Seguindo o Museu Cortejo, unidos e embalados por canções e marchinhas de luta e alegria, os cerca de 40 participantes da Teia da Memória – representando 16 comunidades das cinco regiões do país – finalizaram o encontro das iniciativas dentro da Teia Brasil 2010- Tambores Digitais, no domingo (28), percorrendo o Dragão do Mar, levantando a bandeira de um futuro promissor rumo ao direito à memória.

O evento não só proporcionou o compartilhamento de ideias, anseios, desafios e definição de estratégias, como também marcou a parceria, no primeiro dia (26), entre a Secretaria de Cidadania Cultural (SCC/MinC), com o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram/MinC), afim de integrar os Pontos de Memória ao Programa Cultura Viva, assegurando mecanismos de investimentos para o desenvolvimento da iniciativa e integração aos Pontos de Cultura.

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Para Jô Brandão (foto1), coordenadora de ações ligadas à SCC/MinC, a proposta do Projeto Pontos de Memória, que vem apoiando comunidades que já realizam ações de memória, merece o apoio da secretaria pois seguem a mesma linha de atuação dos pontos de cultura e a filosofia do “do-in antropológico”, criada pelo ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil.

Desde a primeira Teia da Memória, em Salvador, no ano passado, percebemos essa interação com a proposta dos Pontos de Cultura. Desde então, o projeto Pontos de Memória está ‘no nosso colo’, sendo tratado com cuidado, porque sabemos da importância da memória para o fortalecimento do processo de identidades das populações que não foram reconhecidas pela história oficial, disse Jô Brandão.

A coordenadora de Museologia Social e Educação do Ibram, Marcelle Pereira, enfatizou o resultado positivo da parceria. “É uma alegria para o Ibram apoiar esta iniciativa de transformação social através da memória. A integração é um avanço. Saímos daqui fortalecidos e com o espírito multiplicador”.

O primeiro dia de encontro também contou com a apresentação da representante da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI), Cláudia Castro, e com palestra de um dos sócio-fundadores do Museu da Maré, no Rio de Janeiro, Antônio Carlos Vieira, que falou sobre a experiência do museu pautada no protagonismo comunitário.

Na ocasião, Carlos Vieira convidou os participantes a refletir sobre o poder transformador da memória. “Falar de memória e falar da vida e do tempo. Memória são experiências vividas e também pode ser a construção do que não vivemos. Como pontos de memória temos a possibilidade de legitimar nossa história a partir da nossa perspectiva”.

No segundo dia foi apresentado o leque de propostas de oficinas a serem oferecidas pelo Ibram e, em grupo, foram elaboradas as proposições apresentadas na plenária Teia das Ações e no III Fórum Nacional dos Pontos de Cultura.

As propostas passam pela integração dos Pontos de Memória ao Programa Cultura Viva, respeitando suas especificidades e necessidades. Desta forma, foram garantidos mecanismos de financiamento e desenvolvimento à criação de um grupo temático denominado “Memória e Museus”, na instância do Fórum Nacional dos Pontos de Cultura, para propor políticas públicas para o setor.

O terceiro dia de encontro também foi marcado pela palestra sobre inventário participativo do coordenador de Patrimônio Museológico do Ibram, Cícero de Almeida. Ele lembrou que o inventário deve lidar com as várias forças representativas da comunidade, em harmonia, e que a participação tem de pressupor a capacidade de lidar com a diferença. “A participação é o grande foco deste projeto. Durante o inventário, o grande desafio é perceber a igualdade na diferença e a diferença na igualdade. O que selecionar? Selecionar é pensar no conjunto complexo de possibilidades em conjunto com a vida.”

Para finalizar, a Roda de Memória propiciou integração entre os representantes dos pontos, que puderam contar histórias da comunidade e falar sobre as expectativas. “As pessoas estão perdendo a memória do bairro. Mas acredito que este momento marca o começo de uma grande história, com diversas representações da comunidade se organizando pela mesma questão. O museu vai ajudar o Sítio cercado, que só é lembrado como lugar de violência, disse Palmira de Oliveira, do Museu de Periferia – MUPE, do Sítio Cercado, em Curitiba.

Livaldo Degásperi apresentou a proposta do Ponto de Memória de São Pedro, no Espírito Santo, pautada na história de luta pelo território, registrada através das Ruas da Resistência, Conquista, Luta e União.

Emília de Souza, do ponto de memória do Horto, no Rio de Janeiro, levantou o conflito que a comunidade vem enfrentando pela permanência no bairro e o papel da memória nesse combate. “ Sabemos que a memória é tão importante que os inimigos querem se apropriar dela.  Esse é o nosso maior instrumento. A comunidade está coesa se apropriando da idéia do Museu de Percurso Vila do Horto.”

Rildo Fernandes, da comunidade do Coque, em Recife, disse que o local é um ponto turístico que precisa ser revitalizado e ter a sua história contada. “Acredito que com o Museu do Mangue do Coque esse quadro vai mudar para o homem-caranguejo. Quem não sabe nadar e dançar não pode viver no coque,” finalizou com aplauso do grupo.

“Saio daqui mais fortalecida, com muita vontade de trabalhar e colocar nosso museu para funcionar, disse Deuzâni Noleto, do Ponto de Memória da Estrutural, no Distrito Federal.”

Pontos de Memória – O Ibram acredita que o direito à memória precisa ser conquistado, mantido e exercido como direito de cidadania, como direito que precisa ser democratizado e comunicado entre os diferentes grupos sociais existentes no Brasil. É por esse direito e luta que está desenvolvendo o Projeto Pontos de Memória – resultado de parceria com o Programa Mais Cultura e, agora, com a Secretaria de Cidadania Cultural, do Ministério da Cultura, o Programa Nacional de Segurança com Cidadania – Pronasci, do Ministério da Justiça, e a Organização dos Estados Ibero-americanos.

O projeto vem apoiando ações de memória em comunidades de todo o Brasil. Estão em fase de consolidação 12 Pontos de Memória, situados em comunidades populares nas cidades de Belém- PA, Belo Horizonte – MG, Brasília – DF, Curitiba – PR, Fortaleza – CE, Maceió – AL, Porto Alegre – RS, Recife – PE, Rio de Janeiro, Salvador – BA, São Paulo – SP, Vitória – ES.

Também estão em desenvolvimento, com apoio do Ibram, iniciativas comunitárias a partir da realização de oficinas temáticas e consultorias técnicas e grupos envolvidos nas ações de preservação da memória local. Como exemplo de tais iniciativas, destacamos o Ecomuseu da Amazônia (Belém – PA), os Museus Sankofa da Rocinha e Vila do Horto (Rio de Janeiro – RJ) e o Museu Vivo do São Bento (Duque de Caxias – RJ).

Por Sara Schuabb Couto

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