A Cultura é causa e efeito das transformações sociais
Entre Contrabaixos Elétricos de 5 ou 6 cordas, guitarras digitais, sintetizadores cada vez mais potentes, microfones cada vez mais específicos e, samplers que ampliam as possibilidades musicais resgistradas em mídias digitais, continua sendo essencial a sensibilidade do artista.
De nada adianta uma ou duas cordas a mais para quem não consegue usar com talento as quatro cordas básicas de um contrabaixo, não adianta todas os multiefeitos se falta criatividade e bom gosto para compor e talento para executar. Pior ainda é não ter público capaz de avaliar a qualidade e absorver conteúdos diferenciados.
Se atualmente gravar e publicar não é mais a barreira maior a ser vencida, o complicado consiste em encontrar um público capaz de absorver composições mais elaboradas. Os cérebros dos nossos jovens, diante da cultura que não estimula a leitura, limitando bastante o vocabulário e capacidade de absorver informações, aliado ao interesse comercial em produzir quantidade e ampliar consumo, cria um comércio imenso para uma música descartável, usada como entretenimento, como pano de fundo para grandes festas onde se vende ingresso, comida e bebida massivamente com investimento em mídias como Rádio e TV que fabricam em conjunto sucessos instantâneos e baratos, que divertem as massas assalariadas, mal pagas e endividadas, e logo são esquecidos. Seguindo a prática do pão e circo, temos os programas assistencialistas do governo que alimentam aos famintos e corruptos que desviam recursos públicos para uso particular, infelizmente.
Nosso Brasil pacato, com 3 Poderes legitimos, forças armadas e fortes instituições paralelas como MST e Tráfico de Drogas vai seguindo adiante com suas novelas, carnavais, futebol e praias ensolaradas. Vamos sediar Copa do Mundo e Olimpiadas em meio ao caos, será que vem aí o programa DrogasZERO, ou haverá uma reforma estrutural no campo capaz de levar dignidade e segurança à zona rural, e ao mesmo tempo respeitar o direito de todos ?
A Floresta que queima na Amazônia, gera uma fumaça que não incomoda a minha respiração diretamente aqui no litoral do nordeste, mas muda o clima do Planeta e isto nos afeta a todos, e afeta a vida dos que nem nasceram ainda. Esta é a mesma lógica da Cultura.
Por incrivel que pareça, as gerações que passaram o aperto da Ditatura repressiva, onde haviam menos escolas, (porém o conteúdo era importante bem social) fez surgir em meio aos seus jovens, muitos talentos que através da arte, foram capazes de fazer a diferença, criando inovando e principalmente atingindo ao público, emocionando-o, fazendo-o pensar e agir a partir das suas composições.
Agora, em plena Democracia, onde tudo é possível, a música, o cinema e outras formas de expressão cultural perdem sua força como agente agregador e propagador de idéias e emoções. Há o interesse comercial em uma arte descartável, pois é preciso faturar, fazer volume. Criamos jovens menos estimulados pela sociedade, seja pela política educacional que favorece as estatísticas de aprovação em detrimento da formação visando nos colocar em patamar favorável nas estatísticas internacionais.
Este processo que ocorre há anos, vai mascarando a nossa incompetência em realmente estimular e educar as novas gerações, particularmente para o mundo das artes. O Ministério da Cultura, através dos Pontos de Cultura, devolve a sociedade a responsabilidade de gerir recursos e produzir meios para estimular o interesse pelo campo Cultural. É bom termos estas frentes de estímulo, mas, atinge uma parcela limitada da sociedade. Temos que mudar o Sistema Educacional, e isto envolve outras mudanças mais amplas nos governos Municipais, Estaduais e Federal.
Eu penso que hoje em dia, as músicas de Chico Buarque, por exemplo, não devem tocar nas rádios porque são elaboradas demais para a grande maioria absorver e fica mais fácil fazer rádio com músicas no estilo “bate a mãozinha… e dá três pulinhos prá cá, e desce até o chão…”. Outros músicos com trabalhos interessantes também não encontram espaços na mídia e os jovens ficam consumindo uma música repetitiva. Alguns inconformados, buscam outros caminhos e encontram na internet uma saída. Mas a internet usada livremente com certeza informa, não necessariamente irá educar. É tão importante Educar quanto Informar.
Não vejo como mudar este quadro, sem a pressão para que sejam criados programas educacionais mais amplos, que valorizem a Cultura Criativa e estimulem nos jovens, através das conquistas históricas dos nossos artistas, o interesse para conhecer a arte e assim, possam surgir talentos verdadeiramente criativos e transformadores, dentro de um novo mercado consumidor de bens culturais, mais embasado. Este processo irá tanto estimular novos talentos, como formar platéias com capacidade crítica para gerar mudanças na programação das nossas Rádios e TVs.
Vinicius Lago
19-10-2009