quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Frases, textos, imagens, sons…

“O milagre da arte consiste em transfigurar a realidade, em mudar em sonho a matéria do mundo, esta casa construída de cacos, de restos, de pedra rude e de barro”.

Ferreira Gular, escritor


“São as perguntas do tempo: Como desenvolver-se com o conceito de desenvolvimento? Como cultivar o conceito de cultura? Já não interessa o desenvolvimento que se limita as atividades básicas e estruturais, destrói a natureza e aumenta as desigualdades. E a cultura, pedrinha arremessada por um menino na beira do lago, produz círculos cada vez mais amplos, envolvendo repertórios humanos da natureza espiritual, material, intelectual e afetiva, como se não desistisse de ser, ao mesmo tempo essência do espírito e nó de pertencimento, iluminação e metáfora de um e de todos. Como é que a cultura gera desenvolvimento? Como cultiva o desenvolvimento? Como enlaça pertencimento e responsabilidade social? Como dialoga com os processos de inclusão? Como favorece a sustentabilidade, inclusive a sua? São as perguntas do tempo”.

Fórum Cultural Mundial 2004


“O Desenvolvimento Cultural deve partir do reconhecimento deste cenário onde atores concretos se movimentam, constroem espaços públicos, mudam valores e o “olhar” que se tem sobre a vida em sociedade. Desenvolvimento cultural local é um processo pelo qual se resgatam identidades, criam-se parâmetro públicos e se valoriza a cultura local. (…) Cultura é desmercatilizar a cultura e entende-la como um processo de criação de significados que dão sentido aos modos de vida da comunidade humana.”

Hamilton Faria, poeta, coordenador da área de Desenvolvimento Cultural do Instituto Pólis


“No Brasil, abraçar a Cultura é sinônimo de resistência. Governar para a Cultura é um verdadeiro ato de heroísmo. Ignorando que a Cidadania só pode ser alcançada por uma comunidade que se reconheça, se expresse, se questione e processe sua  historia, raízes, identidades e diferenças (ou seja, que contemple sua Cultura), a maioria das Administrações Municipais destina percentuais irrisórios do Plano Orçamentário para essa área, inviabilizando ações que deveriam ser efetivamente promovidas. Da mesma maneira, na maioria dos municípios, a área cultural é vista por uma ótica míope e simplista, que considera como suas máximas atribuições, a realização de shows, eventos, festas de colheitas e promoção de feiras e mostras sazonais. ”

Tadeu Di Pietro, ator, diretor, produtor cultural. Atualmente é Diretor do Centro de Programas Integrados da FUNARTE


“Artigo 2 – Da diversidade cultural ao pluralismo cultural

Em nossas sociedades cada vez mais diversificadas, torna-se indispensável garantir uma interação harmoniosa entre pessoas e grupos com identidades culturais a um só tempo plurais, variadas e dinâmicas, assim como sua vontade de conviver. As políticas que favoreçam a inclusão e a participação de todos os cidadãos garantem a coesão social, a vitalidade da sociedade civil e a paz. Definido desta maneira, o pluralismo cultural constitui a resposta política à realidade da diversidade cultural. Inseparável de um contexto democrático, o pluralismo cultural é propício aos intercâmbios culturais e ao desenvolvimento das capacidades criadoras que alimentam a vida pública.

Artigo 3 – A diversidade cultural, fator de desenvolvimento

A diversidade cultural amplia as possibilidades de escolha que se oferecem a todos; é uma das fontes do desenvolvimento, entendido não somente em termos de crescimento econômico, mas também como meio de acesso a uma existência intelectual, afetiva, moral e espiritual satisfatória”.

Princípios estabelecidos pela Conferência Intergovernamental sobre Políticas Culturais para o Desenvolvimento,Estocolmo, 1998


“Historicamente tido como setor cujas decisões eram reservadas exclusivamente aos ‘ilustrados’, após 1988, com o advento da atual Constituição Federal, a Cultura recebeu a determinação de que sua política deve ser encetada ‘com a colaboração da comunidade’, ou seja, a partir do prisma da ‘cidadania cultural’. Mas até que ponto esta determinação encontra efetividade? O que pode ser feito para aperfeiçoar a participação do cidadão dito comum na vida cultural do país?”

Francisco Humberto Cunha Filho, advogado


”As sociedades que tem um maior desenvolvimento cultural tem, conseqüentemente, indivíduos mais participantes, mais cientes de seus direitos e deveres, mais atuantes, mais coesos. Quanto mais redes, grupos, movimentos, ong’s, fundações, etc, trocando informações e dialogando com as comunidades, mais rica é uma sociedade. De que forma, então, a cultura pode incrementar esse capital social?”

Vanessa Salle, Centro de desenvolvimento de capacidades.


“Para Schiller a arte representa a realização da razão como ressurreição do sentido comunitário destruído pela modernidade; seria assim, a forma ideal de intersubjetividade, em contraste com o isolamento e a massificação, duas deformações opostas de intersubjetividade. Herbert Marcuse vai adiante, visualizando a relação entre a arte e revolução. Visto que a sociedade não se reproduz apenas na consciência dos homens, mas também em seus sentidos, é preciso que a emancipação da consciência se enraíze na emancipação dos sentidos”.

Habermas, filosofo


“A formulação mais influente do conceito de cidadania nas ciências sociais, durante algumas décadas, veio da obra de T.H. Marshall, Citizenship and Social Class (1950). Ela associa a cidadania à condição de “ser membro pleno” de uma comunidade, independendemente das desigualdades econômicas existentes. A noção de universalização do direito como característica do cidadão é mais antiga, claro. É grega, e vem acompanhada sempre da salutar ressalva que o princípio da universalidade ali não incluía mulheres nem escravos.  Marshall separa a cidadania em três tipos – civil, econômica e política – e entende que há considerável independência entre eles, chegando ao ponto mesmo de designar um período formativo para cada tipo: fim do século XVIII para o civil, século XIX para o econômico, século XX para o político (períodos que devem ser entendidos de forma flexível e elástica, claro).

O que vários estudos contemporâneos têm feito é sublinhar que há uma esfera não necessariamente dos direitos civis, econômicos ou políticos através da qual a cidadania também é articulada. Chamemos-na de cidadania cultural. São todas as iniciativas que passam pela cultura (música, internet, teatro, o que seja), mas que têm impacto real na condição de cidadãos dos sujeitos envolvidos nela; são, numa palavra, práticas que redefinem a cidadania a partir da cultura. Há uma corrente que é bem entusiasmada com essa noção de cidadania cultural. Há outra mais cética, que diz que esse papo de cidadania cultural tira a atenção do mais importante, que é o direito ao feijão no prato, ao décimo-terceiro salário e ao voto na urna”.

Idelber Avelar, PhD in Latin American Literatures and Intellectual Histories
Critical Theory, Cultural Studies .


“O sociólogo Renato Ortiz insiste, em seus trabalhos sobre a globalização, em assinalar a diferença entre o processo de globalização econômica e tecnológica e o movimento de mundialização da cultura: ‘Trata-se de um processo social que atravessa os lugares de maneira diferenciada e desigual. Sua lógica não se explica através do Estado-nação, daí falamos em sociedade global, world system, modernidade-mundo.

Segundo ele, a economia e a cultura estão mais globalizadas do que a política, já que esta requer mecanismos e instituições para a sua ação. A globalização modifica a universalidade das religiões. A mundialização redefine a noção de espaço, alterando o que se entende por local e nacional”.

Lucia Lippi Oliveira, socióloga


“dentro de um espírito antropológico proponho, então, a seguinte definição para a nação: ela é uma comunidade política imaginada – imaginada como implicitamente limitada e soberana.

as comunidades não devem ser distinguidas por sua falsidade/autenticidade, mas pelo estilo em que são imaginadas (…) A nação é imaginada como limitada, (… que) possui fronteiras finitas e elásticas (…) Nenhuma nação se imagina coexistenciar com a humanidade (…) É imaginada como soberana (…) como comunidade (…) a nação é sempre concebida como um companheirismo profundo e horizontal”.

Anderson Benedict, antropólogo


O futuro da humanidade depende da existência do comportamento crítico que abriga em si elementos da teoria tradicional e dessa cultura que tende a desaparecer. Uma ciência que em sua autonomia imaginária se satisfaz em considerar a praxis – à qual serve e na qual está inserida – como o seu Além, e se contenta com a separação entre pensamento e ação, já renunciou à humanidade. Determinar o conteúdo e a finalidade de suas próprias realizações, e não apenas nas partes isoladas mas em sua totalidade, é a característica marcante da atividade intelectual. Sua própria condição a leva à transformação histórica. Por detrás da proclamação de ‘espírito social’ e ‘comunidade nacional’ se aprofunda, dia a dia, a oposição entre indivíduo e sociedade. A autodeterminação da ciência se torna cada vez mais abstrata. O conformismo do pensamento, a insistência em que isto constitua uma atividade fixa, um reino à parte dentro da totalidade social, faz com que o pensamento abandone a sua própria essência”

HORKHEIMER, M. Filosofo


“Mais do que avançar nas proposições republicanas que se recusam a tomar os indivíduos como consumidores e contribuintes, tal como deseja o mercado, os textos aqui reunidos preferem tratar os indivíduos como cidadãos portadores de direitos. Não apenas como consumidores de bens e serviços culturais, mas também como criadores de cultura. Reconhecem, portanto, e expõem de modo cristalino, a legitimidade do conflito inerente ao exercício democrático entre aqueles que foram sistemática e deliberadamente excluídos do direito à cultura e os que a usufruem como um privilégio de classe”.

Hamilton Pereira – Presidente da Fundação Perseu Abramo


“A cultura popular tem raízes na terra em que vive, simboliza o homem e seu entorno, encarna a vontade de enfrentar o futuro sem romper com o lugar, e de ali obter a continuidade, através da mudança. Seu quadro e seu limite são as relações profundas que se estabelecem entre o homem e seu meio, mas seu alcance é o mundo”.

Milton Santos, geógrafo


“Mas, qualquer que seja a sociedade, não existe a possibilidade de um individuo dominar todos os aspectos de sua cultura. Isto porque, como afirmou Marion Levy Jr., “nenhum sistema de sociabilização é idealmente perfeito, em nenhuma sociedade são todos os indivíduos igualmente bem sociabilizados, e ninguém é perfeitamente socializado; Um individuo não pode ser igualmente familiarizado com todos os aspectos de sua sociedade; pelo contrario, ele pode permanecer completamente ignorante a respeito de alguns aspectos”. Exemplificando Einsten era um gênio na física, um medíocre violinista e ,provavelmente, seria completo desastre como pintor.

O importante porem, é que deve existir um mínimo de participação do individuo na pauta de conhecimento da cultura a fim de permitir a sua articulação com os demais membros da sociedade (….) Esse conhecimento mínimo deve ser partilhado por todos os componentes da sociedade de forma a permitir a convivência dos mesmos”

Roque de Barros Laraia, antropólogo


“ A cultura do cotidiano, que se elabora do dia-a-dia, do aqui e agora, ganha novas dimensões na contemporaneidade, quando assume diversas maneiras de se propagar. Não falamos do boca-a-boca da esquina do bairro, mas do ‘tela-a-tela’ dos computadores instalados em nossas mesas, em um canto da casa, para recuperar o que denominamos de ‘cidadania cultural. (…) O povo de maneira abusada, sem licença e sem permissão divulga seu estilo de vida comunitário para o mundo, gerando a diversidade de valores e embaralhando os elementos que estariam separados hierarquicamente. Os cidadãos utilizam os valores da cultura comunitária para negociar sua inserção na cidade.

(…) Pode-se pensar em cidadania cultural, afinal, para afirmar uma cultura vivida em grupo e apoiada em aspectos que, um dia, serviram de motivação para a exclusão de sua participação nas esferas públicas”.

João Maia, sociólogo


“Evidentemente, admitir o caráter inevitável e mesmo necessário do etnocentrismo como fenômeno social não diminui a validade da regra metodológica que impõe ao pesquisador se desprenda de todo etnocentrismo. Esta regra é necessária ao menos na primeira fase da pesquisa. No entanto, se quisermos considerar que não há diferença essencial entre os homens e as culturas, ou seja, que o outro não é nunca absolutamente outro e que a sempre algo de nós nos outros, porque a humanidade é uma só e a Cultura está no centro das culturas ou, segundo a expressão consagrada que ‘o universal está no interior do particular’, então poderemos aceitar como Bordieu, em certos momentos da pesquisa, o interesse do uso metodológico do etnocentrismo.”

Denys Cuche, antropólogo


“O argumento clássico que sustenta a definição da cidadania como uma categoria generalista defende que, justamente por ser geral, a cidadania se afasta do interesse próprio e se aproxima do bem comum. De acordo com este ponto de vista, a inserção de aspectos de diferenciação ou particularização ameaça os valores universais e imparciais que lhe estão associados.[... ]Por um lado, é uma contradição tratar de forma homogênea grupos com histórias tão diversas como o são, em particular, as comunidades de migrantes”.

Maria José Canelo, historiadora


“ Em outras palavras, o multiculturalismo – que expressa valores particulares e com eles a riqueza da criatividade humana – deve estar precedido e baseado na tolerância. Só assim ele se universaliza e ganha o respeito que a ele se deve.

Finalizando, o respeito ao outro, sinônimo de tolerância, talvez seja o primeiro valor, o princípio ético fundamental das sociedades modernas. Ele funciona como a lança de Aquiles – capaz de curar as feridas causadas por sua luta, uma luta em nome dos direitos humanos, da liberdade de pensamento, da igualdade de direitos, da dignidade social da vida”.

Danilo dos Santos Miranda, sociólogo, diretor regional do SESC


“ O Estado garantirá a todos o pleno exército dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.”

Artigo 215 da Constituição Federal de 1988


“Segundo Bastos, assinalou se por um lado a Constituição Federal trouxe um aporte significativo de leis que alcançaram um escopo fundamental de variáveis para a construção da cidadania cultural, por outro, tornou-se necessário um engajamento da sociedade organizada como forma dar sentido a essa nova ordem jurídica. Corroborando com esta idéia Soares afirma que a promoção da acessibilidade aos bens culturais, enfatizando que ela cumpre as determinações da constituição Federal de 1988, quando consagra os direitos das portadoras de deficiência física e também proclama o direito a cultura, em seu artigo 215,seção II”.

Rossano Lopes Bastos, Arqueólogo do IPHAN


A cidadania cultural teve em seu centro a desmontagem crítica da mitologia e da ideologia: tomar a cultura como um direito foi criar condições para tornar visível a diferença entre carência, privilégio e direito, a dissimulação das formas da violência, a manipulação efetuada pela mass midia e o paternalismo populista; foi a possibilidade de tornar visível um novo sujeito social e político que se reconheça como sujeito cultural. Mas foi, sobretudo, a tentativa para romper com a passividade perante a cultura – o consumo de bens culturais – e a resignação ao estabelecido, pois essa passividade e essa resignação bloqueiam a busca da democracia, alimentam a visão messiânica-mineralista da política e o poderio das oligarquias brasileiras.

Marilena Chauí, filosofa


“ É uma concepção que não exclui nada e não dá toda a importância a um único elemento, pois todos são passageiros de uma mesma realidade; são portanto iguais. No entanto, não se pode pensar que essa igualdade signifique uniformidade. Todos esses elementos são diferentes entre si, tem uma personalidade própria, uma identidade própria. (…) Descobri que todas essas pessoas, em qualquer parte do mundo, praticando suas ações em busca do equilíbrio do  universo, estão batendo seu maracá”.

Daniel Munduruku, antropólogo


“Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força – eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou coisa”

Clarisse Lispector, Escritora


“Para planejar ações na área da cultura é necessário lutar contra preconceitos, propor alternativas, propor movimentos descentralizadores, interagir e se comunicar com a comunidade, identificar interfaces e maximizar os parcos recursos.”

Tadeu Di Pietro, ator, diretor, produtor cultural. Atualmente é Diretor do Centro de Programas Integrados da FUNARTE


“Mas, apesar de produto de uma evolução coletiva, a ÉTICA é e deve ser, sobretudo algo internalizado. É um comprometimento pessoal com o que se acredita correto. Envolve a noção de que somos responsáveis pelo nosso crescimento pessoal (autodesenvolvimento) e, simultaneamente, envolve a incorporação da percepção do outro na conduta cotidiana. Traz consigo a presença de um juiz interior muito mais poderoso e competente que fiscais e investigadores, que surgem de um projeto de autonomia e liberdade do ser humano”

Claudia Costin, especialista em gestão de políticas publicas


“Nós somo da essência de que os sonhos são feitos; e nossa pouca vida é envolvida pelo sono”

William Shakespere, dramaturgo


“ Entende-se por pobreza política a condição do pobre, que nem sequer sabe e é coibido de saber que é pobre: Vive em estado de ignorância, no sentido da falta de mínima consciência critica de seus direitos”

Pedro Demo, sociólogo


“Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam”.

Paulo Freire, educador


“A mobilização social não é uma oportunidade de conseguir pessoas para ajudar a viabilizar nossos sonhos, mas de conseguir pessoas que se dispõem a contribuir para construirmos juntos um sonho, que passa a ser de todos”

Toro, J.B., Sociólogo


“O indivíduo de jure [falso] não pode se tornar indivíduo de facto sem antes tornar-se cidadão. Não há indivíduos autônomos sem uma sociedade autônoma, e a autonomia da sociedade requer uma auto-constituição deliberada e perpétua, algo que só pode ser uma realização compartilhada de seus membros”

Bauman, sociólogo


“A democracia deliberativa almeja a decisão coletiva legitima ela esta sujeita à aceitação refletida daqueles a ela submetidos, os quais devem ser capazes de participar em deliberações a respeito da produção de decisão. Mas o problema pode ser solucionado caso o número de participantes na deliberação for indeterminado, sem exclusões. É justamente essa indeterminação do número de participantes na competição de discursos que resolve as demandas aparentemente incompatíveis da economia deliberativa e da necessidade de que as decisões coletivas assegurem verdadeira aceitação popular refletida, ao contrário do que querem os schumpeterianos “requerem que as pessoas comuns não façam mais do que votar e então dormir entre as eleições”. Conclui-se daí que a legitimidade pode ser buscada na ressonância de decisões coletivas junto à opinião pública, definida em termos de um resultado provisório de competição de discursos na esfera pública conforme transmitido ao Estado. Essa mesma legitimidade pode também ser alcançada de uma forma que satisfaça a limitação básica da economia deliberativa. No entanto, é importante falar de legitimidade discursiva na medida em que essa competição seja desencadeada por atores competentes, não tendo importância alguma se este elenco esteja em qualquer tempo maior ou menor.

Sabemos que há dois requisitos para o surgimento da democracia participativa, o primeiro é que a mudança da consciências – ou da inconsciência – dos indivíduos, ao ver-se e agir como executor e desfrutador da execução e desenvolvimento de sua capacidade. Este não é apenas um requisito para o surgimento da democracia participativa, mas é requisito para o seu funcionamento. A democracia participativa exige um sentido de comunidade. O outro pré-requisito é a diminuição em grande escala da desigualdade social e econômica… Se buscamos a emancipação humana, a emancipação política, acredito que devemos trabalhar juntos”.


“ definição etnológica dessas sociedades: elas não tem órgão separado do poder, o poder não está separado da sociedade. (…) Levar a serio as sociedades ‘primitivas’ significa assim refletir sobre esta proposição que, de fato, defini-as perfeitamente: nelas não se pode isolar a esfera política do poder por um alguns sobre o resto da sociedade. (…)  É o corpo social ele próprio, que o detém e o exerce como unidade indivisa. Esse poder não separado da sociedade se exerce num único sentido, ele anima um único projeto manter na indivisão o ser da sociedade, impedir que a desigualdade entre os homens instale a divisão na sociedade”.

Pierre Clastres, antropólogo


“A relação entre a sociedade civil organizada e a representação é especialmente importante quando se está focando questões relacionadas à deliberação e a processos de inclusão, pois, ou estes últimos não consideram a possibilidade da representação, ou os modelos deliberativos devem enfrentar as questões da relação entre participação deliberativa e representação. Uma vez que a representação não pode ser reduzida a uma simples delegação, como muito bem enfatiza Young, essa relação se torna ainda mais complexa. As esferas deliberativas podem, em alguns casos, competir com a esfera representativa no estreito limite do espaço político institucional, levando o instituto da representação a uma posição muito próxima de uma simples delegação. Em outras situações, pode-se encontrar uma espécie de divisão de trabalho, em que a sociedade civil organizada ficaria “fora” do campo político, como uma espécie de reserva virtuosa capaz de provocar a accountability. Não se trata aqui de considerar a sociedade civil o monopólio da virtude, mas é razoável afirmar que a sociedade como tal possui um grande potencial para exercer com êxito esse papel.”

Pinto, Céli R. j, Cientista Política


É o povo que se deixa, ou melhor, se faz dominar, pois cessando de servir estariam quites; é o povo que se sujeita, que se degola, que tendo a escolha entre ser servo ou ser livre, abandona sua franquia e aceita o julgo; que consente seu mal- melhor dizendo, persegue-o.”

La Boétie, filosofo


Agora, podemos responder ao que era afirmação e virou pergunta: a gente não faz a vida que a gente quer. Mas se a gente se indignar com essa lógica excludente e destruidora (que ainda é feita por gente, ainda que não seja a gente) e topar brigar contra a ordem instruída, buscando uma legalidade em que valorize a vida, o trabalho e a criatividade, aí sim teremos a chance de dizer que a vida que a gente quer depende do que a gente faz”.

Luiz Percival Leme Britto, lingüista


“Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida,
Estes são os imprescindíveis”

Bertold Brecht


Tecendo a manhã

João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo


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