Experiência e ocupação

Laboratório, partilha e empoderamento

por Fernanda Carvalho da Silva

Um dos propósitos dos Centros de Artes e Esportes Unificados (CEUs) é unir pessoas para que saiam de suas casas de modo a ocuparem essa Praça, misturando gerações. O público é nossa razão de propor atividades culturais. E queremos mais que um único público. Queremos um público diverso: crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos, pessoas com deficiência. Todos juntos e aprendendo entre si a experiência de cada um.

O grande desafio dos ocupantes é formar esse público e conscientizá-lo da importância dessas praças para sua cidadania, empoderamento local e valorização das cidades participantes pelo seu próprio povo.

A formação é também a conscientização do indivíduo como parte integrante do ambiente cultural onde ele deve estar inserido como sujeito ativo dos processos formativos culturais e/ou esportivos.

Pensamos que – para além das atividades propostas pelos bolsistas autores de projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e aplicados nos municípios selecionados – o público é o ator principal desse grande palco, que são as Praças do CEUs.

Mas não adianta apenas formar os frequentadores. Gestores locais precisam estar mais envolvidos com as Praças e conhecer seu público e as barreiras e limitações do entorno para tentar eliminá-las. Para isso, as ocupações precisam ser contínuas com um tempo mais longo para as ações.

Há uma grande diversidade de pessoas que circulam nas quadras, nos laboratórios, nas bibliotecas, nas salas multiuso, no auditório-teatro, nas pistas de skate, etc, dos CEUs. E quem recebe, acolhe e dá hospitalidade e assistência a elas?

Precisamos formar quem está dentro da Praça para promover a acessibilidade cultural. Profissionais que trabalham nesses espaços precisam estar preparados para conviverem com a diversidade. Urge desenvolver ações de sensibilização e conscientização em cursos de formação para quem trabalha nos CEUs.

Quando fizemos algumas atividades do nosso projeto Transversalidades em Águas Lindas de Goiás, pensamos: e se um participante cego, por exemplo, quisesse participar das atividades? Para nós não seria uma surpresa e seria uma presença importante, pois já temos o compromisso e a responsabilidade de trabalharmos a inclusão em projetos socioculturais (tanto é que em nosso site já audiodescrevemos os registros fotográficos). O que nos chamaria a atenção não seria a cegueira, mas sim a dificuldade de um cego chegar até as oficinas pelas barreiras encontradas pelo caminho. O CEU já possui equipamentos acessíveis (para os cegos, os pisos tátéis), porém, ao redor da praça ainda falta estrutura para as pessoas com deficiência usufruírem com autonomia os equipamentos culturais.

Geralmente, a experiência de pessoas com deficiência em ambientes culturais é negativa, pois os acessos são limitados. Já para nós, é uma oportunidade de desenvolver a inclusão real, estimulando nossa criatividade e dando autonomia ao frequentador (seja deficiente ou não) como um ser ativo dentro do processo cultural.

Assim, a palavra laboratório tem um sentido mais que especial. Laboratório significa que o ocupante deve se infiltrar no local para vivenciar e conhecer as pessoas e os costumes do lugar, visando melhor aplicação do seu projeto ali naquela sociedade. A questão da percepção deve ser trabalhada como pressuposto a um melhor acolhimento pela comunidade.

Sabemos que tudo isso é um desafio constante. Desejamos, portanto, que as Praças sejam ambientes acessíveis e lugares de pluralidade e inclusão para todos. Esse é também um desafio aos órgãos gestores para, além de promoverem acessibilidade cultural como dever, transformarem aquela experiência em momento sensorial, prático, participativo e atitudinal. Vamos continuar nosso caminho de promover cultura sempre com acesso. Isso é o Transversalidades.

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