[re]Ações & Políticas Digitais

Nesse blog pretendo experimentar a cultura do digital em dicussão, debate e elaboração de novas políticas.

[CNPC] O Digital é Arte ou é Cultura? — OU A Arte do Conflito e a Cultura da Autorepresentação

O Thiago Carrapatoso, terceiro suplente do delegado Setorial de Arte [e Cultura] Digital por São Paulo, fez o seguinte relato sobre a reunião do Fórum Nacional Setorial:

http://paisagemfabricada.com.br/2015/11/17/arte-digital-no-cnpc-aparelhamento-ou-peca-de-manobra/

Há tempos que tenho achado mais interessante fazer as coisas do que discutir as coisas, mas como o Conselho Nacional de Políticas Culturais é um ambiente de discussão, do qual participo e acompanho ativamente, não pude me furtar a responder e fazer os devidos esclarecimentos, que foram publicadas, originalmente, na lista de discussão do GT Cultura Digital:

Nossa Carrapatoso, mas que relato desastroso.

Nem parece que VC é um cara que convive a acompanha o CNPC de perto há tantos anos…

Dizer que a pauta sobre o nome, função e identidade da “Cultura Digital” no setorial é uma imposição do governo é de uma desinformação tão grande, mas tão grande… que chego a pensar que se trata de desonestidade intelectual de sua parte.

Além de demonstrar uma cultura da auto-representação que eu diria ser hoje o PRINCIPAL problema da nossa DEMOCRACIA (sim, da democracia representativa como um todo, e não só do CNPC).

Se você tivesse se dado ao trabalho de conversar com a sua base social, ou seja, os eleitores (que incluem as pessoas que votaram em vc, mas também as que não votaram), ou ainda, trocado algumas mensagens com o titular por são paulo, a quem vc estava re-representando, não teria feito um relato (e uma participação) tão descabida.

Além do que, fico impressionado, como um cara como vc, super conhecido nas redes, perde uma oportunidade dessas, de puxar uma discussão aberta, mais afetiva, efetiva e REPRESENTATIVA. Entre tratar do real ponto de dissenso  e criar uma polêmica, você ficou com a segunda opção, que, na minha opinião, é contraproducente.

Até da pra perceber, pelo seu texto, que houve um esforço em pesquisar para embasar seus argumentos…. Só tem um problema: sua referência mais recente é de 2010 e a outra é de 2009. Aproveitei agora pra dar uma lida nas discussões do setorial em SP, e vi você colocando lá questões já superadas há bastante tempo, como a relação entre Artes Visuais e Arte Digital.

Nesse vácuo, entre 2010 e o dia de hoje, você perdeu 5 anos de oportunidades de conversar com as pessoas ao entorno desse processo e de ajudar a construir um processo consistente e representativo. Vitor Grilo, Paulo Amoreira e Eu, participamos ativamente do processo e podemos te dar relatos de três diferentes pontos de vista – só pra ficar nos representantes do Ceará.

E me desculpe o tom dessa mensagem, mas fiquei realmente consternado em ver alguém tão inteligente e bem relacionado, ex-socialmedia do Fórum da Cultura Digital, colaborador da Casa da Cultura Digital, prestando um desserviço tão grande à Cultura Digital brasileira.

O pior e mais irônico é que seu relato-reclamação fala de tudo o que foi ruim, desinforma um pouquinho, mas o mais importante, que seria o resultado da eleição, ele não fala.

E pra encerrar, tentando não cometer o mesmo erro, copio aqui a lista do GT Cultura Digital, que começou como um grupo de discussão do GT Cultura Digital da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, mas acabou herdando debates, discussões e arranca-rabos das várias outras iniciativas digitais no brasil. Hoje, é uma lista-legado, que conta com mais de 320 pessoas do brasil e do mundo inteiro, sob a tag “cultura digital”.

Pra mim, isso demonstra claramente a legitimidade da inclusão da Cultura Digital no CNPC, e portanto, a legitimidade da pauta levantada pelo José Murilo na reunião.

O que vi quanto participei do fórum, e estou vendo novamente agora, é que os “fundadores” do setorial tem agido de forma coorporativista e segregadora, se esforçando pra manter a “galera da cultura digital” longe do seu “espaço de representação”.

Tenho esperança de que com a nova gestão esse cenário de modifique e por isso, sugiro, enquanto representado, que o Setorial de Arte Digital, seja acolhedor e se preocupe em contemplar em suas discussões pautas que não necessariamente estão relacionadas ao tema de interesse dos representantes, mas que tem respaldo junto aos representados.

Mais que isso, solicito que o Setorial apresente ao conjunto da sociedade a sua estratégia de representação e a maneira como pretende discutir e elaborar com o setor e toda a sociedade, as diretrizes que devem ser levadas pelos representantes.

Sem mais.

Atenciosamente.

Uirá Porã
ex-representante do GT Cultura Digital na Comissão Nacional do Pontos de Cultura
ex-representante da Cultura Digital no Conselho Estadual de Políticas Culturais do Ceará
ex-delegado do Setorial de Arte [e Cultura] Digital do Conselho Nacional de Políticas Culturais
ex-consultor da Coordenação de Cultura Digital do Ministério da Cultura
ex-bolsista da Ação Cultura Digital do Ministério da Cultura
ex-estagiário de Cultura Digital da Assessoria de Comunicação Social do Gabinete do Ministro da Cultura

7 Comments

  1. perfect, onliúgue!

  2. Caro Thiago, Uirá e demais:

    1)de meu ponto de vista, não consegui enxergar tal “imposição” em momento algum, aliás, a questão da “cultura digital” foi colocada bem antes da setorial começar formalmente, apareceu no decorrer dos debates por iniciativa do Guiné, havendo posteriormente uma votação de 50%+1 a favor da mudança, numa “votação simbólica”, então não vejo como falar de “imposição”…

    2) se “há anos que o setorial de arte digital tenta uma representação dentro da Secretaria de Audiovisual e FUNARTE e, até hoje, é ignorada” pq continuar mendigando atenção? pq não aproveitar-se uma estrutura já existente e aberta à articulação, como a Coordenadoria de Cultura Digital? porque continuar insistindo em dar murro em ponta de faca, qdo se torna possível uma apropriação, um update, um hackeamento na estrutura? e quem disse que não pode ser assim?

    3)questionar a legitimidade por falta de assinaturas num documento formal, onde TODA a discussão foi gravada, parece uma tentativa de desqualificar a inteligência dos que estavam presentes, incluindo vc,que, em outras palavras, ao questionar a eleição, questiona a própra legitimidade como delegado titular (!).

    4) mas não tem reload. assim como não tinha wifi numa setorial de “arte digital”, quem saiu na chuva foi pra se molhar. a condução dos trabalhos deixou a desejar, sem dúvida – talvez tenha faltado mão p/ conduzir o processo de uma forma melhor, mais organizada, mas isso não tira o mérito das decisões, por mais equivocadas que nos pareçam ou por mais que não concordemos com o resultado final.

    Enfim, vamos respeitar o que foi decidido por maioria, em votação democrática – nem tudo o que foi votado ou como foi votado, é de minha inteira concordância, mas pera lá, dizer que faltou democracia onde se discutiu infindavelmente por 3 dias, com várias votações apertadas, paridade de gênero (num consenso nunca visto antes em outras votações) e cotas raciais seguidas à risca, fica parecendo mimimi…andiamo via!

    abs
    Joeser Alvarez (suplente)

  3. Caro Uirá,

    Por ter participado da mobilização que deu origem à representação de Arte Digital e por ter sido Conselheira Titular no Plenário do CNPC entre 2007 e 2012, deixo aqui a minha participação neste debate.

    ‘O que vi quanto participei do fórum, e estou vendo novamente agora, é que os “fundadores” do setorial tem agido de forma coorporativista e segregadora, se esforçando pra manter a “galera da cultura digital” longe do seu “espaço de representação”.’

    Esta sua afirmação não retrata a realidade. Por falta de espaço próprio e, apesar da impossibilidade prática e conceitual em lidar com os diferentes contextos envolvidos, as duas galeras estão presentes neste Setorial. O que na minha opinião reforça a inércia do Ministério da Cultura em relação aos dois Setoriais, muito mais do que nos ajuda a formular os objetivos listados no Regimento Interno do Colegiado de Arte Digital. Se trabalhá-los com o foco em um único Setorial já é uma tarefa árdua com tão poucas reuniões, o que dirá fazê-lo para dois Setoriais muitas vezes antagônicos!

    Regimento Interno do Colegiado de Arte Digital
    http://www.cultura.gov.br/documents/10907/0/Regimento+Interno+Arte+Digital/819a0261-2406-4d2e-8ae3-c90d696c11b9?version=1.0

    Art. 3º Compete ao Plenário do Colegiado de Arte Digital:
    I – debater, analisar, acompanhar, solicitar informações e fornecer subsídios ao CNPC para a definição de políticas, diretrizes e estratégias relacionadas às Arte Digital;
    II – elaborar, revisar, acompanhar e avaliar as diretrizes do Plano Nacional de Arte Digital;
    III – promover o diálogo entre poder público, Arte Digital e sociedade civil e os agentes culturais, com vistas a fortalecer a economia da cultura e a circulação de ideias, de produtos e de serviços, assegurada a plena manifestação da diversidade das expressões culturais;
    IV – propor e acompanhar estudos que permitam identificação e diagnósticos precisos da cadeia produtiva, criativa e mediadora relacionada ao setor;
    V – promover pactos setoriais que dinamizem os arranjos produtivos relacionados ao setor nos planos nacional, regional e local;
    VI – incentivar a criação de redes sociais que subsidiem a formulação, a implantação e a continuidade de políticas públicas no respectivo setor;
    VII – estimular a integração de iniciativas sócio-culturais de agentes públicos e privados de modo a otimizar a aplicação de recursos para o desenvolvimento das políticas culturais;
    VIII– estimular a cooperação entre União, Estados, Distrito Federal e Municípios para a formulação, realização, acompanhamento e avaliação de políticas públicas na área da cultura, em especial as atinentes ao setor de Arte Digital;
    IX – subsidiar o CNPC na avaliação das diretrizes e no acompanhamento do Plano Nacional de Cultura;
    X – propor parâmetros para a elaboração de editais públicos e de políticas de fomento às Arte Digital e para a criação e avaliação da execução dos diversos mecanismos de incentivo cultural;
    XI – receber as informações necessárias para a avaliação e o aprimoramento dos editais aprovados e publicados;
    XII– auxiliar o CNPC em matérias relativas às Arte Digital, respondendo às demandas do Plenário;
    XII – incentivar a promoção de atividades de pesquisa e formação;
    XIV – estimular a promoção e o apoio de ações voltadas para a mediação da área específica;
    XV – subsidiar o Plenário na elaboração de resoluções, proposições, recomendações e moções no âmbito do CNPC e do SFC;
    XVI – debater e emitir parecer sobre consulta que lhe for encaminhada pelo CNPC;

    Antes de atacar a mobilização e a conquista desta representação de Arte Digital (Por que a Cultura Digital não deu importância a constituição do CNPC e se manteve de fora à época?), tente imaginar na prática como se daria a formulação de nossas competências listadas acima.

    Por favor, sejamos mais pragmáticos.

    Abraço,
    Patricia Canetti

  4. Caro Joeser,

    Segue minha contribuição ao debate respondendo às suas perguntas do item 2.

    “Se há anos que o setorial de arte digital tenta uma representação dentro da Secretaria de Audiovisual e FUNARTE e, até hoje, é ignorada” pq continuar mendigando atenção?”

    – A ideia de que a Sociedade Civil organizada tenha que mendigar atenção já nos dá uma precisa imagem do que infelizmente ocorreu com o Conselho Nacional de Política Cultural.

    “pq não aproveitar-se uma estrutura já existente e aberta à articulação, como a Coordenadoria de Cultura Digital?”

    – Porque ela serve à Cultura Digital e não à Arte Digital.

    “porque continuar insistindo em dar murro em ponta de faca, qdo se torna possível uma apropriação, um update, um hackeamento na estrutura?”

    – Porque este é o papel da Sociedade Civil neste Sistema. Insistir para ser ouvida, buscar uma visibilidade e lutar pelos seus direitos. “Apropriação, update e hackeamento na estrutura” são práticas incompatíveis com a burocracia de Estado. Qualquer coisa que esteja fora de padrão não é visto. Qualquer coisa que ameace políticas e poderes já pré-estabelecidos não é ouvida. Vide o caso da Arte Digital.

    “e quem disse que não pode ser assim?”

    – O próprio Estado que comanda o Sistema e impõe as regras, podendo sempre fazer ouvidos moucos…

    Sinto muito, mas creio que lhe falta conhecimento desta estrutura de Estado e acho a sua conclusão no mínimo ingênua, para não dizer suicida, em relação às demandas da Sociedade Civil.

    Abraço,
    Patricia Canetti

  5. Cara Patrícia, permito-me o benefício da dúvida e da contradição quanto à suas posições acima:

    1)”Porque ela [Coordenadoria de Cultura Digital]serve à Cultura Digital e não à Arte Digital”

    – significaria dizer que as mesmas são como óleo e água (não se misturam), e ao mesmo tempo dizer que cada uma dessas nomenclaturas é um sistema fechado, estanque – o que me parece uma visão reducionista;

    2) [Apropriação, update e hackeamento na estrutura] são práticas incompatíveis com a burocracia de Estado…

    – de acordo! por isso que tem de ser realizada potencialmente pela sociedade civil!

    3)[e quem disse que não pode ser assim?] O próprio Estado que comanda o Sistema e impõe as regras, podendo sempre fazer ouvidos moucos…

    – o “podendo”, já se torna uma conceção ao devir…e isso é bom, ou seja, não significa que o Leviatã Inexpugnável o faça efetivamente…já é uma brecha;

    4)mas creio que lhe falta conhecimento desta estrutura de Estado e acho a sua conclusão no mínimo ingênua, para não dizer suicida, em relação às demandas da Sociedade Civil.

    – é possível que me falte conhecimento dessa estrutura sim, não sou detentor dele, longe de quaiser títulos acadêmicos ou empíricos, me considero um eterno aprendiz (inclusive conheci o famigerado José Murilo pela 1ª vez, nessa Setorial);

    – minha conclusão não é ingênua ou tampouco suicida – pode ser utópica – mas se eu acreditasse piamente que a estrutura do Estado é uma coisa dada, estanque, redutora e imutável então concordaria c/ vc – estaria sendo ingênuo, e, caso acreditasse nesse tipo de tese, eu seria verdadeiramente um suicida, pq diante de uma monstruosidade inexpugnável como essa, certamente me mataria.

    ___________

    No mais, tenho minhas reservas quanto às estruturas implementadas pelo ‘gov’ e sua descontinuidade ao longo desses últimos 12 anos, mas creio q devemos admitir que antes de Gil e Juca, as coisas eram bem piores. Não temos tudo o que queremos idealmente (e o que quer a sociedade civil qdo se manifesta? no mínimo ser respeitada em seu querer), mas inda temos avanços, em que pesem os passos p/ frente e outros p/ trás. Inês não é morta – Andiamo via!

    Abs
    Joesér

  6. Opa! Apenas para conectar os meus dois palitos no tema:
    “Sobre arte e cultura digital no CNPC”
    http://culturadigital.br/josemurilo/2015/11/23/sobre-arte-e-cultura-digital-no-cnpc/

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