TRADIÇÃO E CONTRADIÇÃO – Davy Alexandrisky

Davy AlexandriskyDentro da lógica que preside o comportamento aqui no feicibuqui seria muito razoável que ao invés de escolher o título acima para essa postagem eu escolhesse: HOJE COMI BIJU! (ou beiju – já vi grafado das duas maneiras).

Porque realmente é verdade: hoje comi biju na casa de farinha da Aldeia 2 Irmãos (vou optar por essa grafia).

É um biju um pouco diferente do que é vendido tradicionalmente nos tabuleiros das baianas do Rio de Janeiro, ou os industrializados, comprados em supermercados.

Primeiro porque é mais grosso e menos seco e as índias/nativas, misturam coco ralado à goma da tapioca. Segundo porque tem outras versões mais úmidas, feitas enroladas na folha de bananeira ou mesmo planas, assadas direta no “forno” (grande tabuleiro metálico, aquecido à lenha, aonde a mandioca/aipim ralada e prensada é seca para se transformar em farinha).

Índias/nativas justifica o título: “Tradição e contradição”.

Estou residindo na Aldeia 2 Irmãos, mas desenvolvendo minha proposta em mais outras três Aldeias Pataxós relativamente próximas umas das outras (de carro a maior distância, de uma ponta a outra é percorrida em menos de meia hora).

Em cada uma dessas aldeias tenho tomado o cuidado de perguntar como a pessoa quer ser tratada, porque assim como na questão do tratamento dos afrodescendentes, aonde há Movimentos que fazem questão do tratamento: negro, enquanto outros exigem o tratamento: preto, aqui tem gente que diz que: “índio é quem mora na Índia” e quer ser tratado por nativo, enquanto outros fazem questão de serem chamados de índios.

Aliás, também já vi esse tipo de discussão em relação aos “aglomerados urbanos de baixa renda”, entre os que exigem o tratamento de comunidade enquanto outros fazem questão de usar o nome favela.

Outra diferença marcante de pensamento entre alguns e algumas índias/nativas é com relação à forma de se vestir: alguns/algumas acham importante representarem a “causa indígena” com cocares, tangas e pinturas, enquanto outros/outras consideram “ridículo terem que se fantasiar para serem reconhecidos como índios” (repetindo uma frase falada por uma mulher que faz questão de ser chamada de índia).

Mas não se trata de uma diferença de “escolha cultural hegemônica” entre as Aldeias 2 Irmãos, Kaí, Pequi ou Tibá, aonde estou trabalhando. Não! Há diferenças de entendimento sobre esse e outros temas entre os habitantes dentro de cada uma dessas aldeias, que são sustentadas por argumentos muito sólidos, dos dois lados.

A grande lição que a vida me deu é que cada um de nós é um “território cultural único”. Que convive – harmonicamente ou não – com outros “territórios culturais únicos”.

O exagero rodriguiano decretou que toda unanimidade é burra, o que nas entrelinhas refuta a ideia de hegemonia de pensamento, numa apoteótica celebração à diversidade.

Afinal, quem é igual???

Davy Alexandrisky

https://www.facebook.com/davy.alexandrisky

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