História de conquistas / Foto: Tatiana Diniz

Às 10h30 da manhã de 25/03, a pernambucana Andresa Wanderlúcia de Souza recebeu um telefonema. Precisava sair da sua casa no Morro da Conceição e embarcar num vôo Recife-Fortaleza para participar da Teia 2010: tambores digitais. Tinha uma hora e meia. “Enfiei numa mala o que consegui, esqueci metade das coisas. Mas consegui pegar o avião”, conta.

Andresa sabia que vir ao encontro era importante. Delegada representante do Ponto de Cultura Negras Raízes, ela participaria de discussões relevantes para o futuro do Centro de Formação do Educador Popular Maria da Conceição, do qual faz parte. O trabalho do centro ganhou impulso quando virou Ponto de Cultura em 2006, mas já existia há mais de 20 anos. Foi ampliado e hoje atinge crianças e jovens de três quilombos urbanos e mais três rurais, com uma proposta que otimiza a educação a partir da cultura. “A ideia é desenvolver estratégias para que esses quilombos se sustentem, além de fazer um levantamento de suas histórias e tradições”, explica.

A ligação de Andresa com essa abordagem transformativa se mistura à história da sua própria vida. Foi na escolinha do centro no Morro da Conceição que ela cursou o ensino fundamental. Foi lá também onde conseguiu o primeiro emprego, como auxiliar de sala de aula. Virou secretária e administradora, posto que já ocupava na longa espera de um ano pela liberação do recurso e no desafio de utilizá-lo adequadamente. Hoje ela cursa o primeiro semestre de administração, mas comenta que aprendeu a administrar na prática: “Entrei na faculdade por necessidade, já havia assumido a função. Agora vou conquistar o diploma.”

Na Teia 2010, Andresa se inscreveu no Grupo de Trabalho sobre sustentabilidade. Refletir sobre como os Pontos de Cultura conseguirão se manter é, hoje, um dos maiores desafios da proposta. Some-se a isso a necessidade de pensar sustentabilidade a partir de seus três pilares: o econômico, o social e o  ambiental.

Na sala de cinema 2 do Dragão do Mar, representantes de vários Pontos de Cultura compartilharam experiências e dúvidas sobre o tema, elegeram um representante e redigiram quatro propostas levadas à plenária na tarde de ontem. O voto de Andresa foi mais um passo num processo em que atores sociais, pela primeira vez na história do país, participam ativamente da elaboração das políticas públicas culturais.

Andresa se orgulha disso e observa que sua trajetória poderia ter sido muito diferente. Conta que teve o primeiro filho aos 16 anos, o segundo em seguida. Parou de estudar, voltou para a escola, desistiu outra vez, fez supletivo. Por muito tempo não imaginou que cursaria uma universidade. “Foram muitas conquistas. O centro foi o incentivo para que eu trabalhasse, a chance de não perder meu futuro, nem o futuro dos meus filhos. Como Ponto de Cultura ganhamos um apoio financeiro, mas o reconhecimento e a visibilidade das nossa ações foi o mais importante”, avalia.

Com um abraço ela se despede, seu vôo de volta sai às 5h. No seu currículo entra mais uma Teia, como as de São Paulo e Brasília, das quais também participou. Há dez anos, lembra, não costumava viajar, saía pouco do Recife. “Toda vez, embarco com uma mala e volto com duas. A segunda é a melhor bagagem que carrego: vai lotada de conhecimento e experiência”, conclui.

Por Tatiana Diniz

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