Cinema que democratiza

Reportagem maravilhosa do Correio Braziliense publicada em 09/11/2019 no caderno Diversão & Arte sobre a cultura do cineclubismo. E claro o Cineclube Transversalidades está na pauta. Leia e se encante.

Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2019/11/09/interna_diversao_arte,804972/cineclubes-do-df.shtml?fbclid=IwAR3M01LNvfsxuXFXKuW_AGRttAxha8Xuz9TkHAegxqGoSq6Ayh79TeQusLA

PDF da matéria: 20191109 reportagem Cineclubes e festivais fazem trabalho de democratização ao acesso ao cinema – Diversão e Arte – Correio Braziliense.

Cineclubes e festivais fazem trabalho de democratização ao acesso ao cinema

As iniciativas levam o audiovisual para além do Plano Piloto, onde há poucas salas de exibição ou nenhuma, em alguns casos. Os projetos ainda valorizam a produção local.

democratização ao acesso ao cinema passou a ser debatida com mais afinco na última semana quando o Enem escolheu o assunto como tema da redação. A popularização do audiovisual é um desafio no Brasil como um todo, na capital federal também. A começar pela quantidade de cinemas. Atualmente, existem 19 para atender a população de mais de 3 milhões de pessoas do Distrito Federal e do Entorno. Mesmo assim, ainda há regiões administrativas que não estão contempladas. A outra questão é que as salas estão concentradas dentro de shoppings, com exceção do Cine Brasília e do Cine Drive-in. Para ficar ainda mais restrita, a oferta, em sua maioria, é formada por blocksbusters — produzidos em Hollywood — dando pouco espaço às criações nacionais e aos filmes de arte.

“Cinema é um espaço de socialização, em que as pessoas exercem a vontade, e não frequentam por obrigação. É espaço de diálogo. Infelizmente, à exceção do Cine Brasília (e do Cine Drive-in, também em espaço público), o Distrito Federal não tem salas que estejam fora de shoppings. Nelas, há o modelo padronizado de filmes estrangeiros”, opina o cineasta da Ceilândia Adirley Queirós, diretor de Branco sai, preto fica (2014). Ao circular por cidades da França e da Espanha, Queirós vislumbrou uma realidade pela qual sempre lutou: salas de cinema públicas, antenadas na defesa da cultura dos respectivos países.
Visitando escolas, para exibições do longa A cidade é uma só? (2010) que, há anos, é sugerido como tema do PAS (Programa de Avaliação Seriada), ele se depara com inquietações dos alunos: “Perguntam como fariam para assistir a outros filmes parecidos e como fariam para criar filmes com linguagens parecidas”. Com o coletivo CeiCine, Queirós exibia filmes tendo um outdoor como tela. Hoje, ele destaca: “Há iniciativas em cineclubes que são de suma importância. Mas não se tem a tela adequada. Já, nas exibições nas escolas, há outros problemas: fica o desafio de como tornar algo atraente, quando, pela janela da sala de aula, entra toda a luz do mundo (que interfere na projeção). Há uma falta de fruição para a exibição de um filme. Ele que necessita de atmosfera”.
É superando essas adversidades que os cineclubes candangos resistem. Em algumas regiões, as iniciativas são a única forma de a população ter acesso ao cinema perto de onde mora. Há 12 anos, o diretor Antônio Balbino criou o Cineclube Confabule em Brazlândia. “Antigamente até tinha cinema, mas agora não tem mais. Essa foi uma forma de levar distração para as pessoas, além de conhecimento”, afirma Thaynara Balbino, produtora-executiva do Confabule.
Sem qualquer financiamento público, o projeto funciona quinzenalmente. As sessões são montadas nas ruas da região. “Na base da improvisação mesmo. A gente leva o telão, usa uma extensão do vizinho, porque é tudo gratuito”, completa Thaynara. Neste mês, o cineclube terá sessões em parceria com 8º Curta Brasília como parte da Mostra Itinerante Gira Curta, que vai passar por mais cinco cineclubes, sendo um no Plano Piloto, três em Taguatinga, um no Guará e o outro no Gama. Uma nova sessão também está prevista para o dia 21, em um dos quiosques da Orla do Lago (em Brazlândia).

Taguatinga

Cineclube Integracine 7, em Taguatinga, é outro contemplado da Mostra Gira Curta, com atividades nos dias 12 e 14. A iniciativa foi criada em 2008 motivada por uma formação promovida pelo extinto projeto Mais Cultura, que era ligado ao Ministério da Cultura da época, em parceria com a Programadora Brasil. Há 11 anos o cineclube integra a grade escolar da educação integral do Centro Educacional 7. “Esse ano, tivemos poucas sessões oficiais, mas houve uma ampla participação da comunidade. O que foi uma surpresa para nós. Porque existem muitos desafios no cineclubismo. Precisamos de um profissional engajado na área. Tem a questão dos filmes, que parece fácil, mas não é, porque são protegidos por direito autoral. Hoje temos aqui no acervo DVDs da Programadora Brasil, do próprio festival de curtas, da TV Escola e de alguns cineastas que liberam obras. Fora isso há a questão do engajamento da comunidade, que é o maior desafio”, analisa a professora Viviane Calasans, cineclubista e integrante da União dos Cineclubes do DF e do Entorno.

Para Viviane, do Cineclube Integracine 7 e que também esteve à frente do Cineclube Antônio Carlos (no Centro de Ensino 12 na Ceilândia) há alguns anos, iniciativas como essa são de extrema importância para mostrar aos jovens produções que vão além do circuito comercial. Até por isso, o cineclube opta pela exibição de curtas-metragens. “Assim podemos mostrar uma realidade diferente dos filmes comerciais, que, às vezes, é a da própria comunidade. Também nos permite trazer cineastas locais. Já tivemos a participação do Antônio Balbino, do Adirley Queirós, do diretor e da protagonista de Menina de barro”, destaca a professora.
Também em Taguatinga, dentro do Centro de Ensino Médio EIT (CEMEIT), há um cineclube, conhecido como Cineclube Teatro EIT. Ele foi idealizado pela professora Flávia Felipe, coordenadora do programa. “Minha paixão por cinema, pelo cinema brasileiro principalmente, e a vontade dos alunos, que pediram, fez com que o cineclube fosse criado. Em 2010, recebemos o equipamento de exibição e a equipe da direção me procurou e, assim, veio a formação do cineclube, que, na época, tinha uma parceria com o Ministério da Cultura”, conta Flávia.
Cineclube Teatro EIT foi um dos projetos que resistiu ao fim da parceria, com sessões sempre às quartas das 12h15 às 13h15. “A gente escolhe o filme junto, assiste e debate. Sobre os filmes, a gente busca aqueles que suscitam assuntos importantes e que a gente possa discutir”, explica. Para ela, o cineclube é um espaço democrático de protagonismo juvenil, além de um jeito de democratizar o acesso. “O cineclubismo tem esse objetivo de dar acesso a produção que é feita. Os curtas-metragens principalmente”, diz. E completa: “Entender o cinema é entender a sociedade, as relações humanas. É se ver como um agente histórico, social e político”.
Cineclube Transversalidades é mais um projeto que participa da Mostra Gira Curta na versão de itinerância no Guará. Criada em 2010, a iniciativa foi premiada neste ano com o Prêmio Weps — Empresas Empoderando Mulheres, entregue pela ONU Mulheres e Pacto Global, na categoria de Inovação. Também foi finalista do Prêmio Jabuti e Retrato da Leitura no Brasil. “É um trabalho muito sério que a gente desenvolve com uma preocupação social de mudar a vida das pessoas por meio da cultura”, avalia Andrey do Amaral, coordenador ao lado de Fernanda Carvalho.
A ideia nasceu das reuniões que aconteciam na casa de amigos. “A gente via filmes, reunia os conhecidos e fazia um debate. A partir de 2010, a gente começou a trabalhar isso de forma mais articulada com exibições públicas”, lembra Amaral. Desde então, o cineclube atua na Estrutural, no Sol Nascente (em Ceilândia) e no Guará, esse último por meio de uma parceria com um núcleo do Tribunal de Justiça do DF que atende jovens em conflito com a lei. Nas sessões, que ocorrem quinzenalmente de forma gratuita e aberta ao público, são exibidos curtas seguidos de um debate.
Os filmes são de uma pequena produtora chancelada pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos e também cedidas pela Taturana Mobilização Social e a distribuidora Inquieta. “A gente costuma passar filmes sobre direitos humanos e que abordem violência contra a mulher, racismo, infância e pobreza. Por serem exibições em lugares vulneráveis a gente sempre faz essa marcação que pode mudar da vida da pessoa por meio da cultura”, completa o coordenador.
Sobre os desafios da democratização, Andrey do Amaral aponta alguns. “A nossa premissa é sempre fazer sessões para pessoas em situação de vulnerabilidade psicológica ou de pobreza. Mas há outros ambientes em que há muita adversidade, como fazer exibição para cegos. Não há muitos filmes com audiodescrição. Então, é um desafio para gente. Outra questão é a financeira. Fazemos um trabalho voluntário e gratuito. Outro ponto é o interesse da pessoa, até porque muita gente nunca foi ao cinema: a gente tenta proporcionar algo parecido com um cinema, uma sala escura, pipoca, para criar uma imagem positiva”, revela.

Perto da população

As regiões de Samambaia e Planaltina também têm iniciativas de cineclubes. Desde 2017, o professor de história Leônio Matos Gomes comanda o Cineclube Vale um Filme, no Vale do Amanhecer. No primeiro ano, as sessões tiveram patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), hoje continuam a ocorrer com apoio da comunidade. “Aqui, em Planaltina, não tem cinema. Eu queria criar um cineclube. Idealizei em 2011, fui tentando, quando eu consegui colocar em prática. Ao todo, já exibimos 35 filmes no projeto”, conta.
As sessões começaram em um local fixo. Hoje, ocorrem de forma itinerante. Normalmente, em garagens cedidas pela própria população. O público confere sempre um curta-metragem e um filme mais comercial. “A gente começou a perceber que os filmes não tinham um apelo popular. E a arte tem que ir até aonde o povo está. Não podemos viver só de utopia. A gente busca um curta-metragem brasileiro que tenha relação com o outro filme para levantar o debate. Isso faz com que eles se interessem pelo cinema, não só pelo comercial, e entendam que o cinema vai além de explosões e heróis”, completa Gomes. O próximo evento do cineclube está previsto para dezembro.
Aberto desde o fim do ano passado, o Complexo Cultural de Samambaia é o palco do Cineclube Complexo Samambaia. O projeto, idealizado por um núcleo de audiovisual, começou em maio e tem sessões quinzenais, às quartas, com exibição de três curtas ou um longa-metragem, com um debate. Excepcionalmente, a próxima edição será na segunda-feira (11/11), às 20h, com exibição do filme O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla.
“Samambaia não tem salas de cinema comercial. Nossa ideia foi pegar um espaço público e mostrar para a comunidade em geral. A gente leva ao público um debate estético, político e histórico”, afirma a direção de produção e uma das idealizadoras Flávia Andrade. A intenção é ampliar o projeto e levar até a Educação de Jovens e Adultos (EJA). “Queremos porque o cinema tem tudo uma questão política, histórica e acadêmica”, avalia.

Pouca oferta

As salas de cinema do DF e do Entorno estão localizados nas asas Norte (3) e Sul (2), nos lagos Norte (1) e Sul (1), Cruzeiro (1), Guará (2), Águas Claras (1), Santa Maria (1), Taguatinga (1), Ceilândia (1), Sobradinho (1), Formosa (1), Luziânia (1), Valparaíso (1) e Águas Lindas (1).

Festival de curtas

Futura sede para o 8º Curta Brasília — Festival Internacional de Curta-Metragem, o Cine Brasília (EQS 106/107) não será único local a receber a programação do evento, concentrado entre 12 e 15 de dezembro. Num esquema de pré-vitrine do evento, a Mostra Itinerante Gira Curta tem levado filmes recentes (numa grade paralela à oficial de 2019) a escolas, centros culturais e cineclubes, dentro e fora do Plano Piloto.
Há 15 anos, a capital conta com o projeto Escola vai ao Cinema. Na atual gestão, ele faz parte do Cultura Educa, que reúne as secretarias de Cultura e Educação. “Numa das vertentes, almejamos a formação de novos públicos. Estabelece que a criança tenha o primeiro contato lúdico com cinema. Estimulamos ainda a identidade do público junto ao Cine Brasília”, explica Ilane Nogueira, coordenadora do programa da Secec.
De acordo com Ilane Nogueira, todas as regionais de ensino da área urbana e rural já contaram com sessões. Ela diz que seis mil crianças participaram do projeto, que conta com a renda de R$ 200 mil vinculada ao Cultura Educa. Segundo ela, a expectativa é de que, em 2020, o orçamento fique em R$ 350 mil. O projeto já teve parcerias com o Festival de Animação e com a Embaixada de Filipinas. Transporte e alimentação também são inclusos nas sessões.
O Instituto Federal Brasília (IFB) também tem um projeto que leva o cinema até as escolas e a comunidade. A região escolhida foi o Recanto das Emas, onde a instituição tem um câmpus. É o Recanto do Cinema — Cultura Audiovisual na Periferia iniciado neste ano, em edital de fomento de extensão do IFB. Até agosto, houve 10 sessões, com participação de escolas. Há sessões estendidas para a equipe do IFB e comunidade.
“A atividade de extensão tem uma relação direta com a comunidade e como o câmpus do IFB do Recanto é de audiovisual, nosso objetivo foi afunilado. Não temos sala de cinema e nem teatro. Notamos a lacuna”, avalia Josias Freire, professor de história e um dos idealizadores.
Financiado pelo edital, o projeto vigora em 2019. Mas a equipe sonha em estendê-lo, por conta do retorno positivo. “Temos a possibilidade de oferecer a democratização em outro nível, tão profundo quanto a exibição. Há democratização da produção. Os nossos alunos fazem filmes e eles são exibidos. Vamos promover um festival”, explica.

Incentivo pelos festivais

Brasília tem, no histórico relacionado à escola, episódios memoráveis que exemplificam o alcance e as transformações com cinema. Na década de 1980, a turma da então adolescente Josiane Osório, atualmente curadora de mostras, tinha à disposição, na sala de aula do Cruzeiro, um projetor 35mm. O fato, com segurança, afetou o olhar da idealizadora do LoboFest, festival que, 11ª edição, reserva 300 curtas para serem vistos, num processo de descentralização, pelos moradores do Núcleo Bandeirante. “Na Avenida Central, o Núcleo Bandeirante trouxe o primeiro cinema do DF. A circulação do festival propõe justamente ocupar lugares e reavivar memórias. O cinema encampa o referencial de patrimônio. Teremos projeções no Museu Vivo da Memória Candanga”, comenta a autora da iniciativa. Revitalizar o ambiente foi premissa.
Curiosamente, o 11º LoboFest terá ainda sessões na Capelinha da Metropolitana. A apresentação do curta Borboletas em Berlim, antenado na perseguição a gays, revela sintonia do evento com a inclusão de temas sociais. “Temos trabalho na sensibilização do olhar. Explicamos técnicas de filmes e as propostas singulares”, comenta Josiane.
Há 20 anos dedicada à produção cultural, Janaína André, ao lado de William Alves, comanda um tradicional evento que, em 2020, chegará à 15ª edição, reforçando o cardápio cultural da cidade, com sede no Teatro da Praça. É o Festival Taguatinga de Cinema, todo ancorado na exibição de curtas. “É uma experiência forte para o público que assiste e se emociona, por se ver representado, muitas vezes, na condição de negro e por conhecer a condição da periferia”, comenta, ela.
A produtora ressalta que muitos filmes alternativos ficam bastante distanciados da população de fora do Plano. “Taguatinga, assim como outras cidades, normalmente, só recebe os filmes de Hollywood. Muitas das 34 Regiões Administrativas ficam descobertas, em termos de cinema. As cidades não têm equipamentos”, observa Janaína.
Integrada à equipe que formata o Festival de Brasília, a curadora cuida da segmentação do evento, para além do Plano. É um momento anual de breve respiro e absorção de cultura de cinema em cidades do DF. “Este ano,estaremos em cidades como Samambaia, Recanto das Emas e Planaltina. Já o Cine Fusca projetará sessões especiais de filmes no Sol Nascente, em Santa Maria, no Paranoá e em Sobradinho 2”, comemora.
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