com qualidade, com refletores, uma câmera que possa transmitir a imagem de uma forma bacana. Não é só pensar: “Ah! Vou fazer uma cena”, ir para cozinha e filmar. Já existe isso no YouTube.

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Manifesto Binário

Publicado pelo cia. catalã La Fura dels Baus, o “Manifesto Binário” é, provavelmente, um dos primeiros documentos que falava de “teatro digital”. Publico aqui a tradução que Lucas Pretti, do Teatro para Alguém, fez para o português, e publicou no próprio blog do TPA semana passada:

Fonte: http://www.teatroparaalguem.com.br/2011/01/manifesto-binario/

Tradução livre: Lucas Pretti, dezembro 2009.

Teatro digital é a soma entre atores e bits 0 e 1, movendo-se na rede.

Atores no teatro digital podem interagir a partir de tempos e lugares diversos… As ações de dois atores em dois tempos e lugares diversos correspondem na rede a infinitos tempos e espaços virtuais.

No século 21, a concepção genética do teatro (da geração ao nascimento da cena) será substituída por uma organização de atividades interativas e interculturais.

Teatro digital se refere a uma linguagem binária conectando o orgânico com o inorgânico, o material com o virtual, o ator de carne e osso com o avatar, a audiência presente com os usuários da internet, o palco físico com o ciberespaço.

O teatro digital da La Fura dels Baus permite interações em palcos dentro e fora da rede, inventando novas interfaces hipermidiáticas. O hipertexto e seus protocolos criam um novo tipo de narrativa, mais próxima dos pensamentos ou sonhos, gerando um teatro interior em que sonhos se tornam realidade (virtual). A internet é a realização de um pensamento coletivo, orgânico e caótico, que foi desenvolvido sem hierarquia definida. O teatro digital se multiplica em milhares de representações, em que os espectadores podem colocar imagens de suas próprias subjetividades, por meio de mundos virtuais compartilhados.

Será que o teatro digital vai perpetuar a Pintocracia? Será que a Vaginocracia eventualmente vencerá? Ou será que ambas se juntarão em perfeita harmonia 0-1?
No teatro digital, a abstração absoluta coexiste com o retorno ao corpo, que pode ter uma dimensão sadomasoquista – tanto quanto uma dimensão sensual, angelical ou orgiástica; ou talvez uma mistura de todas elas.

Por definição, o ato teatral envolve um excesso, um excedente de performance. É o prazer de mostrar e ser mostrado. Uma sensação de identificação é estabelecida entre o ator e a plateia. Como essa identificação funciona no teatro digital? Como uma mão se encaixa numa luva? Como uma extensão de um ser? Pela integração na rede?

A tecnologia digital torna possível o antigo sonho de transcender o corpo humano. Assim, o ciberespaço pode ser habitado por corpos com um novo invólucro de representação, entre a subjetividade e a materialidade.

Temos que deixar nossa própria pele para chegar a uma referência comum de percepção. Os papéis do ator, do autor e da plateia tendem a se misturar.

A cultura digital não significa mais uma tecnologia de reprodução, mas a produção imediata. Enquanto no passado a fotografia dizia “era assim”, congelando um instante, a imagem digital diz no presente “é assim”, unindo o ato real, o teatro, o aqui e agora.

O teatro digital permite que a imagem se altere de uma configuração para outra, atual e virtual, deixando-a em diversos planos: um ícone da síntese que sempre será HUMANO.

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Teoria de apresentação

No site do Teatro para Alguém, na seção Quem Somos, há um interessante tópico chamado “Teoria”, que apresenta sucintamente a questão para quem não a conhece. Segue abaixo esse texto, muito útil como introdução teórica sobre o tema e também uma forma de manifestação das intenções do TPA. Como no post anterior, sublinho algumas partes que julgo interessante e/ou mais importantes, e faço alguns comentários toscos entre colchetes:

Fonte: http://www.teatroparaalguem.com.br/quem-somos/

“A relação entre as artes cênicas e os meios digitais é, hoje, a discussão mais complexa da vanguarda artística contemporânea. A relativização da presença dos espectadores levanta uma questão ainda pouco abordada nos universos do teatro e da performance: como produzir espetáculos e intervenções que levem em conta as características do ciberespaço?
[A relativização da presença é uma das primeiras questões que se desdobram da pergunta fundamental colocada nesse trecho, a saber, como produzir espetáculo/intervenção levando em conta as características do ciberespaço].

O teatro é a arte do encontro. Por isso a influência da realidade digital demorou mais para chegar às artes cênicas do que a outras manifestações artísticas. [Boa resposta sobre a demora do digital ter chegado ao teatro, questão levantada no post anterior.]
Os criadores de músicas e filmes, por exemplo, foram afetados rapidamente pela popularização da internet e dos novos hábitos trazidos com a cultura digital, mesmo porque a reprodutibilidade técnica é inerente à produção dessas artes. É simples, hoje, trocar arquivos de áudio e vídeo via rede, criar produtos culturais colaborativamente e estudar as linguagens trazidas pelo novos comportamentos e meios técnicos.

O conceito de “teatro digital” é mais recente. Os primeiros estudos, feitos fora da academia por companhias independentes pelo mundo, datam de 2007, ano da publicação do Manifesto Binário pelo coletivo espanhol La Fura dels Baus. [Disponível neste link, e reproduzido no post seguinte]. As pesquisas sobre o tema se basearam, a partir de então, na desconstrução do espaço e do tempo (e portanto da estrutura tradicional de espetáculos) e na relativização do contato físico tanto entre atores quanto entre atores e público. Mas os poucos escritos sobre a relação entre teatro e o espaço binário da internet ainda carecem de experiências que se disponham a testar conceitos e discutir um dos principais aspectos da sociedade atual, a comunicação digital em rede.

Eletrônico ou digital?

É importante diferenciar os conceitos de eletrônico e digital, termos de natureza semelhante mas significado bem diferente. Digital diz respeito à comunicação em dígitos, sequências de 0 e 1 decifradas por computadores. Eletrônico é qualquer efeito que se utilize de sistemas elétricos e mecânicos ao mesmo tempo, em maior ou menor grau (iluminação, projeção de vídeo, sonorização). Portanto, espetáculos digitais são aqueles concebidos e recebidos através de dígitos, na tela do computador, numa realidade de simulacro.

Quando se fala aqui em linguagens que levem em conta o teatro digital não se está se referindo apenas à tecnologia audiovisual envolvida na produção do espetáculo. A câmera é fundamental no processo, claro, mas qual é o papel da câmera num espetáculo transmitido ao vivo pela internet? Há muito mais possibilidades do que as já fartamente exploradas pelo cinema, quando o produto final era assistido já finalizado, não durante a criação, ali, na frente do espectador.”

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Textos jornalísticos sobre teatralidade digital (1)

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Começarei aqui a publicação de textos jornalísticos sobre o grupo Teatro para Alguém, a partir inicialmente do excelente clipping disponível na seção Imprensa do site. Na maioria delas, a discussão vai para a teatralidade digital, porque o Teatro para Alguém é quase sempre retratado como um caso novo e exemplar desse novo tipo de prática teatral – ou seja lá qual o nome que tu queira dar ao tipo de prática que usa técnicas do teatro e tem uma relação intrínseca com as mídias digitais e a cultura digital.

A ordem das matérias dessa primeira seção é periódica, da mais antiga pra mais recente. Começarei com um texto publicado na seção de teatro da Globo, que apresenta o grupo e a questão. Em negrito, alguns trechos aleatoriamente escolhidos para serem destacados.

DRAMATURGIA CAI DE VEZ NA WEB E MUDA SUA RELAÇÃO COM O PÚBLICO

Fonte: http://www.agentesevenoteatro.com.br/reportagem/index/17 (13/10/2009)

Muitos dizem que a magia do teatro está no jogo ao vivo com a platéia, no efêmero. Assistir, portanto, uma peça pela Internet é teatro? [De cara, apresenta a questão fundamental e mais comum ligado ao teatro na web]. Para a atriz e diretora Renata Jesion, com certeza. Desde 2008, ela comanda o Teatro Para Alguém, projeto via internet que disponibiliza montagens de pequena ou longa duração para serem vistas de qualquer lugar e a qualquer hora, gratuitamente. “A idéia é democratizar a cultura de forma abrangente,” defende ela. “Queremos fazer com que o teatro alcance pessoas que nunca viram uma peça na cidade delas ou que tem pouco acesso a atividades culturais.”

Tudo funciona dentro de uma casa, literalmente. Como as apresentações e filmagens acontecem na sala de estar de Renata, o site segue este formato, com espetáculos divididos por cômodos. A Grande Sala, a Sala de Estar e o Sótão estão reservados para as produções que estão em cartaz. No Porão, estão arquivadas antigas apresentações. No Hall, contatos e informações adicionais. Já o Quarto traz memórias e lembranças da casa, com imagens das encenações, enquanto o Banheiro é onde o público registra seu comentário.

As produções estréiam ao vivo e permanecem em cartaz durante um mês – com exceção da miniemsérie “Corpo Estranho”, de Lourenço Mutarelli, que tem duração de até dois meses, com atualizações dos episódios duas vezes por semana. Por lá já passaram produções como “Por Conta da Casa”, de Sergio Roveri, “121.023J”, da própria Renata, “Socorro, Que é Muito Respeitadora”, de Marta Góes, entre outros. O mais recente é “Doido”, monólogo de Elias Andreato, a primeira das montagens em cartaz simultaneamente na web e no Teatro Eva Herz (tel.: 3170-4059, para maiores de 14 anos, até dezembro). Para a versão digital, a peça sofreu pequena edição para chegar a cerca de 30 minutos de duração (tem originalmente 60’) e, após a estréia ao vivo, está disponível dividida em atos de 10 minutos.

O diálogo entre o teatro e as mídias digitais não é novo. Muitas montagens já utilizaram diversas ferramentas tecnológicas, como transmissão ao vivo via skype, entre outras façanhas. [Aqui, atenção ao fato, corriqueiro, de confundir o USO de mídias digitais com uma teatralidade que é pensada e feita para as mídias digitais/web, que será abordado na sequência da matéria]. Com uma pequena busca em sites de vídeos, é possível encontrar inúmeras gravações, boa parte caseira e ruim, com trechos de espetáculos nacionais. Mas, de fato, o Teatro Para Alguém inovou por estar inteiramente focado na exibição via web, com narrativas e filmagens feitas especialmente para o formato digital. [Aqui].

“Nossa grande preocupação é publicar montagens de qualidade e conteúdo, com nomes importantes da nossa dramaturgia”, afirma Renata. Outros artistas já embarcaram na tendência, como é o caso de Carolina Ferraz, que produziu, roteirizou e protagonizou curtas-metragens em que vive diversas personagens no projeto Histórias de Amor. Já Antonio Fagundes apostou no veículo digital para mostrar ao público o bastidor teatral, reunindo entrevistas com profissionais do ramo.

Para a diretora, a chegada do teatro na web trata-se de um caminho natural, já percorrido por outras artes. “Assim como a música, o teatro começa o seu processo de descoberta dentro da era digital.”[É de se notar que, ao final da década de 2000, com pelo menos 15 anos de existência do computador pessoal, o teatro "começa" o seu processo de descoberta na era digital. Porque essa demora - ou a demora em, pelo menos, se fazer notar este uso do digital no teatro -  em adentrar o digital é algo que quero entender no decorrer da pesquisa].

Renata admite que se lançou em um universo até então desconhecido. “Nunca fui uma pessoa ‘internética’”, diz. “Mas Internet é a bola da vez. Começamos o projeto sem saber direito aonde ele ia dar, pois queríamos descobrir como usufruir desta mídia. Com quase um ano de funcionamento, me surpreendi como o canal foi bem aceito. Grupos de até outros países querem encenar no nosso site”. [ O que demonstra, de alguma forma, que é sim uma novidade o fato de uma cia. exibir peças estritamente na web].

Assim como as produções convencionais, o Teatro Para Alguém enfrenta o dilema do patrocínio. “A gente quer crescer, ampliar, mas não temos condições sem apoio de empresas”. Mas confessa que a relação com o patrocinador mudou com o sucesso do projeto. “Se antes as portas eram fechadas, atualmente já estamos sendo procurados por patrocinadores que querem entender essa brincadeira e fazer parte dela”. O site recebe cerca de mil visitas por dia – um dado que motiva investidores culturais. “É ter um Sérgio Cardoso lotado diariamente”, compara a diretora

[É uma relação a se questionar. A presença de uma pessoa no teatro é, digamos, muito mais efetiva do que a presença de alguém numa página web. Ademais, os números - 1000 visitas por dia - contabiliza desde pessoas que passaram 1s pelo site a outros que ficaram todo o tempo da apresentação da peça, portanto um público muito heterogêneo. É de se questionar se esta "presença" na web, muito mais dispersa do que a em um teatro, pode  - e provavelmente afeta - a estética da produção dessa peça, que deve ser pensada já contando com essa natural dispersão cognitiva] . Já em semanas de estréia, este número salta para até duas mil visitas por dia, sendo que aproximadamente 500 pessoas conseguem acompanhar a apresentação ao vivo.

Sobra tempo para o teatro convencional? “É claro!” A idéia é num futuro próximo estrear em São Paulo uma montagem que também será transmitida ao vivo, a temporada inteira. “A gente não está aqui para ofuscar o teatro clássico ou mudar o jeito de fazer, queremos ser mais uma porta para quem não tem acesso a ele.”

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À guisa de um começo

Este blog começa hoje, 17 de janeiro de 2011, como resultado de um projeto de pesquisa que foi contemplado com a Bolsa Funarte de Reflexão Crítica em Mídias Digitais de 2010. O nome original do projeto é “O efêmero em questão: produção de um livro-reportagem sobre teatro na internet a partir do caso do Teatro para Alguém“, que obviamente trata-se de um estudo, a ser publicado em livro ao final do 1º semestre de 2011, sobre teatro na internet a partir do caso do grupo paulista Teatro para Alguém, primeira cia. de teatro a produzir peças exclusivamente para a web.

O projeto de pesquisa, que pode ser visto na íntegra por aqui [antes de clicar e ler, considere que todo projeto não passa disso, um projeto, e tente assim desconsiderar algumas inocências típicas de projeções], consiste da produção de um livro-reportagem centrado na observação/entrevista com o pessoal do Teatro para Alguém recheado com outras entrevistas e mais pesquisas bibliográficas. Na medida do possível, publicarei todas as entrevistas na íntegra por aqui, em texto e áudio (possivelmente em vídeo), assim como os fichamentos que realizarei durante estes seis meses de pesquisa. A ideia é disponibilizar no blog todo o material de pesquisa, bem como impressões no calor da hora e aportes de quem quiser ajudar, porque esse projeto, afinal de contas, tem financiamento público, e pra mim é uma obrigação e um prazer torná-lo o mais transparente e aberto possível.

Alguns podem perguntar o porquê do “teatralidade” em vez do teatro. A questão é que o que sempre caracterizou o fazer teatral, desde os primórdios tempos da Grécia Antiga até hoje, é a questão da presença, do efêmero, do aqui e agora, e não do depois. Por conta disso, o termo “teatralidade” talvez seja mais correto do que “teatro”, já que muitos não consideram teatro aquilo que, por exemplo, é feito no Teatro para Alguém.

Mas outros podem perguntar: se não é teatro, é o quê? É justamente essa pergunta que motiva esta pesquisa. Continue por aqui que, provavelmente, até o fim de julho de 2011 você terá algumas respostas.


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