I make my money with bananas

{primeiro passo para desenvolver uma real estética da banana}

carmenI’d love to play a scene with Clark Gable
With candle lights and wine upon the table
But my producer tells me I’m not able
‘Cause I make my money with bananas1

Quando a artista brasileira Carmen Miranda se tornou a mulher mais bem sucedida do show business norte-americano na década 19402, a cultura de um país se viu comprimida no estigma de um único fruto: a banana. Seus turbantes cheios de frutos e ornamentos tropicais causaram furor na indústria do entretenimento estrangeira, de tal forma que Carmen ficou conhecida como “The Brazilian Bombshell”. O seu talento como cantora e performer, porém, muitas vezes foi ofuscado pelo caráter exótico de suas apresentações e pelo imaginário arquetipado por uma cultura estrangeira acostumada com climas mais temperados.

Já perto do fim de sua vida, a pequena granada tentou reconstruir sua identidade e fugir do enquadramento que seus produtores e a indústria tentavam lhe impor, mas sem conseguir grandes avanços. A luta instigou com que compusesse a música “I Make My Money With Bananas”, em que tenta demonstrar de forma irônica os anseios de ser esteriotipada pela indústria e, por causa disso, ganhar mais dinheiro do que o ator Mickey Rooney. Seu inglês carregado propositalmente no sotaque foi considerado como um demonstrativo de sua ignorância, o que foi imortalizado pela expressão “Bananas is my business”. Em vez de entenderem as críticas ao produtor que não a deixava atuar com estrelas como Clark Gable, o público recebeu a obra como um demonstrativo de inferioridade cultural e caráter exótico de suas performances.

O estigma da banana não é algo restrito apenas à cultura brasileira, embora as primeiras plantações do fruto no continente tenham começado durante a colonização portuguesa entre os séculos XV e XVI. Ele se expande por toda região latino-americana. Foi por meio do crescente mercado nos Estados Unidos logo após a Guerra Civil que a banana se tornou popular pelo Caribe e alguns países da América do Sul. Em 1870, o capitão Lorenzo Dow Baker importou o fruto da Jamaica para vender em Boston com uma margem de lucro de cerca de 1,000%, graças ao seu baixo custo e aspectos nutritivos. Vendo o potencial comercial do fruto, Henry Keith, um grande empresário de ferrovias, iniciou diversas plantações ao redor de suas linhas de trem, como forma de alimentar seus operários. O sucesso do empreendimento foi tanto que, no meio da década de 1870, Keith fundou a Tropical Trading and Transport Company, que mais tarde se tornaria a United Fruit Company e dona da marca Chiquita Brands International. Com o mercado consumidor de bananas crescendo, as plantações nos países caribenhos e sulinos aumentaram, assim como a influência de empresas norte-americanas na região – o que, mais tarde, gerou o termo “Banana Republics” e inspirou Pablo Neruda a compor um poema (veja apêndice) apenas sobre o tema. Hoje, só o Equador representa 29% do mercado de exportação de fruto, à frente da Colômbia e Costa Rica que, cada, é responsável por 10%.

What I do is the bunch chic chic
I’m getting sick of the bunch chic chic
My throat is troubled ay ay ay
She can see ky-ky-kow —— boy!

Este imaginário provocado pela banana e a estigmatização de várias culturas latinas sob o mesmo fruto instigaram a criação de diversos artistas contemporâneos. A banana, por fim, é usada para criticar a visão exterior que se tem de culturas isoladas dos eixo Norte-Ocidental e para questionar a própria identificação e produção artística de um país.

O artista mexicano baseado em São Paulo, Brasil, Hector Zamora, por exemplo, usou as plantains para suas instalações “Delirio Atopico (Atopic Delirium)” (2009) no centro de Bogotá, na Colômbia, como forma de criar questionamentos econômicos e políticos na região. Para as instalações, o artista usou dois diferentes prédios, um próximo ao outro e com grandes janelas transparentes, para ocupar os apartamentos com o fruto de forma que desse a impressão de superprodução. Os transeuntes viam as fachadas dos prédios como se as plantains estivessem vazando pelas janelas. Uma explosão de bananas. Zamora instalou bananas verdes, bem no início de seu processo de maturação, para que as tonalidades de cores mudassem conforme o tempo. Assim, de verde passa para o amarelo; do amarelo para o marrom e, por fim, do marrom para o preto. A cultura colombiana é uma das únicas que usam o fruto em seus diferentes estágios de maturação, o que caracteriza a obra como uma clara relação do fruto com a cultura nacional. Além disso, a explosão de bananas nos edifícios causa a impressão de que o fruto substituiu as pessoas que poderiam ocupar esses apartamentos, como uma sobreposição de um imaginário sobre a veracidade do dia a dia da realidade colombiana. A fruta se sobrepõe à condição de ser humano.

Os trabalhos de Zamora procuram ter uma forte relação com o contexto em que se está trabalhando. Em 2010, a pedido do Instituto Itaú Cultural, também sediado em São Paulo, Zamora pendurou seis mudas de árvore sobre o rio Tamanduateí como forma de questionar a canalização de vias fluviais e o aumento expansivo de vias para trânsito na cidade. A obra “Errante” (2010) foi a maneira do artista de questionar a solução de sintomas, em vez dos reais problemas, em uma cidade hiper caótica e sem políticas urbanas estruturais sérias e de longo prazo. A floresta suspensa tenta descrever uma possível cidade que não existe. Uma fantasmagórica idealização de um projeto urbano mais focado na qualidade de vida do que na pavimentação de espaços para o tráfego de carros.

As bananas usadas para “Delirio Atopico (Atopic Delirium)” representam esta ponte entre a cultura local e a realidade sócio-econômica da região. A carga simbólica que o fruto carrega nas culturas latinas facilmente conecta com o dia a dia do público, provocando uma identificação que, muitas vezes, não é necessariamente positiva. A percepção do que é produzido nos países principalmente da região sul da América fica restrita apenas às bananas, ignorando que há vida além da simbologia do fruto.

Esse valor simbólico também pode ser encontrado nas obras do artista brasileiro Paulo Nazareth. Em “Banana Market/Art Market” (2011), por exemplo, Nazareth estacionou uma Kombi verde durante a feira de arte Art Basel Miami e a carregou com dezenas de cachos de bananas. A obra-performance consistia em assinar e vender cada unidade por $10 como uma forma de 1) relacionar a produção artística contemporânea dos países latino-americanos, 2) mostrar o valor simbólico que o fruto tem na realidade do “mundo da arte” e 3) questionar o próprio mercado de obras de arte. Além disso, Nazareth carregava uma placa escrito “My image of exotic man for sale” e cobrava apenas $1 por um retrato seu.

Ao reafirmar seu caráter exótico e explorar a simbologia do fruto, Nazareth pode ser facilmente comparado ao imaginário criado e reforçado por Carmen Miranda. Ambos construíram suas carreiras (Miranda na indústria do entretenimento e Nazareth no “paradigma da arte contemporânea”) baseados em estereótipos e arquétipos de uma cultura latino-americana. Potencializam e exploram o considerado exótico em sua produção artística como forma de questionar e demonstrar a recepção de seus trabalhos que foi resumida e condensada em apenas um fruto: a banana.

No fim, há um ciclo vicioso entre a recepção da cultura latina (que explora o exótico) e a produção forçada dos artistas a ser exótica. Isso é explícito no caso de Nazareth, que entende muito bem as construções e percepções da cultura latina no exterior. Para ser aceito no “paradigma da arte contemporânea”, Nazareth reforça os estereótipos em sua produção, que casa perfeitamente com a ânsia do mercado da arte de explorar este imaginário. O mercado demanda o exótico, o artista o produz como forma de questioná-lo mas ao mesmo tempo ser “aceito” e, por fim, o mercado o reforça. Mesmo tentando criar uma crítica a este tipo de recepção, o artista e a produção ficam estigmatizados pela vontade de ver o outro como algo tão irreal que, automaticamente, alcança o status de arte, de performance, de uma commodity a ser explorada e reforçada.

Isso fica ainda mais claro no trabalho de um outro artista brasileiro, Breno Pineschi. Durante as Olímpiadas de Londres, a Secretaria de Cultura do Rio De Janeiro enviou à cidade inglesa 29 artistas cariocas para promover o projeto “Rio Occupation London”. Pineschi ficou em residência no The Victoria and Albert Museum durante o mês de julho de 2012 produzindo oficinas e convocando o público da instituição a montar diversas bananas coloridas de papel que o artista espalharia pela cidade. Os “Tropical Clusters” (2012) são intervenções em postes e estruturas urbanas nos quais Pineschi pendura cachos de bananas coloridas. De acordo com o artista, é uma forma de atrair a atenção do público e convidá-lo a “comer a cultura carioca”. O uso da simbologia da banana, mais uma vez, é o meio para reforçar e ilustrar a cultura de uma região da América Latina e, neste caso, mais especificamente da cultura do Rio de Janeiro, conhecida tradicionalmente como “Brazil for export”. Explora-se o imaginário do exótico como forma de promover a cultura local, mas ao mesmo aumenta-se o estereótipo e esta demanda pelo “tropical”.

Oh, but if I quit my job it’s not disturbing
I’d use very often a liter of bourbon
‘Cause I can sit and in one minute eat my turban
And still make my money with my bananas
It isn’t even funny that I make a little more money
than that little Mickey Rooney with bananas!

Desde a época da Carmen Miranda há em vão a tentativa de quebrar estes paradigmas impostos às diversas culturas. A pequena granada achou que uma música questionando o seu “ganha-pão”, talvez, gerasse mais discussões e a libertasse de preconceitos e estereótipos referentes à sua nacionalidade e cultura. Foi em vão. E desde aquela época, da primeira metade do século passado, as culturas latino-americanas se vêem enclausuradas em um único fruto. Por esse apego quase inseparável, a banana virou uma commodity para o “paradigma da arte contemporânea” e uma ditadura criativa. Se um artista quer fazer parte do mundo da arte, que ele explore e contemple o exótico do caráter tropical. No fim, é uma luta sem fim. É uma batalha entre dois lados pelo mesmo símbolo como meio de garantir que o ciclo nunca termine. O escritor brasileiro Machado de Assis, em 1891, em sua obra “Quincas Borba”, por meio de um cachorro filósofo, descreve a situação de duas tribos que entram em conflito para garantir seu sustento. Ao finalizar a luta, em que só pode sobrar um, conclui: “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.

Sem problemas, I make my money with bananas.

APÊNDICE

“La United Fruit Co.”
Cuando sonó la trompeta, estuvo
todo preparado en la tierra,
y Jehova repartió el mundo
a Coca-Cola Inc., Anaconda,
Ford Motors, y otras entidades:
la Compañía Frutera Inc.
se reservó lo más jugoso,
la costa central de mi tierra,
la dulce cintura de América.

Bautizó de nuevo sus tierras
como “Repúblicas Bananas,”
y sobre los muertos dormidos,
sobre los héroes inquietos
que conquistaron la grandeza,
la libertad y las banderas,
estableció la ópera bufa:
enajenó los albedríos
regaló coronas de César,
desenvainó la envidia, atrajo
la dictadora de las moscas,
moscas Trujillos, moscas Tachos,
moscas Carías, moscas Martínez,
moscas Ubico, moscas húmedas
de sangre humilde y mermelada,
moscas borrachas que zumban
sobre las tumbas populares,
moscas de circo, sabias moscas
entendidas en tiranía.

Entre las moscas sanguinarias
la Frutera desembarca,
arrasando el café y las frutas,
en sus barcos que deslizaron
como bandejas el tesoro
de nuestras tierras sumergidas.

Mientras tanto, por los abismos
azucarados de los puertos,
caían indios sepultados
en el vapor de la mañana:
un cuerpo rueda, una cosa
sin nombre, un número caído,
un racimo de fruta muerta
derramada en el pudridero.
[Pablo Neruda, from Canto General (1950)]

1Letras da música “I Make My Money With Bananas”, por Carmen Miranda
2Em 1945, ela era a mulher mais bem paga dos Estados Unidos, de acordo com o artigo na Wikipedia sobre a artista: http://en.wikipedia.org/wiki/Carmen_Miranda (acessado em May 19th, 2013)

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